SINOPSE DE UM APEADEIRO ANUNCIADO – por Ana Matos

No limite da angústia, naquele umbral onde basta um sopro para o desequilíbrio e a queda no abismo da demência, encostei-me à cadeira vazia, que rangeu pelo súbito arrasto, na esplanada de um qualquer café. Os óculos escuros carbonizavam as parcas nuvens e resguardavam-me do dia, do mundo, da vida…Trazia ainda impregnada no céu-da-boca a ausência das tuas palavras – um lastro de saudade e desistência. Continuar a ler “SINOPSE DE UM APEADEIRO ANUNCIADO – por Ana Matos”

ANGOLA, NO INÍCIO DOS ANOS SETENTA – Jonuel Gonçalves

NOTAS SOBRE UNDERGROUND ANGOLANO NOS ANOS PRÉ INDEPENDÊNCIA

Benguela no começo dos anos 1970. Cidade com reputação “do contra” há muitas décadas.

Nos últimos anos, surgiram alguns livros e artigos centrados na preocupação de estabelecer a verdade histórica sobre diversos acontecimentos angolanos, tanto dos anos de guerra pela independência como dos primeiros anos pós coloniais e também focar detalhes importantes até aqui escondidos de forma deliberada ou não. Este pequeno texto procura inserir-se neste esforço e, ao usarmos a observação participante, procuramos apresentar fontes primárias importantes para os historiadores, diversificando-as e evitando os riscos de  trabalhar com fonte única. Deve ser entendido como depoimento relativo a um factor menos mencionado em relação ao período imediatamente pré-independência e não como abordagem geral desse mesmo período. Continuar a ler “ANGOLA, NO INÍCIO DOS ANOS SETENTA – Jonuel Gonçalves”

VIDA LONGA À POESIA – por Uili Bergammín Oz

Foto de Arno Rafael Minkkinen

Não sei se é impressão minha, mas creio que nunca ouvi falar tanto em poesia como nos últimos tempos. Também nunca vi publicar tanto poema como de uns anos para cá. Nos concursos literários, tanto os que tenho concorrido como os que tenho avaliado nas bancas de jurados, o gênero poesias é sempre o mais disputado, com larga vantagem sobre os demais. Todo mundo tem um pouco de poeta, já diz a sabedoria popular. Continuar a ler “VIDA LONGA À POESIA – por Uili Bergammín Oz”

EUROPA E A QUESTÃO DOS REFUGIADOS – por Diogo Pacheco de Amorim

A questão dos “refugiados” é paradigmática de um enorme acréscimo de alterações ao que inicialmente se entendia, e foi “vendido” como o que deveria ser, no essencial, a União Europeia: um espaço onde circulariam livremente bens, capitais, serviços e pessoas. Desapareciam as fronteiras físicas entre os países membros e estabelecia-se uma fronteira entre a UE e o mundo exterior. O Espaço Schengen, mais ou menos coincidente com a UE, materializava, do ponto de vista institucional, esse conceito. Concomitantemente, os países com fronteiras externas, assumiam a responsabilidade pelo controlo dessas fronteiras externas em nome dos outros Estados-Membros. A Europa eliminava as fronteiras físicas dentro de si, mas estabelecia sólidas fronteiras com o exterior. Continuar a ler “EUROPA E A QUESTÃO DOS REFUGIADOS – por Diogo Pacheco de Amorim”

O FINGIMENTO DE PESSOA – por João Esteves

Caricatura de F.P por J. Almada Negreiros

O fingimento de Pessoa «O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.» Com esta frase, começou a conversa de uma pessoa que deu entrada no serviço de urgência de psiquiatria. Não deu, na verdade. Mas podia bem ter dado. Acontece que essa pessoa imaginária vinha com esta frase no seu pensamento, totalmente descontextualizada, desconhecendo o passado do poeta que a escreveu, as suas circunstâncias sociais e psicológicas. Não é motivo para vergonha. Todo o pensador se confronta com o problema da descontextualização. É dela que emana o seu pensamento paranóide, totalmente desenfreado, pronto para satisfazer os mais profundos desejos do narcisismo. Continuar a ler “O FINGIMENTO DE PESSOA – por João Esteves”

BRINCAR À POLÍTICA NO CARNAVAL por Francisco Castelo Branco

O Carnaval é uma das mais belas tradições que enche de cor e alegria as cidades e vilas portuguesas. O nível de euforia e qualidade não atinge os desfiles no Brasil, mas a maneira nacional de celebração da data contagia todos, mesmo os que não gostam de se mascarar.

Os preparativos para os eventos do ano seguinte começam pouco depois do último cortejo, embora sem a mesma dose de exagero que se verifica após as festividades no país irmão. Isto é, vivendo intensamente uma paragem de 365 dias, que decorre entre cada Carnaval.

Carnaval em Torres Vedras

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QUANDO A MADRUGADA JÁ NÃO EXISTE: SOBRE A PÓS-VERDADE por João Esteves

Ruído incomodativo às 3h30 da manhã: um vizinho põe a música num volume acima do permitido. Por enquanto, eu sei! Nas assembleias das democracias, sobre as quais me dizem ser o lugar cada vez mais antiquado, face aos desígnios do mundo de hoje – afinal as leis provêm de maiorias que nem sempre defendem o interesse da maior parte dos cidadãos – tem-se vindo a discutir, face ao aumento do turismo, a possibilidade de se alterarem as horas a partir das quais não se pode fazer ruído excessivo. Por outras palavras, tem-se vindo a discutir a possibilidade de “não haver horas para dormir”, favorecendo a ideia do mundo globalizado: a noite é todo o dia, faz Sol todo o ano. Continuar a ler “QUANDO A MADRUGADA JÁ NÃO EXISTE: SOBRE A PÓS-VERDADE por João Esteves”

ANTERO DE QUENTAL EM VILA DO CONDE – por Cecília Barreira

Casa de Antero de Quental, em Vila do Conde, actual Centro de Estudos Anterianos. Foto obtida do site da CMVC.

«Uma classe nunca pode ser um apóstolo: é simplesmente um elemento, uma força, cujo acto é determinado pela energia inicial. O que dará a democracia? Quem poderá di-lo. É o escópulo onde até hoje têm naufragado todas as sociedades.»

         Carta a Fernando Leal, 8 de Fevereiro de 1888.

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A MIÚDA QUE NÃO RECEAVA JUÍZES – por Francisco Bruto da Costa

Tribunal de Família de Lisboa, anos noventa, discutia-se a vida e o futuro de uma criança.

Uma história triste, como tantas outras que me passaram pelas mãos naquele tribunal, mas esta tem um toque de inocência e um grande ensinamento.

Digamos que a criança em causa se chamava Mariana.

A Mariana nasceu de uma relação superficial que os pais tiveram num Verão, casaram logo a seguir, quando descobriram que a mãe da Mariana estava grávida, mas não estavam preparados para a vida de casados, nem tinham vida profissional compatível.

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Luto – por Marilene Cahon

A palavra luto vem do latim “dor, mágoa, lástima”, de luctum, “chorar (pela perda de alguém ou de algo)”. Regra geral, é «sentimento de tristeza profunda por motivo da morte de alguém ou de qualquer outra perda significativa». Pode-se tomar como conceito adequado o de que “o luto é um processo de aperceber-se, de tornar real o fato da perda”. Continuar a ler “Luto – por Marilene Cahon”