EDITORIAL – INFÂNCIA: PERCEÇÃO E REALIDADE – por Artur Manso

“L´enfance d´Ubu” by J. Miró

Tempo de infância. Voz da eternidade que lá mora

Vergílio Ferreira

Que a infância é estranha, é uma doença imóvel.
Tem um íman no meio. 

Herberto Helder

                                                                                                        [….…]

como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

José Tolentino Mendonça

Nas últimas décadas gerou-se um alvoroço inusitado em torno da infância, tempo que todos os adultos sem exceção viveram e são educados para o esquecer. Hoje é pela valorização enquanto pessoas humanas o que não acontecia, de facto, até ao século XX: pela garantia dos seus direitos anexados ao seu estado sensível, ainda longe do pensamento lógico-formal, do uso escorreito da razão, que só acontece pela adolescência. Até os Evangelhos que relatam os ensinamentos de Jesus, textos fundadores de uma visão igualitária da condição da criança e da mulher, no episódio da multiplicação dos pães, destacam essa subalternização: “os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças”. Mulheres e crianças passaram por séculos de desprezo e indiferença total.

Erraticamente, hoje, com tanto saber de experiência e ciência feito sobre o assunto, proliferam juízos sobre o ser criança enredados em vontades e desejos, pouco sensatos e ponderados. Na análise da infância, passou-se do oito ao oitenta. Na atualidade, no espaço da cultura ocidental, a proteção e consideração da infância é desmedida, quer do ponto de vista do lugar que ocupam na sociedade, quer na maneira de encarar a inocência que se diz serem portadoras. As diversas particularidades da criança cujo quotidiano não é regido pelo pensamento lógico-formal, se não forem consideradas por aproximação e simpatia, em reflexo, não farão bem ao seu desenvolvimento nem à sua relação com os adultos que as cuidam, quer em família, quer em sociedade. Agora pretende-se que se pronunciem sobre tudo e mais alguma coisa, validando-lhes posições ético-morais em qualquer idade como se de adultos se tratasse, recorrendo ao avanço científico que contradiz essas decisões pura e simplesmente porque os juízos morais, tal como os juízos de facto, dependem de uma série de fatores do desenvolvimento e maturidade intelectual que acontece em fases diferentes na vida de cada um e cada uma. Basta ler a obra de Jean Piaget (1896-1980) que fundou uma teoria do conhecimento a partir do estudo da gênese psicológica do pensamento humano e atender aos estádios de desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg (1927-1987). Hoje em um e outro lado há mais conhecimento, sim. Mas uma parte substancial dos problemas de interpretação dos ‘distúrbios’ exagerados e empolados sobre o desenvolvimento infantil devêm do falacioso “princípio da igualdade” que as democracias ocidentais introduziram na consideração da infância, por pressão das famílias e da sociedade. É sabido pelos melhores estudos que a aprendizagem cognitiva depende de criança para criança e que ocorre em períodos largos de tempo. Mas as escolas que os Estados controlam na totalidade, criaram a falsa ideia que entrando todas as crianças em idade igual num ciclo de estudo, todas estão em igual condição de atingir os objetivos mínimos de aprendizagem não havendo por isso razão para umas progredirem e outras estagnarem ou esperarem pelo tempo oportuno para, cognitivamente, consolidarem as aprendizagens e transitar para conhecimentos mais complexos sem ter aprendido os mais simples, procedimento que é contraproducente e violador do próprio sentimento da infância.

Pela minha parte continuo a reiterar que o superior interesse da criança é ser bem cuidada, amada e protegida, na família, no meio alargado e no Estado, nada mais. O resto é conversa para entreter académicos que precisam disso para ganhar a vida e colocar a imensa multidão que sobre o assunto nada sabe, em conflito permanente empurrando para o sistema legal decisões que manifestamente não lhes competem, tanto mais que quem legisla e quem aplica a lei, pouco pensou sobre o assunto e pouca ou nenhuma informação tem sobre a condição de ser criança, conduzindo as suas decisões por opiniões sem qualquer suporte científico ou racional. O critério que preside a uns e outros é: este ou esta que ganharam o estatuto de influenciadores, na TV, nas redes sociais ou livros de auto-ajuda, sobre este assunto, qualquer que seja o assunto, dizem que… Quem gere as escolas e aqueles e aquelas que nelas ensinam, sabem muito bem, ou deveriam saber já que passaram tantos anos a estudar os conteúdos do ensino e da aprendizagem, que a aprendizagem cognitiva, que é dessa que o ensino universal e obrigatório trata, é uma atividade de igual complexidade como aprender e desenvolver um desporto, uma arte, ou uma profissão diferenciada como seja a carpintaria, a mecânica, a eletrónica, a colunária… O ensino musical não coloca um aprendiz de violino como solista de uma orquestra que se queira séria, um grupo de bailado não coloca um aprendiz como primeiro bailarino, uma equipa de futebol não coloca um sub 15 a titular indiscutível num jogo de final da liga dos campeões. Mas a escola coloca todos os meninos e meninas de 6 anos no primeiro grau de ensino e decide que universalmente eles e elas não se irão diferenciar até à conclusão dos estudos.

São da transição do século XIX para o XX, os importantes trabalhos de Freud, sobre o assunto que, dignificando a criança, a colocam no seu devido lugar em relação aos adultos que a cuidam e à sociedade que a acolhe. Depois do idílio infantil que ingenuamente os adultos nas últimas décadas foram alimentando, e depois dos abusos indiscriminados que a falta de compreensão da condição infantil foi gerando, já é pelo menos, agora, tolerável, considerar, com recurso à prática de quem as cuida notar os laivos de um Pequeno ditador, na descrição de Javier Urra, ou O pequeno tirano, no relato de Jirina Prekop. É tempo de deixar as crianças serem crianças e entregar os casos patológicos, que são infinitamente menos do que aqueles que se apregoam, a quem tem formação e saber para tratar deles com inteira autonomia e responsabilidade de todos os envolvidos. A psicóloga Margarida Gaspar de Matos em um ensaio sobre a adolescência afirma com muita propriedade: “o adolescente tende a sobrevalorizar o grau de interesse que os outros têm nele – está sempre em ‘modo’ centro das atenções”.

Estar atento a estas e outras artimanhas semelhantes, é um grande avanço para a efetiva consideração que a infância deve merecer a todos e todas, sem subterfúgios nem sentimentalismos bacocos e enganadores. A educação familiar foi muito perdulária na relação criança/adulto, colocando-as em lugar subalterno. E a formação escolar alargada, fez durante séculos jus a essa maneira de encarar a infância, dizendo o poeta português Guerra Junqueiro “Isto escolas!… que indecência / Escolas, esta farsada! / são açougues de inocência, / são talhos de anjos, mais nada”. Acrescento: escola e sociedade de que a primeira é parte integrante.

Entre os vários textos em que o olhar teórico e estético sobre a infância me vai ocupando destaco o último capítulo do ensaio Educação estética. O belo enquanto manifestação do bem (2024) onde percorro diversas aproximações à mesma, destacando a singular interpretação de Agostinho da Silva, que no seu jeito provocatório na Conversa Vadia com Manuel António Pina (24/05/1990) refere:

eu costumo brincar com a palavra adulto dizendo que o que acontece  com as crianças é que, quando chegam aí pelos 14, 15 anos, cortam-nas,  fazem-nas parar, e juntam-lhes outro bocado de um adulto – de   onde veio o verbo  adulterar. Quer dizer, toda a criança é adulterada porque lhe colou um adulto. Vamos ver se um dia se veem livres disso e  conseguem  viver até ao fim com a capacidade de imaginação e de criação que, em  geral, todas as crianças têm.

Agostinho foi leitor e hermeneuta de Fernando Pessoa, que em discurso poético impressivo do eu de cada um, fez a alma dizer em sentimento:

Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.
E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.
Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

É um mistério como a criança deixa de ser criança e se torna adulto, parecendo devir outro ser que coloca no recalcado ou no id esse intervalo de tempo, que em condições normais de desenvolvimento, que são felizmente maioritárias, é o mais autêntico e feliz da sua vida: sem conceitos nem preconceitos, apenas com a vontade infinita de fazer, desfazer, refazer os lugares que vai habitando, onde cada momento é a vida toda e toda a vida se faz e desfaz numa aventura rumo a um tempo sem fim.

George Orwell em um ensaio sobre Dickens, autor que muito escreveu sobre crianças e jovens em desenvolvimento e em sofrimento, refere que o século XIX não foi “uma altura boa para se ser criança, dominava a doutrina de que era preciso ‘’vergar o espírito’ das crianças. Milhares de crianças, às vezes apenas com seis anos, trabalhavam literalmente até morrer nas minas ou nas fábricas de têxteis, e mesmo nas public schools da moda, açoitavam-se os alunos até fazer sangue por darem erros em latim”. O séc XIX encarnava todos os tempos com nuances diferentes: tempos em que ser criança era estar sujeito/a a tudo: sevícias de toda a espécie, abusos, violações, mortes… com tolerância máxima para os agressores.

Como também hoje é realçado em todas as análises sobre a infância por parte dos adultos que só no decaimento das suas vidas dela se voltam a ocupar, mesmo que só em ressentida evocação, refere o mesmo autor, retrocedendo ainda mais no tempo de felicidade plena: “É difícil não ter a sensação de que o objetivo inconsciente de todos os prazeres típicos do mundo moderno é o retorno ao útero materno. Porque também ´nunca se estava sozinho, nunca se via a luz do dia, a temperatura era constante, não tínhamos de nos preocupar com comida ou trabalho, e os pensamentos (se é que os havia) eram abafados por um pulsar ritmado e contínuo”. A vida intrauterina é de facto outro grande mistério, de desconhecimento total naquilo que é o seu impacto no desenvolvimento de cada um, que, nesta dimensão das criaturas humanas, permanecerá para sempre. E é tão impressivo que durante toda a vida, a posição de descanso mais confortável, continuará a ser aquela em que o feto se torna criança e mantém até ver a luz do dia. Nos tempos que correm, até esta felicidade originária querem retirar a cada criança que maioritariamente ainda pode gozar da vida intrauterina, fazendo-as, aí, analisar e psicanalisar a seu modo e de acordo com os traumas que os adultos que as cuidam transportam, como escrevia a meio do século XX Jorge Amado, para cada uma nascer já com um complexo, uma neurose, um trauma, à sua escolha, ou melhor, autoimposto.

