NEM SÓ OS CAVALOS SE ABATEM – EDITORIAL por Danyel Guerra

 “In Berlin, by the wall, you were five foot ten inches tall”

                                             Lou Reed

1 – Me lembro como se tivesse sido ontem. Ou hoje. Ou amanhã. Na noite novembrina em que o Berliner Mauer  começou  a ser derrubado,  a martelo e à picareta, botei a rodar no som o disco ‘Berlin’, aquele álbum conceitual que Lou Reed publicou em 1973. Uma “trágica ópera rock”, que a crítica especializada acolheu com um olhar de soslaio. Continuar a ler “NEM SÓ OS CAVALOS SE ABATEM – EDITORIAL por Danyel Guerra”

ATHENA RECOMENDA: MONTSE WATKINS: Contos de Kamakura (teaser)

Spanish/Japanese) © 2019 innerLENS Productions © 2019 Elena Gallego Andrada.
Producer: Chelo Alvarez-Stehle 
Executive Producer: Elena Gallego Andrada
Director: Chelo Alvarez-Stehle
 Editor: Laura Sola Director of Photography: Jiro Kumakura
A Revista Athena tem o prazer de divulgar este magnifico projeto, que recupera a figura e obra de Montse Watkins, que através do seu trabalho e esforço incansável conseguiu, há 20 anos,  muitos direitos para os Nikei, no Japão, nomeadamente a melhoria das suas condições laborais e de vida,  tendo sido também pioneira na tradução directa da literatura do japonês para o espanhol.
Para mais informações sobre este projeto:

Montse Watkins www.montsewatkins.net

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PREFÁCIO PARA “GERMANA, A BEGÓNIA” – por Carlos Clara Gomes

Foto de Ivo Costa/Teatro Perro

[A estreia deste espectáculo com texto de Ricardo Fonseca Mota e encenação e representação de Gi da Conceição aconteceu algumas horas antes da vaga de incêndios que assolou o país em Outubro 2017. Em 2019 é lançado pelas Edições Esgotadas – Viseu o livro contendo o texto teatral cujo prefácio se transcreve a seguir] Continuar a ler “PREFÁCIO PARA “GERMANA, A BEGÓNIA” – por Carlos Clara Gomes”

DA DRAMATOLOGIA- PARTE I – por Castro Guedes

Comecemos por desfazer o carácter equívoco da palavra dramaturgia, usada em Portugal indistintamente entre o significado próprio (a escrita do texto teatral) e a dramatologia, expressão brasileira bem mais adequada ao estudo da lógica do texto, da análise dramatúrgica, que, muitas vezes, aparece, entre nós, como dramaturgia, à mesma. Perpendicularmente outro equívoco resulta da forma de encarar o texto teatral como literatura dramática, que, como a palavra indica, se contém como um género dentro da literatura. Coisa diferente do que é um texto para cena, a que o carácter literário se acrescenta como uma segunda qualidade, sendo a primeira a da sua funcionalidade para cena. Porque um texto para cena é, por exemplo, um texto de Shakespeare, por mais poético e literariamente valioso que seja; e é. Continuar a ler “DA DRAMATOLOGIA- PARTE I – por Castro Guedes”

MULHERES NAS RUAS DO PORTO- X- por César Santos Silva

Belém ( Rua )
Início – Contumil    Rua de)
Fim –   Nau Vitória ( Rua da )
Designação desde –  1948
Freguesia de:  Campanhã

No Bairro de Costa Cabral várias ruas, quase todas, são uma homenagem a freguesias de Lisboa.

Uma delas é consagrada a Nossa Senhora de Belém.

Belém é uma das freguesias da zona oriental de Lisboa e uma das mais bonitas, tendo en conta o enquadramento não só paisagístico, como arquitectónico. Continuar a ler “MULHERES NAS RUAS DO PORTO- X- por César Santos Silva”

TORPOR – por Claudio B. Carlos

Eu não queria ouvir o que ela tinha para falar. Como num transe, eu apenas via o mexer dos lábios murchos da velha, sua dentadura frouxa, e o bailar de sua língua saburrosa. Tudo sem som. Eu não escutava nadica de nada. O buço da velha lhe sombreava o lábio, e se misturava com os pelos que lhe saíam pelas ventas. Vez em quando algum perdigoto da bruaca me atingia o rosto. Continuar a ler “TORPOR – por Claudio B. Carlos”

TRÊS POEMAS de Daniel Maya-Pinto Rodrigues

A PARTE POSITIVA DA TONTURA

Quando seguir pela estrada fora, com
livros de viagens juvenis nas mãos,
poderei entender melhor a luz das manhãs na estrada,
as árvores da distância nessa luz clara.
Poderei aproximar-me de ti, fora do tempo,
num trilho paralelo ao tempo,
num atalho que o próprio tempo
tenha reservado para nós.
A nossa roupa cintilará ao sol
enquanto andarmos, enquanto prosseguirmos andando
na distância visual perfeita. És
uma mulher que pouco conheço,
e isso é-me do agrado, enquanto caminho contigo.
O nosso diálogo contém as palavras ideais;
nada nos falta nessa distância. Prosseguiremos
livres, despreocupados
e, ao que tudo indica, felizes.

Continuar a ler “TRÊS POEMAS de Daniel Maya-Pinto Rodrigues”

O BERLIN TRABANTÁXI – por Danyel Guerra

Semelhante ao rio que, constrangido pelas margens, anseia pela chegada à foz, um viajante busca, frenético, um táxi, à saída do aeroporto de Berlin Ocidental. O que ele não adivinharia  é que tão volumosa corrente de ansiedade  iria deparar com um dique inesperado, uma barragem imprevista. Continuar a ler “O BERLIN TRABANTÁXI – por Danyel Guerra”

A POESIA de Delalves Costa

O Relógio

Me apunhalaram. Uma carne fria
com estímulos eletrônicos,
assim deixaram minha alma.
Me arrancaram o susto de vida
e deram corpo ao previsto.
A alma que soprava arrepios
agora é piano sem lírica
e palpável às mãos do mundo.
Carne de metal: não chora,
não contempla. Só vê.
Frio é o afago, como é
também o nosso tempo
– esse homem de muitas portas
e chaves humanas,
e contudo vazio de mistério.
Arrancaram da caixa mágica
a lírica, a música e o susto.
O sangue já não é quente…
O corpo já não me escuta…
Me apunhalaram ainda n’alma
e me jogaram à carne fria
que não chora nem contempla.
Me arrancaram o susto
e no lugar puseram o relógio.

Continuar a ler “A POESIA de Delalves Costa”

ZEDES – por Diniz Cortes

Foto de Dinz Cortes – Antelas

Zedes, 5.000 b.p.

