EDITORIAL – ONDE ESTÁ A SABEDORIA? – por Artur Manso

                                         

Escuta e serás sábio. O começo da sabedoria é o silêncio.
Pitágoras

Eu não procuro saber as respostas,
procuro compreender as perguntas.

Confúcio 

Na tradição judaico-cristã os Livros Sapienciais são sete: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico. Uns são de maior extensão, outros de menor. Uns são mais introspetivos e centrados no sujeito, outros abertos à comunidade. São livros de ajuda a si mesmo, melhor dito pertencem ao grupo de leituras e meditações que os gurus atuais da autoajuda, os poucos que realmente conhecem a tradição, com milhões de likes e seguidores, reproduzem nos seus catecismos de forma ardilosa, sem citar as fontes. Não as ignoram é certo, e as suas obras seriam bem mais pobres no seu desconhecimento. Os livros sapienciais, não se encontram apenas nas religiões, eles percorrem todas as tradições e culturas, e a mentalidade ocidental, desde sempre relativizou os seus conteúdos e respetivos ensinamentos, porque na verdade poucos eram os que sabiam ler e a mensagem chegava sempre deturpada de acordo com os interesses de quem exercia o poder: as Igrejas e os Estados. Assim, de acesso a muito poucos, iam repousando sem serem abertos não só os livros sagrados, mas os de toda a tradição: Bhagavad-Guitá, Vedas, Sócrates/Platão, Séneca, Marco Aurélio, Confúcio, Buda, Jesus, Agostinho de Hipona, Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Ramakrishna, Ghandi e alguns outros, não muitos, que a verdadeira Sabedoria é um privilégio de raros. Continuar a ler “EDITORIAL – ONDE ESTÁ A SABEDORIA? – por Artur Manso”

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (IV). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (II) – por Adelina Andrês

 

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (IV). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (II)
Conclusão

Naquela noite muito estrelada, a Lua acendera-se redonda toda…

Maria pressentia conhecia já sabia… José tentou esconder o desespero que o invadia demasiado todo, e logo logo depressa apressou o passo do burrito. Ao mesmo tempo fugaz e lancinantemente, aos seus olhos ofereciam-se num ápice dois ápices três ápices e num só e mesmo ápice todas as possibilidades de abrigo e aconchego que já não podiam esperar!! Nem um curtinho segundo!! Não podiam esperar nem um curtinho segundo!!… Nem sequer as reticências que nem deviam nem podiam aqui estar!! Mas ficam!

Naquele ápice que incluiu os outros todos, mas todos ao mesmo tempo que foi tão curto que nem interessa contar contabilizar, José vislumbrou um abrigozito de animais… Que bom que bom é mesmo bom!!!… Tem até uma manjedoura com palhinha que será berço do Menino! E animais burro vaca para acompanhar aconchegar – cabem cabemos todos aqui neste lugar… Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (IV). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (II) – por Adelina Andrês”

ANTÓNIO TELMO OU RAFAEL SANZIO E A PINTURA DO (IN) EXPLÍCITO – por Alexandre Teixeira Mendes

A filosofia e os seus nexos latentes e não – ditos

Rafael Sanzio

Hesitar-se-á em admitir a amplitude alusiva-metafórica, simbólico-mística ou supra-histórica de “A Escola de Atenas” de Rafael Sanzio (1483 – 1520)? Já que o afresco, tal como nós o conhecemos, não cessa de interdizer (nos) ou apresentar (nos) visual e pictoricamente uma actividade intelectual – sintomaticamente –  a filosofia. Como, pois, intérprete da alegoria – ou seja emerso nas “projecções” das práticas vivas dos filósofos reais – livres – persistindo em se conformar ao delineado significado – secular –  da “visio comprehensionis”?   Este fresco – de 440 x 770 cm – que ocupa uma das paredes do que foi a biblioteca e escritório do Papa Júlio II – actualmente a Câmara da Assinatura do Palácio do Vaticano – projecta (aparentemente) –  com a complexidade de uma geometria prevalente e (precisemo-lo também) de um simbolismo –  na confluência mitológica, histórica e alegórica. E sempre se há-de avaliar os correlativos da representação, é à sua maneira a doutrina definida – segundo Edgar Wind de Art and Anarchy – por Pico de la Mirandola como Concordantia Platonis et Aristotelis – ressoa – segundo as aparências e as maneiras de ver renascentistas  –  com registros distantes, mas convergentes: a imaginação matemática e a história da circulação de livros e a instrução em mesmidade (co-formação), a magia naturalis, as controvérsias literárias e a teoria dos intervalos musicais, a epigrafia e o fascínio (transcendente) pelos hieróglifos e emblemas, a doxografia antiga e a análise da ética aristotélica, as biografias de estudiosos humanistas e as concepções cosmológicas (juízos-prévios) no alvorecer coperniciano. Continuar a ler “ANTÓNIO TELMO OU RAFAEL SANZIO E A PINTURA DO (IN) EXPLÍCITO – por Alexandre Teixeira Mendes”

DA LASSIDÃO À MANSUETUDE (……) – por José Paulo Santos

Da Lassidão à Mansuetude

– Dois Umbrais do Caminho para a Sabedoria

Há dias, revi o documentário disponível no Youtube sobre Byung-Chul Han — aquele filósofo coreano que, com a lucidez de quem lê os sintomas da alma contemporânea como um clínico do espírito, descreveu a nossa era não como a da repressão, mas do cansaço. Não do cansaço físico, mas do cansaço que nasce da obrigação constante de nos superarmos, de otimizarmos cada instante, de transformarmos a vida numa performance ininterrupta de produtividade e visibilidade.

O seu pequeno livro Sociedade do Cansaço — que recomendo com urgência a quem sente o peso invisível do “ter de ser sempre mais” — é um diagnóstico cirúrgico da nossa exaustão psíquica: vivemos não sob o jugo do outro, mas sob a tirania de nós mesmos. Ao fechar o livro e ao terminar o vídeo, olhei à volta: nas ruas, nas filas do supermercado, nas videochamadas, nos próprios olhos dos que amo — vejo rostos esvaziados. Não tristes, nem sequer deprimidos, mas cansados: apáticos, crispados, nervosos, por vezes furiosos, como se a raiva fosse o último sopro antes do colapso. É nesse cenário de fadiga existencial que a sabedoria antiga — tão contracorrente como necessária — nos chama de volta a dois estados aparentemente passivos, mas profundamente revolucionários: a lassidão e a mansuetude. Continuar a ler “DA LASSIDÃO À MANSUETUDE (……) – por José Paulo Santos”

A POESIA ESTÁ COM REFLUXOS, por A. da Silva O.

O silêncio abandonado
Amores futuros são passado
Ai deus o é

Nos subúrbios cheira sempre a crime passional
Praticado no centro histórico
Marido e mulher traficam sexo à mão armada

Ai deus o é

Uma chuva de diagnósticos
Uma tempestade num diagnóstico
Um diagnóstico a boiar num cadáver esquisito
De nenhures até ao acaso
O observado ao espelho faz reflectir o quotidiano
A paixão foi hoje enterrar mais um ente querido
As lágrimas caem dentro do pote das cinzas
Decote provocante da viúva
Ai deus o é
Uma desgraça semi nua e malfodida da cabeça aos pés
Perante o Sagrado
És um desgraçado

Pela porta do cadáver
Ai deus o é
Amigo
Então, problemas de coração?
Partido
Aí deus é meu amigo

Deus é o
Diz adeus
À sua fé

Perante o Sagrado
É um desgraçado

♦♦♦

a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita actualmente a revista Estúpida.