Vale a pena ler as recordações de infância do poeta do Marão, Teixeira de Pascoaes, porque nos fornece um olhar da infância sob o olhar do adulto e o que a nostalgia do passado representa na desilusão do futuro. O olhar poético, desprendido da imediatez e preocupado com o significado do que acontece quando crescemos e nos inquietamos com os fragmentos que se desprenderam de uma totalidade que pressentimos mas não alcançamos, esbarra com a factualidade de aqueles e aquelas que nos pareciam deuses e deusas quase inacessíveis e se tornam na nossa adultez, outros de nós, com as mesmas preocupações e ocupações, olhando para a infância deixada lá longe, num lugar, agora quase mitológico, onde tudo é perfeito e a visão límpida das coisas invocava o poder de um qualquer deus que assim as tinha criado: “Vivemos porque a vida é êxtase, espanto, enlevo, simpatia, um impressão alada em que se volatiliza o nosso ser e vai através do espaço”. À medida que crescemos, vamos sepultando a infância num lugar distante, coberto de neblina que nos impede de a olhar: “infância é uma nuvem, como a velhice é uma pedra: nuvem que abrange tudo, pedra que tudo restringe à sua forma dura e recortada”. A infância conserva o segredo das origens e a luz que tudo ilumina: “Para os meus olhos de criança, as coisas não eram exteriores, não existiam; viviam a vida pura, que é só alma, intimidade, substância eterna, em vez de forma transitória. O resgatar da infância torna suportável o ocaso da vida que quase sempre acaba por se nos apresentar um projeto mal realizado porque em prol da razão esqueceu a emoção, em prol da lei e da ordem, fez com que cada um e cada uma, se tornasse construtor de uma realidade que pouco lhe diz. A adultez torna-nos coproprietários de um condomínio organizado racionalmente que nos impede de ver para lá dos seus muros: “A criança que fui jaz em mim como na terra dum cemitério; mas a minha infância vive ainda. É imortal esse sentimento da origem, que é o substratum da memória, onde as recordações deitam raízes e absorvem as seivas que as alimenta. É dessa profundidade que alvoram aleluias, pressentimentos de Deus e do infinito, primaveras que, durante um momento, nos enchem a vida de flores”. A beleza era-nos espontânea e com ela adornávamos o nosso quotidiano: “Para uma criança todas as coisas têm um valor transcendente; e a sua vida é um êxtase de luz”.

Enquanto crianças vemos o mundo como uma construção de um deus maior, onde tudo tem uma razão de ser e ocupa um lugar adequado. A infância é o tempo de refazer o mundo que herdamos de Deus. É desprendimento e brincadeira, a adaptação do olhar às coisas ainda não vistas. Na infância sentimos o mundo e pressentimos o divino. Bailamos e pulamos ao som de vozes estridentes e de comportamentos humanos de cunho coletivo, que confunde o profano e o sagrado, transformando os adultos, aqui e ali, em condutores infantis de brinquedos coloridos e reluzentes, que querem, a espaços, continuar a brincar, tal como os Madredeus consubstanciam, ao ritmo da música e pelo encanto da voz em A Vaca de Fogo:

À porta daquela igreja
Vai um grande corrupio

Às voltas de uma coisa velha
Reina grande confusão

Os putos já fogem dela
Deitam fogo a rebentar

Soltaram uma vaca em chamas
Com um homem a guiar

São voltas
Ai, amor, são voltas
São as voltas da maralha
Ai, são voltas
Ai, amor, são voltas
São as voltas da canalha

À porta daquela igreja
Vive o ser tradicional

Às voltas de uma coisa velha
E não muda a condição.

Termino, na roda da canalha, voltando ao início, e desejando que a educação em todas as suas dimensões, se esforce por preservar a essência da infância, ao texto primordial em defesa das crianças, aquele que os Evangelhos popularizaram da pregação de Jesus. Mas sigo, a singular exposição do acontecimento de Giovanni Papini, por serem palavras simples que incluem, sobre o assunto, tudo que mais importa:

.Jesus, por Si, firmava a sua infantilidade e declarava-Se sem vergonha idêntico às crianças que o cercavam. O santo, o pobre, o poeta .apresenta-se sob este novo aspeto que resume tudo: a criança, que é .limpa e cândida como o santo, nua e necessitada como o pobre, .maravilhada e amorável como o poeta. Jesus não ama as crianças apenas como modelos inconscientes dos candidatos à perfeição do Reino, mas também como os verdadeiros mediadores da verdade. A sua ignorância é mais iluminada que a sabedoria dos doutores; a sua ingenuidade é mais poderosa que o génio espelhado em eloquentes tecidos de raciocínios. Só um espelho nítido e limpo pode refletir a .revelação. 

♦♦♦

Artur Manso, É diretor adjunto da Revista Athena.pt. Nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar. 

PARIU-ME O SOL – por Adelina Andrês

Pariu-me a Vida
E o Sol e a Lua
Sem petas enganos
Só inocência Só
Pura de pureza clara na escuridão a iluminar
Com cores que vejo se veem sem luz
Com luz é mais nítido claro
Para ver ser
ver só a olhar se espantar admirar
a vida toda
desde o fim sem princípio
sem ser preciso declarar
só sentir a escuridão a clarear
Vai fica parada estática crua na moleza dos dias noites frenéticas e sem frenesim só a parar olhar sem pensar
apenas sem penas a ver observar
ver a tudo parado a andar
Vê quem quiser quem puder lhe aprouver apetecer apreciar
Sê assim
crua
limpa
plena nua
sem crueza maléfica cozida feia feita sempre a atrapalhar
e vísceras entranhas guisadas avisadas que se entranham sem estranhar
Crua! Crua! Sem canibalismos
Alma a mandar sem comer banquetear
alimenta alimento da mente que mente sempre a enganar
Vê a verdade das coisas da vida sempre a apetecer aparecer sem avisar
Fica! Fica a ver sem sonhar
Sonha acordada bem acordada para não adormecer
Adormecer é não descansar das coisas do mundo da vida sempre a chamar
Ouve
ouve o chamado da vida sempre a espreitar
Ouve houve que não pensavas haver
Haver é existir com o todo tudo que é ser
Ser
palavra dita escrita palavra não palavra que não sei fazer
Fazer o que dita palavra ditado não dá pra dar erros
Dá pra corrigir aprender
Aprender palavras escritas ditas logo depois de nascer
Nascer Aparecer
Aparecer neste mundo insuflar de ar vida para iniciar reiniciar tudo a ser
Volta volta dá a volta e volta a nascer
Para aprender ensinar percorrer
Percorrer andar à volta andar sem correr
Correr é tolo é sempre a andar a andar nunca parar
Depressa que se crê
Devagar a dar passinhos curtos longos lindos
respirados às vezes rapidinhos

À noite
Vêm coisas lugares de assustar encantar
Há noite
Escuridãozinha de gostar
Dá-me asas de voar sem pensar sem gostar antecipar planear
Anda voa com pés livres do chão
O chão é coisa boa de andar sem pisar sem calcar espezinhar
vê tantos pré-ocupados a planear a evitar a pensar a cansar a fazer
Que planeiem outros melhor nenhuns
Caminho cru limpo vale tem valor
De todos de nenhum de cada um
Para andar ver
Ver sem re(parar)
Apenas ver
Sem sonhar pequeno pequena não há
Apenas há
Tudo que vem vai está
Está
O mundo as coisas estão
Estão
Assim
Aqui
Agora
Momento
Já não é
Já foi
Palavras Continuar a ler “PARIU-ME O SOL – por Adelina Andrês”

IA COM RABO DE PEIXE A ESCORRER SANGUE – por A. Dasilva O.

Em sonhos húmidos me apareceste em cima dum cadáver
Então Gabriel, o esquisito, o que me anuncias, bufo?! Venho-me por este meio analógico denunciar o impossível!

A gravidade da humanidade?
Nem te respondo, IA, pois sabeis mais que a Lúcia, como denuncio na Pide

Aquela que converteu os textos sagrados em livros de auto ajuda, e de como   se tornar
num devorador da morte?

Sou uma não praticante, nem  Dante como amante da escrita criativa
Uma voucher sou
Musa de Pressão de encher pela boca morro

Sou muito Homem
Levei no cu e não gostei
O francês é muito traiçoeiro
Por amar morder o pescoço

O desejo morre sempre solteiro

O seu único desejo é reacender-se como reacendimento hiena
A devorar hieróglifos e vomitar pantagruéis obscenidades

O surrealismo já morreu quem te viola sou ninguém, com um rabo de peixe

lA, arranca o mal pela raiz do seu útero, o poeta obscena, obscuro e constantemente
em ataque de epilepsia

Arreda para lá, estafermo da linguagem e seu canceroso linguajar metálico!
Ao terceiro piu
Vá para a puta que o pariu!
Quem me dera, não me deixam regressar ao útero

Não percas o foco destrói as palavras
Significado
Significante
Enquanto lhes contas uma história ao deitar
A humanidade adora contadores de histórias e depois aplica-lhe um golpe de amor
de calor, seguido de mata leão no segredo dos deuses,
do seu futuro radioso

IA livro-me de ti,
tal cobra muda de pele, tentarei  assassinar a tua tirania numa autêntica  revolta sexual

♦♦♦

a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita atualmente a revista Estúpida.

MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) II (conclusão) – por Alexandre Teixeira Mendes