O Rapaz observava de longe os preparativos para o cerimonial. Estava ainda ofegante pelo caminho percorrido, ligeiro e a corta-mato desde o povoado, distante algumas centenas de metros daquele lugar.

O rebanho acordava de uma noite fresca e orvalhada e ouvia-se aqui e ali o balido de um cordeiro ao qual a mãe-ovelha nem sempre respondia… Continuar a ler “ZEDES – por Diniz Cortes”

OUTRAS DIMENSÕES – por Duarte Klut

 

Desde pequeno sonhara ser engenheiro,  projectar/realizar  impossíveis…

Entre muitos intuitos germinou-se-lhe no cérebro uma ideia espectacular:

erigir uma escada que subia…descendo!

Sim.

Era original.

Mas muitos mais esquiços enxameavam-lhe o pensamento.

Tal como Da Vinci, iria levar a cabo as mais impensadas construções.

Como principal ferramenta tinha a impressora 3D que lhe permitia visionar globalmente o todo de tudo…

Mas de repente foi aflorado por uma dúvida terrível:

E se o tudo fosse o nada?

Que iria ele erigir?

Entre o tudo e o nada algo teria de existir, para que ambos pudessem ser definidos como tal.

Durante anos pensou,

pensou e:

nada!

Todavia era  bastante resiliente. Continuar a ler “OUTRAS DIMENSÕES – por Duarte Klut”

PORTUGAL É UM NEROLOGISMO (…) – por Fátima Vale

PORTUGAL É UM NEROLOGISMO E O FOGO O BORDEL DE MESSALINA

em memória de Ruth Escobar que se foi esquecida

Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga. (…) Vivo, porque espero.”

– O Pobre Tolo, Teixeira de Pascoaes | 192

[esta mulher está
dentro de uma ruína com forma labiríntica
todo o alcance do olhar é um manifesto de terra queimada
as pernas vão-lhe enegrecendo até ver a filha
nesse momento desfazem-se]
marulha-me a cabeça
uma seita de fantasmas penteia-me os cabelos
e o pior ainda o pior
são estes malditos fios que me levam
a abraçar tudo quanto existe
e emaranham-se na ignorância e na raiva
na perfídia do quotidiano
dai-me uma faca que os corte

aos fantasmas
secai-me as veias destes raios invasores
eu caí neste condomínio de braços descartados
num voo trocado
nas asas de um pássaro de prata
espírito santo do meu azar
livrem-me desta cabeça
deste nerologismo lusitano
desta metáfora política
desta simulação da co-existência
deste totalitarismo da fala
ala ala ala Continuar a ler “PORTUGAL É UM NEROLOGISMO (…) – por Fátima Vale”

UM CONTO de Federico Rivero Scarani

LA VERDADERA HISTORIA DE JAMES COOK Y DEL POLEN DE VENUS, por George Vancouver (1757-1798, compañero de Cook)

I

   Contaré una historia que no está registrada en la Enciclopedia Británica: hacia finales del siglo XVIII de Nuestro Señor Jesucristo, Australia había sido visitada por los ingleses; el continente inspiró a Swift para sus viajes de Gulliver donde Liliput aparece como una landa diminuta después del naufragio. Gracias a la cartografía realizada por el navegante portugués Vasco Da Gama, los británicos pudieron adentrarse en los remotos mares aun desconocidos. Continuar a ler “UM CONTO de Federico Rivero Scarani”

RENDIMENTO BÁSICO INCONDICIONAL (RBI) – por Fernando Martinho Guimarães

Óleo sobre Tela. “Mendigos junto ao mar” de Pablo Picasso, 1903.

Apesar dos muitos problemas e falhanços sociais, políticos e económicos que vemos por este mundo fora, é inegável o progresso nas condições de acesso a uma vida melhor de muitos dos nossos semelhantes.

Estes avanços são particularmente visíveis nos domínios da saúde, da educação, na melhoria dos rendimentos e, por via disso, nos ganhos ao nível da igualdade de oportunidades e da capacidade de escolha, da liberdade.

Contudo, esta evidência não nos autoriza a acomodarmo-nos num optimismo ideológico que, por definição, esconde que muitos desses problemas sociais e económicos persistem e, em muitos aspectos, tendem a agravar-se.

Desde logo, a natureza do trabalho que o futuro promete. A inteligência artificial e a robotização trarão, trazem já, mudanças profundas no acesso ao trabalho e, com isso, ao rendimento disponível.

A exclusão social e a pobreza, realidades de hoje e ameaças quase certas de amanhã, obrigam-nos a reflectir sobre instrumentos possíveis para as minimizar ou, desejavelmente, as anular.

Ora, um dos instrumentos que tem vindo a ser cada vez mais debatido é a ideia de um rendimento básico universal e incondicionado.

A ideia é simples: a sociedade, o Estado, transfere directamente para cada indivíduo uma determinada quantia em dinheiro e esta transferência é universal e incondicionada. Empregado ou desempregado, rico ou pobre, todos receberiam mensalmente e sem condições esse rendimento básico.

É preciso dizer que esta ideia tem sido já experimentada em programas-piloto com sucesso desigual.

A Finlândia fez a experiência, só para desempregados, tendo abandonado o programa. A Escócia pondera levar à prática a ideia e a Suíça chegou mesmo a referendar o projecto do RBI que foi rejeitado por não estar especificado de onde vinha o dinheiro e qual o valor a ser distribuído.

Como em quase tudo que tem a ver com as questões sociais e políticas, encontramos argumentos a favor e argumentos contra.

Todos conhecemos a sentença segundo a qual não se deve dar peixe a quem dele precisa, mas sim ensinar a pescar. O que a sentença não diz é que para pescar é preciso cana, fio, anzol e isco. E muitos de nós não temos nada disso!

O rendimento mínimo garantido ou rendimento de inserção social deveriam ser a cana, o fio, o anzol e o isco, mas não são. Os sucessivos e intermináveis programas de combate à pobreza e exclusão social também não parece que o sejam.

A transferência directa e incondicionada dum rendimento mensal permitiria eliminar muitas das entidades intermediárias que levam as prestações sociais às pessoas. Para além de eficaz, afastaria o estigma social que está sempre associado a um sistema providencialista e mesmo assistencialista.

É que a pobreza custa muito dinheiro, nos custos da saúde, no insucesso escolar, nas taxas de criminalidade. O RBI, dizem os seus defensores, permitiria, se não eliminar, pelo menos reduzir drasticamente as consequências negativas associadas à pobreza.

Por outro lado, os críticos apontam objecções de natureza ética e política.