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

© mariam sitchinava

 

Conversão

é no escuro deste dia que vens?
tornei o meu quarto no absoluto
pois sei que é assim que te convém
dispostos à tua medida
paredes, tapetes e cama
e os candeeiros também
como queres que te espere?
sentada? ou preferes encontrar-me deitada?
e os braços? cruzados a simular certezas
ou caídos denunciando fragilidades?
seja como for, farás com que estremeça
com que me perca
com que me engula no tempo
por favor, deixa cair uma das tuas lágrimas sobre a minha pele
ou então, se ainda tiveres sangue dentro do teu peito gelado,
faz com que me entre directamente na boca
haverá grandeza maior do que te sentir pulsando nas minhas entranhas?
deram conta no mármore que morreste
tão ignorantes os simples sem desejos nem pensamentos
nada me importa que sejas sombra
a minha reverência basta para te agarrar
ouço-te, mesmo que me fales muito baixinho
e agradeço a companhia da tua mão parada
sem ti, nada mais do que uma pedra
inútil e deformada
pontapeada e esquecida
anda, anda       anda ainda hoje

já te pressinto debaixo da minha cama Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO – por César Afonso

 

A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO, FERRAMENTA COGNITIVA E VIA DE AUTOTRANSFORMAÇÃO HUMANA

  1. Introdução – O equívoco moderno sobre a poesia

A modernidade tardia herdou uma conceção empobrecida da poesia. No imaginário dominante, ela surge frequentemente associada ao lazer improdutivo, à emotividade juvenil ou a uma arte menor, ornamental, destituída de função cognitiva. Esta marginalização não é acidental: resulta diretamente da hegemonia da racionalidade instrumental, da lógica tecnocrática e da cultura utilitarista. Como analisado por Guy Debord, a sociedade contemporânea transforma a experiência em espetáculo e consumo, reduzindo a atenção profunda a um resíduo cultural [1].

Neste contexto, a poesia — que exige silêncio, interioridade, lentidão, ambiguidade e escuta simbólica — torna-se dissonante. Contudo, esta perceção ignora um dado estrutural da condição humana: a poesia não é um luxo tardio da civilização, mas um modo originário de organização da consciência. Antes da ciência, da filosofia sistemática e da historiografia, o humano já pensava poeticamente a sua relação com o mundo, com o sagrado, com a morte e consigo mesmo. Como demonstra Ernst Cassirer, o homem vive num universo simbólico antes mesmo de viver num universo factual [2]. Continuar a ler “A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO – por César Afonso”

“DONDE LAS PATRIAS ZOZOBRAN*” – Reseña de Claudia Vila Molina

Donde Las Patrias Zozobran

de  Rogervan Rubattino y Lorena Rioseco*

Resenã de Claudia Vila Molina

El libro Donde las patrias zozobran (2025) escrito por Lorena Rioseco y Rogervan Rubattino está compuesto por un bello y enigmático conjunto de poemas, los que amalgamados entre sí nos obsequian con innumerables sensaciones durante y después de su lectura. En un principio, yo puedo señalar que los dos hablantes líricos se unen en una voz poética que se abraza en torno a temáticas y objetos poéticos comunes y disimiles; por esta razón, ellos surten este libro con innumerables formas de expresar el espacio sagrado en el que dialogan. Continuar a ler ““DONDE LAS PATRIAS ZOZOBRAN*” – Reseña de Claudia Vila Molina”

VIRANDO HH E ANA C DO AVESSO – por Danyel Guerra

 

A OBSCENA SENHORA HH

 Hilda Hilst
Já a vist?
Já a ouvist?
Em que consist?

Hilda Hilst pensa
e logo exist, insist,
persist, sempre tensa

Ela só por chist
bebe um alpist*
dança twist
e não desist.

De punhete em rist,
Hilda sempre resist.
Com toda a bravura
Golpeia o mundo trist
da light literatortura,
essa droga dita dura
que nos causa tontura.

Tua Lori Lamby com furor
aquela Obscena Senhora
e as Cartas de um Sedutor
que depressa foi embora.

Hilda Hiiiilstérica,
Love game com o Vinicius.
Hilda Hooomérica,
Espreitando os orifícius.

Tu te insurgist
Tu investist
Tu sorrist
Tu até rist
Grande Hilda Hilst!

*aguardente de cana, cachaça Continuar a ler “VIRANDO HH E ANA C DO AVESSO – por Danyel Guerra”

APONTAMENTOS POUCO MELANCÓLICOS – por Fernando Martinho Guimarães

 

APONTAMENTOS POUCO MELANCÓLICOS

Os sintomas da melancolia são conhecidos. No Código Internacional de Doenças de 1993, documento da responsabilidade da OMS, elenca-se a concentração e atenção reduzidas, a falta de ânimo, a auto-estima reduzida, visões desoladas e pessimistas do futuro e o desejo de morte. Assim, a melancolia entra na lista das doenças a cuidar de tratamento, de terapêutica. A sua medicalização provocou a busca por “amortecedores de preocupações”, fármacos que dissipam os sintomas da melancolia e a sua dissolução entre os transtornos da alma, as psicoses maníaco-depressivas.

Da melancolia se pode dizer o mesmo que se diz da tristeza, que é uma lassidão da alma, uma fadiga negligente das atividades que o viver exige. A negatividade que é aqui o caso consiste na negação do mundo, uma repulsa ou aversão face ao desejo que nos leva a procurar atingir um objetivo, a completar as tarefas que o quotidiano impõe. Não admira que a melancolia, a acédia medieval, fizesse parte do catálogo dos pecados, a par da tristeza, (tristitia) e da cólera.

Hipócrates naturalizou a melancolia. Sendo um desajuste dos fluidos segregados pelos órgãos, uma húbris do baço em que a bílis negra se sobrepõe em demasia à bílis amarela, ao fleugma e ao sangue, a melancolia degrada-se e é colocada, à semelhança das outras doenças, como consequência dos fluidos e humores dos órgãos naturais.

O princípio é simples. Dando-se uma intensa produção da mente, dá-se uma diminuição das ações do corpo. A teoria dos vasos comunicantes traduz, precisamente, a exigência do equilíbrio entre os diferentes fluidos segregados pelos órgãos: o fígado, a bílis amarela, o baço, a bílis negra, o cérebro, o fleugma, e o coração, o sangue. A saúde, a eucrasia, e a doença, a discrasia, resultariam da oscilação da húbris, da desmesura, e da moira, dos limites que o destino impõe.

Joke J. Hermsen, filósofa dos Países Baixos, no seu livro Melancolia em Tempos de Perturbação, publicado em Portugal em 2022, percorre as diversas formas como a melancolia foi vista ao longo do tempo. De estado especial enquanto fonte de criatividade e de descoberta à condição depressiva a pedir tratamento médico, à melancolia atribui-se uma dualidade inultrapassável. Por um lado, na melancolia encontra-se um afastamento e clausura face ao mundo mas, simultaneamente, encontramos nela um regresso irreprimível à reflexão, um apelo irrecusável à solidão que o pensar sempre exige. Por isso, a melancolia se parece com a saudade, mas sem objecto ou, na linguagem freudiana, um luto sem perda que lhe corresponda.  Joke J. Hermsen, de maneira a ilustrar aquela ambiguidade dual, propõe a gravura de Dürer, Melancolia I, como metáfora da fractura própria da melan chole, que significa, literalmente, melancolia.

Albrecht Dürer, Melancolia I, 1514.

