EDITORIAL – OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO – por Francisco Traverso Fuchs

 

Henri Bergson

“I would rather have questions that can’t be answered than answers that can’t be questioned.”

Richard Feynman

O que é pensar? Como responder, sem afetação e sem aduzir enigmas, uma pergunta que gerou e continuará gerando intermináveis questionamentos? Pensar é estabelecer (e resolver) problemas. Porém mesmo esta resposta simples, ou aparentemente simples, oculta um abismo de complexidade. O que diríamos, por exemplo, se descobríssemos que estabelecer e resolver um problema não é uma atividade puramente intelectual, mas envolve toda uma dimensão afetiva? E se chegássemos a descobrir que o problema é uma virtualidade inesgotável que exprime a dimensão ontológica do pensamento?

É bem possível que tais complicações só interessem aos estudantes de filosofia, mas a noção de problema, nela mesma, interessa (ou deveria interessar) a todos, filósofos e não-filósofos. Há boas razões para isso. O alcance da noção de problema é universal: os problemas são de toda ordem (especulativa, prática, estética…) e emergem em todas as áreas de atividade. Eles nem mesmo estão necessariamente circunscritos à esfera humana, pois todos os seres vivos são, por hipótese, capazes de estabelecer e solucionar problemas. Se essa hipótese estiver correta, a capacidade de problematizar seria coextensiva à vida, e a noção de problema seria, mais do que uma categoria humana, uma realidade vital.

Mas se todos os seres vivos resolvem problemas, foi apenas no homem que a potência de problematizar conquistou uma relativa autonomia. Se os seres vivos constroem máquinas moleculares, o homem é capaz de estudar e compreender o funcionamento dessas máquinas; se seres vivos fazem de seus corpos obras de arte e de engenharia, o homem é capaz de produzir poesia e catedrais; e se, como mostrou Frans de Waal, seres vivos não-humanos são capazes de sentimentos morais, o homem é capaz de escrever uma Ética. Em resumo, a vida é sinônimo de evolução criadora, mas (até onde sabemos) apenas o homem levou a criação às últimas conseqüências.

A potência de criação do ser humano não é, contudo, garantia de sucesso. Em primeiro lugar, ela não garante sua sobrevivência; também a espécie humana pode, como tantas outras na história da vida na Terra, ficar pelo caminho. Em segundo lugar, a sobrevivência — a mera adaptação ao meio — está longe de ser o mais distintivo signo de sucesso de uma forma de vida qualquer. Muitas espécies obtiveram sucesso adaptativo às custas de se meterem em conchas e carapaças, e perderam, com isso, a mobilidade (que, de acordo com Bergson, caminha pari passu com a consciência). Rigidez e torpor caminham lado a lado. E não devemos iludir-nos quanto a esse ponto: a despeito de sua notável potência de agir e de pensar, também a espécie humana produz para si couraças que a levam a meter-se em becos sem saída. Os automatismos e a tendência ao fechamento multiplicam essas couraças. O florescimento de diferentes culturas e civilizações, que tanto ampliou e diversificou a experiência humana, é também fonte de conflitos que ameaçam a própria sobrevivência da humanidade.

É notável que a espécie mais capaz de estabelecer e resolver problemas possa cair nessas armadilhas (e em tantas outras). É notável, mas não é surpreendente. Nossa competência não é tão grande quanto imaginamos. Muitos problemas são difíceis de equacionar, pois envolvem a compreensão de sistemas complexos que interagem uns com os outros. Mas além de enfrentar dificuldades reais para resolver problemas legítimos, nós produzimos uma quantidade inacreditável de falsos problemas. Segundo Bergson, a crença de que o verdadeiro e o falso são categorias que se aplicam somente às soluções ou respostas não passa de um preconceito adquirido nos bancos escolares; e ainda que sua obra não possuísse nenhum outro mérito, ela já poderia ser considerada fundamental por ter estendido aos problemas a prova do verdadeiro e do falso, e por ter definido as regras segundo as quais pode-se determinar a falsidade de um problema.

