SONIA DELAUNAY: CÍRCULOS ENIGMÁTICOS por José António Barreiros

No panorama da pintura europeia, o casal Delaunay é um nome de referência. A sua biografia tem a ver com Portugal. Aqui viveram momentos fundamentais da sua vida artística. Foi no nosso país e por via da luminosidade invulgar do mesmo, que o cromatismo típico da sua linguagem pictórica ganhou individualidade e intensidade. Mas foi aqui que se viram envolvidos numa história de espionagem, precisamente por causa da sua invulgar pintura. Um dia talvez a história dê livro. Assim eu tenha tempo.

Sonia DelaunayTerk nasceu a 14 de Novembro de 1885 em Gradiesk, na Ucrânia, filha de Elia Stern e de Hanna Terk. No mesmo ano, a 12 de Abril, em Paris, nasceria Robert Delaunay, seu companheiro de arte e futuro marido em segundas núpcias.

Casal de artistas, as suas biografias misturar-se-iam numa paleta de estilos e de vivências. Toda a sua vida será passada no estrangeiro; será, tal como seu marido, uma das muitas expatriadas que trazem a alma russa a marcar a sua condição de emigrante.

Tratar da sua biografia é abordar de modo indissociável a de Robert. Mas numa vida há sempre o reduto inexpugnável da individualidade, aquilo que sobeja a uma ligação conjugal ou mesmo familiar.

No caso de Sonia a primeira parte da sua vida decorre sob o signo da desagregação do lar que lhe deu origem.

Fruto de um casamento atribulado, de que resultam dificuldades de relacionamento com a mãe, Sonia, com cinco anos de idade, muda-se para São Petersburgo, onde passará parte da sua infância, sob os cuidados de um tio materno, advogado, do qual adopta o apelido Terk.

O ambiente cosmopolita da cidade não pode deixar de a influenciar, como, afinal, a toda uma pleiâde de jovens russos, que serão a élite cultural da sua geração.

Surge então a decisiva vocação para a pintura e para as artes decorativas em geral, encorajada por Max Libermann, amigo da família, pintor expressionista que faleceria em Berlim em 1935.

Sonia não ficará, no entanto, confinada à sua terra de origem. A apetência pelo estrangeiro toma conta de si, uma ânsia de cosmopolitismo está presente em toda a vida cultural da capital da Rússia czarista.

Em 1903 estuda já na Alemanha, em Karlsruhe, sob a direcção de Schmidt-Reutter.

Mas haveria de ser Paris a cidade que a atrairia, como a tantos outros da sua geração.

Em 1905 desloca-se para a capital francesa onde conhece o crítico artístico Wilhelm Uhde, com quem contrai casamento em 1909 e de quem se divorciará em 1910. Frequentava então a Academia La Palette. Só que a sua personalidade acabaria por se impor na comunidade artística russa expatriada.

Familiarizada com os meios cubistas, serviu de elemento de ligação aos artistas russos que procuravam estudar este movimento. Um dos casos paradigmáticos desse seu relacionamento é com o pintor russo Yakulov.

A sua sentimentalidade acabaria, porém, por intrometer-se com a sua carreira artística.

Nunca se sabe até que ponto os encontros e desencontros amorosos marcam uma vida, geram um génio, reforçando-lhe o ânimo ou destroem uma promessa, liquidando-lhe o entusiasmo.

É que Sonia conhece, entretanto, Robert Delaunay, que por essa altura havia optado a tempo inteiro pela pintura e pelo desenho.

A sua ligação surge na relação artística, desenvolve-se no campo dos afectos.

Casam-se em 1911 e dessa união surge um filho, baptizado como Charles. Vivem então na Rue des Grands Augustins.

Robert é uma personagem fulgurante. Apresentado por Elizabeth Epstein ao círculo «Blaue Reiter» de Munich, a convite de Kandinsky, expõe ali o seu quadro «Tour Eiffel» [que será destruído em 1945]. A sua pintura, representativa então do cubismo, escandaliza. Os meios artísticos olham-no com expectativa.