Na gravura de Dürer, estão todas as coisas que carregam o simbolismo associado à melancolia. A mulher alada, atenta e imersa nos seus pensamentos, aguarda que o deus do momento oportuno, Kairós,  se cruze com a presença do tempo e da sua inevitável transitoriedade, Cronos. O anjo melancólico, sentado ao lado de uma escada, simboliza, justamente, a inspiração que dará lugar ao nascimento de uma ideia que permita elevar o espírito e, assim, ascender platonicamente ao sol das ideias. A melancolia assume, portanto, uma dúplice dimensão: a inação contemplativa própria da natureza solitária, por um lado; e, por outro lado, a ação, a sabedoria criativa da justa medida, simbolizada pela balança, que pende por cima do anjo.

De maneira que a sorte histórica da melancolia tem o seu correspondente na melancolia ela-mesma. Se conheceu os favores que os deuses concederam aos possuídos pela inspiração criativa, também mereceu o favorecimento atento dos psiquiatras, atribuindo-lhe um lugar junto dos distúrbios maníaco-depressivos. Hoje, face à constante convocatória para a ação, por via do exercício físico e do desporto para todos e a toda a hora, assiste-se a um apagamento da melancolia. Se a teoria dos vasos comunicantes tiver razão, a um excesso de atividade física corresponderá um enfraquecimento da produção da mente, relegando, assim,  a melancolia para umas sessões de relaxamento num spa perto de nós.

♦♦♦

Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real),  foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005  Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.

A BBC ERROU? – por Francisco Traverso Fuchs

 

A BBC errou?

Nos primeiros dias de novembro de 2025 o jornal britânico The Telegraph revelou uma série de malfeitos jornalísticos praticados pela BBC (British Broadcasting Corporation). Um deles teve repercussão imediata. Em duas ocasiões diferentes, a BBC apresentou um discurso de Donald Trump de forma deliberadamente distorcida, fazendo-o dizer algo que não dissera. Pouca gente simpatiza com Donald Trump, sobretudo fora dos Estados Unidos, mas não é disso que se trata; simpatias ou preferências políticas devem ser esquecidas, ou ao menos postas entre parênteses, no momento em que se começa a discutir algo tão decisivo quanto a transformação de um gigantesco veículo de comunicação, supostamente imparcial, numa agência de propaganda.

A BBC errou? A pergunta pode causar um certo estranhamento, uma vez que a própria emissora britânica admitiu oficialmente o que ela mesma chamou de erro. Devemos, entretanto, tomar essa admissão de culpa pelo seu valor de face? Ou seriam as coisas um tanto mais complexas do que a BBC gostaria de nos fazer acreditar? Continuar a ler “A BBC ERROU? – por Francisco Traverso Fuchs”

OFTALMOGRAFIA – por Henrique Miguel Carvalho

 

PAISAGEM

eu entre
……………..as árvores
e a sós,
……………..trilho à sombra
……………..buscado

pelo escutar
……………..o clamor
oculto,
……………..o rumor
……………..inaprendível

entre frondes
……………..e ramos,
no contraponto
……………..e fugas
……………..ao vento

e no aroma,
……………..húmido
de aspecto,
……………..que cobre
este lugar
……………..ermo a todas
……………..as coisas

— até que,
……………..ouro e inflamado,
o sol remove
……………..e seca
……………..a paisagem

em clareira
……………..visível
e inoportuna,
……………..rodeando
……………..a cerca

em volta
……………..ao mundo,
para marcar
……………..o lugar
onde a humanidade
……………..estranha
……………..habita

— e serei
……………..eu o atento?
observador
……………..do ofício
……………..de tais espaços

ou serei
……………..mãos e braços,
e pés?
……………..dúcteis,
recusando, de si,
……………..as mesmas
……………..pegadas

quando,
……………..ruídos e artificiais,
fragmentos
……………..de outro
……………..presente
convidam
à vida,
……………..outra distante,
da qual me escuso,
……………..por desejo
e omissão,
quase
……………..fauno
……………..transformado

— quem são
……………..aqueles?
cujas
palavras
……………..já não percebo,
……………..cujos gestos

desencontro,
……………..a espécie
insólita,
……………..que tem
……………..por caminho

a estrada
……………..— de quem?
aquelas mãos
……………..de novelo
……………..e crochet

em explicações
……………..acerca
do caso morto,
……………..nesse êxodo
……………..insensívelinsensível

às formas
……………..da luz,
ou às emoções
……………..nativas
……………..das folhas

— de quem?
……………..as faces
cujos sons
……………..assim
……………..trocados

se confundem
……………..com a espessura
das paredes,
e se extinguem,

postais
……………..de viagem
enegrecidos
de um tempo,
……………..por longínquo,
à mercê
das linhas
……………..particulares
……………..de certa geometria

— e retorno
……………..o olhar, numa dança
de bruços,
de regresso
……………..ao corpo
……………..das sombras

labirinto
……………..inacessível,
perdido
……………..de trilhos
……………..e trajectos

onde fetos
……………..e ervas,
floresta mínima,
crescem,
……………..à guarda
……………..das copas

majestáticas
……………..das alturas,
pelo odor verde
……………..da verdade,
……………..tolhido

na sintonia
……………..estática
dos insectos
……………..e vocais,
……………..as aves delirantes

Continuar a ler “OFTALMOGRAFIA – por Henrique Miguel Carvalho”

MEMÓRIA, MAPA E MOVIMENTO – por Jaime Vaz Brasil

A aventura humana inclui movimento. Da árvore ao solo, o começo.  A partir daí, o chão e os passos. A sola no solo deixa pegadas e rastros. Inventamos mapas, bússolas, criamos planos e projetos. As pegadas formam uma parte da história: a que deixa registros, serve de lembrança e também de aviso para alguma correção de rumo no futuro. A outra parte é a história viva que nos acompanha, na bagagem de dentro, para dar sentido e razão ao que planejamos. Essa história individual, muitas vezes invisível, também podemos chamar de memória. Nosso trajeto depende de uma consistente repetição dos passos. Podemos escolher o rumo e a constância de cada um deles. E, não menos importante, podemos sobretudo eleger a velocidade da jornada.

Somos a soma das nossas memórias. O processo de adquirir, formar, conservar e evocar, possui mecanismos complexos.  Envolvem o cérebro além dos neurônios, neurotransmissores e substâncias que operam toda a dinâmica. Continuar a ler “MEMÓRIA, MAPA E MOVIMENTO – por Jaime Vaz Brasil”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS IX – por Lúcio Valium

FUMO ABSTRATO

Caminhar ali com aqueles quadros nas paredes. Olhar o que veio das suas mãos, da carne mental vivida, da solidão lida. Imaginá-lo como um compositor e agora nós ali vendo de fora que tempos teria intervalado corrigido negado. Penso o que passou até terminar cada um e interrogo-me. Toda a deambulação perscrutante. Uma inquietude e a conceção lancinante. Uma forma de belo individual. Sabemos dos outros e das visitas mas fez o seu ver e continuámos de sala em sala onde penduraram tempos da sua vida. Cigarros e palavras álcool e questionamento. Quem andaria por ali além de si, pergunto. Deixava ver a peça ensanguentada antes de estar apresentável, volto a perguntar. Não quero respostas nem interferências. Imagino o que poderás sentir ao vê-lo nas fotografias, ao encontrar as imagens do seu mistério. Têm agora no museu o que era dele, os mesmos de sempre apoderando-se das flores inventadas do que não havia na história. Foi preciso vinho à saída, não foi turismo. Elevou o eu invisível que habita zonas de coral e já cá fora encontrámos todas as moedas preciosas. Um tesouro não dinheiro. Botões no chão, é o que valem os momentos como as imagens que vimos sabidas dele. Ainda algumas em fuga como uma que querias beijar com os olhos. Ficou ali tanta bondade. Choravam os olhos e a cabeça estalava já noite dentro. As tuas mãos envolviam a minha cabeça. Tocavam a pele e marcavam os ossos. Dança noturna e as cores dormindo no escuro das paredes. Também num lugar nosso indecifrável.