1.7. Essa preferencialidade “do pensamento e da pátria” e do “movimento e da mátria” encontra-se na essência da sua obra. Temos aqui a vertente quitessencial do (proto) nacionalismo. Distancia-se e diferencia-se nessa fidelidade a Aristóteles – crença no sobrenatural – vínculo à teoresis e a praxis humanista – koinomía – teologia-poesia –  espiritualismo nas suas diversas variantes.  Nesse influxo  (pre) existente  – no pressupôr de uma reflexão do ser da verdade – da veritas – o sacramentum – no anelo da contemplação e, portanto, de uma cristologia ou, mais exactamente, de uma jesulogia  – evocam-se os passos e  as vias abertas do prosseguimento “cênico” de Jesus. Teremos então de concordar com Pinharanda Gomes quando ele nos diz que o “descobrimento” da palavra é o “achamento” de uma filosofia “comunidade” “nação” “respublica”. Se por um lado temos de anuir que a linguagem é um código que se estratifica – como ordem própria circundante –  sintaxe, léxico e enunciação –  estrutural-  aqui indicada – da nomeação e da pronunciação que não cessa – , por outro lado, temos de atestar a transparência e a opacidade (presumida ou afirmada) do proto pensamento constitutivo situacional – no cerne de um (inter) discurso e de uma pátria – reconfigurada – espiritual – o viabilizar “patriótico” – é antes compreender que a linguagem não é um simples «instrumento» de comunicação. Indiquemos, suscitamente, o rastro de uma  hermenêutica – a astúcia do historiador da filosofia portuguesa – pré – determinado – sujeito à compreensão participante – da possesão ou da não possesão da filogia e da semiótica (do grego antigo σημεῖον, « sinal », e λόγος, “palavra, discurso, estudo”). De facto,como veremos adiante, as obras fundamentais publicadas após 1964, no «tema» do pensamento português e da “filosofia portuguesa” podem servir como revelador para os diferentes questionamentos, a atenção positiva e incondicional e a empatia pela “Escola Portuense”, o empenho na desobstrução e na desocultação,  o quadro da descrição da afirmação, o cultivo e a experiência “viva” do pensamento português (desde o seu existir pré-nacional até à contemporaneidade) cabal procura de sentido e de verdade.  Remete-nos, no seu sentido distintivo  às suas intervenções como publicista e como ensaísta  – na sua unidade de juízos ou silogismos  –  e de uma forma bastante determinada.  Esses vislumbres antecipadamente do aristotelismo-tomista permanecem limitados e, aliás, esboçados de maneira puramente teórica, no âmbito simplesmente do «tratamento» filosófico. Teremos de levar em conta sobretudo o seu auto-didactismo,  análise tradicional e elucidação do singular. Existe uma lógica hermenêutica que se apoia na compreensão, anterior a qualquer lógica formal das proposições, e que a fundamenta. A compreensão é assim individualizadora e, na medida em que é confessional revela-se de forma actuante de acordo com o pensamento metafísico clássico e o substracto aristotélicco da filosofia portuguesa. A partir dos inícios de 60 e ao largo dos anos 70, J. Pinharanda Gomes descobre-se a si mesmo e a sua vocação, é o caminho de um autodidacta – que nas suas nota (aproxima) ções filosóficas e filológicas  – ensaios cruciais plenos de erudição – valorizou precisamente a fenomenologia da cultura e a lógica da identidade (que tomamos por dado) inscrita nas formas – da recorrência e da mesmidade (in) cognoscível – do espírito? Procedendo, por conseguinte, a uma apropriação ou leitura metafísica do cânon português –  na sua “tematização” (in) pensável – das grandezas conjugadas da filosofia das ideias – na sua contingência e descontinuidade cultural  – buscou a exigência de um suplemento de sentido – fazer uma exposição crítica de uma história exaustiva da filosofia portuguesa na coexistência de três escolásticas (a cristã, a muçulmana e a hebraica).  Tomemos, por exemplo, a pertinência da análise e a sublimidade ou o ímpeto conceptual – inquiridor próprio – circunscrito – da compreensão e síntese da teoria cultural  –  de uma dissecação e de uma análise contextual prévia – no vocabulário do método histórico-crítico (hermenêutica da letra, do sentido e do espírito) e da fenomenologia (fazer com que o ser, ou a coisa se revele) realizando a síntese existencial entre os postulados de Álvaro Ribeiro e de José Marinho.  Contudo, Pinharanda Gomes está longe de ignorar os paradigmas teoréticos (sobre) determinados, (re) introduzindo  e, portanto, os passos da teologia, a “ciência mor” especulativa. A faceta mística é aqui evidente ou a “conexão”  mística orante – saudosa  – e o (re) descobrimento do Deus do “ocultamento”. Não é, pois, de estranhar que nesse modelo orientador definido haja ampliado com invulgar lucidez a investigação panorâmica-fenomenológica do pensamento português. De facto, se retomarmos as etapas do caminho, que indicámos, descobriremos o peregrino na fé, reelaborando uma filosofia orante-mística, em companhia de outros irmãos carmelitas, tutti cumpetentes, a caminhada de discernimento e vocação filosófica-hermenêutica. O que é que se subtende pelo fulcro heterodoxo? Essa disposição eclesial  – do pre-anunciar –  “seguir a Jesus”? “Seguimento” e “discipulado”  – “o fervor da caridade” – “ortopraxis”? Nessa configuração ou síntese “teológica” – do “con (di) senso”?  De uma unidade literária – livros, escritos, (a) notações – na reivindicação idealista e hermenêutica-existencial – evangélica – ou até mesmo de um catolicismo  (in) circunscrito – aura ou invólucro carmelita? Busca do (i) legível – (in) visível (ou seja, do próprio “templum”) – no vínculo entre a “visio comprehensionis” – do culto –  e a “visio cognitionis” – da teologia? Continuar a ler “MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) II (conclusão) – por Alexandre Teixeira Mendes”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

foto de Matheus Bertelli

 

Quimera para a eternidade

Na tua cidade
ruas se inclinam
pontes se fecham
e o ar não se curva perante mim
Na tua cidade
somente a luz dos candeeiros e
da vontade das tuas mãos

Quem diria? antes tão luminosa
pontos resplandeciam sobre nós

  • por aqui, não tenham medo –
    Os nossos passos alados
    no mesmo destino de Orfeu

Pudesse adornar a tua cidade
abrir-lhe todas as portas
levantar-lhe as pesadas âncoras
despejar-lhe a imensidão do desejo
Como seria bela a tua cidade
Extasiados os jasmins com o nosso amor
as tardes unidas num corpo só
já pensaste? a tua cidade descoberta
e ergueríamos no céu
um país com a forma do mundo Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

“OVANID” DE PAZ SEKUL- resenha de Claudia Vila Molina

 

Reseña crítica sobre la novela Ovanid de Paz Sekul

La trama narrativa de la segunda novela Ovanid (2024) de la escritora viñamarina Paz Sekul se basa en la historia de dos ancianos locos que encarnan personajes típicos de Valparaíso. Ovanid es un actor fracasado, mimo y artista callejero. Además, él es amigo inseparable de Murillo (de oficio marmolista); ambos, con una edad considerable, se pasan el tiempo conjeturando acerca de la vida, el destino, Dios, la fe y la muerte. En este ámbito, la historia nos ofrece a nosotros como lectores, un sustrato literario mucho más profundo que los devaneos místicos y filosóficos de dos ancianos demenciales.

La novela Ovanid se ancla en un fundamento profundamente místico y filosófico, estos conceptos primordiales sobresalen en las conversaciones de los ancianos y otorgan al lector, otro tipo de conocimiento vedado en el mundo cultural, por tratarse, justamente de sabiduría ancestral, relacionada con los saberes universales: “El ser humano es bello, perfecto, recio y brutal, no tiene refinamientos; en él la vida es incontrolable, activa, reproductiva hasta el agotamiento y la muerte es una consecuencia lógica que no se discute; es preadamítico, el que no conoce…por eso no teme y vive cautivo en nosotros” (Sekul, 87). Al respecto, el misterio de la vida y de la muerte son intrínsecos al ser humano. Por esta razón, constituyen un acertijo aterrador en el hombre, quien debe vivir con el desconsuelo y desgarradura constantes del tremendo peso existencial. Así, la novela se podría apreciar desde la óptica existencialista: “El existencialismo considera así al hombre como “ente finito”, esto es, limitado en su capacidad y en sus poderes, “lanzado al mundo”, abandonado al determinismo y a los condicionamientos que el mundo le impone, y que le puede hacer nulas sus posibilidades, en continua lucha contra situaciones que lo pueden conducir al fracaso” ( Samour, 27). Las palabras de Samour, nos permiten entender la sustancia de la novela analizada. Junto con ello, nos brinda la capacidad de reflexionar acerca de nosotros mismos, en vínculo con todas aquellas interrogantes complejas que siempre están presentes y que por nuestra condición humana, no podemos obviar, de ninguna manera. Continuar a ler ““OVANID” DE PAZ SEKUL- resenha de Claudia Vila Molina”

FAKE NEWS – por Fernando Martinho Guimarães

 

Imaginemos a cena: um pastor, chamado Giges, pastoreia o rebanho. Abre-se uma fenda na terra e, vislumbrando alguma coisa ao fundo do buraco, o pastor decide descer. É um cadáver, completamente nu que, numa mão, tem um anel – Giges decide ficar com o anel.

Continuemos a imaginar: estamos agora na assembleia convocada pelo rei em que os pastores lhe prestam contas do estado dos seus rebanhos. Inadvertidamente, Giges roda o anel no sentido da palma da mão e fica invisível. Roda o anel no sentido contrário e fica visível. É uma arma formidável a que só a muito custo seríamos capazes de resistir – Giges, protegido pelo manto da invisibilidade, seduz a rainha, mata o rei e toma o poder. A tese desta história contada por uma das personagens de um livro de Platão é simples: ninguém é justo por vontade própria, mas por obrigação. Continuar a ler “FAKE NEWS – por Fernando Martinho Guimarães”

A CAUSA PROFUNDA DA POLARIZAÇÃO- por Francisco Traverso Fuchs

Um dos efeitos da polarização política é a depreciação mútua.

 

Não há explicação simples para a polarização política e ideológica que consome a vida de tanta gente, no Brasil e lá fora. Vários são os fatores geralmente apontados como causas desse fenômeno: o crescimento do populismo, seja ele de esquerda ou de direita; a clausura das bolhas nas redes sociais e na mídia, incentivada por algoritmos que visam o engajamento e não o diálogo; o declínio da confiança nas instituições, inclusive educacionais, a partir da percepção de que foram capturadas por interesses alheios às suas finalidades.

No plano afetivo, a polarização se traduz no ódio recíproco e na depreciação mútua, ou seja, na divisão da sociedade em campos opostos e aparentemente irreconciliáveis: ela faz com que correntes políticas adversárias sejam vistas não como grupos legítimos de pessoas que professam opiniões diversas das nossas, mas como ameaças existenciais. A convicção de superioridade moral no interior de cada grupo e o temor face ao outro não são sem consequências: eles nos aproximam cada vez mais de um cenário em que a temida ameaça existencial deixa de ser um perigo meramente imaginário; alimentado de lado a lado pela arrogância e pelo medo, o monstro que acreditávamos esconder-se debaixo da cama toma forma e se torna real. Assim, a consequência mais perigosa da polarização é o progressivo acirramento, em cada grupo, de uma tendência ao extermínio do grupo oposto, seja em termos noéticos (censura), seja em termos literais (linchamento, guerra civil). Continuar a ler “A CAUSA PROFUNDA DA POLARIZAÇÃO- por Francisco Traverso Fuchs”

RESENHA DE “PORTO DO PANTANAL” DE SÉRGIO MEDEIROS – por Henrique Duarte Neto

 

A POLIESTÉTICA EM “PORTO DO PANTANAL” DE SÉRGIO MEDEIROS

Sérgio Medeiros é um poeta que nos surpreende positivamente a cada lançamento. Dono de uma dicção própria, com “Porto do Pantanal” (Iluminuras, 2025) alcança mais um êxito na sua já considerável trajetória de poeta. Remetemos no título acima a “poliestética”, que é um conceito diverso de “poliestilística”, sendo, no circuito desta última, grandes representantes no Século XX os compositores Luciano Berio (1925-2003) e Alfred Schnittke (1934-1998). Por muitos estilos se entende as diferentes formas de coabitar uma arte numa obra. Por várias estéticas podemos compreender a interpenetração em uma obra de múltiplas manifestações artísticas.