Muitas vezes, a ausência de dados não permite que um problema seja estabelecido de forma adequada. Mas o falso problema não deriva, ou não deriva necessariamente, da falta de informação; ele é, nele mesmo, um problema inexistente ou mal formulado. Em outras palavras, a ausência ou a má qualidade dos dados pode dificultar a posição de um problema, bem como pode impedir a resolução de um problema que foi bem equacionado; mas nem mesmo o uso do método científico e o acesso a todos os dados pertinentes são garantias de que um problema terá sido bem colocado. Encontra-se aqui mais uma maneira de compreender as palavras de Heráclito: πολυμαθίη νόον ἔχειν οὐ διδάσκει, muito saber não ensina a pensar.

Os falsos problemas fazem parte das dificuldades intrínsecas que estorvam o pensamento. Mas além dessas dificuldades intrínsecas, inerentes ao próprio pensamento, existem também dificuldades extrínsecas, que são as interferências externas que impedem o correto estabelecimento de um problema. Elas são de toda sorte — pensamento de grupo, agendas diversas e interesses corporativos, políticos, financeiros ou outros — e se manifestam de várias maneiras: supressão ou distorção de dados, manipulação de pesquisas, propagação de falácias e falsos problemas. O esforço da indústria de tabaco para ocultar do público os males causados pelo cigarro é um exemplo bem conhecido de interferência externa.

Assim, o trabalho intelectual possui uma dimensão ética que lhe é inseparável. Sob pena de renunciar ao pensamento, ou de substituí-lo por uma contrafação, o pensador (o filósofo, o artista, o cientista…) não pode deixar-se aliciar por agendas, interesses e pensamento de grupo. Essa autonomia é particularmente difícil, por exemplo, no âmbito da pesquisa científica, cujos custos são geralmente muito altos. Do mesmo modo, seria necessário que governos, universidades, agências reguladoras e meios de comunicação se mantivessem inteiramente apartados de interesses corporativos, privados ou estatais. Isso também é reconhecidamente difícil, pois eles são financiados por esses mesmos interesses.

Nas palavras de minha amiga Júlia Moura Lopes, Athena é “um órgão de comunicação independente de todos os poderes” que garante “a liberdade de expressão do pensamento dos seus autores.” Essa é uma das razões pelas quais muito me orgulha participar desta iniciativa, tanto mais importante numa época em que a liberdade de expressão sofre ataques diários. O filósofo, ou ao menos este filósofo, sonha com uma humanidade que aprendeu a dissolver os falsos problemas ao tempo que se esforça para solucionar, cada vez melhor, os verdadeiros problemas. Há muitos obstáculos à realização desse intento, mas nenhum deles é tão preocupante quanto a ausência de liberdade de expressão; pois, lá onde ela falta, todas as outras liberdades estão ameaçadas. Sabemos que não existe transparência e liberdade de expressão em países totalitários, onde a informação é estritamente controlada e o cidadão comum não tem voz; mas é possível que estejamos assistindo, enquanto escrevo estas palavras, ao nascimento de regimes totalitários no seio de democracias que antes pensávamos consolidadas. Temos, contudo, a vantagem de já saber os rumos que os acontecimentos podem tomar quando uma parcela da população é cerceada, desumanizada e falsamente acusada de ser a portadora de todos os males; e podemos, se quisermos, evitar que a história se repita.

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Francisco Traverso Fuchs é filósofo e leu na revista Nutrients o recente artigo de Lorenz Borsche, Bernd Glauner e Julian von Mendel, que infelizmente será ignorado pelas autoridades de saúde mundo afora.