by Chema Madoz

GATO AVARIADO

Sol escaldante e vinho de merda nunca foi boa combinação. Os ossos vertebrais rangem com demasiadas horas na estrada e o sono deve ser macio como uma lenta nuvem melancólica. Quando assim não acontece há sangue contaminado com escamas de deuses podres. Mas nada tira brilho à doçura de te ter. A vontade da minha pele na tua pele como limos em água fresca dá-me o perfume para flutuar e ver os teus olhos é um remédio musical. Um belo em fragmentos. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS IX – por Lúcio Valium”

O MOSTEIRO. TESTEMUNHO – por Maria Toscano

 

Convento Corpus Chisti, V. N. Gaia

o Mosteiro. testemunho.

1.

de dentro de mim falo.

 

de dentro desta catacumba, outrora moira e afonsina, erguem-se os vapores de história mal catalogada.

reviram-se-me ainda as inscrições de guerreiros mortos que repousam, fundo, no íntimo de mim. no fundo do dentro do meu íntimo lembrar, o meu mais íntimo dentro.

ecos das batalhas de metais chispam-me as frestas, intacta ferida, no dentro de mim.

talvez mesmo ferrugens em excelentes arpões antropóides, em insolentes confrontos desde os medievais séculos de maturação. Continuar a ler “O MOSTEIRO. TESTEMUNHO – por Maria Toscano”

POESIA DE – Pedro Miguel Dias

Desconfio das pessoas que ignoram a lua cheia,
das pessoas que não fecham os olhos ao ouvir
uma música preferida na rádio,
daqueles que não choram no cinema
por receio do ridículo,
aqueles que nunca pararam o carro na berma
para admirarem um pasto verdejante,
que nunca falaram com um cão como se
ele os pudesse entender,
pessoas que nunca reconheceram um tio ou um vizinho
nas figuras dos painéis de Nuno Gonçalves,
aquela gente que não sorri ao ver uma criança
lambuzar-se com um gelado de morango.

 São essas as pessoas que começam guerras,
que aumentam impostos,
que atiram pedras aos pardais da cidade,
que gritam ao telefone como se a conversa
tivesse de nos incluir,
que inventam sobremesas sem açúcar,
que cospem para o chão,
que abrem os pacotes de bolachas no supermercado,
pessoas que pisam as azedas amarelas
à beira dos carreiros do jardim,
gente em quem não se pode confiar! Continuar a ler “POESIA DE – Pedro Miguel Dias”

CINCO POEMAS PARA ESTE NATAL – por Raphael Yudin

As Ratazanas

as ratazanas terem sobrevivido até aos nossos dias
não choca ninguém
pela simples razão de que todo o animal raso
& inteligente chega naturalmente ao topo do vaso,
na hierarquia das Cidades Altas,
qualquer invertebrado será um dia alguém.

a ordem social cumpre rigor militar extremo,
mesmo quando simula libertinagem,
a disciplina básica de instintos primários naturais
garante com treino e perícia
amabilidade, tolerância e camaradagem.

as ratazanas são suficientemente astutas e disciplinadas
para vender um sorriso, abraçar um sem-abrigo,
pegar uma criança ao colo,
excepcionalmente bondosas para inventar uma cura científica
 que encha de esperança e consolo a Humanidade.

as ratazanas
 usam perfume francês

um amigo meu casou-se com uma ratazana
que tocava piano;

conheceram-se num restaurante
ilegal chinês

o outro dia fui a uma palestra de ratazanas
para ratazanas onde deixavam entrar pessoas por convite;
fui convidado pela ratazana-chefe do meu escritório
como prémio de produtividade.

adormeci a meio.

de regresso ao trabalho no dia seguinte,
fui despedido,
nunca mais preguei olho com uma ratazana por perto,
 temendo acabar os meus dias
com o orgulho ferido,
a mendigar queijo, vinho e um cobertor,
como qualquer bom pedinte,
na ratoeira mais próxima
 a caminho do deserto.

♣♣♣

Chip Suey

Da ementa, constavam variadas especialidades com assinatura multicultural. Os melhores chefs do mundo haviam sido chamados para apresentar um cardápio gourmet à prova de críticas. Os mais talentosos artistas em biotecnologia, programação e engenharia genética serviam, pela primeira vez, no refeitório um inestimável tesouro gastronómico, confeccionado em segredo, há centenas de luas negras:

Entradas
Chip Suey de Piscina Aquecida
Chip Suey de Massagem Relaxante

Primeiro Prato
Chip Suey de Sexo on The Beach

Segundo Prato
Chip Suey de Viagens Exóticas

Sobremesa
Chip Suey de Arte Sacra

Digestivo
Chip Suey de Entretenimento Psicadélico Virtual

Em boa verdade, Chip Suey foi a designação primeva. Os chefs europeus escandinavos, os norte-americanos e os indianos quiseram pregar uma partida aos seus homólogos chineses. Hades achou piada e anuiu. Também não se pode dizer que a comunidade chinesa tenha levado demasiado a peito a provocação. É gente pragmática que negociou a sua parte na patente comercial com o próprio Hades, tudo na sombra dos congéneres. Hades voltou a achar graça e anuiu novamente.

A implementação electrónica de chips no cérebro, bem como a sua evolução tecnológica, depressa adquiriu novas nomenclaturas cuja linguística e semiótica humanas estão longe de alcançar.

Existiram também, durante algum tempo, chip suey´s que só podíamos encontrar no mercado negro. Só visitei o mercado uma vez. Perguntei por um chip suey de meditação vipassana. Precisava de algum foco. O chip suey oferecia um salteado de samadhis e nirvanas com milhares de luzes à escolha consoante imaginário, gostos, tendências e paixões de cada personalidade usuária da tecnologia. Ao fim do primeiro samadhi desisti.

Virei costas enquanto o vendedor continuava no meu encalce, tentando exibir outros chip suey´s igualmente tentadores: chip suey de yoga tântrico, chip suey de xamanismo siberiano, chip suey de astrologia quântica, entre outras ofertas interessantes. Consegui afastá-lo quando o questionei pelo chip suey de idealismo kantiano. Perante o meu pedido, perfeitamente natural, amuou e regressou ao seu posto de vendas.

♣♣♣

Fraterna Idade

Ética, virtude
paz, saúde,
sem uma filosofia moral
a quem vou chamar “igual”?

.Ética, virtude,
paz, saúde,
…..sem nada para pôr no pão,
…..a quem vou chamar “irmão”

♣♣♣

Nossa Senhora de Tudo

Nossa Senhora haveria de ser de quê
.se não fosse de tudo
como se para ser de todos,
.do cego, do paralítico, do mudo,
não tivesse de ser de todo o nada
sendo assim personificada
.amante, mãe, mulher amada.

Nossa Senhora de tudo
.é de quê
é de quem
.é do como
.é do porquê
é além do ET e do animal da TV.

Nossa Senhora haveria de ser outra
……se não Aquela que, não sendo nada,
pode ser absolutamente tudo assim personificada
.amante, mãe, mulher amada

♣♣♣

O Dinheiro

O dinheiro é um crime público.