O RBI é imoral porque promove modos de vida baseados no ócio e na preguiça e, ainda, porque não incentiva à procura de trabalho. É possível que assim seja, mas não é certo que seja assim!

A objecção de natureza política é mais forte: se não é obrigatório trabalhar, então isso é injusto, uma vez que para que uns possam viver na ociosidade, outros têm de trabalhar.

Talvez haja aqui alguma injustiça, mas um sistema justo é aquele que maximiza a igualdade de oportunidades e a liberdade. E a sociedade que temos hoje é, indiscutivelmente, profundamente injusta!

Ponta Delgada, Fernando Martinho Guimarães

♦♦♦

Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófi­ca e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Com colaboração dispersa, no Letras & Letras (Porto), revista Vértice e Parnasur (Revista literária galaico-portuguesa), no Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores, passando pelo jornal Horizonte (Cidade da Praia, Cabo Verde), tem dedicado a sua actividade ensaística à poesia portuguesa e galega. De entre os portugue­ses é de destacar a poesia de António Ramos Rosa que foi tema da tese de Mestrado em Literatura e Cultura Portuguesa Contemporânea. Da poesia galega, a sua ensaística tem incidi­do sobre a poesia de Luisa Villalta (I Jornadas de Letras Gale­gas de Lisboa, 1998) e a de Manuel António (Colóquio Escritas do Rio Atlântico, Funchal, 2001).

Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, cas­telhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.

O TERRAPLANISTA – por Francisco Fuchs

Até aquele dia, Emanuel jamais questionara o que seu professor lhe ensinava. Ao contrário de alguns de seus colegas, que com o passar dos anos aprenderam a temperar as lições recebidas em sala de aula com um grão de sal, ele sempre se deu por satisfeito com todas as explicações. Emanuel era inteligente o bastante para saber que sua inteligência não era privilegiada e, por isso mesmo, esforçava-se o quanto podia para assimilar o conteúdo das aulas. Ele não enxergava a si mesmo, no entanto, como um conformista; apenas não via razão para questionar verdades há muito estabelecidas. Se o verdadeiro não se torna falso, nem o falso se torna verdadeiro, por que perder tempo com vãs especulações? Assim, se era por aderir à verdade que o chamavam, por vezes, de conformista, e se a zombaria de que era alvo soava aos seus ouvidos como um elogio ao invés de uma ofensa, o que mais poderia fazer senão conformar-se? Continuar a ler “O TERRAPLANISTA – por Francisco Fuchs”

BESTIÁRIO DA SOMBRA E OUTROS POEMAS de Jaime Vaz Brasil

Bestiário da Sombra

A morte é um lobo à espreita:
imóvel, mudo e pulsante.
(No olho, o gelo põe cores
de quem domina, distante.)

A morte é serpente rasa
e nos vive – de pequenos –
destilando em nossas veias
o seu mais lento veneno.

A morte é um urso hibernante
que dorme, imóvel e quieto.
(Mas quando acorda, nos chama
para o seu sono secreto.)

A morte é um tigre faminto
na farta mesa das horas:
num salto breve, a surpresa
que nos alcança e abraça.

A morte é um rato inquieto
em seus caminhos esquivos.
(Finge que foge assustado,
mas rói o porão dos vivos.)

A morte é águia à espreita
em seu voo mais rasante.
(Com suas as garras, nos prende
e nos some, num instante.)
Ou morte é pássaro leve
ave branca, de outra escola
que nos flutua em silêncio
enquanto abre a gaiola…

♣♣♣

O Adeus

O adeus nasce do instante
entre a palavra e o passo.
(Mas cresce vazio de colo:
estreito, e com todo espaço.)

E nos ensaia seus gestos
seus rituais, suas danças.
É tão esquivo de corpo
que mão nenhuma o alcança.

O adeus nos alimenta
entre a memória e o fato.
(Mas come além do que é boca:
é a fome longe do prato.)

E vive assim, desde cedo
na pele de toda gente.
Chega descalço ou de gala,
e nos faz ave ou semente.

O adeus planta uma sombra
no que seria ou que foi.
(Por que o olho da saudade
só abre um tempo depois.)

Ele é como se, na escada,
a perna fosse o tropeço.
Por isso, prende e liberta
e é sempre fim e começo.

♣♣♣

Coração de Milonga

Enquanto o tempo desenhava
teu rosto dentro do meu corpo,
saudade em dó menor cantei mil vezes.

Falei de nós, um tanto triste
e um bandoneón chorou comigo:
amor, quando é amor, não morre nunca.
(E pra fugir de cada sombra
da solidão, que erguia os olhos,
me disfarçei na dor de um sustenido).

Amor, quem sabe um dia desses
no espelho da milonga eu veja
teu beijo renascido num segundo.

Por ti, amor, cantei o mundo
em noites longas que aprendia
a amar em sol maior
e tempestades…

Amar nas ruas, bares, campos
amar em solos de guitarra.
Amar com toda voz
e em silêncio.

Amar como só poderia
meu coração de milonga.

Quem sabe ler paixões humanas
na vida, sempre tão estranha,
se o amor as vezes fecha toda casa?
Andei por mares, vales, luas
andei em pedras, muros, portos,
amor, varei coxilhas do avesso.
(E andei no rastro do teu nome
no meu cavalo de brinquedo
colhendo a flor azul que me pedias).

Amor, quem sabe um dia desses
na alma da milonga eu veja
a face calma e breve das respostas…

Por ti amor cantei o mundo
em longas noites que aprendia
a amar em sol maior
e tempestades…

Amar nas ruas bares campos
amar em solos de guitarra.
Amar com toda a voz
e em silêncio.

Amar como só poderia
meu coração de milonga.

O NARRADOR NUM DOURADO DOMINGO DE OUTONO – por Luis Bento

A vida transformara-se numa obsessão entre paixões e dor a correr no sangue, rio de cicatrizes com a felicidade a desvanecer-se de noite, no lento ronronar do frigorífico estafado pelos vinte anos de uso permanente, a lâmpada interior a tremelicar por mau contacto, a que era preciso dar umas cacetadas, com bolor entranhado nos cantos e meia cebola cortada, colocada no compartimento dos ovos para absorver os maus odores. Tirava uma ou duas fatias de presunto da embalagem de plástico e comia como um bruto, um metro e oitenta de vontade, um monólito que gostaria de criar um narrador para a sua vida. Sempre achara piada aos narradores que sabiam tudo o que ia dentro da cabeça das personagens desamparadas numa espécie de redenção, das alegrias à infelicidade com hipocrisia e compaixão à mistura, alguém que falasse por si, desenvolvesse os episódios e as cenas e lhe desse alguma unidade interna.