POEMAS DE OUTONO – Ana Margarida Borges

Foto de Ana Margarida Borges

SINFONIA DE OUTONO

Há perfeita sintonia
Entre as folhas e meu canto.
É o espanto que me guia
Na palidez outonal
Como o rio, me despeço
Deste enorme matagal
De Bacus. À vida cedo
E ao Douro me confesso

Continuar a ler “POEMAS DE OUTONO – Ana Margarida Borges”

EXCERTO DE “BREVE É TODA A VIDA”- por Artur Manso

Para uma pedagogia da morte e do morrer.

A questão

Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.

Séneca 

As décadas finais do século XX introduziram a sociedade ocidental em uma nova relação com a morte, atitude que se veio a extremar ao longo do primeiro quartel do seculo XXI onde a máxima de Confúcio “aprende a viver como deves, e saberás morrer bem” parece ter sido compreendida de forma defeituosa. O que se passou para Continuar a ler “EXCERTO DE “BREVE É TODA A VIDA”- por Artur Manso”

SOBRE LUGAR DE APARICIONES – por Carlos Barbarito

Carlos Barbarito sobre

LUGAR DE APARICIONES

Con collages de Sergio Bonzón

Con Sergio Bonzón nos conocemos desde los años setenta. Como me sucede con otros amigos no recuerdo con precisión dónde y cuándo nos vimos por primera vez. Continuar a ler “SOBRE LUGAR DE APARICIONES – por Carlos Barbarito”

CONTO LEVEMENTE ERÓTICO – por Cecília Barreira

Obra de Washington Arleo

Viúvo há escassíssimos meses.

Quando a mulher ainda era viva, conhecera, através das redes, uma rapariga de ofuscante beleza, casada e com filhos adolescentes.

Apaixonou-se logo. Continuar a ler “CONTO LEVEMENTE ERÓTICO – por Cecília Barreira”

MULHERES NAS RUAS DO PORTO – XVIII- por César Santos Silva

Carolina Michaelis de Vasconcelos (Escadas de) e ( Escola)
Início: Oliveira Monteiro (Rua de)
Fim: Infanta D. Maria (Rua de)

Designação desde 2001
Freguesia de Cedofeita
Designações anteriores: Rua de Públia Hortênsia (1948‑1957), Escadas do Liceu.

Carolina Wilhelme Michaelis de Vasconcelos, que também está consagrada numa escola da cidade do Porto e numa estação da linha do Metro do Porto, nasceu em Berlim, Alemanha, em 15 de Março de 1851. Continuar a ler “MULHERES NAS RUAS DO PORTO – XVIII- por César Santos Silva”

SEVLA ORIEBIR – por Correia Machado

 

As curvas doces desaguam em rectas um pouco menos que obtusas

que lhe fazem o rosto um poema para eu dizer, para eu olhar, e me desfazem a vontade de ser de muitas.

Eu serei só dela. Continuar a ler “SEVLA ORIEBIR – por Correia Machado”

TEXTOS POÉTICOS DE Claudia Vila Molina

 

©Júlia Moura Lopes- rio de mel

Memorias de luz

1

Ilumino el tiempo
parten trenes hacia el país del ensueño

2

Rostros avanzan por la muralla
tanta similitud en nuestros roces
que estallamos en un minuto
y agonizamos Continuar a ler “TEXTOS POÉTICOS DE Claudia Vila Molina”

FAZENDO O PINO COM A IDA LUPINO – por Danyel Guerra

A actriz Ida Lupino

“I am the lizard king, I can do anything”

                                                                Jim Morrison.