O dinheiro é uma amante das Índias servida num prato de plástico. O dinheiro é um judeu montado a cavalo em cima de toda a gente. O dinheiro é a Amazónia a arder com a multidão a ver. O dinheiro é o sorriso das crianças em África à venda numa agência de turismo suíça. O dinheiro que afinal não é bom nem mau. O dinheiro que é só símbolo de troca.
O dinheiro que é apenas faca de dois gumes. O dinheiro igual à lâmina de barbear. O dinheiro que não é mais que a forma em missão ígnea. O dinheiro que cospe fogo-fátuo. O dinheiro que nunca pára no mealheiro. O dinheiro que abunda sempre nas Festas de Natal. O dinheiro que já se evaporou em meados de Janeiro. O dinheiro no altar é um erro fatal.

Parti o mealheiro
tão vasto como o espaço.

A Humanidade virá
agora em primeiro?

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Raphael Yudin é um autor que transita entre a poesia e a reflexão sobre a condição humana e o sentido da existência.

NOVO SISTEMA DE DEPÓSITO E RETORNO – por Ricardo Amorim Pereira

O Novo Sistema de Depósito e Retorno: Oportunidade Para Mudar a Reciclagem em Portugal

No passado, tive já oportunidade de refletir, nesta prestigiada Revista, sobre a importância crescente da economia circular para a salvaguarda ambiental. A ideia central continua não apenas atual como cada vez mais urgente: a prática da reciclagem e a implementação de modelos económicos verdadeiramente circulares são chaves indispensáveis para o alcançar de uma sociedade mais sustentável. Estas práticas reduzem o desperdício, preservam recursos naturais e aliviam a pressão sobre ecossistemas que, hoje, mais do que nunca, se encontram em risco. No sentido de que o modelo funcione e saia das intenções teóricas para a prática efetiva, é preciso, contudo, um esforço conjunto que envolva governos, empresas e cidadãos. Continuar a ler “NOVO SISTEMA DE DEPÓSITO E RETORNO – por Ricardo Amorim Pereira”

“OJALÁ QUE TE PISE UN TRANVIA LLAMADO DESEO” de Rolando Revagliati-Reseña de Araceli Otamendi

“Hay títulos que son, en sí mismos, un poema”:

“Ojalá que te pise un tranvía llamado Deseo”

de Rolando Revagliatti.*

Reseña de  Araceli Otamendi

Hay títulos que son, en sí mismos, un poema. Y ese es el caso de la nueva obra del poeta argentino Rolando Revagliatti: “Ojalá que te pise un tranvía llamado Deseo”. Con una jugada literaria tan audaz como brillante, Revagliatti une dos universos aparentemente distantes para crear un campo de fuerza poético único.

Este juego intertextual, marca de la casa en la poesía de Revagliatti, se extiende a una portada que es puro concepto: una ilustración presenta a una mujer desnuda, tocada con una cacerola como sombrero, portando una pava y una sartén. Una imagen poderosa que dialoga sobre lo doméstico, el deseo y el surrealismo cotidiano, y que prefiero describir con palabras para invitarlos a descubrirla en la versión física.

Un libro indispensable para los amantes de la poesía inteligente, el juego de palabras y la cultura que desafía las convenciones.

La chispa de la contradicción: del cumpleaños infantil al drama de Tennessee Williams.

El título actúa como un imán que atrae dos significados opuestos. Por un lado, evoca la inocencia (y el humor negro latente) de la canción infantil de cumpleaños “Ojalá que te pise un tranvía”, un supuesto ‘buen augurio’ cantado con picardía que todos hemos coreado. Por el otro, choca frontalmente con la solemnidad y la pasión desgarrada de “Un tranvía llamado Deseo”, el clásico teatral de Tennessee Williams llevado al cine con la inolvidable actuación de Marlon Brando. Continuar a ler ““OJALÁ QUE TE PISE UN TRANVIA LLAMADO DESEO” de Rolando Revagliati-Reseña de Araceli Otamendi”

CAPA E FICHA TECNICA DA EDIÇAO Nº 33

EDIÇÃO E PROPRIEDADE: Pencil Box – Multimédia, Ldª-

 ISSN 2184-0709

DIRECÇÃO: Júlia Moura Lopes

DIRECTOR ADJUNTO – Artur Manso

Logótipo e SEO : David Fernandes

Email: revista.athena2017@athena

Paginação Web: Júlia Moura Lopes

Apoio Web: David Fernandes e Luís Guerra e Paz

COLABORARAM NA EDIÇÃO Nº 33

SETEMBRO DE 2025

CAPA  – Nu, de José de Almada Negreiros. Quadro pintado para decorar as paredes do Bristol Club.

EDITORIAL : “O PAÍS ONDE OS POETAS MORREM ANTES DE NASCER” por Cesar Afonso

COLABORARAM:

ADELINA ANDRÈS,  ALEXANDRE TEIXEIRA MENDES, ARTUR MANSO, A. DA SILVA O., CELSO GOMES, CÉSAR AFONSO, CLAUDIA VILA MOLINA, DANYEL GUERRA, FERNANDO MARTINHO GUIMARÃES, FRANCISCO FUCHS, FRANCISCO COUTINHO,  JOÃO PEDRO VIDAL, JOSÉ PAULO SANTOS, LUCIO VALIUM, MANOEL TAVARES RODRIGUES LEAL, RICARDO AMORIM FERREIRA.

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O PAÍS ONDE OS POETAS MORREM ANTES DE NASCER – por César Afonso

 

O País Onde os Poetas Morrem Antes de Nascer

Notas contra a imobilidade do cânone e a ausência de futuro na crítica literária portuguesa.

Introdução

Portugal é uma nação de poetas. De Camões a Pessoa, de Sophia a Herberto Hélder, a história literária portuguesa consolidou-se numa galeria de nomes que moldaram o imaginário nacional e, em muitos casos, internacional. No entanto, este legado poético que orgulhosamente se cultiva é, paradoxalmente, uma das razões que poderá explicar o estagnamento da poesia contemporânea no país — não por falta de criação, mas por ausência de visibilidade. A academia, em particular, tem-se mostrado resistente à renovação crítica, preferindo estudar, reeditar e reverenciar os poetas já consagrados, enquanto negligencia, quase sistematicamente, o pulsar de novas vozes, as margens férteis da criação, os lugares onde a linguagem se reinventa.

Neste ensaio, propomos refletir sobre a responsabilidade da academia e do circuito crítico na estagnação do reconhecimento da nova poesia portuguesa. Partindo da análise de revistas literárias, projetos de investigação e estudos contemporâneos, argumentaremos que o foco exclusivo nos cânones impede a identificação e a promoção de uma poética emergente, plural e inovadora. Esta falta de renovação crítica poderá ser, aliás, uma das razões que ajuda a compreender por que motivo Portugal — país com tradição poética fortíssima — nunca viu um dos seus poetas distinguidos com o Prémio Nobel da Literatura.

Mais do que uma denúncia, este texto pretende ser um apelo: pela abertura à diferença estética, pela escuta do inédito e pelo reconhecimento de que a literatura não se faz apenas na consagração do passado, mas sobretudo na coragem de imaginar o futuro.

