A FAMÍLIA – por Manuel Igreja Cardoso

A família é ser e estar. Pertencer e ser pertencido. Amar e ser amado. Vir de antes, dar, receber e seguir. Sem condição, entregar todo com todo o coração e mais a mente, pois é com ela que tudo se sente.  É ser um nós cá dentro e nós em cada um que é nosso e nós dele.

A família é porto de abrigo depois de se encontrar o rumo certo, quando longe dela, nos arde o desejo de estar perto. É um toque a unir agora e nos dias que estão para vir. É um sentir, um contentamento às vezes descontente, no sublime pensamento que nos distingue e nos faz ser gente.

A família é identidade e conhecimento. Una diversidade desde e durante o tempo sem idade, na soma das partes que o destino molda com todas as artes. Para o bem e para o mal cada qual por igual.

A família pode ser o oásis no deserto de areia fina soprado pelas brisas do esquecimento e do abandono. Pode ser calor no gelo derretido pelo amor. Pode ser a estrela polar que indica o sentido do caminhar.

Chamada, por entre ela sempre brilha uma luzinha no meio do breu, e um soprar que arreda as nuvens no céu para que o sol possa brilhar. Pode conter instantes de saboroso verão nos outonos da vida percorrida enredada nas malhas que ela mesma tece.

A família é um arquipélago no oceano de se gostar. São ilhas ligadas por pontes de mãos dadas que unem as margens que temos. Porque a temos e a somos, há coisas que não tememos.

Mas também porque somos, de ora em quando sofremos. Vemos, ouvimos e lemos e sabemos que no relógio as horas estão marcadas. Quando os ponteiros se quedam, amarguramos nas horas de despedida dos que nos partem levando parte de nós e semeando as memórias da vida que connosco partilharam.

A família é essência de alegria. Dentro dela, nascemos e fazemos nascer. Perpetuamos e somos perpetuados nos ancestrais elos que nos unem porque existimos. Herdamos e somos herdados. Recebemos e construímos testemunhos. Ensinamos e somos ensinados. Caímos, erguemo-nos ou somos erguidos.

Rimos e choramos. Sorrimos. Abraçamos e beijamos. Recebemos beijos e notas de desejos que logo preenchemos. Imaginamos anseios e sentimentos. Procuramos agarrar e deter alguns momentos. Quantas vezes almejamos que o tempo pare, que se fixe em certo instante, na eternidade daquele segundo que bate fundo.

Mas o viver avança e tudo segue com ele. Percorremos as veredas e passeamos nas alamedas com os nossos. Com a família que já nos é imaginando em cada flor a família acrescentada que está para vir por ora feita de imaginação e de sonhos com a dimensão do infinito.

Somos e temos família. Por isso somos humanos. É ela que nos faz e nos permite poder fazer sendo pessoas inteiras no mundo que queremos melhorar para que fique mais belo e limpo para uso daqueles a quem o devemos legar.

A família é o eixo que fixa a roda que gira assente nos valores. No veículo da viagem podemos colocar tudo. Conquistas e derrotas, alegrias e dissabores. O esplendor e o horror, mas tudo valerá a pena se nela sempre medrar a flor do amor.

♦♦♦

Manuel Igreja Cardoso, nasceu em 1960 no concelho de Armamar e reside na cidade do Peso da Régua no Alto Douro Vinhateiro.
Licenciado em História, a par da sua atividade profissional da EDP – Energia de Portugal, desenvolveu nos últimos 25 anos uma profícua atividade na escrita de contos, artigos de opinião e de crónicas que tem vindo a publicar em diversos jornais regionais.
Tem publicado um livro de contos, um com a história da Associação Humanitária dos Bombeiros do Peso da Régua, e outro com história da ACIR – Associação Comercial.

 

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