     Feliz Aniversário Manuel António

‘O País das Pessoas de Pernas para o Ar’. Há livros que nos ganham num átimo. O título basta. É esse o caso daquele que encorajou, numa Feira do Livro do Porto, vivia-se uma tarde nublada do Verão Quente de 1975,  intrépida  expropriação revolucionária.  Só depois é que reparei nos prenomes do autor.  Manuel António. Até à data, o único Manuel António que eu conhecia era o ponta de lança do FC Porto e da Académica, que se tornaria médico oncologista e chegou a prestar assistência ao Miguel Torga. Continuar a ler “FAZENDO O PINO COM A IDA LUPINO – por Danyel Guerra”

UN EDIFICIO ENORME, CON NUMEROSAS VENTANAS- por Eduardo Dalter

Voces de la poesía argentina

UN EDIFICIO ENORME, CON NUMEROSAS VENTANAS

Seis tomos reunidos de entrevistas a poetas argentinos

Casi ocho años dedicó el poeta Rolando Revagliatti (Buenos Aires, 1945) en realizar más de 150 entrevistas a poetas argentinos (159, en verdad), para finalmente reunir los contenidos de éstas en seis tomos, que llevan el nombre “Documentales/ entrevistas a escritores argentinos”, bajo el sello Ediciones Richeliú. Continuar a ler “UN EDIFICIO ENORME, CON NUMEROSAS VENTANAS- por Eduardo Dalter”

TENDER BUTTONS E LADIES ALMANACK – por Eric Ponty

Gertrude Stein’s The Autobiography of Alice B. Toklas (1933) é uma autora emblemática na autobiografia lésbica, se não típica. Não sendo típica porque embora obedeça à maioria das convenções genéricas dessa autobiografia, está escrita na voz de outra: é A Autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein publicado pela Cosac Naify (2009) com tradução de José Rubens Siqueira.  Além disso, Alice B. Toklas não sendo apenas mais uma pessoa, não apenas Gertrude Stein, sendo a consorte de vida de Gertrude Stein, sua amante – esposa Continuar a ler “TENDER BUTTONS E LADIES ALMANACK – por Eric Ponty”

NAS NÚVENS – por Fernando Martinho Guimarães

“O Infinito Reconhecimento”, by Rene Magritte

Além da infância, em que olhar as nuvens e brincar descobrindo formas nelas é uma tarefa a que nos dedicamos com todo o empenho, são poucas as vezes em que as olhamos com olhos de ver.

Esta injustiça para com as nuvens é sinal evidente de que ser criança é coisa já passada há muito tempo e que, à inconsciência disso, acrescentamos a ignorância das coisas que fazem da infância a fase mais feliz da vida. Continuar a ler “NAS NÚVENS – por Fernando Martinho Guimarães”

POEMINHOS – Série de I a X- de Jaime Vaz Brasil

Foto de NSU MON
Poeminhos

1.

é a esperança

voando a pé.

—◊-◊-◊—

2.

A poesia existe

no que a palavra

não disse. Continuar a ler “POEMINHOS – Série de I a X- de Jaime Vaz Brasil”

POESIA, PULSÃO E VIVA VOZ EM ANDERSON BRAGA HORTA – por José Pérez

 

Poeta Anderson Braga Horta

Podemos buscar a chuva na poesia maior de Anderson Braga Horta, o vento, as estrelas, a noite constelada ou o abismo; e ainda nos faltariam os fogos e o barro que fizeram o homem, a Humanidade, e o fumo, o húmus, as espadas, as facas, os milênios perdidos, o incerto parto do ano 2000 ―no advento do novo milênio―, o crematístico, as marcas dos animais, o ardor das brasa no sonho, a desesperada esperança de seu profundo olhar sobre a vida; mas sem coroas de reis e sem louros, pois sua poesia nos diz que “O homem que tem um sonho/ é maior do que o rei,/ é mais forte que o herói,/ é mais belo que o poeta”¹estendendo-nos um convite tão sublime e tão rico em seus signos de revelações da língua portuguesa que fica não apena descortês e destemperado, senão imperdoável e pecaminoso, perder-se o descobrimento e o gozo da obra poética deste grande autor da literatura brasileira contemporânea. Continuar a ler “POESIA, PULSÃO E VIVA VOZ EM ANDERSON BRAGA HORTA – por José Pérez”