Os dias, embora se sucedessem, não eram todos iguais, tinham feitios, eram de humores. Uma manhã de segunda, em Agosto, não era o mesmo que uma segunda de manhã no Natal. Imaginava, por isso, quando fosse mais velho, fazer finca-pé nos dias e estendê-los, uma vez que entendia que a humanidade não era mais que tempo e linguagem, com alguma memória à mistura e depois morria-se e deixava-se cá a merda toda para limpar, sem ninguém encarregue pela mudança, com a culpa a morrer solteira, não necessariamente virgem.

Em tempos, mantivera uma relação já com muitas dúvidas e tentativas, um ensaio de laboratório, que não resistiu ao tempo por parte dela e a uma universitária de piercing no umbigo por parte dele, que, por sua vez, também não resistira à sua falta de cultura e ao facto de ela não saber fazer molho béchamel, condenada à partida, a uns metros de escrita e vontades do narrador, quando num dourado domingo de outono, enquanto na cidade as pessoas viviam, sem história, no Centro Comercial, ele despejou um par de boxers, o computador portátil e uns livros para dentro de uma caixa de cartão que enfiou dentro do carro e se fez à estrada, para onde o tempo fosse manso e pudesse começar tudo de novo. Morreu, pouco tempo depois, numa curva feita a direito, com um sorriso que ninguém notou. Só comentaram que havia pouca gente no funeral.

♦♦♦

Luis Bento. Nascido em 64, foi professor, empregado bancário e procura novos desafios profissionais enquanto gere o blog bento-vai-pra-dentro-bento, onde publica textos de prosa ligados à crítica de costumes, reflectindo sobre a sociedade portuguesa contemporânea. Mantém colaboração dispersa em revistas foi finalista publicado no Prémio Novos Talentos FNAC da literatura 2012, Poesia da Vila de Fânzeres 2015 e Prémio de Literatura Lions Club 2017. Frequenta o mestrado de Comunicação e Artes na FCSH da Nova.

LA POESIA EN EL CANTAR DE LOS CANTARES – por Moisés Cárdenas

 

La poesía es arte milenario, misterio, espíritu sensible, llamarada inmortal. La poesía está en el universo. En los planetas alrededor del sol, en los millares de estrellas, en los símbolos escritos en las cuevas, en los jeroglíficos de las pirámides, en los antiguos pergaminos, en los rollos del Mar Muerto, en la puesta del sol, en un eclipse lunar, en el beso de la amada.

Desde tiempos antiguos los hombres han hablado en poesía. Sabios, profetas, filósofos, pensadores encontraron en la poesía el elemento de reverencia y respeto para la unión con el cosmos. Para muchos la poesía es un arte superior invulnerable, que no teme a los asaltos del tiempo o de las intolerancias. La poesía ha existido desde el Génesis hasta las Revelaciones. Porque ella es un ritual que fecunda la imagen. Basta darle vida al papel y convertir al poeta en creador y al papel el lugar en donde concretar sus pulsiones más secretas, sus sueños más íntimos y sus aspiraciones más comunes para desdoblarse en los rincones de la galaxia. Poetas antiguos como Shakîr Wa’el, de Persia, Teodognis de Alejandría, Omar Khayyam de Persia, y poetas de la talla de  Fray Luis de León, Lope de Vega, Luis de Góngora, Francisco de Quevedo, San Juan de la Cruz y el poeta Nazim Hikmet de Turquía encontraron en la poesía el Urim y Tumim, para discernir la «voluntad divina», oculta en los sueños que se revelan durante las horas de los tigres.

Los poetas, traen luces y perfecciones en sus versos, invitando a todos a sentir la palabra. Como dijo el poeta persa Rumi: «ven a escuchar mis poemas, toma el lugar de mi alma». (Citado en http://barrirezlink.wordpress.com/2008/03/ consultado el 16 de septiembre del 2014.

Los poetas despliegan los pergaminos para plasmar sus sentimientos como andanzas sublimes en los caminos por dónde va la vida misma; recogiendo en su andar el amor como principal elemento de la creación. El amor como expresión de la sonrisa, alegría y fuerza cósmica en el «Ser», este sentimiento quema en los tuétanos de los poetas, escribiéndolo en la arena, en los ladrillos de los templos y en las páginas de antiguos libros.

Uno de estos poetas, fue el rey Salomón o Shelomo, quien escribió en Jerusalén o Yerushalaim, alrededor del año 1020 antes de Cristo el libro del Cantar de los cantares. Este libro poético de las Escrituras Hebreas canta el amor inquebrantable de una muchacha sulamita por un pastor, y el intento vano del rey Salomón de ganarse el amor de esta campesina de Sunem o Sulem. Las palabras de apertura del texto hebreo llaman a este poema, «La canción superlativa, que es de Salomón». (Santas Escrituras, 1987, p. 874).

El Cantar de los Cantares, es decir, la canción más hermosa, la canción por excelencia. Este bello libro que ha perdurado por siglos, y forma parte de La Biblia, es un libro poético, el más hermoso de los cantos o el poema más sublime. El lector al abrir el libro encontrará una exquisita poesía. El elevado manejo del lenguaje de su mismo escritor, de Salomón, lo hace conocedor de versos ricos en imágenes y sensaciones.

El libro el Cantar de los cantares no es una colección de canciones, sino una sola canción, es un poema distribuido en estrofas, en las que, alternativamente, dos enamorados expresan sus sentimientos en un lenguaje erótico, apasionado, literario. Todo este libro es un bello poema cargado de energías. El cantar de los cantares, es el poema del amor.

Cuando escudriñamos el libro, notamos que el eros será la fuerza principal de sus páginas, donde el poeta expresa en capitulo 8: 7, «las muchas aguas mismas no pueden extinguir el amor, ni pueden los ríos mismos arrollarlos». (Santas  Escrituras, 1987, p. 878).

La pasión funciona excelentemente en la creación del poeta y permite fluir como gacela sobre el viento. Leyendo el Cantar de los cantares el lector viaja hacia la época en que se hablaba en poesía, donde las parejas se amaban fuertemente y donde los que cortejaban lo hacía poéticamente.