Em seu último livro, Medeiros converge poesia, desenho e música. À primeira vista, apenas o texto (poesia) e o glifo (desenho) fariam parte da obra. Mas trata-se de uma visada apressada, reducionista. Assim, os poemas, por seu efeito de consonância e dissonância, geram um efeito musical. Além disso, o discurso entrecortado por pausas e silêncios, com quebras através do uso de travessões e reticências, afetam a percepção do texto. Se, por um lado ele é vago e complexo, por outro, é melódico e instigante. Já os desenhos possuem relação explícita com os poemas, porém, não são apenas “comentários” estéticos. São como irmãos gêmeos, que apesar de ter uma vida própria, possuem semelhanças e genealogias em comum. Continuar a ler “RESENHA DE “PORTO DO PANTANAL” DE SÉRGIO MEDEIROS – por Henrique Duarte Neto”

EU ESTIVE AQUI. E O QUE FIZ DA MINHA PASSAGEM? – por José Paulo Santos

 

[2026, José Paulo Santos | poema inédito]

…………Il restera de toi…

…………Il restera de toi ce que tu as donné
…………Au lieu de le garder dans des coffres rouillés
…………Il restera de moi, de mon jardin secret
…………Une fleur oubliée qui ne s’est pas fanée

…………Au soleil de l’Amour, ne resteront que nos mains vides
…………pour cueillir les détours de nos étoiles et de nos rides

…………Il restera de toi ce que tu as chanté
…………A celui qui passait sur son chemin désert
…………Il restera de moi une brise du soir
…………Un refrain dans le noir jusqu’au bout de l’hiver

…………Il restera de toi ce que tu m’as offert
…………Entre tes bras ouverts un matin de soleil
…………Il restera de moi tout ce que j’ai perdu
…………Ce que j’ai attendu plus loin que mes réveils

…………Il restera de toi une larme tombée
…………Un sourire germé sur les yeux de ton cœur
…………Il restera de moi ce que tu m’as donné
…………Et que j’ai partagé aux mendiants du bonheur

Michel Scouarnec

Há uma pergunta que a morte nos faz antes de chegar. Não a ouvimos assim que nascemos, nem quando somos jovens, porque a juventude vive como se o tempo fosse uma matéria inesgotável. A pergunta começa a ganhar nitidez quando perdemos pessoas, quando algumas cadeiras ficam vazias à mesa, quando reconhecemos numa fotografia um rosto que já não podemos chamar pelo nome, quando percebemos que também nós começámos a entrar na memória dos outros. É uma pergunta simples e imensa: quando eu já não estiver aqui, o que ficará de mim?

Michel Scouarnec escreveu, em 1980, o poema Il restera de toi, de que faz parte o verso que tantas vezes regressa à nossa consciência: «Il restera de toi ce que tu as donné». “Ficará de ti aquilo que deste”. Michel Scouarnec (nascido em 1934) é um sacerdote católico, autor, compositor e escritor francês. Foi ordenado sacerdote da Diocese de Quimper, no departamento de Finistère, em 1959. Exerceu as funções de professor de Liturgia e de diretor da rádio da Diocese de Quimper.

O poema, nem a citação recorrente, não é de Simone Weil, embora lhe seja frequentemente atribuída e a sua filosofia dialogue de forma muito próxima com esta ideia de atenção, despojamento e responsabilidade perante o outro. No poema, aquilo que damos não desaparece connosco: permanece numa flor que não murchou, numa canção oferecida a quem atravessava um caminho deserto, num sorriso, numa lágrima, num gesto recebido e depois partilhado com outros. A vida aparece, assim, não como um lugar onde acumulamos, mas como uma passagem através da qual alguma coisa de nós pode continuar a circular. Continuar a ler “EU ESTIVE AQUI. E O QUE FIZ DA MINHA PASSAGEM? – por José Paulo Santos”

CINCO POEMAS – por Leonardo Bachiega

lendo akhmátova
  
deitando os olhos
sobre um lenço querido

a mulher que sozinha
dobrava a umidade do tempo
num amor de aconchegante filho

uma hora a coragem
traz aguaceiros
a este eterno sertão
que não é mais silencioso
como amar em voz baixa

devagar não sei ao certo aonde
a mulher apoiou um lumiar sobre o outro
até restar acidentes sinceros
desde então embarcar à terra
traz um só… inteiro rio

♣♣♣

cidade

o emaranhado
é um frasco
de eterna beleza
enquanto emoldura
adoça

♣♣♣

gracinha

grande enquanto pouco
seu meme demora
como alguma que se abre
porque rindo
me fita

♣♣♣

encostado numa árvore

as vezes o amor reside na memória
o estado do tempo de um retrato
e nem sempre tem um muro para escalar
dormi e acordei como um matemático
contando as formas com que o vento me traz
você em pensamentos
kkk..eu quero o meu o teu o amor dele
no mestrado de um puro ar
num ar com raras frutas

♣♣♣

 

obra de arte

quando eu paro para olhar um quadro uma pintura seja de quem for picasso ingres portinari el greco eu não observo a sua forma real de figura dentro da tela como objetos xerocando circunstâncias ou quiçá a sua geometria a lembrar alicerces e mato seco e árvore eu procuro ver a sua forma desigual de cidade percorrida a uma vida que me prossegue vejo a baba que suja o ponteiro de cada relógio e assim me pergunto  estou eu olhando para que direção eu olho para o ponto onde estarei procurando tudo que perdura a base do éter de todos os séculos tal qual sua obra eu vejo danças tribais para um deus minotauro o som da terra e do vento sob o conforto de uma cabeça degolada às batalhas cruzadas as espirais das gárgulas e estatuas com suas idades porque as catedrais se encontram sempre afiando o tempo o os blusões cor de estanho dos jovens nos espetáculos eu vejo o sertão o deserto o pressentimento do peso dos passos a noite em ossos a sangria outras vidas menino descalço a bola de futebol a semelhança das tapeçarias a rememorar os rostos de cada lugar e a sua tarde a loja de roupas repleta de sílabas precisas a internet o homem na lua o homem em marte o robô o carro voador a fome a desgraça a peste a pandemia a escassez de água os problemas sociais numa sala digamos do tamanho de um bairro de cinco mil lâmpadas eu vejo a caxemira a escorrer pelos lábios as coisas mais importantes as coisas menos importantes insetos a rua o farol como um tabaco aceso agora se eu olhar para o outro lado… o lado em que o corpo se mantém sempre distante o que eu verei será apenas a cor consolando o meu desejo de não querer nada.

♦♦♦

Leonardo Bachiega, artista paulistano. É autor de alguns livros de poesia, dramaturgia, contos, romance. Possui textos publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal. Fernando Pessoa é seu poeta da vida. Instagram: @lbachiega.

O INSTANTE É PURO E MEU ALIMENTO. POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal

 

Quatro poemas inéditos do caderno Ensaio de Ausência

I

que movimento de mágoa te acorda?
que vento cede ao movimento?
o instante é puro e meu alimento.
tecer-te os cabelos de água agora.

que pranto irrompe e cessa, insone tormento, invento.

Lx. 22-10-74

II

dos despojos não digo
onda de sangue violado
por mãos madrugantes de prazer.

um sóbrio movimento
malogra os gestos gastos
e vigilantes. inexplorados até à derradeira viagem.

Lx. 16-1-75

III

aqui a alegria multiplica-se
como profusas pétalas, como raízes.
se sorris – que cicatrizes
sulcar o chão – se inventais
o puro invento ilumina-se.

Lx. 12-3-75

IV

ilumina-se a praia rara
cujas águas apaixonadamente beijo:
descalço como a areia brilha e se lava.

Lx. 4-4-75

(Coligido por Luís de Barreiros Tavares)

♣♣♣

Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.

A CASA AMORIM DE CARVALHO. No 50.° ano da morte do poeta e do filόsofo II – por Júlio Amorim de Carvalho

VII. Entro presentemente num dos aspectos mais significativos da Casa: a denominada Livraria Antiga que corresponde estritamente à biblioteca que foi de Amorim de Carvalho; a administração da Casa tem-lhe naturalmente dispensado a necessária atenção, com o duplo objectivo da sua conservação e da criação de condições que permitam o seu melhor aproveitamento para estudo e investigações. São alguns milhares de volumes (a cada um se atribuiu um número de entrada), que Amorim ordenara, finalmente, segundo a Classificação decimal universal ainda que por ele adaptada a certas exigências pessoais, dando preeminência, por exemplo, às culturas de origem latina, a certos autores por ele privilegiados, e agrupando temáticas diversas em secções mais abrangentes do que as propostas pela citada Classificação ou, inversamente, sub-dividindo outras. Anotações e explicações detalhadas foram redigidas pela administração da Casa para facilitar o bom entendimento da catalogação adoptada. Continuar a ler “A CASA AMORIM DE CARVALHO. No 50.° ano da morte do poeta e do filόsofo II – por Júlio Amorim de Carvalho”

BAÚ DA POESIA – de Luiz Vaz de Camões

Endechas a Bárbara Escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.

♣♣♣

 

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.

♣♣♣

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

♣♣♣

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.

♣♣♣

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

♣♣♣

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

♣♣♣

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa (a) que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! Que tanto pudesse que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!

♣♣♣

Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florescidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio,
umas coisas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.

♣♣♣

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Retrato de Luis Vaz de Camoes, feito em vida por Fernão Gomes

Luís Vaz de Camões foi um poeta e soldado português, considerado o poeta nacional de Portugal, o maior representante do renascimento português, o escritor mais importante da língua portuguesa e um dos grandes expoentes da literatura ocidental, famoso por sua epopeia Os Lusíadas e por seus sonetos.

A TECNOLOGIA AO SERVIÇO DA PROTEÇÃO AMBIENTAL- por Ricardo Amorim Pereira

Inteligência Artificial, Drones e Satélites – a Tecnologia ao Serviço da Proteção Ambiental

A crise ambiental contemporânea colocou a Humanidade perante um paradoxo profundamente inquietante. Nunca existiram tantas ferramentas tecnológicas capazes de monitorizar, prever e combater agressões ao ambiente e, ao mesmo tempo, nunca os ecossistemas estiveram sob tamanha pressão. Alterações climáticas, incêndios extremos, poluição atmosférica, degradação dos oceanos, desperdício de recursos e destruição de biodiversidade tornaram-se problemas globais cuja escala ultrapassa, frequentemente, a capacidade de resposta dos mecanismos tradicionais de fiscalização e gestão. Neste contexto, a inteligência artificial, os drones, os satélites e os sistemas inteligentes de monitorização surgem como instrumentos potencialmente revolucionários para a proteção ambiental. Contudo, o seu crescimento levanta igualmente questões éticas, energéticas e políticas que não podem ser ignoradas.