NO QUIERO VER UNA MUJER LLORAR – por José Pérez

“Mulher Chorando”, by Pablo Picasso

NO QUIERO VER UNA MUJER LLORAR

Para Polimnia Sánchez, en Nueva York

y Julia Moura Lopes, en Porto

Por impostura o condena
aberración o inocencia
pobreza o abatimiento
no quiero ver una mujer llorar

Que se derrumben las catedrales
mausoleos y grandes torres
Que se calcinen los lechos
jardines profanados
cocinas ensangrentadas
aposentos y oficinas
donde se hayan hundido sus lágrimas

Por cobardía o jerarquía
dominación o violencia
abandono o traición
no quiero ver una mujer llorar

Que sus soledades sean fuego crispado
y su risa suave y pura me acompañe
Que nada la sustraiga de su magia
y su ser bendito como el fruto ávido
para que las lluvias la bañen
el mar y el rio con sus murmullos
hagan de su ser una casa libre

Por abuso o confrontación
deshonra o desobediencia
presión de trabajo o interés de patrimonio
no quiero ver una mujer llorar

Que no se conviertan en polvo de la tierra ni olvido
los vejámenes del crimen
las cobardías de salvajes ni
maniáticas tempestades del orgullo y los celos
Que no se sustraiga jamás del corazón de
una mujer feliz
de la amada más amada
su lumbre su resplandor
sus pétalos vivos
su temblor

Apunto mis armas  hacia donde
hayan muerto sus sueños
Dejo caer mis navajas sobre
los labios que la maldicen
y mi mano que escribe la abraza
en el silencio puro de sus silencios

Apunto mis armas hacia
el puñal criminal que la doblegue
con feroz lascivia de cazador nocturno
Dejo caer mis cuchillos sobre
las venas venenosas que la mutilan
y mando a las hogueras del infierno los prostíbulos
también las religiones de cultivar pecados
con pieles de mujeres mancilladas

En el fondo de su alma
hay luz y agua
manantiales   luciérnagas    destellos de amor
En el fondo de sus ojos
hay vuelos   rosas   cristales de luz
y capullos de ternura que aún no estalla

Por el vaso roto y el espejo
la cicatriz del brazo y su limpio muslo
Por su tez morada y esos golpes
no quiero ver una mujer llorar

Dondequiera que vaya
Dondequiera que venga
por mar por tierra por aire
—definitivamente donde sea—
no quiero ver una mujer llorar

Pariaguán, 30 de octubre de 2021

 

NÃO QUERO VER UMA MULHER CHORAR

Para Polímnia Sánchez, em Nova York

e Júlia Moura Lopes, no Porto.

Por impostura ou sentença
aberração ou inocência
pobreza ou abatimento
não quero ver uma mulher chorar

Que se derrubem as catedrais
mausoléus e grandes torres
Que se calcinem os leitos
jardins profanados
cozinhas ensanguentadas
aposentos e oficinas
onde se hajam fundido suas lágrimas

Por covardia ou hierarquia
dominação ou violência
abandono ou traição
não quero ver uma mulher chorar

Que suas solidões sejam fogo crispado
e seu riso suave e puro me acompanhe
Que nada a subtraia a sua magia
e seu ser bendito como o fruto ávido
para que as chuvas a banhem
o mar e o rio com seus murmúrios
façam de seu ser uma casa livre

Por abuso ou confrontação
desonra ou desobediência
pressão de trabalho ou interesse de patrimônio
não quero ver uma mulher chora

Não se convertam em pó da terra ou esquecimento
os vexames do crime
as covardias de selvagens nem
maníacas tempestades do orgulho e dos ciúmes
Que nunca se subtraia ao coração de
uma mulher feliz
da amada mais amada
o lume o resplendor
suas pétalas vivas
seu tremor

Aponto minhas armas para onde
tenham morto seus sonhos
Deixo cair minhas navalhas sobre
os lábios que a maldizem
e minha mão que escreve a abraça
no silêncio puro de seus silêncios