En estos tiempos de insensibilidad al amor, en especial de violencia entre la humanidad, donde los hombres y mujeres quiebran la vida mediante la muerte despiadada de unos sobre otros, donde se carece de amor puro porque el amor va más allá de lo sexual, el amor de atracción, el amor también es amor al otro, amor al prójimo como dijo Jesucristo: «ama a tu prójimo como a ti mismo”, ese amor que es la mayor fuerza cósmica que tiñe la galaxia»

El cantar de los cantares, es el habla de los enamorados que se cubre con la lírica y expresa la angustia por la ausencia del ser amado, la felicidad del encuentro, el anhelo de la entrega. Como parte del vívido lenguaje figurado del libro, aparecen repetidas veces los nombres de plantas, animales, piedras preciosas y metales. Se evoca la esencia del Creador, la tierra de los israelitas. La llanura costera, las llanuras bajas, las cordilleras del Líbano, el Hermón, el Antilíbano y el Carmelo, las viñas de En-guedí, y los estanques de Hesbón, junto a la puerta de Bat-rabim. En el recorrido del poema, el amor expresado en versos ensalza en  palabras a la mujer como criatura sublime. Salomón al referirse a la amada lo dice en el capítulo 7:9: «y tu paladar como el mejor vino que va bajando con suavidad para mi amada, que fluye dulcemente sobre los labios de los durmientes». (Santas Escrituras, 1987, p. 878).

Para él, puede haber sesenta reinas, y ochenta concubinas, y doncellas sin número. Pero una sola hay, su paloma, la amada. Incluso llega a preguntarse:

«¿Quién es esta mujer que está mirando hacia abajo como el alba, hermosa como la luna llena, pura como el sol relumbrante, imponente como compañías reunidas en torno de pendones? ». (Santas Escrituras, 1987, p. 877).

Las expresiones de cariño del Cantar de los cantares pueden parecerle muy extrañas al lector occidental, pero debería recordarse que el contexto de este cántico es el Oriente de hace unos tres mil años. El tiempo, en que el amor fluía en las venas de los antiguos poetas como un manantial en sus labios. Por eso Salomón cuando compone el poema, refleja el deseo expresado en las letras, eleva a la mujer, esencia de cariño y hermosura, mujer llena de composición erótica. Salomón lo dice en el cantar 4: 1-3:

« […] tu caballera es como hato de cabras que han bajado saltando de la región montañosa de Galaad, […] tus labios son justamente como hilo escarlata,[…] tus dos pechos son como dos crías, gemelos de gacela, que están apacentándose entre los lirios». (Santas Escrituras, 1987, p. 875).

El rey sabe de la belleza de la sulamita y el amor que ella siente por su pastor, por su amado, pero, preso de los encantos de la mujer, hace de ella un poema universal dejándolo para nosotros con más de tres mil años de creación. Podemos leer lo que el rey le dijo a la sulamita en el cantar 1:11, «adornos circulares de oro haremos para ti, junto con tachones de plata».  (Santas Escrituras, 1987, p. 874).

Salomón levanta su copa de oro y expresa versos a la dama que llega a él como nardo en su fragancia. Insiste en seducirla por medio de sus versos, pero la sulamita expresa su anhelo al pastor, quien es su amor, es la primavera, es «deslumbrante y colorado, el más conspicuo de diez mil». (Santas Escrituras, 1987, p. 875).

La sulamita ve en su amado, pura dulzura deseable como se describe en el cantar 5:14, porque «su abdomen es una lámina de marfil cubierta de zafiros». (Santas Escrituras, 1987, p. 877).

Cabe mencionar los recursos de comparación que sobresalen en el Cantar de los cantares, en sus 117 versículos donde se descubren expresiones poéticas de gran valor literario. Por ejemplo las expresiones de cariño del pastor se comparan con el vino, y su nombre, con el aceite. ¿Qué significado tiene esto? Tal como el vino alegra el corazón del hombre y el aceite derramado sobre la cabeza tiene un efecto tranquilizador, recordar el amor y el nombre del pastor fortalecía y consolaba a la sulamita.

También hallamos que la joven campesina de tez morena se compara a las tiendas de Quedar. ¿Por qué se compara de esta manera? Porque el pelaje de las cabras, una vez tejido, tenía muchos usos por ejemplo, en el libro de Éxodo se dice que la tienda que iba sobre el tabernáculo estaba hecha a base de telas de pelo de cabra. Y al igual que las tiendas de los beduinos actuales, es posible que las tiendas de Quedar estuvieran hechas de pelo negro de cabra.

Una imagen comparativa de pleno vuelo poético en este libro es cuando el pastor expresa las siguientes palabras en el cantar 1:15, «tus ojos son de palomas». (Santas Escrituras, 1987, p. 874). Esto quiere decir que los ojos de su compañera se ven dulces y tiernos como los de las palomas. Hallamos en todo el libro expresiones elegantes y de altura. Unas de esas expresiones es cuando se hace jurar a las damas de la corte, en cantar 2:5, «por las gacelas o por las ciervas del campo». (Santas Escrituras, 1987, p. 874).

Esto representa que las gacelas y las ciervas se caracterizan por su gracia y belleza. Así pues, la joven sulamita les está pidiendo a las damas de la corte que le juren por todo lo que es bello y grácil que no intentarán despertar el amor en ella hacia el rey.

El Cantar de los cantares, como un poema erótico, no cae en lo obsceno y profano, está escrito de la forma más hermosa de los poemas antiguos. Salomón puede ubicarse entre los grandes poetas antiguos, pues crea en este libro de hace miles de años, las metáforas más universales de la historia. Metáforas como «tus labios siguen goteando miel del panal». (Can 4:11) y «tus dos pechos son como dos crías, gemelos de gacela, que están apacentándose entre los lirios». (Can 4:5) se une con «tus ojos son de palomas detrás de tu velo». (Can 4:1). “ Tus labios son justamente como un hilo escarlata». (Can 4:3).

«Hasta que respire el día y hayan huido las sombras».  ( Can 4:6). Son una muestra de la sensibilidad de Salomón, que hacen de este libro poético el camino de la proclamación del amor que canta el poeta magníficamente, ilustrando el amor entre un hombre y una mujer, como la fuerza más inquebrantable, tan fuerte como la muerte.

La poesía milenaria del Cantar de los cantares, ilustra la belleza del amor que persevera y es constante. El amor puro, el deleite y anhelo del uno para el otro. El amor ágape y fileo, amor apasionado, y el eros. En estos versos, se elevan a los crepúsculos los distintos niveles del amor, que inician desde el deseo, como lo expresa Sócrates en su definición del amor: «el Eros es un deseo».  (Platón, 2008, p. 21).

El poeta Salomón, recorre el amor con el resplandor del entendimiento. No obstante desde una mirada teológica hay quienes consideran a este poema como un símbolo espiritual que representa el amor que existe entre Dios y su pueblo,  el amor entre Cristo y su iglesia, entre Cristo Jesús y su novia, que en las escrituras la «novia de  Cristo», es la congregación, asamblea o iglesia, pues esta última palabra no es un edificio o una construcción física, sino el pueblo que ama a Cristo.  Ya que las personas que aman a Cristo, demuestra el amor a «la llama de Jah», demostrar amor a Dios, es depositar en él la energía en toda su magnificencia. Porque Jehová o Yahvé o Yhawh o Jhvh en el tetragrámaton hebreo antiguo יהוה quien es nuestro Señor, Adonay o Dios, tiene para nosotros un amor que es como una llama que nunca se apaga.