  1. O olhar académico centrado no passado

A crítica literária portuguesa, enraizada nos circuitos universitários e nas revistas de referência, tem revelado uma tendência persistente: a concentração quase exclusiva na análise e valorização de poetas consagrados. Embora a atenção ao cânone seja natural e, até certo ponto, necessária, o problema emerge quando essa centralidade se transforma em exclusividade. A nova poesia, que pulsa nos interstícios digitais, nas publicações marginais, nos blogs e nos coletivos independentes, raramente encontra espaço na crítica formal, nos programas universitários ou nas publicações académicas.

Ida F. Alves, no seu estudo sobre revistas de poesia contemporânea em Portugal, aponta para esta assimetria crítica, ao demonstrar que publicações como Relâmpago, Cão Celeste e Telhados de Vidro — embora fundamentais na cena literária — privilegiam quase sempre autores já estabelecidos, mantendo um circuito fechado de leitura e reconhecimento. A própria autora reconhece que, mesmo com o crescimento de formatos digitais e alternativos de circulação poética, o olhar institucional continua colado ao passado: “as revistas literárias revelam uma ação hesitante em relação à descoberta ou consagração de vozes novas, preferindo operar como veículos de reiteração do cânone.”

Este fenómeno não é apenas uma questão de preferência editorial: é um reflexo de uma cultura académica que valoriza a segurança do que já foi legitimado em vez do risco estético. A crítica torna-se, assim, mais arqueológica do que prospectiva. Em vez de escavar o futuro da literatura, dedica-se a sedimentar as glórias do passado. Esta postura é visível nos programas curriculares das universidades, onde os estudos poéticos se mantêm centrados em nomes do século XX, com escassa abertura para fenómenos pós-2000 ou para autores não representados pelas grandes editoras.

O efeito deste conservadorismo crítico é duplo: por um lado, impede a circulação de novos autores num espaço de legitimidade; por outro, limita o próprio campo de pesquisa literária, que se torna repetitivo, fechado, autorreferencial. Como escreve Charles Bernstein, “não há poesia viva sem crítica viva” — e a crítica viva, por definição, deve estar disposta a errar, a descobrir, a acolher o estranho. Sem essa abertura, a poesia portuguesa contemporânea corre o risco de permanecer num estado de invisibilidade prolongada, ainda que tecnicamente vibrante, emocionalmente intensa e intelectualmente inquieta.

  1. Margens como motor de inovação

Se a academia se fecha num olhar retrospetivo e centrado no cânone, é nas margens — geográficas, editoriais e digitais — que encontramos o verdadeiro laboratório da poesia contemporânea portuguesa. Longe das vitrines institucionais, multiplicam-se vozes que desafiam formas, reinventam a língua, interrogam o presente com uma urgência que a crítica literária tradicional parece incapaz de acolher. Estas margens não são zonas de carência: são territórios de invenção.

O projeto “Novas Poéticas de Resistência”, desenvolvido entre 2007 e 2011 pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, foi pioneiro na tentativa de mapear e valorizar a criação poética situada fora dos grandes centros e das editoras estabelecidas. Dirigido por Graça Capinha, o projeto não apenas produziu antologias, como também criou arquivos multimédia e realizou encontros que revelaram a vitalidade de uma poesia feita em blogs, revistas locais, coletivos poéticos e contextos sociais alternativos. Segundo os investigadores envolvidos, a resistência não era apenas temática ou política: era formal, cultural, institucional — uma resistência à forma como se legitima e consome a poesia em Portugal.

Paralelamente, a Oficina de Poesia, também sediada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tem desempenhado desde 1996 um papel fundamental na criação de espaços de experimentação e partilha. Através de workshops, publicações e encontros, a Oficina propõe um modelo de prática poética que rompe com a rigidez académica e valoriza a expressão subjetiva, a oralidade e a ligação entre poesia e vida quotidiana. Mais do que formar “poetas”, forma leitores ativos, agentes críticos e criadores de comunidade.

Estas experiências revelam que, enquanto a crítica se mantém ocupada com os grandes nomes, há uma outra tradição — como lhe chamou Marjorie Perloff — em formação contínua. Trata-se de uma tradição não institucional, onde a poesia não se mede por prémios ou programas de estudo, mas pela sua capacidade de tocar, transformar e resistir. Muitas destas vozes marginais (como Ana Deus, Luís Filipe Cristóvão, Inês Dias, entre outros) têm criado obras inovadoras, com impacto em circuitos independentes, mas continuam fora dos horizontes da crítica académica.

A ausência de diálogo entre estes dois mundos — o da crítica institucional e o da criação marginal — empobrece ambos. A poesia precisa de ser lida, discutida, inserida em redes de reconhecimento; a crítica, por sua vez, precisa de se rejuvenescer, abrir-se ao desconhecido, àquilo que ainda não sabe classificar. Nas margens pulsa o novo — e é esse pulsar que faz avançar a arte.

  1. A outra tradição: caminhos teóricos para além do cânone

O conceito de “outra tradição” tem sido mobilizado por teóricos contemporâneos da poesia para nomear aquilo que se escreve fora dos eixos legitimadores tradicionais — e, por isso mesmo, o que mais intensamente desafia e renova a linguagem poética. Marjorie Perloff, uma das mais influentes vozes da crítica moderna, defende que há uma “poesia do risco” que não se inscreve nas fórmulas da lírica confessional nem nos moldes clássicos da tradição ocidental. Esta poesia, muitas vezes marginalizada, seria, segundo a autora, o verdadeiro espaço onde a literatura se reinventa.

Charles Bernstein, cofundador do movimento norte-americano da Language Poetry, vai mais longe ao afirmar que “a tradição é aquilo que se recusa a ser nomeado como tal”. Ou seja, a verdadeira tradição é sempre subversiva, descontínua, crítica da norma — e, nesse sentido, incompatível com os processos de canonização passiva que muitas academias promovem. A crítica, segundo Bernstein, deve estar atenta às formas de resistência formal: ao experimentalismo, à intertextualidade desobediente, à escrita como gesto simultaneamente político e poético.

Em Portugal, esta “outra tradição” encontra ecos nos estudos de Cristina Néry Monteiro, que se debruça sobre o papel das revistas literárias como espaços de resistência para as poetas mulheres. Ao estudar revistas como Ítaca, Palavra, Relâmpago ou DiVersos, Monteiro conclui que estas publicações funcionam não só como alternativa editorial, mas como verdadeira contra esfera crítica, onde se dá voz ao que está fora da norma: formas híbridas, poesia feminista, escrita experimental, intersecções entre arte e política. A sua análise revela como estas revistas se tornam “lugares de fala” num país onde a crítica académica ainda hesita em lidar com o que escapa à tradição masculina, urbana e centralizadora da poesia portuguesa.

Esta tradição alternativa, ainda que fragmentária e dispersa, partilha um princípio comum: a recusa da homogeneidade. A sua poética emerge do cruzamento entre linguagens, da oralidade, do corpo, da performance, da política, da margem — não como vitimização, mas como estratégia estética e epistemológica. O que está em causa não é apenas a forma como se escreve poesia, mas a forma como se concebe a própria literatura, os seus lugares de produção, circulação e legitimação.

Ignorar esta “outra tradição” não é apenas um erro crítico: é um gesto de exclusão cultural. É impedir que a literatura portuguesa dialogue com o seu tempo e com as suas múltiplas vozes. E, talvez mais gravemente, é bloquear a possibilidade de que a poesia portuguesa contemporânea se projete internacionalmente com a força transformadora que a distingue.