Aponto minhas armas para
o punhal criminoso que a subjugue
com feroz lascivia de caçador noturno
Deixo cair minhas facas sobre
as veias venenosas que a mutilam
e mando às fogueiras do inferno os prostíbulos
também as religiões de cultivar pecados
com peles de mulheres maculadas

No fundo de sua alma
há luz e água
mananciais   vagalumes   cintilações de amor
No fundo de seus olhos
há voos   rosas   cristais de luz
e casulos de ternura que ainda não estalam

Por esse vaso quebrado e pelo espelho
a cicatriz do braço e o limpo músculo
Por sua tez roxeada e por tais golpes
não quero ver uma mulher chorar

Aonde quer que vá
e donde quer que venha
por mar ou terra ou ar
—definitivamente onde for—
não quero ver uma mulher chorar

Pariaguã, 30 de outubro de 2021

Por José Pérez (Venezuela)

Traducción: Anderson Braga Horta

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José (del Carmen) Pérez nasceu em El Tigre, estado Anzoátegui, Venezuela, em 1966. Reside em Pariaguán, Planalto de Guanipa. Licenciado em Letras. Doutor em Filologia Hispânica pela Universidade de Oviedo, Espanha (2011). Professor Associado Jubilado da Universidade de Oriente, Núcleo de Nueva Esparta, na área de Linguística. Pertence a Redè Nacional de Escritores da Venezuela. Poeta, narrador, ensaísta, promotor cultural. Obra diversa obra publicada.

A TOLERÂNCIA – por Manuel Igreja Cardoso

Não vão muito de feição para os campos da tolerância os ventos que sopram na espuma dos dias nesta nossa modernidade. Ao contrário do medo, ela não nasce connosco. Germina, desponta, mas facilmente mirra quando não é cultivada e quando as pragas urdidas pelos temeres a infetam. Continuar a ler “A TOLERÂNCIA – por Manuel Igreja Cardoso”

POR QUÊ, A REALIDADE NÃO SE CANSA?… – por Rodrigo Costa

“Luz e Coerência” by Rodrigo Costa

… Numa das minhas voltas pela actualidade, fiquei a par do que, em resumo, é o livro, de memórias, de Francisco Pinto Balsemão… De algumas memórias, porque, de acordo com o próprio, nem todas convém serem lembradas. De relevante, no alinhamento, a confirmação, colateral, de que o País tem estado sob a tutela de jovens companheiros da vida airada; gente que nasceu e cresceu em clima de inocentes aventuras —razão porque, no topo da pirâmide, haja o que houver, não há culpados. E não há, por ser incoerente culpar quem, medrando em parcerias de irresponsabilidade, tem tido permissão para ser governo. Continuar a ler “POR QUÊ, A REALIDADE NÃO SE CANSA?… – por Rodrigo Costa”

TOM E OUTROS TONS NA OBRA DE Washington Arléo

♣♣♣ Continuar a ler “TOM E OUTROS TONS NA OBRA DE Washington Arléo”

…DA INSÓNIA – Fernando Martinho Guimarães

 

O que se pode dizer sobre a insónia? Que é uma moléstia, um distúrbio do sono, uma disfunção, uma falha, um desarranjo. Como anomalia, a insónia pode ir do simples desassossego em ter dificuldade de adormecer ao desespero da privação do sono.

Dormir é importante. Lembram-no constantemente o nosso médico de família, como também os muitos programas televisivos que se preocupam com a nossa saúde – o sono é regenerador, dormir sete horas por dia é essencial, deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer.

Pelo sono, todo o acordar é um começar de novo, um recomeço. Despertar de um sono restaurador de energias é instalar a esperança no dia que se inicia. Dormir tem isto de reconfortante e de enganador: permite-nos esquecer as preocupações da vida, ausentarmo-nos do mundo. Porém, com o andar do dia, os problemas e as preocupações acabam sempre por nos encontrar.