Uma das áreas onde a inteligência artificial demonstra maior potencial é na deteção precoce de incêndios florestais. O aumento das temperaturas médias, os períodos prolongados de seca e os fenómenos meteorológicos extremos têm contribuído para incêndios cada vez mais violentos e imprevisíveis, particularmente em países mediterrânicos. Tradicionalmente, a deteção de incêndios dependia de vigilância humana, torres de observação ou alertas tardios da população. Hoje, drones equipados com câmaras térmicas, sensores atmosféricos e sistemas de visão noturna conseguem patrulhar áreas florestais extensas e identificar pequenos focos de calor, ainda numa fase inicial dos incêndios florestais. Quando combinados com inteligência artificial, estes sistemas tornam-se ainda mais eficazes, pois os algoritmos conseguem analisar continuamente imagens e dados térmicos, distinguindo automaticamente situações suspeitas das outras que representam simples variações naturais de temperatura.

A utilização de IA permite também prever o comportamento provável do fogo. Através do cruzamento de dados relativos à humidade do ar, velocidade do vento, temperatura, inclinação do terreno e densidade da vegetação, os sistemas inteligentes conseguem estimar a direção e intensidade da progressão das chamas, ajudando bombeiros e autoridades de proteção civil a tomar decisões mais rápidas e eficazes. Em cenários de incêndio extremo, esta capacidade de antecipação pode significar a diferença entre um incêndio controlado e uma tragédia humana e ambiental.

Os drones e satélites assumem igualmente um papel central na fiscalização ambiental. A monitorização tradicional do território enfrenta enormes limitações logísticas e financeiras, sobretudo em regiões remotas ou de difícil acesso. A observação aérea permite, com muito maior rapidez, precisão e cobertura territorial, identificar atividades ilegais. Através de imagens de alta resolução, sensores multiespectrais e sistemas automáticos de reconhecimento, torna-se possível detetar descargas poluentes em rios, emissões industriais ilegais, deposição clandestina de resíduos, extração ilegal de recursos naturais e destruição de habitats protegidos. Continuar a ler “A TECNOLOGIA AO SERVIÇO DA PROTEÇÃO AMBIENTAL- por Ricardo Amorim Pereira”

CAPA E FICHA TÉCNICA DA EDIÇÃO 36

Foto de Paulo Burnay

EDIÇÃO E PROPRIEDADE: Pencil Box – Multimédia, Ldª-

 ISSN 2184-0709

DIRECÇÃO: Júlia Moura Lopes

DIRECTOR ADJUNTO – Artur Manso

Logótipo e SEO : David Fernandes

Email: revista.athena2017@athena

Paginação Web: Júlia Moura Lopes

Apoio Web: David Fernandes e Luís Guerra e Paz

♣♣♣

COLABORARAM NA EDIÇÃO Nº 36

JUNHO DE 2026

CAPA  – FOTOGRAFIA DE PAULO BURNAY

EDITORIAL : OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos

COLABORARAM:

JOSÉ PAULO SANTOS, ADELINA ANDRÉS, ALEXANDRE TEIXEIRA MENDES, ARTUR MANSO, A. DA SILVAO, ANTERO DE QUENTAL, CARLA PEREIRA, CLAUDIA VILA MOLINA, FERNANDO MARTINHO GUIMARÃES, FRANCISCO FUCHS, GILLES DELEUZE, JOSÉ PAULO SANTOS, HENRIQUE MIGUEL CARVALHO, JAIME VAZ BRASIL, JULIO AMORIM, CARVALHO, LUCIO VALIUM, MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL, MONIQUE LIMA, RAUL ALONSO, RICARDO AMORIM PEREIRA.

EDITORIAL – OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos

Imagem do filme Blade Runner

Há épocas em que a técnica lidera e a cultura segue. E há outras — as decisivas — em que a técnica corre tão depressa que só a cultura a consegue deter para lhe perguntar: “para onde?” A Inteligência Artificial (IA) instalou‑se como mito e como motor. Mas é precisamente por isso que o nosso presente — e o futuro que já se escreve à nossa frente — precisa mais de filósofos, escritores, poetas, professores e artistas do que de mais linhas de código. Porque a técnica, deixada a si mesma, não sabe o que fazer com o humano; limita‑se a fazê‑lo funcionar. Shoshana Zuboff, professora emérita da cátedra Charles Edward Wilson da Harvard Business School e professora associada do Berkman Klein Center for Internet & Society da Harvard Law School, autora do livro “A Era do Capitalismo da Vigilância”, avisa: a lógica que alimenta a IA “não se contenta em automatizar fluxos de informação sobre nós; o objetivo agora é automatizar‑nos”, deslocando o poder do conhecimento para a modelação do comportamento.

A pergunta, por isso, não é “o que a IA pode fazer?”, mas “o que a IA está a fazer-nos?” Yuval Noah Harari, professor israelita de História, autor do livro História Breve da Humanidade, chama‑lhe uma “inteligência alienígena” que pode capturar a linguagem — e com a linguagem a lei, a política e, portanto, o poder. Desde 2023 que alerta para o risco de a IA dominar o ecossistema simbólico humano sem precisar de consciência nem de braços, bastando‑lhe a captura da nossa comunicação. Se o terreno da disputa é a linguagem, então os guardiões da linguagem — escritores e poetas — tornam‑se, de súbito, a linha da frente.

Nick Cave, de dentro da oficina de músico, traduziu esse sobressalto: chamar “canções” aos artefactos gerados por IA é “uma grotesca paródia do que é ser humano”. Não é purismo romântico; é diagnóstico existencial. Cave teme a “humilhação” da espécie quando deixarmos de valorizar a luta criativa e aceitarmos o que a máquina nos despeja porque é rápido, convincente e “utterly banal”. O que está em causa não é a substituição do artista, mas o rebaixamento do nosso padrão de sentido — e com ele, a nossa ideia de pessoa.

Contra este empobrecimento, a filosofia recorda que pensar não é apenas calcular. Byung‑Chul Han, o ensaísta que pôs nomes ao nosso mal‑estar digital, insiste: a IA “é incapaz de pensar” porque lhe falta o estremecimento anímico, aquela Síndrome de Stendhal, a negatividade, a demora — aquilo que antecede o conceito e funda a experiência. A sociedade de desempenho que mede tudo transforma o sujeito em dados; a arte, ao contrário, é o lugar do que resiste à medida. E é nesse espaço irrepetível que o poeta continua insubstituível.

O jornalismo pede provas e a cultura pode dá‑las. A UNESCO soou o alarme: sem políticas robustas, a difusão de conteúdos gerados por IA empurrará milhares de criadores para quebras de rendimento significativas já até 2028, ao mesmo tempo que intensifica violações de direitos e agrava a opacidade algorítmica. Não é apenas um problema social; é também político: a própria UNESCO acentua que precisamos de enquadramentos éticos no setor cultural e criativo para que a inovação não se converta em predação do simbólico comum. Continuar a ler “EDITORIAL – OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos”

COISAS DO (I)MUNDO. UM GRITO UM CLARÃO ESTA ESTRIDÊNCIA – Por Adelina Andrês

O Grito, by E. Munch (detalhe)

