GIOVANNI PAPINI, 0 HOMEM INFINITO – por José António Barreiros

Giovanni Papini

O Homem Infinito

São algumas notas de leitura do que me foi dado reflectir sobre um extraordinário escritor italiano, omnívoro como já o qualificaram, torrencial na sua estilística, possuído por uma intranquilidade fazedora, incessante, mesmo na mais rude adversidade: Giovanni Papini [1881-1956].

Trago-as aqui, aos leitores da revista Athena, num súbito impulso de regressar onde com gentileza a Júlia Moura Lopes acolheu um meu primeiro escrito sobre a pintora ucraniana Sonia Delaunay.

E trago-as quando estou a ler, no tempo possível que invento, o seu monumental Diário, na versão original, publicada pelo seu amigo e editor Attilio Valecchi [1880-1946].

Se os dedicasse, estes dispersos apontamentos, seria a João Bigotte Chorão, autor de magníficas páginas de análise da sua obra e de compreensão humana da sua pessoa.

Suponho que o primeiro livro seu que li foi na Colecção Unibolso e intitulava-se O Diabo, tendo como subtítulo, mais expressivo Apontamentos para uma Futura Diabologia.

Traduzido por Fernando Amaro, a capa da pequena obra é, curiosamente, de “José Régio”, o mesmo que escreveu em 1925 Poemas de Deus e do Diabo.

Tratava-se de uma tentativa de inversão teológica, convergente com o meu intento na ocasião, menos preocupado com a demonologia antropológica ou sociológica, sim com toda aquela corte de anjos caídos e príncipes das trevas, porque trabalhava para a escrita de um livro, dos muitos que ficaram inacabados e cujo tema era a malignidade. Livro a que talvez volte.

Do que para ele estudei pouco ficou, excepto o mais importante, o espanto ante a escrita e a imensa curiosidade ante a personalidade do seu autor.

Perseguir-me-iam o resto da vida, até hoje, o tempo em que vivo o resto que há para viver. Fui paulatinamente juntando o que me foi possível encontrar da sua obra.

De todos os muitos livros a que deu vida, parte infinitesimal de quantos projectou, em constante irrequietismo criador, houve um que me marcou de modo indelével, vincando-me a sensibilidade com um rasgão próximo da identidade. O seu nome original L’Uomo Finito tornou-se na tradução portuguesa de Alberto Morais, de 1948, como na que li, de Fernando Amaro, publicada pelos Livros do Brasil em 1960, em Um Homem Liquidado, quando poderia ter ou a tradução literal ou uma outra, mais próxima da semântica que julgo quis ser a do autor, O Homem Acabado.

Biografia do que foi uma vida de profundo envolvimento com as mais variadas e desvairadas correntes filosóficas do seu tempo, é uma obra em que, renegados todos esses erráticos caminhos, Papini lança no final, à juventude do seu tempo, o repto que é a antítese do que o título do livro proclama: não! Giovanni Papini não está acabado, agora, sim, é que começa.

Na altura da segunda leitura do mesmo livro, daqueles que nunca poderemos considerar definitivamente lidos, confiei a um dos blogs que dedico às notas de leitura este breve apontamento:

Terminei-o, fim em dia de Páscoa, e que sentido faz esta coincidência, tudo visto, ante o epílogo desta escrita torrencial, o que dá título ao livro, o clímax de uma epopeia em busca do Absoluto, viagem e salto, afogamento e salvação, a história de um Homem que, anunciando-se morto, nega a possibilidade e proclama ao Destino e a todos os outros que não está acabado, agora que começa.

Livro magnífico, livro que tomaria comigo se tivesse de escolher muito poucos para levar e não mais, livro que me recorda tanto de Friedrich Nietzsche, outro desgraçado, o do super-Homem e do Humano demasiado Humano, mais o da Gaia Ciência, mas tudo num livro só, cozinhado em sofrimento, escrito sem perder nunca o fôlego, confissão de revolta e de amor, desprezo e despojamento, sobretudo, obra de intrínseca e humilde verdade, jogando-se nu até nos seus defeitos rascas e na vanglória do seu excesso de virtudes.

Li-o todo, linha a linha, depois de o ter lido, sem ter lido, em tempos.

Revisto hoje, esse apontamento, ele surge pobre, sobretudo quando cotejado com o que foi o conhecimento que só alcancei muito mais tarde, quando me foi possível confrontar a edição publicada, em 2016, pela Oscar Mondadori, na qual encontro, em nota editorial, que houve uma primeira edição, escrita em 1913, aquela ali republicada e uma outra, revista, quando em 1932 o autor se converteu ao catolicismo e entendeu rever algumas das expressões mais agrestes relativamente à religião que agora professara.

Tratou-se de uma conversão cujo percurso levou a livro, em que trabalhou desde 1923 e que li na segunda edição italiana, intitulado La Seconda Nascita, publicada em 1959.

De entre tanto o que escreveu o autor do monumental Juízo Universal, de que me chegou há pouco a versão original italiana, e do que, se aqui desse notícia, esgotaria toda a revista só comigo e mais ainda, trago também o que reencontrei como notas que tomara quando li, em pleno confinamento epidémico, a obra Palavras e Sangue:

O privilégio de ter um livro, ainda que amarelecido, encarquilhadas as folhas, desbotadas quando não manchadas, a capa, porém, ainda a resistir. Um daqueles livros em que os cadernos iam cosidos antes de a capa ser colada aos folios já batidos, mas em que a guilhotina se ausentava, deixando o corte dianteiro rugoso e imperfeito.