É assim natural que, do lado do sono, só encontremos benefícios. Alheios de nós e do mundo, abandonamo-nos à inconsciência que é cair nos braços da sonolência e do adormecimento. O paraíso apenas o é porque nele se pode dormir. No inferno, não!

Na insónia, na privação do sono, tudo concorre para nos atormentar, por um excesso de lucidez. Despertos contra a vontade, sofremos, pela insónia, com a desmesura de pensamentos que recomeçam sempre. Quem conhece a experiência da insónia, sabe o tormento que é querer dormir e não conseguir. E, no entanto, a impossibilidade de dormir é saudada como uma oportunidade de fazermos coisas. De acrescentar tempo ao tempo.

No livro Cem Anos de Solidão, que deu a imortalidade a Gabriel Garcia Marques – e o prémio Nobel da Literatura -, narra-se, a certa altura, o alastrar da epidemia da insónia. Os habitantes de Macondo, a aldeia onde se passa o romance, são acometidos da «peste da insónia». Acordados contra a vontade, aproveitam para tirar vantagem da nova condição – tudo o que havia para fazer é feito, e a produtividade torna-se uma vertigem que toma conta de todos. Rapidamente se dão conta que a exaustão e o tédio são consequências de não dormir. Sem sono, sem dormir, as coordenadas do tempo esfumam-se e as lembranças também – paradoxalmente, ou se calhar não, o esquecimento é a consequência de estar permanentemente acordado. Sem mais nada para fazer, sem conseguirem fazer mais nada, são muitos os que desejam voltar a dormir, nem que seja por simples saudade dos sonhos.

Fernando Pessoa, quer dizer, um dos seus heterónimos, Álvaro de Campos, diz-nos isso num poema, precisamente chamado Insónia: «Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, / Não posso escrever quando acordo de noite, / Não posso pensar quando acordo de noite -/ Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!»

Quer dizer, o que é preocupante na insónia é, afinal de contas, a impossibilidade de sonharmos.

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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.

O MEDO – por Manuel Igreja

 

O medo tolhe-nos. Rouba-nos o discernimento, aumenta-nos a desumanidade, cobre-nos de egoísmo primário. O medo sem que se perceba, pode fazer com que uma comunidade cordata e amiga do seu amigo e companheira do seu vizinho se transforme num ninho de vespas onde campeia a crueldade impelida por uma quase absoluta insanidade mental. Continuar a ler “O MEDO – por Manuel Igreja”

A NUTRIÇÃO HUMANA E AS ERAS ASTROLÓGICAS – Alexandre Saraiva

Planeta Urano

Nunca pensei escrever um texto como este, contudo, a vida é repleta de surpresas e imprevisibilidades. Acedi ao convite da vida e aqui estou eu, a partilhar, de forma combinada, duas das minhas paixões: nutrição e astrologia.

O meu percurso na astrologia e na nutrição começaram há muitos anos atrás. Desde cedo, apaixonei-me pela astrologia, comecei por uma breve introdução à astrologia védica, quando aprendi a técnica de meditação transcendental, a qual pratico, diariamente, duas vezes por dia, desde 1991. Aprendi a meditação transcendental com o meu professor, Jorge Angelino, que é astrólogo védico. Continuar a ler “A NUTRIÇÃO HUMANA E AS ERAS ASTROLÓGICAS – Alexandre Saraiva”

A NOITE E A CIDADE – por Ana Paula Lavado

 

As ruas da cidade

As ruas da cidade são inundadas de luzes indiscretas
e vozes esparsas que falam com as cassiopeias.
A noite é imensa e as luzes têm a solidão dos velhos.
Os passos são cadenciados ao ritmo de um poema,
escrito por amor, que acabou por não ter destino.
Um bêbado encosta-se ao candeeiro da esquina
e um carro pára perto da prostituta que mastiga chiclete
e puxa a meia calça já rota de tantas noites.
Uma e outra janela mostram a insónia de quem já não dorme
e um faminto revolve os sacos deixados com sobras de nada.
Já não há corpos diáfanos nem Primaveras férteis. Continuar a ler “A NOITE E A CIDADE – por Ana Paula Lavado”

AS GÉMEAS – por Cecília Barreira

 

AS GÉMEAS

Eram irmãs. Cada uma com o seu namorado. Gémeas, iguais. O mesmo cabelo, o tique de mexer na repa.