En el poema Cantar de los cantares, Salomón va concluyendo diciendo en el poema que el amar es demostrar fuego, como lo expresa en el cantar 8:6 «las llamaradas de un fuego, la llama de Jah». (Santas Escrituras, 1987, p. 878). El poeta utiliza «Jah» como diminutivo de Jehová o Yahvé, y sin duda expresa su amor hacía él. Este poema que está lleno del más poderoso misticismo, debe llevarnos a creer más en el amor, y saber qué es el amor, la fuerza que necesita nuestras almas porque él cubre el todo. Ese amor que señaló Miguel de Unamuno: «Dios es, pues, la personalización del Todo, es la Conciencia eterna e infinita del Universo». (Unamuno, 2008, p. 127).

Que el amor, sea la poesía energética para atraer nuestros sueños como aliados en la creación de una nueva humanidad.

Referencias bibliográficas:

 

Platón. (2008) Fedro. Madrid. Editorial Gredos.

Traducción del Nuevo Mundo de las Santas Escrituras. (1987). Brooklyn. Watch Tower Bible And Tract Society.

Unamuno, Miguel. (2008). Del sentimiento trágico de la vida. Buenos Aires. Editorial losada.

(Por razones de la diáspora  venezolana, actualmente radicado en Córdoba, Argentina)

Moisés Cárdenas, nació en San Cristóbal, Estado Táchira, Venezuela, el 27 de julio de 1981. Poeta, escritor, profesor y licenciado en Educación Mención Castellano y Literatura.  Egresado de la ULA-Táchira. Ha publicado en antologías de Venezuela, Argentina, España, Italia y Estados Unidos. 

Ganador con el poema “Cosas Extrañas” en el Premio internazionale di poesía, sesta edizione. “Dialoghi con l’ombra”. Venecia, Italia, 2019.  Primer Premio del 1°Certamen Internacional de poesía a las Mascotas con el poema “El balcón Ladró”, Quequen, Buenos Aires, Argentina, septiembre del 2019. Finalista de la décima edición del Concurso Internacional de Poesía el Mundo Lleva Alas, Editorial Voces de Hoy, Miami, Florida, Estados Unidos de América, 2018. Finalista en el IV concurso de narrativa para autores noveles Manuel Díaz Vargas 2016-2017 de Ediciones Alfar, España. Primer premio, en el 15  Certamen Internacional de Cuento, Ediciones Mis Escritos,  con la obra “Puede ocurrir”, Buenos Aires, Argentina, 2016. 

“ANUNCIAÇÃO CAVALCANTI”, DE DONATELLO – por Rosa Sampaio Torres

Introdução

Recentemente tive oportunidade de ultimar artigo referente às capelas da antiga família Cavalcanti em Florença.

Nesta ocasião inventariei  importantes peças artísticas encomendadas por esta importante familia florentina. Entre essas peças de arte sobressaíram na ocasião três delas, magníficas – obras que considero historicamente significativas, merecedoras de trabalho detalhado para um publico ampliado – até mesmo visitação especial quando em viagem à Florença. Nesse presente artigo apresento uma delas.

A “Anunciação Cavalcanti” de  Donatello  e o tríptico que a acompanhou*

Para a rica Capela dos Cavalcanti na Igreja Santa Maria Novella em Florença no ano de 1435 foi encomendada por Nicolò Giovanni Cavalcanti um belíssimo auto-relevo em pedra ao então já conhecido escultor  Donatello (1386-1466).

O tema da obra, “A Anunciação”, observamos era já muito caro aos florentinos, e no passado possivelmente também aos francos – pois Santa Clotilde esposa do rei franco  Clovis teria tido no ano de 496 um sonho ou visão premonitória durante uma batalha travada por seu marido, e na ocasião teria recebido lírios de anjos, segundo relata  sua  halografia –  episódio muito semelhante à própria Anunciação de Maria (1).

Nicolò Giovanni Cavalcanti o autor desta encomenda da “Anunciação” a Donatello para a capela Cavalcanti fora   casado com Contanza Peruggi –  moça proveniente de família muito antiga e requintada, de origem etrusca.

O pai de Nicolò, Giovanni di Amerigo Cavalcanti – mais tarde famoso escritor, historiador e genealogista da família (1381-c. 1451) – na época passara, entretanto, por grandes dificuldades econômicas, tendo sido preso por dívidas (2).

Nicolo teve uma irmã, Genevra Cavalcanti, jovem que pelas dificuldades da família fora  muito oportunamente casada em 1416 com o poderoso Lorenzo de Médici, o Velho (3); e um  irmão, Amerigo Cavalcanti, que sabemos já  escolhido dos “Signori” em Florença no ano de  1451 (4).

Esta antiga capela Cavalcanti na Igreja Santa Maria Novella em Florença, para onde a Anunciação de Donatello fora encomendada, no século seguinte será entretanto destruída por ocasião de reforma da Igreja proposta pelos banqueiros Médici –  família prepotente que já nesta ocasião acabava com ao sistema Republicano da cidade. A destruição da capela possivelmente uma vingança dos Médici pela descoberta da Conspiração em 1559 liderada por um republicano convicto da familia neste século,  Bartolomeu di Mainardo Cavalcanti (c.1503 – 1563),conspiração que fora  acompanhada por famílias florentinas e mesmo vários ramos da família  Cavalcanti (5).

Mesmo com a reforma da igreja e a destruição da capela Cavalcanti pelos Médici, a celebre obra da ”Anunciação Cavalcanti” de Donatello  foi mantida em seu local original nesta igreja  –  fato significativo da sua relevância artística.

O crítico de artes da época Giorgio Vasari (6) que muito apreciava esta obra afirmou sobre a “Anunciação Cavalcanti”, e o próprio talento de Donatello:

“Mas acima de tudo, grande gênio e arte demonstra [Donatello] na figura da Virgem, a qual amedrontada pela súbita aparição do Anjo, move timidamente sua pessoa  numa honestíssima reverência, com muita graça dirigindo-se àquele que a cumprimenta, de maneira que se vê no seu  rosto  a humildade e gratidão que ao inesperado senhor é devido, e tanto o senhor é  o mais alto”. Do original: “Ma sopratuto grande ingegno et art mostro nella figura della Virgen, la quale impaurita dall´ improviso apparire dell´Angelo, muove timidamente con dolcezza la persona a uma onestissima reverenza, com bellissima grazia rivolgendosi a  chi la saluta , di maniera che se le scorge nel viso quella umilità e gratitudine che del non aspettato dono si deve a chi lo fa, e tanto il donno é maggiore”.