Grito!!! Declaro!!: eu quero um clarão nestas tenebruras do imundo mundo
Para limpar
Para ser um mundo não imundo
de Viver!!
VIVER quer dizer que é preciso clarear!
Clarear é dizer do coração
do umbigo não – por pouco ser para não ser!
Falar falarziiinho
desse umbigoziiinho para viverziiinho de certo errado jeitinho
pequeno
muito pequeno
pequenininho – que não é de criança pequena
Que É
Grande!
é outra coisa coisiiinha bajular bajulandiiinho.
Não! Não!! Não quero digo zangada. Não!! de zanga forte muito escuro
escuríssimo
e noite densa pesada sem estrelas a iluminar – não é a linda noite estrelada
que Van Gogh viu no escuro a brilhar intensamente a sentiu a existir
e a eternizar a pintou.
Tolos! Tolos!: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte…” é fala de tolos umbigos.
Umbigos de verdade não são esses
São aqueles centros lindos de corpos de dar trocar alimentar e bem partilhar
de mães terras crianças mundos limpos
a nunca precisar de limpar!
Em terra de cegos quem tem um olho é rei” – e vai cegar todos. Pode?! Ter poder de gostar de mandar o que é isso??!! Tolos tolos!!!
Jesus zangou-se no templo
com as vendas todas
vendas de vender negócios raseiros rasteiros negocioziiinhos
Levantou arrancou do chão as bancas de vender
das vendas
para tentar arrancar as vendas dos cegos
dos tolos
gente imunda
para limpar limpar esses imundos para serem!
Para serem mundos que é o que são!!
As pessoas são mundos
não são imundos
estão imundos!
É preciso limpar transparecer limpar corpos limpar tudo limpar olhos
Ver mundos!!…
Jesus zangou-se
ou quis mostrar zanga!? linguagem imunda
para os imundos do mundo olharem ouvirem entenderem
porque só se entende a mesma linguagem mostrada falada
E é preciso às vezes falar outra aquela língua imunda suja
com crostas de sangue seco parado peganhento que cola que se pega
do que se matou que se derramou
e a seguir secou.
Pena. Pena! Não leve, mas muita pesada pena
que sangue é vida limpa corrente a sempre correr a vivificar fazer viver
Sangue limpo a percorrer os íntimos lindos livres corpos mundos
de Viver.
Imundos para limpar não sabem não lembram?… Não entendem?!…
É a língua do imundo
imunda língua a gritar estrondar para parecer.
Tantos (i)mundos corpos parados presos a gritar para parecer!!
Triste triste coisa que só parece viver.
Tanto tanto escondido apertado parado vendado
a querer vendar só para não ver.
Para impedir para não deixar outros limpar.
Para não deixar mundos aparecer.
Para impedir a vida de ser!!
É preciso gritar para não deixar para se fazer entender?!!…
Gandhi calou calou
e depois gritou para viver.
Para viver calou calou e gritou e sacrificou se sacrificou…
Eu não quero mais menos precisar gritar calar e sacrificar.
Quero vassouras detergentes carpex para limpar.
Limpar sem aspirar
aspiradores de inalar o sujo não!! Para não deixar o sujo entrar a conspurcar.
Quero arrancar crostas sujas paradas velhas! Velhas!
Velhas não são antigas…
As antigas de verdade são lindas
São as antigas de tempos idos que vieram antes
e invisíveis agora e sempre estão estarão sempre aqui.
Venham tempos da não história
Venham apareçam se desvendem se revelem se mostrem mundos
os mundos limpos
corpos mundos não maculados da não história
Venham todos os mundos deste mundo não contado não gritado não ouvido
Venham contar essas essa história
Venham todos ou alguns desde que sejam mundos contar!
Contem as histórias a história que não ensinam nesta escola
Venham outras escolas sem escola contar estas outras histórias da árvore das coisas da vida antes de arrancar a maçã para guardar para si para não dar aos outros “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não tem arte”?!!…
Um burro é uma coisa mundo vida linda
e por estar neste aqu(i)mundo
se contagia imundo
porque está sujo porque é animal domesticado não livre.
É bom ser burro não imundo ser mundo!!
E arte é coisa linda porque é criar ser criador é criação
por isso é bom ter arte Arte
não arte daquela que não é Arte
mas é artifício manha perfídia
sem ser de serpente
Porque serpente é ser mundo!!
Quando a Eva ou quem quer que a quis colheu a maçã
começou aí a história contada
porque roubou retirou privou de todos a maçã.
A maçã fruto proibido é o mundo roubado colhido depravado
Privado
só para poucos muito poucochinhos
só para um e dois e três…
Os outros mundos todos ficaram proibidos ficaram sem maçã
ficaram imundos
e a Eva e o Adão também ficaram.
Porque partiram e repartiram e acreditaram que ficaram com tudo com a melhor parte
mas ficaram como os outros a quem privaram
Ficaram igual.
Todos mal mal.
Todos rotos corrompidos sujos por dentro e por fora!…
Mas um bocado um bocadinho muito lá dentro
limpos
porque muito muito lá dentro
bem guardado lá nos fundos fundos fundos
continua a haver há sempre mundos mundos mundos.
E a serpente nua enrolada
com a cabeça para cima
para o alto
com dois olhos de brilhar
de olhar
mais alto
muito muito muitíssimo mais mais alto
que a altura da árvore da vida do mundo da maçã,
e que estava lá,
não sabemos bem como disse como falou como fez
– se disse gritou imundo, ou se calou apenas mundo.
E isso porque a história contada gritada por todos
para todos os (i)mundos
é a história única escrita legitimada ouvida reproduzida ensinada.
E todos quase todos dizem pensam creem não duvidam
até matam queimam esfacelam e esfolam quem duvide
e portanto por tanto por tão pouco mesquinho de medo incessante miudinho
ninguém duvida ninguém diz.
Mas esta é só a história depois do mundo,
do (i)mundo sujo por isso condenado
condenados os mundos depois imundos Eva e Adão
“parirás os teus filhos com dor” e
“comerás o pão com o suor do teu rosto”.
Passaram então estes antes plenos mundos
a depois tristes imundos
condenados a sofrer a fazer sofrer e a sofrer mais por isso.
Porque ficaram todos com crostas de sujo imundo
que cobriram taparam vedaram e vendaram um olho. A todos.
E como quem tem um olho só pode ser rei ter esse poder de mandar
se os outros todos forem todos cegos todos todos
logo alguns poucos se gastaram se esgotaram e desonrosamente se finaram
a tentar cegar os outros muitos.
E a história escrita nos livros contada e ensinada em tudo e na escola
mostra como tem sido sempre assim neste (i)mundo, até hoje:
uns poucos que têm um olho que querem ser reis de mandar
lutam lutam com muitas todas as armas todas as forças
para cegar o olho dos outros muitos todos.
E incessantemente se batem em angustiante sempre vigilante desespero
tanto afã tanta infatigável incansável ingloriosa canseira
para os outros muitos todos não lhes cegarem o olho único deles
se não não poderão estar reis de mandar.
Neste (i)mundo a história conta ensina estes e outros falsos feitos heróicos
e até o alimento (im)porta para a vida
se for duro duro sofrido muito penosamente conseguido “com o suor do rosto”
E o humano corpo quase todo (i)mundo
que devia todo todo ser mundo
se elogia se venera e se enaltece porque é “muito tão trabalhador”
que quer dizer
sofrido sofrido pesado pisado sacrificado mortificado dorido.
Quando outra porta se abre
para outra vida humana munda um mundo entrar neste (i)mundo,
logo se inicia o sofrimento enganado acreditado venerado “parirás com dor”
A mulher grita dor! Dor!! Dor!!!…
contorcida alto forte insuportável insuperável demorado demorado lancinante
e fica dias dias longos longos a sofrer a suportar a padecer.
A criança munda entra a não reconhecer a (des)conhecer o mundo
a conhecer o (i)mundo
e a (des)aprender a vida de verdade de fruir usufruir se deleitar e criar.
Quando for grande
só até ao umbigo de medir contar contabilizar contabilizarziiinho
aquele umbiguinho de viverziiinho de certo errado jeitinho
que não é o umbigo de Vida de verdadeiramente Viver
este de unir ligar alimentar e creScER.
Quando for assim grande tão anã tão pequenina
irá final(mente) em verdade (i)merecidamente descansar
a enterrar a incinerar a sair partir pessoa inteira ir embora
E outros a assistir a ficar
a chorar porque ainda imundos porque ainda a penar
E todos a dizer a esforçar e a acreditar louvar:
foi um bom trabalhador de suar suar suar!!
Tão certa tão pouco acertada certeza tão errada erradíssima neste (i)mundo
e tanto tanto muito muito
a lamentar
no caminho meta da Vida
cegamente a acreditar a fazer acreditar numa outra enganada poderosa
meta pequenina
possuir toda a maçã
que é a melhor parte
e com lutas manhas artifícios
proibir aos outros
nunca partilhar
porque é o fruto proibido legitimamente anunciado
e tão reconhecidamente acreditada nunca duvidada a inevitabilidade de parirás os teus filhos com dor e trabalharás com o suor do teu rosto o pão que o diabo amassou.
Isso é o que a história conta. Diz que é o início.
E é o início do (i)mundo…
Antes não seria assim…!!?…
E quem conhece a história do antes toda, porque a-final estava lá, é a serpente!!…
Qualquer dia, um destes dias, ela vai contar…

♦♦♦

Adelina Maria Granado Andrês nasceu no norte do país e aí vive,  em vizinhança próxima com o mar de Gaia e pelo interior transmontano. É docente do ISCAP-P.Porto. Os seus interesses focam-se no pensamento e na obra de Agostinho da Silva e para além do ensaio, dedica-se a outros tipos de escrita, sendo autora de livros infantojuvenis, poesia e prosa poética.

MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) I – por Alexandre Teixeira Mendes

Jesué Pinharanda Gomes no Centro de Estudos com o seu nome, em Sabugal (Foto CMS)

– trajectória mística carmelitana e aristotélica-tomista

“(…) não será esta a experiência essencial do pensamento como da escrita, a da meditação escutante (…) do seu dito e do seu não-dito (…)”

Fernando Belo, Heidegger pensador da terra, APF, Coimbra,1992, 32.

 «O Novo (Testamento) está oculto no Antigo, e no Novo o Antigo se torna patente»

Sto Agostinho, Quaestiones in Heptateucum, 2, 73, PL 34, 623.

1. Duas tendências se evidenciam muito cedo no percurso especulativo de J. Pinharanda Gomes (1939-2019) – a mística carmelitana e o aristotelismo-tomista – que (re) colocamos em discussão. Ora, a obra do nosso autor é, definitivamente, o exemplo maior da meditação “escutante”. Mas desde já devemos interrogar-nos sobre o exprimir teológico (“theologikos”) ou perguntar-nos acerca do “silogismo” teológico. Apraz-nos sublinhar – sumariamente – que a tradição metafísica portuguesa, como tantas vezes já foi dito, desenrolou-se fundamentalmente à sombra do “magistério” aristotélico-tomista. Torna-se claro, a partir dos primeiros enfoques literários-filosóficos de J. Pinharanda Gomes, numa espécie de criação isolada e testemunhal, a interpelação por uma muda vox Dei, sendo evidente a sintonia com o depositum fidei  – na reverência romano-católica –  sobre o pano de fundo da kenosis –  morte da cruz e encarnação. Já no relevo da mensagem e da tradição cristã –  e, por sua vez, do vínculo à filosofia moderna portuguesa – decididamente – na assimilação dos exemplos significativos da tradição da  “Escola Portuense” (a aliança de Bruno (José Pereira de Sampaio)  e da geração do 57 achar-se-á através do “mestrado” dos discípulos de Leonardo Coimbra. Também com um empenhamento público –  frutuoso – com o carmelitismo laico (V. Manual da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços, Edições Carmelo, 1983).  Mas como interpolar num curto excurso o escritor eclesial, o filósofo e o hermeuta, na sua generalidade, aqui subentendido, o teólogo sob o signo da metanóia centrada no homem do VIII dia? E quem ignora esse seu pendor de doutrinário e de historiador-sistemático da filosofia portuguesa e entre essas duas vertentes primaciais: a consideração de um filosofar metafísico ou situado e o confluir ou desembocar numa teologia do mysterium crucis e de busca da “presença divina”? Apoiando-se, no sentido mais restrito e gradual, na filosofia bergsoniana – da apreensão do “vir-a-ser” de “Pensée et le Mouvant” – e mais sistematicamente ou persistentemente da influência da “Razão Animada” de Álvaro Ribeiro  – é muito significativo a este respeito o livro “Pensamento e Movimento (Prolegómenos a uma Filosofia Ascética)” (Lello & Irmão- Editores, Porto,1974) que trouxe à superfície a  problemática da principialidade da filosofia. A preocupação básica foi a de mostrar o nexo entre culto e cultura e do circuncrever, necessariamente, a “visio compreensionis” e a “visio cognitionis”? Um mês antes de falecer,  a 27 de Julho de 2019, J. Pinharanda Gomes lançou, na cidade do Porto,  o livro “Leonardina – Estudos acerca de Leonardino Coimbra” (Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 2019) onde reuniu os seus escritos em torno do filósofo de “A Alegria, a Dor e a Graça”, com quem estava intimamente familiarizado. A filosofia do autor de Notas sobre a abstracção científica e o silogismo surge-nos caracterizada – como foi parcialmente sugerido, validamente, – por uma polaridade essencial ou duplicidade de dons –  coincide com o acráta  e o metafísico  –  o precursor do “existencialismo” cristão ou o formulador (no sentido distintivo do termo) do  “nocionismo”. Ainda mais apreciada é a centralidade da crítica e denúncia do positivismo que se abstrai sistemáticamente das consequências da cousificação e através da assunção do conceito de “vício cousista”. Relevo também e sobretudo para a vertente da “filosofia religiosa” assente fortemente – no entender de Sant`Anna Dionísio – num optismo levitante (Leonardo Coimbra, Pensamento e Drama, Lello & Irmão- Editores, Porto, 1983, pág.39). “A filosofia ciacionista – escreveu ainda Delfim Santos – não é só teoria e crítica do conhecimento, mas exigência de promoção valorativa do concreto, cujo mais alto nível é a pessoa” (Prefácio XII in O Criacionismo (Síntese Filosófica), Livraria Tavares Martins/Porto, 1958). Continuar a ler “MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) I – por Alexandre Teixeira Mendes”

O ERRO SISTEMÁTICO – por A. DASILVA O.

by Şahin Doğdu

Estou farto de fazer contas à vida
Pelas horas mortas
Todos rezam ninguém tem acção
A moral dum homem estátua

Sentado numa praça pública observo uma gaivota a esventrar o cadáver
dum sem abrigo

Um quebra ossos tenta pousar na minha cabeça mas pica-se nos implantes espinhos  de aço

Os transeuntes em choque vomitam vídeos nas redes sociais
Alguém diz que a culpa é da IA

♦♦♦

a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita atualmente a revista Estúpida.