  1. Consequências da estagnação crítica: o Nobel ausente

Portugal, país de riquíssima tradição poética, nunca viu um dos seus poetas ser laureado com o Prémio Nobel da Literatura. A ausência torna-se ainda mais expressiva se compararmos com países de menor dimensão literária internacional, mas que souberam projetar autores contemporâneos através de redes críticas, políticas editoriais e estratégias culturais atentas ao tempo presente. A questão não é de qualidade — pois abundam, entre nós, poetas de excecional mérito —, mas de visibilidade e de renovação dos mecanismos de consagração.

A estagnação crítica, alimentada por uma academia que prefere reverenciar o passado a descobrir o presente, contribui de forma direta para esta invisibilidade. Sem crítica ousada, sem redes de internacionalização bem estruturadas, sem renovação dos cânones de leitura e estudo, a poesia portuguesa torna-se um património encerrado em si mesmo. Paradoxalmente, quanto mais se celebra a excelência do que foi, menos se promove o que está a ser. O culto dos grandes mortos torna-se uma espécie de sombra sobre os vivos.

O caso de Herberto Hélder é ilustrativo. Aclamado como o maior poeta português da segunda metade do século XX, Hélder recusou prémios e exposição mediática — mas foi, também, vítima de uma crítica que nunca soube ou quis internacionalizá-lo de modo sistemático. A sua consagração plena foi póstuma, e mesmo assim, limitada ao circuito lusófono. Já nomes como Eugénio de Andrade ou Sophia de Mello Breyner, mais traduzidos, não tiveram o apoio crítico e institucional sustentado necessário para que pudessem figurar entre os grandes candidatos a um Nobel — como aconteceu com autores espanhóis ou escandinavos, cujas academias e Estados investiram fortemente na promoção cultural.

A responsabilidade é partilhada: das instituições académicas, das editoras, das estruturas culturais do Estado. Enquanto não se construírem dispositivos de legitimação que incluam as vozes emergentes — com espaço para diversidade estética, descentralização geográfica e abertura formal — Portugal continuará a celebrar os seus poetas no interior de um espelho, sem que a sua poesia atravesse fronteiras.

O Nobel não é, por si só, um fim. Mas é um símbolo poderoso do reconhecimento de uma literatura viva, plural, atenta ao mundo. A ausência portuguesa não denuncia a falta de valor da sua poesia — denuncia, sim, a inércia de um sistema literário que falha em reconhecer e projetar o novo, o inquietante, o que está por vir.

Conclusão

A poesia portuguesa vive, hoje, um paradoxo: ao mesmo tempo que se reconhece a sua riqueza histórica e simbólica, negligencia-se o presente em que ela verdadeiramente respira. O apego institucional ao cânone, reforçado por uma academia conservadora e por estruturas culturais pouco permeáveis à inovação, bloqueia o surgimento de novas vozes no espaço de legitimidade crítica. Como consequência, aquilo que poderia ser um tempo de reinvenção poética transforma-se num ciclo de repetição e apagamento.

A ausência de um Prémio Nobel para a poesia portuguesa não é sintoma de inferioridade literária, mas antes de uma falha coletiva na forma como se escuta, se promove e se internacionaliza a criação contemporânea. A estagnação crítica, o medo do risco, os comodismos da consagração acumulada impedem a literatura de cumprir o seu papel mais nobre: o de ser espelho e vanguarda da condição humana.

É tempo de inverter este ciclo. A crítica precisa de se reaproximar da criação. A universidade deve abrir as suas portas às linguagens do agora. As instituições culturais têm de perceber que o futuro da literatura portuguesa não se constrói apenas com arquivos, mas com escuta, coragem e abertura.

Promover os novos poetas não é um ato de caridade estética — é um investimento na vitalidade da língua, no lugar de Portugal no mundo e, acima de tudo, na dignidade criativa de uma geração que escreve não para repetir o que já foi dito, mas para dizer o que ainda não teve nome.

Referências

Alves, I. F. (2019). Revistas de poesia contemporânea em Portugal: entre o cânone e a margem. Revista Portuguesa de Literatura Contemporânea, 12(3), 45–68.
Capinha, G. (Org.). (2007-2011). Novas poéticas de resistência. Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra.
Hélder, A. R. (2010). Herberto Hélder: Biografia e obra (A. Ramos Rosa, Autor). Editorial Letras.
Monteiro, C. N. (2015). Revistas literárias e a afirmação da voz dos poetas mulheres em Portugal. Revista de Estudos Literários, 8(2), 102–120.
Perloff, M. (1981). The poetics of indeterminacy: Rimbaud to Cage. Northwestern University Press.
Bernstein, C. (1998). Close listening: Poetry and the performed word. Oxford University Press.
Mexia, P. (2018). A poesia hoje: Crítica e reflexão. Lisboa: Edições Culturais.
Deus, A. (2017). Vozes da margem: Entrevistas e perspetivas na poesia contemporânea portuguesa. Revista Digital de Literatura, 4(1), 23–37.

C. A. Afonso

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César Alexandre Afonso nasceu em Vinhais, em 1962, é Licenciado em Psicologia Clínica, Psicodramatista pela Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Especialista em Comportamento Desviante e Ciências Forenses pelas Universidades de Medicina de Lisboa e Porto. Professor Convidado do ISCSP e ISPA. É autor diversos livros de Poesia e Romance desde 1982, sócio da SPA. Sócio fundador da Academia de Letras de Trás-os-Montes, Membro da Academia de Letras e Artes de Portugal.

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (III). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO – por Adelina Andrês

 

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (III). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (I)

O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO

(Primeira Parte)

Às vezes a Lua, lá no céu, não se vê logo porque é nova. É Lua nova não se vê. Mas está lá na sua límpida invisível transparência. Veem-se as estrelas tantas tantas longe tão longe e algumas tão mais longe e tão mais longe ainda que são só pequenos pontinhos pequeninos de luz que se sabe forte a luzir a tremeluzir a brilhar. E algumas outras são de tão mais longe ainda que só sabemos que lá estão, e pronto. Porque estão tão mais longe e mais longe ainda e ainda e ainda que só se pode é acreditar. E pronto! São como a Lua nova. Não se vê, e está lá, e acredita-se! E pronto. Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (III). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO – por Adelina Andrês”

DA VIDA QUE A MORTE OCULTA – por Artur Manso

Em memória de Eduardo Alves Ribeiro (1956-2025)

                             O justo, ainda que morra cedo, terá repouso. Velhice venerável não é longevidade, nem é medida pelo número de anos.

Liv. Sabedoria, 4: 7-8

                            Talvez um indivíduo deva considerar que a sua própria morte é o último fenómeno da natureza.

                         Stephen Crane

É comum no espaço onde me movo discutir a minha crença/fé a partir da religião judaico-cristã, onde fui educado, assumindo me mais cristão que católico, à maneira do tolerante e liberal J. J. Rousseau. Assim sendo, para que não restem dúvidas sobre o assunto que irei tratar, a vida e a morte que já desenvolvi no ensaio Breve é toda a vida. Para uma pedagogia da morte e do morrer (2021), começo com as belas palavras de Paulo, ainda em vida, mas com a morte no horizonte: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda”. 2 Timóteo, 4:7-8. Na Apologia de Sócrates, quando o mestre ateniense procura refutar as acusações de que é alvo, na sua demanda pela verdade e justiça já tinha afirmado, também, que tal compromisso resultava das ordens que tinha recebido do Deus. Portanto na excecionalidade de muitas personalidades, a evocação de um Deus, ou deuses, como supremo ordenador daquilo que é dado à existência, é algo que se repete com frequência. A troca de ideias mais viva surge sempre em torno das questões-limite, nomeadamente a morte e como o Criador, se for esse o termo adequado, parece ser cruel ao consentir que as crianças sofram e morram e que uma boa parte das mortes precoces, caso isso seja termo adequado, envolvam seres humanos realmente bons, daqueles que acrescentam luz à luz, que têm o dom de iluminar a escuridão. Continuar a ler “DA VIDA QUE A MORTE OCULTA – por Artur Manso”

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO

– Sobre a edição de Joaquim Domingues de Escritos Espirituais

JUNQUEIRO, GUERRA (2025) ENSAIOS ESPIRITUAIS.