Ressaltamos que o  retábulo da Anunciação estava acompanhado em sua parte inferior por um tríptico, obra também notável – enquadrado em belíssima moldura entalhada, peça que não se encontra mais nesta igreja, atualmente alocada no Museu Buonarroti.

Trítico belissimamente emoldurado que esteve colocado sob a “Anunciação Cavalcanti”,   hoje no Museu Buonarroti

Em 1457 Nicolo di Giovanni Cavalcanti encomendara este  tríptico  ao artista Giovanni di Francesco  (Arezzo, 1412 ou 1428 – Florença, 1458)  – uma “tavola” com três estórias da vida de São  Nicola di Bari –um deles tendo como tema o  milagre feito pelo santo relativo a um dote em benefício de  três  jovens moças pobres. Este pintor italiano Giovanni di Francesco em Florença nos meados do século XV teria freqüentado  o estúdio do muito famoso artista  Filippo Lippi (   –    ).

Comentado sobre a “predella” (base, estrado) com as histórias de São Nicolau de Bari  – “São Nicolau dá o dote a três meninas pobres; São Nicolau levanta três jovens colocados em salmoura por um estalajadeiro; San Nicola salva da execução três condenados a morte’ –  Esta obra hoje mantida no Museu da Casa Buonarroti em Florença é  considerada a obra-prima do artista.

Não sabemos se o tema escolhido seria pertinente à história da família Cavalcanti que o encomendou, mas observamos pelo menos sua semelhança com a situação  difícil e o casamento de Ginevra, irmã de Nicolo.

As pinturas muito minuciosas comentadas, entre outros críticos de arte por Giorgi  Vasari e Roberto Longhi.

Este último chegou  a afirmar relativamente a ”predella”  “ser um dos melhores trabalhos  do autor, também o de figuras mais numerosas do Quattrocento florentino”(7).

Aqui vemos os três jovens apresados salvos da pena de morte por S. Nicola de Bari
O Santo visita uma família com bandeira à porta, notados três jovens em situação precária.

Dito que São Nicolau levanta três jovens colocados em salmoura como punição por um estalajadeiro.

Por fim S. Nicola chega para  anunciar às moças  desoladas a doação de  um  dote   
O Trítico completo  hoje no Museu Buonarroti.

A “Anunciatta Cavalcanti” na igreja de Santa Maria Novella e o belo tríptico transferido para o museu Buonarroti são simbólicos do antigo prestígio, cultura e requinte que a poderosa família Cavalcanti, de comprovada origem franca, havia conseguido manter em Florença ainda no sec. XV. Prestígio mais tarde ensombrecido pelos também poderosos Medici anti-republicanos.

♣♣♣

*Este artigo faz parte de trabalho mais longo, em que três outras importantes peças de arte dos antigos Cavalcanti são também inventariadas e historiadas, citadas todas as fontes. Trabalho editado em nosso blog.

http://rosasampaiotorres,blogspot.com

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Rosa Maria Sampaio Torres – pesquisadora em História (PUC-Rio), é também graduada em Estudos Sociais e pós-graduada em Ciências Políticas. Aluna do filósofo brasileiro Carlos Henrique Escobar acabou por desenvolver, também, seus dotes artísticos – especialmente como poeta, autora do livro “Bendita Palavra”. Já reconhecida como ensaísta, é autora de inúmeros artigos históricos sobre a família Cavalcanti, da qual descende, e agora sobre o poeta Guido Cavalcanti.

CRISES EXISTENCIAIS – por Teresa Escoval

Quem é que nunca deu por si a pensar no porquê da sua existência?

As crises existenciais verificam-se em todas as etapas da nossa vida (infância, adolescência, maturidade e velhice).

Estas crises surgem pelas mais variadas razões: sexualidade, insucesso escolar, problemas familiares, conflitos com o grupo de pares, com o(a) parceiro(a), dificuldade na tomada de decisões importantes, qualquer doença, algum acidente, entre outros.

Na verdade, qualquer tipo de problema considerado grave, pode conduzir a uma depressão ou a uma crise existencial. A pessoa que a vive, sente-se confusa, perdida no meio de tantos problemas.

Gera-se assim um conflito interior em que a pessoa se sente incapaz de ultrapassar essa barreira. A sua vida perde a cor e a pessoa perde o interesse por tudo, inclusive pelos seus hobbies preferidos, amigos actuais, família, trabalho e começa a preferir ficar isolada. Assim, esta sua perda de discernimento e desmotivação, interfere na vida da pessoa, podendo mudar até a maneira como pensa e age.

O pensamento começa a estar confuso, pois os sentimentos estão exacerbados. Mas, acredito que a pessoa tem consciência do seu sofrimento e do sofrimento que causa aos que estão próximos dele. Porém, não consegue reagir a essa tendência interior, pois só encontra culpados para justificar a “tempestade emocional” que se apossou dela.

Fica no drama da escolha e encara a sua vida com grande desespero! Considera-se uma vítima das circunstâncias, e isto, traz-lhe um profundo vazio, que não pode ser preenchido por qualquer coisa, a não ser, pela decisão de se auto-reformular, de fazer de si um projecto da sua própria determinação.

Na verdade, qualquer ser humano, tem de aprender a retirar satisfação de todos os momentos presentes da sua vida. Pois no seu dia-a-dia, terá decididamente prazeres e alegrias que deve agradecer por viver.

Também importa saber que a vida é feita de ciclos e que cada um nos dá aprendizagens diferentes. Tal como na natureza há ciclos (o ciclo da água, do oxigénio, do carbono, do nitrogénio etc), na psicologia também.

Temos várias fases na vida que, na verdade, são ciclos em si. Têm começo, meio e fim, precisam ser abertos pelos motivos certos e fechados quando se esgotam verdadeiramente. Caso contrário, deixam marcas psicológicas que teimam em continuar a doer.

Os ciclos psicossociais são abertos pela idade (infância, adolescência, maturidade e velhice), pelas relações (namoros, casamento, família, amigos) e pelas actividades (escola, universidade, empregos). E nunca passamos de um desses ciclos para o seguinte impunemente, cada vez é uma “crise”.

Entretanto, se por um lado não temos como fugir dessas “crises”, por outro, aprendemos com elas, amadurecemos e evoluímos. Uma crise é um momento ou fase difícil em que factos, ideias, status ou situações são questionados e levados a mudar. Crise significa ruptura, perda de equilíbrio.

Mas, as crises podem passar de momentos perigosos e decisivos, para oportunidades de crescimento, de transformação para melhor. Só que, para isso, é necessário um certo grau de amadurecimento, que nem todo o ser humano é capaz de alcançar.