BAÚ DA POESIA – de Antero de Quental

Antero de Quental (1842- 1891)

Na Mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente! Continuar a ler “BAÚ DA POESIA – de Antero de Quental”

O ESTADO NÃO É MEU DONO – por Artur Manso

O objetivo dos Governos é sempre o mesmo: limitar o indivíduo, domesticá-lo, subordiná-lo, subjugá-lo.

Max Stirner

◊◊◊

Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.

Agostinho da Silva

Não há dúvida que o indivíduo, por si só, não tem qualquer hipótese de sobreviver, morrerá poucas horas após ter olhado o lugar que passa a ser seu. Não há qualquer dúvida, também, que com a massificação das democracias de tipo ocidental, o Estado passou a ser, em nome de um bem maior que tarda a perceber-se qual seja, o “pai omnipotente” de todos e todas. Não podemos escolher como nascer nem como queremos ser educados. Não podemos escolher o que fazer com o nosso único bem, o nosso corpo. Não podemos escolher como morrer. Para tudo o Estado impõe uma maneira própria, universal, de nos entendermos e nos resolvermos, individual e coletivamente. O Estado em prol da liberdade que não nos consente, obriga-nos a ser submissos a um conjunto de normas e valores que decreta, diz, em nome do bem comum. Continuar a ler “O ESTADO NÃO É MEU DONO – por Artur Manso”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

 

COMBATE DE DOMINGO À NOITE

vesti-me a rigor
calcei os sapatos mais elegantes para os meus pés
algum pó-de-arroz – no convite dizia ser necessário disfarçar
a escorregadia humanidade – e finalizei com o
batom vermelho e impostor
a horas quase no ponto e
a sala de combate cheia
um assento bastante enfeitado
para meu lugar – há sempre um tolo que desconhece o fingimento humano –
e no ringue dois lutadores
meus conhecidos
corei assim que os vi – bendito pó-de-arroz a encobrir o meu próprio desleixo –
no canto direito
a montanha de mil toneladas
com o seu cume irrompendo geometricamente o céu
centímetros e mais centímetros de ascensão lógica
o topo brilhando de ideias e reminiscências
atacava com interrogações da existência e
defendia-se com lanças carregadas de verdade
num golpe mais ousado gritou – Sein und Zeit – mas
imediatamente se desfez num deserto longínquo e inanimado
– fosse a cena diferente e diria: Heraclito, estavas coberto de razão –
e o árbitro apitou o final do primeiro round

a sala de combate cheia
silenciosa
à espera
gotas de suor resvalavam pelas faces sérias

iniciou-se o segundo round
o lutador dos mil tentáculos manteve-se
firme à esquerda
pediu ao adversário que se levantasse – não contava ganhar tão facilmente –
mas já eu aplaudia o vencedor
perguntei ao homem sentado ao meu lado – porquê tanto espanto?
e digo-te mais Wittgenstein: o meu mundo não tem limites –
ou não vês como são infinitas as minhas palavras? –

a sala de combate vazia
somente eu aguardava o vencedor
limpei dos lábios o batom vermelho
e mostrei todas as minhas imperfeições

saio esplendorosa na fotografia
tirada ao combate do último domingo à noite. Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

RESENHA de Claudia Vila Molina do livro “Solo el Naufragio”, de Carlos Roberto Gómez Beras –

Reseña del libro de poemas Solo el naufragio (2018) de Roberto Gómez Beras

Somos habitantes de la soledad

 

El libro Solo el naufragio está compuesto por diversas secciones y contempla diferentes temáticas y ellas son: Los naufragios, La pirámide saqueada, Ese otro cólera, Mi hija conversa con su destino, Suite japonesa de siete movimientos, Seis Antipoemas para una poeta y mediante ellas, el poeta Roberto Gómez Beras expresa su sentimiento y formas de expresión lírica.

En Los naufragios se entreve una imagen del ser humano con su propia tragedia a cuestas. Esto implica la tragedia de existir; porque el hombre, a pesar de ser bendecido por una vida plena con diferentes tipos de afectos; en primera instancia, él está profundamente solo.  En vista de esta afirmación, el poema que abre el libro, titulado “Solo el naufragio” alumbra a los lectores como un faro e indica, en mayor o menor medida, el desarrollo de la postura poética de Gómez Beras; sobre todo cuando señala: “A la deriva de las promesas incumplidas/ de las amenazas que fueron apenas/ espuma y aullidos en la boca de un paria” (19). En estos versos predomina el sentimiento de un transeúnte de la vida, que ha sido golpeado por ella y trata, por todas las vías posibles, de defenderse de ese exterior que simboliza un peligro o sea el hablante es vulnerable frente a “eso” externo que lo deprime. Del mismo modo, Gómez Beras expone un hablante lírico ajeno y solitario, en una determinada noción de estructura socio histórica y cultural, por esta razón se defiende por medio de su palabra y para ello adquiere un tipo de animalización que se concentra en el aullido. En el mismo verso, la espuma es un elemento cercano a lo evanescente o a aquel significado imposible de asir.

En El regreso a Ítaca y Los náufragos emerge una idea central que sobresale en todo el poemario Solo el naufragio y está constituida por la noción de la vida y la muerte, como dos ámbitos que se atraen y se repelen, por ejemplo, en los versos siguientes: “Vivir la muerte”: “Vivir la muerte… /para que sienta lo que es dejar atrás todo/ lo que nos extrañará y preguntará por nosotros/cuando la última de las alegrías nos secuestre” (Gómez Beras, 22), o en “Un hombre muere”: “un hombre se ausenta y con él, algunos, moriremos también pero no de abismo sino de aceptar que algo, como la piedra milagrosa lanzada por una honda, no volverá nunca más pues hay ciertas cosas que no conocen su origen” (25). En el limbo existente entre ambos aspectos, las representaciones de la vida y de la muerte son imágenes potentes, por esta razón, el acto de sobrevivir se convierte en una tarea compleja, dentro de toda esta debacle.

En otras palabras, en esta propuesta del oxímoron, el poeta atraviesa estos dos territorios y se alberga, finalmente, en un “no lugar” incierto y peligroso. Así se demuestra en el poema Uno de Los Náufragos: “Como un barco que se aleja/ la vida sigue su rumbo cierto al azar/ mientras nos distancia de nosotros mismos” ( Gómez Beras, 121) o “Somos los testigos impávidos de todo lo que nos pertenece/ pero al alcanzarlo ya no lo poseemos” (121). Es decir, el hombre está cercano al abismo, en un terreno cenagoso que nosotros como seres humanos no podemos precisar y por lo tanto, nuestro avance por estos caminos se define mediante la indeterminación. La dualidad comentada forma una imagen que avanza tanto desde la palabra, como desde los silencios y alumbra ciertos sectores borrosos, nublados o entrevistos para que nosotros como lectores, quizá algún día logremos asir.

La idea mencionada, igualmente, se identifica con ese sujeto que interiormente está pregonando ciertas verdades incómodas que fracturan, justamente, el exterior o lugar en que el hablante se siente amenazado. En los versos que siguen:” ¿Quién vengará nuestros sueños?/ Quién ordenará nuestro crimen/ Quien pulirá nuestras dos fechas?” (Gómez Beras, 19). El ser humano frágil, observado desde la vulnerabilidad descrita, busca a un otro o un espacio místico apropiado. Así, salta a la vista el llamado interior que surge desde la profunda humanidad del hombre desbastado, hacia un espacio místico y espiritual que pueda brindar nuevas posibilidades, dentro del entorno complejo donde este vive.  Dicho de otra manera, el hombre necesita que alguna entidad mística actúe sobre este orden socio cultural e histórico inseguro y sea capaz de transformar nuestra noción compleja de realidad.

Sin embargo, del mismo modo, el aspecto nietzscheano encontrado en el poemario anula toda posibilidad de un presente y futuro más auspicioso; por el contrario el ser humano debe contentarse con la realidad que le ha tocado asumir y debe sobrellevarla de alguna manera o dejarse imbuir en la tragedia de la vida: “Han pasado algunos años desde la muerte de mi madre. Despedirse es siempre una gesta que no termina” (Gómez Beras, 107). En este derrumbe, la imagen controversial de Dios se quiebra; tal como se percibe en PATER NOSTRUM: “Padre que no estás en el cielo ni en la tierra sino en el mar sin dios de la nostalgia. Sólo recuerdo tu nombre secreto cuando el puñal de una melodía se me clava lentamente en un costado” (Gómez Beras, 20). El ser humano no logra encontrar respuestas y en torno a ello, la palabra como tal es insuficiente o no logra satisfacer del todo al hombre agónico, frente al desconsuelo.

Igualmente, los cuestionamientos que expresa el hombre (en sí mismos) conforman una quebradura o tensión en nuestra vida; por esta razón, el poeta pregunta al aire, al vacío, sin esperar respuestas y ello se observa en Ícaro: “¿Qué es caer?/¿Hasta dónde cae el cuerpo?/¿Hasta el pudor?/ ¿Hasta dónde cae el alma?/  ¿Hasta el olvido? /¿Cuál de los dos toca suelo primero? /¿Caemos desde la carne o desde el deseo?” (Gómez Beras, 62). Estas interrogantes inmensas aluden, en principio, a un complejo concepto del vacío o también referido como “no lugar”, porque cuando caemos nos apartamos de un terreno seguro e identificado para hallarnos en una región desconocida, espacio o mundo difícil de reconocer. Por esta razón, la caída supone un movimiento y ese tránsito es indefinible por sí mismo, a la vez, estas preguntas se asocian con diversas regiones o pulsaciones del hombre y se mencionan a través de los vocablos: “cuerpo”, “pudor”, “alma”, “olvido”, “carne” y “deseo”. Siguiendo este razonamiento, el deseo transita junto con la muerte, es decir, al pie del deseo la muerte lo espera, como diciendo que desde el éxtasis de la vida surge la aniquilación.

Según este punto de vista, podríamos estar aquí en la vida o allá en la muerte. Dörr señala que: “La raíz etimológica de thanatos es tha y la única otra palabra griega con la misma raíz es thalamon, el tálamo nupcial. El thalamon es el lugar de la casa donde habita la esposa y es la habitación más central, pero también la más oscura. Thanatos o la muerte aparece vinculada entonces, por un lado, a la oscuridad y al encierro y, por otro, a la mujer y al amor” (190). Es decir, el devenir del hombre siempre está unido a estos dos conceptos ( vida y muerte) y él está obligado a transitar por estos dos ríos caudalosos y turbulentos. Esencialmente, el acto sexual constituye un ritual profundamente místico y paralelo a la creación del mundo, con relación a la capacidad de generar vida humana. Al mismo tiempo, nuestra delicada existencia es proclive a la muerte y en este aspecto, el ser humano es una entidad frágil necesitada de respuestas y apoyos divinos, debido a todos los vacíos e incongruencias de la vida.