Sempre cúmplices.

Janus e Hélio muitas vezes com dificuldades em perceber quem era uma ou outra.

Eram ambas Mary. Uma, Mary Sue. Outra, Mary Pue. Continuar a ler “AS GÉMEAS – por Cecília Barreira”

MULHERES NAS RUAS DO PORTO – XVII – por César Santos Silva

 

Cândida Alves (Rua de)
Início: Trinitária (Rua da)
Fim: Cul‑de‑Sac 
Designação desde 2000
 Freguesia de Foz do Douro

Cândida Celeste Nogueira Alves nasceu no Porto em 1893, e desde jovem se tornou costureira. Rapidamente se torna famosa e ao seu ateliê acorrem as elites femininas da cidade que faziam questão que fosse a Candidinha, como era simpaticamente conhecida, a sua estilista oficial. O termo na época não existia e a palavra modista, era a única que se usava para designar a função, que só passado muitos anos é que se viu projectada para o lugar que ocupa hoje no mundo da moda. Continuar a ler “MULHERES NAS RUAS DO PORTO – XVII – por César Santos Silva”

O SONHO DO SARGENTO PIMENTA – por Danyel Guerra

  

John Lennon e Yoko Ono (Foto: AP)

 

“I dreamed about  you last night and I fell out the bed twice”

                                           Morrisey, citando Shelagh Delaney           

A noite passada, o Sargento Pimenta sonhou  com  Nara e caiu da cama duas vezes. A sério, podem crer. Alerto porém que esta Nara não é, esclareça-se, a cidade dourada que no século VIII foi içada a primeira capital do Japão. Embora ela, a cidade, se tenha, antes de tudo, singularizado pela zen serenidade de seus templos budistas e pelos parques povoados  de cervos prenhes de meiguice. Continuar a ler “O SONHO DO SARGENTO PIMENTA – por Danyel Guerra”

APROPIACIONISMO Y RE-SIGNIFICACIÓN – Ender Rodríguez

Imagem de Ender Rodriguez

Apropiacionismo y re-significación

El tema del apropiacionismo plantea delicadas situaciones y temerarios debates que rondan entre la “autoría asumida como algo extremo”, el des-mitificar ciertos poderes de la imagen-fuente y la necesidad de trastocar los significados con nuevas formulaciones estéticas de hibridación; de allí que se hable de re-significar y re-interpretar para lograr intervenir, cambiar, borrar, des-figurar o simplemente hacer mutar una pieza en otra “nueva”.  Richard Pettibone por ejemplo se apropió de las apropiaciones de Andy Warhol dentro del denominado Pop Art.  Toda apropiación per se no es mega interesante o una gran cosa solo por ser apropiación así no más, como si se tratase de vanaglorias o nuevos mitos. Continuar a ler “APROPIACIONISMO Y RE-SIGNIFICACIÓN – Ender Rodríguez”

TEXTOSTERONA-PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – V- por Danyel Guerra

Ralph Waldo Emerson

 ‘DA VIDA DOS ESCRITORES’

“A própria vida se converte numa citação”

      Ralph Waldo Emerson, citado por Jorge Luis Borges

Caro El tigre, sem ousar desacatar este prensamento de Emerson, eu prefiro que a própria vida se converta numa excitação.  

 o-o-o-o-o             

”No seu entender qual é o papel do escritor brasileiro hoje em dia?”

Entrevistador da TV Cultura (1977)

“É o de falar o menos possível!”

 Clarice Lispector Continuar a ler “TEXTOSTERONA-PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – V- por Danyel Guerra”