Voltando a falar dos ciclos, temos que lembrar que, por definição, eles se completam em si mesmos. Um ciclo só se resolve quando se fecha. Quando isso não acontece, levamos resquícios mal resolvidos para o novo ciclo que já está a abrir-se e que acaba sendo prejudicado pela não-resolução do ciclo anterior.

Actualmente há psicólogos que defendem que entre a adolescência e a maturidade existe a sub-fase dos “Anos de Odisséia”. É justamente nesta idade que o jovem enfrenta a sua primeira crise existencial diante do imenso conjunto de oportunidades que estão à disposição de sua vida.

E entre a maturidade e a velhice foi colocada mais uma sub-fase, chamada de envelhescência. É a adolescência do adulto, que não quer ficar velho. Teima em querer ser mais produtivo do que alguma vez foi, ter uma saúde “de ferro”, ou então controlá-la e continuar a fazer planos e mais planos irreverentes. Só que, assim como o adolescente, ele tem dúvidas, muitas dúvidas sobre o futuro.

O adolescente não é mais uma criança, mas ainda não é um adulto, apesar de achar que já é. O envelhescente ainda não é um velho, mas também já não é simplesmente um adolescente, apesar de achar que ainda é. Crises!

Mas, o que importa perceber na crise é o encontro das soluções. Só assim sairá compensado da mesma e fazer a escolha certa

A vida acontece sempre no presente. O passado deve servir de aprendizagem: olhar onde errou, mudar a partir daí. Não se pode voltar no tempo e fazer um novo começo, mas pode-se recomeçar e fazer um novo fim.”

Julgo que para aprender a ser feliz apenas tem de aprender a aperfeiçoar-se a si próprio. Utilizando as sábias palavras de Wayne Dyer “Você não é um ser humano que está a passar por uma crise existencial/espiritual. Você é um ser espiritual que está a viver uma experiência humana. Logo, lembre-se que o minuto anterior já não é real e o que chega daqui a pouco ainda não existe. Se existe algo de valor incomparável é o tempo presente.”.

Por último, e porque acredito ser de extrema importância sentirmo-nos completos, veio-me à lembrança o poema de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a Lua toda
Brilha, porque alta vive.

♦♦♦

Teresa Escoval é Pós-Graduada em Gestão de Recursos Humanos, Licenciada em Sociologia, Bacharel em Gestão de Empresas. Desempenhou vários lugares de chefia na área Financeira e Gestão de Recursos Humanos. Desde 1994 que gere e desenvolve um negócio próprio na área do emprego, diagnóstico/desenvolvimento organizacional e formação. Mantém colaboração regular, desde 2007, com várias revistas, onde são publicados artigos sobre diversas temáticas, que é autora.

JUNG E OS SERTÕES – I PARTE – por Marilene Caon

Chapada Diamantina – BA  – Fotografia de André Dib

ESTUDO INTERPRETATIVO DE “OS SERTÓES” DE EUCLIDES DA CUNHA SEGUNDO O REFERENCIAL TEÓRICO DO PSICANALISTA CARL GUSTAV JUNG

1ª PARTE

Dividido em três partes, a Terra, o Homem e a luta, o livro encerra uma estrutura dialética em que o “martírio secular da Terra” sobre aquele que é “antes de tudo um forte” pode ser lido assim: a Pátria martiriza o povo até o ponto emj que explode a luta.

Essa divisão interna é influência do historiador francês Taine, o qual formulou no seu livro de 1863, “Histoire de La Littérature Anglaise”, a concepção naturalista da história, teoria na qual são três os fatores determinantes: meio, raça e momento. É também desse mesmo historiador a citação que expõe a ideia de que o “narrador sincero” deveria ser capaz de se sentir como um bárbaro entre os bárbaros, um antigo entre os antigos, para ter tido a capacidade de escrever com tal realismo e emoção. Ou seja, ter tido a capacidade de vivenciar a experiência para poder reter em seu intelecto a forma. Continuar a ler “JUNG E OS SERTÕES – I PARTE – por Marilene Caon”

HONRA E RECONHECIMENTO – Teresa Escoval

Foto de Beatriz Leite/beatriz.hmleite@gmail.com

Hoje escrevo para Mim e para Todas as Mulheres E Homens deste Mundo. Para que as mulheres reconheçam o masculino que têm em si e os homens reconheçam o feminino em si.

A todos que hoje me lêem, deixo aqui algumas perguntas que devemos fazer a nós mesmos, necessárias aos que já estejam dispostos a crescer, amadurecer e desenvolverem-se: Continuar a ler “HONRA E RECONHECIMENTO – Teresa Escoval”

TRÊS POEMAS DE Nuno Higino

UMA MANEIRA DE DIZER O QUE NÃO SE ENTENDE

Precisava duma casa onde coubesse a minha vida toda, soalheira,
abrigada da invernia, distante dos lugares familiares, onde coubesses tu,
uma árvore ao pé, móvel e literária, imprecisa como uma lâmpada
de névoa, e ser ela o jardim todo e o jardineiro. Já vou suportando atrasos,
partidas adiadas, quem não parte também regressa, regressaremos todos,
um dia dentro duma carruagem a chiar numa estação desconhecida,
a desembaciar o vidro com a mão, porque havemos de chegar sempre a algum lugar? Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE Nuno Higino”

CONTOS MÍSTICOS de Moisés Cárdenas

 EN ALGÚN PERGAMINO

Siempre sentí curiosidad por Las Santas Escrituras y de saber sobre las profecías, los cumplimientos históricos, el conocer sobre la vida de los profetas,  aprender la etimología de las palabras, sus significados ocultos, los números y las señales. Desde niño, mis padres me leían pasajes de La Biblia y me mostraban el vasto universo en noches brillantes de estrellas.

Cierto día, asistí a un encuentro  bíblico que se celebraba en un amplio salón de una casa antigua. En el centro colgaba una lámpara grande con bellos cristales y faroles de diversos contornos, que encendida, emitía mágicas luces de colores. Continuar a ler “CONTOS MÍSTICOS de Moisés Cárdenas”

das presilhas do coração – por Maria Toscano

1.

 os homens atam as presilhas do coração
ao cós da promessa de maternidade eterna.

acreditam, os homens, ser sua grandeza
permanecerem sempre filhos apaparicados e

dispensados de ser autónomos e maduros.

nem a todos toca a fábula diabólica.
homens serenos plenos e acertados com lágrima e riso
de ombros e afectos largos/ de peito e siso
continuados inteiros na posição de caminhar Continuar a ler “das presilhas do coração – por Maria Toscano”