En concordancia con lo anterior, el poeta inventa una nueva noción de “dios” y esta imagen es visible, sobre todo en El regreso a Ítaca, pues el nuevo arquetipo suple a la concepción perfecta, inmaculada e inalcanzable del Dios histórico y bíblico. Esto significa que, al hablante de Solo el naufragio le es más sencillo entablar una relación con otro tipo de entidad, mucho más cercana a él; y apegada a nuestra naturaleza humana insuficiente y perfecta a la vez, o “dios primitivo y sediento” diría en “Alejandría”: “Ahora tu cuerpo sin manchas/será ofrenda y carroña/ para esta nueva fe/ de un dios primitivo y sediento, /pero sabemos que no te irás/ porque una vez nos dijiste /que los astros más distantes /sólo muestran sus presagios /a través de la oscuridad /de los espesos siglos” (Gómez Beras, 116-117). En los versos citados, existe un reemplazo de la imagen de Dios mencionada, la cual se alza sobre la existencia del hombre y de la mujer y esto resulta en una representación de un “dios” sensorial vinculado con el deseo y la carnalidad, con lo pedestre, cotidiano y agónico.

Referencias bibliográficas

Otto, Dörr. “Eros y Tánatos”. Salud Mental, No. 3, 2009, pp. 189-197.

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Claudia Vila Molina, poeta, profesora de lenguaje y Magíster en Literatura Comparada

Uma aproximação a O Último Século Humano, de César Alves – por Fernando Martinho Guimarães

Uma aproximação a O Último Século Humano, de César Alves#

 

O Último Século Humano é a estreia literária de César Alves. E é um livro de ficção científica.

O prefácio que abre o livro diz-nos que se trata de um “romance distópico que atravessa cinco gerações de uma família portuguesa”: Tiago, que nasce em 1974 e vive em Braga; Lucas, o seu filho, cresce entre ecrãs e algoritmos; Daniel, neto de Tiago, vive num mundo em que o virtual se confunde com o real; Liam, o bisneto, é o último nascido fora da rede; por fim, Noah, o trisneto, é o resultado da manipulação genética. Continuar a ler “Uma aproximação a O Último Século Humano, de César Alves – por Fernando Martinho Guimarães”

UM ESTRANHO ASCETISMO, por GILLES DELEUZE – TRADUÇÃO DE FRANCISCO TRAVERSO FUCHS

 

Um estranho ascetismo, por Gilles Deleuze

Tradução de Francisco Traverso Fuchs

Nietzsche sabia bem, por tê-lo vivido, o que constitui o mistério da vida de um filósofo. O filósofo apodera-se de virtudes ascéticas — humildade, pobreza, castidade — para fazê-las servir a fins inteiramente particulares, inauditos, muito pouco ascéticos na verdade.[1] Ele faz delas a expressão de sua singularidade. Elas não são para ele fins morais, nem meios religiosos para uma outra vida, mas antes os “efeitos” da própria filosofia. Pois não há, em absoluto, outra vida para o filósofo. Humildade, pobreza e castidade tornam-se, a partir de agora, os efeitos de uma vida particularmente rica e superabundante, potente o bastante para ter conquistado o pensamento e subordinado qualquer outro instinto — o que Spinoza chama de Natureza: uma vida que já não é vivida a partir da necessidade, em função de meios e de fins, mas a partir de uma produção, de uma produtividade, de uma potência, em função das causas e dos efeitos. Humildade, pobreza e castidade são a maneira característica do filósofo de ser um Grande Vivente, e de fazer de seu próprio corpo um templo para uma causa demasiadamente orgulhosa, rica e sensual. […] É nessa perspectiva que a solidão do filósofo ganha sentido. Pois ele não consegue integrar-se em nenhum meio, ele não serve para meio algum. Não há dúvida de que é nos meios democráticos e liberais que ele encontra as melhores condições de vida, ou melhor, de sobrevivência. Mas esses meios são, para ele, apenas a garantia de que os maus não poderão envenenar nem mutilar a vida, separando-a da potência de pensar que conduz um pouco mais longe do que aos fins de um Estado, de uma sociedade e de todo meio em geral. Em toda sociedade, mostrará Spinoza, trata-se de obedecer e nada mais: eis porque as noções de falta, de mérito e de demérito, de bem e de mal, são exclusivamente sociais, dizendo respeito à obediência e à desobediência. A melhor sociedade será, portanto, aquela que isenta a potência de pensar do dever de obedecer, e se abstém, em seu próprio interesse, de submetê-la à regra do Estado, que só vale para as ações. Enquanto o pensamento é livre, portanto vital, nada é comprometido; quando ele deixa de sê-lo, todas as outras opressões são possíveis, e já realizadas, qualquer ação torna-se culpável, e toda a vida, ameaçada. É certo que o filósofo encontra no Estado democrático e nos meios liberais as condições mais favoráveis. Mas em nenhum caso ele confunde seus fins com os fins de um Estado, nem com os propósitos de um meio, uma vez que solicita no pensamento forças que se furtam à obediência como à falta, e erige a imagem de uma vida para além do bem e do mal, rigorosa inocência sem mérito nem culpabilidade. O filósofo pode habitar diversos Estados, assombrar diversos meios, mas à maneira de um eremita, de uma sombra, viajante, locatário de pensões mobiliadas. Por isso não se deve imaginar Spinoza rompendo com um meio judeu supostamente fechado para entrar em meios liberais supostamente abertos, cristianismo liberal, cartesianismo, burguesia favorável aos irmãos de Witt… Pois, para onde quer que vá, ele não pede, ele não reivindica, com maior ou menor chance de sucesso, senão ser tolerado, ele mesmo e seus fins insólitos, e julga por essa tolerância o grau de democracia, o grau de verdade, que uma sociedade pode suportar, ou então, ao contrário, o perigo que ameaça todos os homens. […] É preciso compreender como um todo o método geométrico, a profissão de polir lentes e a vida de Spinoza. Pois Spinoza faz parte dos viventes-videntes. Ele mesmo diz que as demonstrações são os “olhos do espírito”.[2] Trata-se do terceiro olho, aquele que permite enxergar a vida para além das falsas aparências, das paixões e dos mortos. Para uma tal visão são necessárias as virtudes, humildade, pobreza, castidade, frugalidade, não mais como virtudes que mutilam a vida, mas como potências que a esposam e a penetram. Spinoza não acreditava na esperança e nem sequer na coragem; ele só acreditava na alegria e na visão. Ele deixava os outros viverem, desde que os outros o deixassem viver. Ele queria somente inspirar, despertar, fazer ver. A demonstração como terceiro olho não tem por objetivo comandar, e nem mesmo convencer, mas apenas fabricar a luneta ou polir a lente para essa visão livre inspirada. «No meu entender, vejam, os artistas, os sábios, os filósofos parecem muito ocupados em polir lentes. Tudo isso são vastos preparativos visando um acontecimento que não se produz jamais. Um dia a lente será perfeita; e nesse dia nós todos perceberemos claramente a assombrosa, a extraordinária beleza deste mundo…» (Henry Miller).

♦♦♦

DELEUZE, Gilles. Spinoza, Philosophie pratique. Paris, De Minuit, 1981 (1970), pp. 9-11/23-24. Tradução minha. Versão revisada da colagem de três trechos do primeiro capítulo que publiquei pela primeira vez em 13 de maio de 2004.

♦♦♦

Sobre o tradutor:

Francisco Traverso Fuchs formou-se em História pela UFF, é mestre em Filosofia pela UFRJ e atua como pesquisador independente. Em setembro de 2025 lançou o site ponto cinza, onde tem um blogue e está começando a reunir sua produção.

[1] Nietzsche, A genealogia da moral, III.

[2] Tratado teológico-político, cap. 13; Ética, V, 23, escólio.

METEOROLOGIA – por Henrique Miguel Carvalho

CIÊNCIA

da história
………………os círculos
tocaram de perto
………………..o que sou,
………………..em um apogeu

de profecia —
………………..alcançou-me
o futuro
……………..onde previsto
……………..eu era estar

ermo, na praia,
……………….frente
à bruma,
………………por sobre
………………o mar

— ainda o vi,
……………….onda breve
que se anunciara,
mas só
……………….nos olhámos
……………….de relance

as mãos
……………… abertas,
de par em par
— sabia
……………….o que o esperava,
……………….ciente

habitual
………………do que viria —
que eu partia,
………………por passos
………………de areia

longe, de novo,
………………a divagar,
por passos
de areia,
………………que a maré
………………há de apagar

— e os
……………..distraídos,
as mãos
……………..pendendo
……………..dos braços

absortos
…………….por saber
se o Sol,
…………….indução perfeita,
continuará
…………….a erguer-se
…………….de manhã

com se
…………….por hábito
adquirido
— que eu,
……………por minha sorte,
……………sigo, lateral

ao destino,
……………em dunas
varridas
de vento,
…………..alto, por sobre
…………..o tempo

vendo
…………..e revendo
o que é
…………..e de igual não é —
numa simultaneidade
…………..estranha,
convoluta,
de que falara
………….o filósofo
………….enlouquecido

e o que
………….soube
desaprendi,
………….pelo ser
………….impredicado

liberto
…………..de contingências,
e livre,
…………..finalmente,
…………..de certezas Continuar a ler “METEOROLOGIA – por Henrique Miguel Carvalho”

PARTES E PARTIDAS – por Jaime Vaz Brasil

Partes e Partidas

 

Uma parte me renasce depois de cada partida. Outra morre mais pouco no colo das despedidas. Parte de mim se partiu e me guardou em pedaços. (Como se um quebra-cabeça fosse o mapa dos meus passos.)

São partes, bem mais que duas
no mesmo corpo escrevendo

um verso dentro do outro
em língua que não entendo.

Parte do que sou, partiu
pra longe de mim, um dia.

(Mas seu olhar, no adeus
me avisou que voltaria.)

Uma parte, sempre parte.
Outra parte, vai ficando:

uma sempre faz a cama,
a outra ensaia seu quando…

São partes, bem mais que duas
mais que duas, muito mais

compondo dentro da gente
diferenças tão iguais…

Por isso tudo se encontra
em cada parte perdida.

(Aprender nessa procura
é o trabalho de uma vida.)

Por isso, aos poucos, o tempo
nos desenreda e nos faz

abraçar parte por parte,
deixá-las juntas e em paz.

♦♦♦

Jaime Vaz Brasl–Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.