Muitas são as razões que tornam compreensível a organização e edição por Joaquim Domingues de Guerra Junqueiro Ensaios Espirituais – Notas à margem de uma filosofia, 2025. Graças à compilação de escritos inéditos do autor da Velhice do Padre Eterno – que datam de 1890-1904 – e textos afins – mas congeminações esboçadas que são simultaneamente anotações provisórias ou imperfeitas – embrionárias – de significação (in) consistente – permitem-nos hoje apreender melhor o seu percurso metafísico-espiritual e em que o sagrado (“tremendum”) e o divino ou a mística – a ágape – afiguram-se como temas centrais – subjacentes – da sua doutrina. Será possível compreender a sua obra – especulativa a ajuntar à poesia e até ao fim da vida – como o corolário “plenificante” de um processo intelectual e interior (autocontraditório) – do tipo subjectivo-existencial ou procedimental heterodoxo? Parece-nos, portanto, que o seu ultravoltaireanismo ou o vítor-hugismo na sua juventude não é menos importante que o franciscanismo final vazada numa cosmovisão “orante”. Não pretendemos discutir aqui as influências culturais – como ponto de passagem – o ser-em ou estar-em – que se revestiram de carácter episódico ou ocasional e que lhe serviram de modelo para o pensamento e para a acção. A ideologia do progressismo modernizante ou conservador – republicano – liberal-democrático – não pode ser dissociado do panfletarismo discursivo-poético – arbitrário – benéfico ou maléfico – muito corrente no seu tempo – à altura da história e da imediatidade revolucionária – plásticamente presente nos seus versos – sendo necessário ou desejável questionar nessa conexão os leitmotiv – mas, antes, chamar a atenção para o discurso filosófico – em seus próprios termos – na convicção da centralidade de uma fé religiosa ou filosófica – da ética ou de um universalismo moral judaico-cristão – insistindo, por exemplo, no amor do próximo e da natureza e, portanto, na continuidade de uma atenção ao amor divino e gravitação em torno de Emanuel (que traduzido significa “Deus connosco” Mt. 1:23). Como quer que se descreva o vértice da síntese junqueiriana privilegiada – poetizada – une-se, outrossim, a um pendor religioso e espiritual – até aos seus últimos redutos – converte-se estruturalmente num hino querigmático (categórico-soteriológico) ou num dizer ou numa escrita paraclética (ver a introdução de J. Pinharanda Gomes “A Oração Cristo-Cósmica de Guerra Junqueiro”, in Guerra Junqueiro, Oração ao Pão. Oração à Luz (Lello ed., 1997). Mas na poética de Guerra Junqueiro – tão digna de substância metafísica – convivem (explicitamente) as retóricas radicais e as ideias contrárias e contraditórias. Na predileção das compulsões estético-literárias fundacionais ou consubstanciais ao anti-clericalismo – temático-epocal – cristalizadas em alguns dos seus poemas maiores – e inerente às definições doutrinais e outras fórmulas conceptuais ao modo de Renan e de toda a literatura francesa do século XIX – na paternidade das revoluções e da propaganda – mostra-se curiosamente – e se fortalece – na sua fase final – enquanto auto-exibição do absoluto – a cristologia. Continuar a ler “O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes”

ATHENA REVISITADA IV – Ricardo Amorim Pereira

Nesta Edição,  convido-vos a reler o Editorial da Edição nº23, escrito por Ricardo Amorim Pereira. Aconteceu AQUI

A Inteligência Artificial e suas repercussões no mercado de trabalho

Um horário laboral para o século XXI

O ano de 2022 ficará para a História como tendo sido aquele em que, pela primeira vez, um sistema de inteligência artificial entra na vida quotidiana do cidadão comum. Em novembro desse ano, a empresa OpenAI lança o já famoso ChatGPT, facto acompanhado por outros serviços semelhantes, entretanto, lançados. Assim, e num ápice, a Humanidade apercebe-se do seu real estádio de desenvolvimento, provavelmente bem superior ao que se conjeturava.

Enquanto uns vão ascendendo a um céu de felicidades, esta revolução leva outros a se petrificarem com receios. Entre os principais motivos de preocupação apontados está o impacto que tais tecnologias poderão vir a causar no mercado de trabalho, havendo quem garanta que, num prazo não muito distante, uma grande percentagem das atuais profissões poderá vir, total ou parcialmente, a desaparecer. Continuar a ler “ATHENA REVISITADA IV – Ricardo Amorim Pereira”

TRÊS POEMAS – por A. Dasilva O.

O caso português

Somos um povo
com um nó na garganta
quando pega em armas
é para se suicidar

♣♣♣

O caminho da água das pedras

Tudo começou com um amor à primeira vista
trocado entre Eva e Adão numa casa de pasto
Tasco do Paraíso numa noite de fado vadio

Abraçados entre juras de amor impossível
foram para o ninho de amor fazer o Livro
Às cinco pancadas
Numa guilhotina

♣♣♣

Um papagaio refractário

Tirei o assassino que há em mim
ao sol pendurei-o com uma corda ao pescoço
de tão contente
começou a declamar

No alto da ignorância
Sou uma criança
Lucida

♦♦♦

a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita actualmente a revista Estúpida.

ALGUMAS NOTAS SOBRE POESIA – por Celso Gomes

Certa feita, tomando um café no Odeon na Cinelândia, comprei um opúsculo de um poeta que passou vendendo seus livros artesanais. Em casa, li o pequeno caderno de poemas: um amontoado de versos malfeitos e sem sentido, mas bastante sinceros.

Aliás, é preciso acrescentar que todo poema medíocre é extremamente sincero e que toda grande poesia possui um fundo irredutível de falsificação, de mentiras, de astúcia. Faltava ao autor saber que poesia não é ornamentar a palavra, mas subtrair dela, de espremer dela, o seu maior silêncio. Ao final do livro, perguntei-me: porque falar tanto de si mesmo se nada foi perguntado? Depois, fiquei pensando acerca dos motivos que levam um sujeito a escrever versos, publicá-los e sair pelas ruas a vendê-los. Obviamente, não cheguei a nenhuma conclusão, apenas a algumas reflexões: Continuar a ler “ALGUMAS NOTAS SOBRE POESIA – por Celso Gomes”

RESEÑA A LIVRO DE ZLATAN STIPISIC – por Claudia Vila Molina

 

Reseña crítica a

Banderas de un imperio hundido

ZASTAVE POTONULOG CARSTV

de Zlatan Stipišić (GIBONNI) 

El poemario Banderas de un imperio hundido del cantautor y poeta croata Zlatan Stipišić (GIBONNI) del año 2024 y publicado por la prestigiosa editorial puerto riqueña Isla negra está compuesto por poemas en croata, con traducciones al español e inglés. En principio, el título encierra numerosos rasgos entrelazados con la vida, Dios, la fe, el amor de pareja, la familia, entre otros; aunque, estos conceptos son vulnerables al quiebre y al rompimiento en la voz de cada poema. Continuar a ler “RESEÑA A LIVRO DE ZLATAN STIPISIC – por Claudia Vila Molina”