Livro destinado a ter de se abrir com uma faca e ter uma faca adestrada a cortar papel, tudo relíquias de um tempo que parece já tão sumido no tempo, livro indiscreto, a denunciar não ter sido folheado sequer ante os maços por abrir.

Livro assinado pelo que antes o teve como seu, no caso em 1957, ano desta edição, identificado com um ex-libris e que na biblioteca pessoal teve número de ordem manuscrito na folha de guarda.

Livro com orelhas, a esquerda de resumo da própria obra, a direita a anunciar a próxima da colecção, assim fidelizando o leitor.

Livro com capa do pintor Bernardo Marques, que tanto trouxe à ilustração editorial com o seu traço em que pressentimos um Almada Negreiros ou um Mário Eloy.

Ter um livro cuja tradução se prenunciaria fraca, por ter sido isso infelizmente o que sucedeu na editora, mas que é notável porque afinal do poeta brasileiro Mário Quintana, sendo este o seu primeiro trabalho de tradução para a “Editora Globo”, versão revista para português de Portugal pelo açoriano Agostinho Vieira d’Areia.

Ter a oportunidade de o livro, buscado à estante, ser de Giovanni Papini, essa portentosa figura do panorama literário italiano, de quem tento juntar quanto posso e ler tudo o que escreveu.

Livro de breves contos, publicado no original em 1912, precisamente no ano em que o autor parecia esgotado com o seu “Un Uomo Finito”, ano prolífico em que traria a lume mais três obras, este, “Palavras e Sangue”, traz-nos a escrita paradoxal, a equação do tempo com o seu espaço e todo um referencial onírico de desdobramento do eu em um mundo que é o seu próprio espelho.

Difícil escolher em tantas das narrativas qual a que melhor figuraria neste apontamento. Logo o primeiro em que «um pescador estendeu as suas redes e de dispôs a enganar também naquele dia os ridículos peixes», em que «o vento soprava ainda mais forte, encolerizado com a preguiça das nuvens»; ou aquele a que chamou “Sem Razão Alguma”, para cujo personagem, «a insónia era o seu excitante e as obras por escrever alinhavam-se, noite a noite, na sua memória, como sonhos artificialmente conservados».

Pena faz que talvez já não haja leitores para quem «todo este presente não é mais do que um prefácio», sensibilidades comuns de alguém «encerrado como uma mónada, secreto como uma célula, mudo com um nocturno felino», seres para os quais «a quinta essência da subtileza filosófica consiste em descobrir a diferença entre iguais».

Fico por aqui. Mundos pequenos: um dos pseudónimos de Giovanni Papini foi “Gian Falco”, o mesmo como se iniciou na escrita a nossa Irene Lisboa, a quem dediquei um blog, há tanto tempo por visitar.

Quanto nos irmanamos com ele, enquanto vemos quão reles e liliputiana é a vidinha de que curamos e à qual hipotecamos o mais precioso de todos os bens, o inegociável Tempo, o pouquíssimo tempo que nos é dado.

Quanto nos torna diminutos ante aquele combate demoníaco e salvífico com todos os deuses, pela Razão e pela irracionalidade que a nega, com a Humanidade e ao arrepio dela.

É de norma que se escreva e cite do que se escreveu para provar o que se afirma ou se mobilize o leitor. Impossível é fazê-lo aqui: uma só palavra citada destruiria a magia de todo o conjunto, reduziria a grandeza do escrito, anularia o sentimento do lido.

Dir-se-á que neste período de clausura se devem ler superficialidades reconfortantes. Nego, repudio, combato! Siga-se o exemplo dos grandes solitários, as almas que no deserto do confinamento buscaram as suas entranhas e escrutinaram os círculos do Céu: há que procurar mais alto, escavar mais fundo.

 

No mundo das coisas práticas em que nos tornámos pelas circunstâncias actuais, parece que tudo afinal encontrou o caminho do trivial para enfrentar a seriedade. Enquanto isso suceder, o Homem prossegue o Reino da Quantidade, tendo passado pelas dificuldades, apenas do muito ao muito pouco.

Talvez não exista a alma, há, porém, o espírito, o de cada pessoa e o Espírito Cósmico, do qual somos centelha provisória jogados no infinito ao sabor da lei da gravitação universal. Ao ler Giovanni Papini senti a esperança depois de ter chegado à agonia do desespero, o sentido pascal, afinal, do renascer.

Tanto mais poderia dizer, retirando das notas soltas, que um dia terei de reunir.

Um dos seus textos mais pungentes, intitulado Le Felicità dell’Infelice, são excertos, aparas lhe chamou [“schegge” em italiano], já no momento final da vida, perdido o uso dos braços e das pernas, enfim, cego, quase sem poder falar, ditadas em murmúrio a uma sua sobrinha Anna Paskowski e, no entanto, voz de um espasmo final, gritado ao mundo, a proclamar a superioridade do espírito sobre o corpo, o final da luta cruel de quem preferiu «o martírio à imbecilidade».

Morrendo em cada dia, escrevia, por interposta mão, e assim vivia.  O melhor da sua alma, assim o disse o seu amigo e biógrafo, Roberto Ridolfi, esteve ali, até ao fim.

No momento final, ao receber a extrema unção, o velho guerrilheiro literário, que assumira em 1943 profissão de fé na Ordem Terceira de São Francisco, impacientou-se ao ser chamado pelo seu nome próprio, encerrou em paz o seu espírito angustiado, ante o nome religioso que adoptara: Bonaventura. Tendo vivido tanto e por tantas formas, tornara-se, enfim, aquele outro.

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José António Barreiros é advogado. Tem-se dedicado à escrita jurídica e ao ensaio histórico, nomeadamente no sector dos estudos sobre a guerra secreta em Portugal nos anos 1939-1945.

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