Centrados no meio artístico, os Delaunay levam uma vida social intensa.

Em 1912 o casal conhece então Guillaume Apollinaire, que vive em sua casa, e o pintor português Amadeo de Souza-Cardoso, encontro que vem a ser decisivo na sua passagem por Portugal.

Cardoso, oriundo de Manhufe, uma localidade na zona de Amarante, encontrava-se em Paris desde os dezanove anos, no âmbito da sua formação artística a que se aplicava com denonodo. Amigo de Amadeo Modigliani, inspira-se largamente no traço deste.

Graças ao relacionamento com os Delaunay, Amadeo, então uma figura em ascensão, reforça os seus conhecimentos no «milieu» artístico parisiense.

A influência do casal acaba por marcar de modo indelével a sua pintura.

Sonia levava então a cabo os primeiros trabalhos de uma expressão artística a que chamará de «arte simultânea». Inicia-se no desenho de roupa.

Ilustrara nesse ano o poema de Blaise Cendrars «La prose du Transsibéiren et le petit Jehanne de France».

Fruto do seu conhecimento e do intercâmbio artístico, em 1913 os Delaunay e Amadeo expõem em Berlim, no Salão de Outono da prestigiada galeria «Der Sturm», propriedade de Herwarth Walden.

Ainda nesse ano Souza-Cardoso expõe a sua obra nos Estados Unidos da América, onde recolhe largo sucesso, que ainda hoje se simboliza.

No domínio das artes, os Delaunay são já uma referência, projectando uma técnica e definindo um critério que outros seguirão. Paul Klee assume então a influência artística do casal.

Chega, entretanto, o ano de 1914, o fatídico ano da Primeira Grande Guerra.

Nesse Verão, após terem exposto no salão de independentes «Les Prismes Électriques» [hoje Museu de Arte Moderna de Paris], os Delaunay, acompanhados do pintor mexicano Zagara, deslocam-se para Espanha, em férias, ficando a viver em Fontarrabía.

Com o advento da guerra o casal decide permanecer em Espanha, mudando-se embora para Madrid.

Charles está gravemente doente, com febre tifoide, doença então mortífera.

É, porém, curta a permanência em Espanha.

No ano seguinte, um inesperado evento surge nas suas vidas: leem num jornal local um anúncio, gabando as belezas turísticas portuguesas.

Animado com o que leram, os Delaunay viajam até Lisboa.

O conselho de Amadeo Souza-Cardoso revelou-se decisivo. Amigo do seu País, o pintor português recomenda-lhes que viajem até cá.

Para os Delaunay, Portugal é uma revelação: o ambiente aqui parece fervilhar de espectaculares acontecimentos.

Em Fevereiro de 1915 surgira, sob a direcção de Luis Montalvor, a «Orfeu», com a capa de José Pacheco e a colaboração, entre tantos, de Santa Rita, pintor do fantástico, e de Fernando Pessoa, escriturário e poeta sombrio e de Álvaro de Campos, o seu heterónimo. Editor da publicação: António Ferro, que mais tarde, à testa do Secretariado Nacional de Propaganda Nacional, traria ao salazarismo o contributo desse escol da inteligência nacional.

Na arte, os movimentos e as escolas florescem então como cogumelos: cubismo, futurismo, modernismo, enfim, a vanguarda!

Os Delaunay rapidamente se familiarizam com os expoentes modernistas de então.

Mas Lisboa é, porém, apenas um ponto da sua passagem por Portugal. Por sugestão de Eduardo Viana, optam por residirem em Vila do Conde, lugar para eles idílico, em cuja Rua Bento de Freitas, nº 7, a antiga Rua dos Banhos, encontram uma casa aprazível, numa ambiência inundada de luz e de mar, propícia à criação artística: inspirados no seu estilo artístico, cognominam a casa como a «Vila Simultânea». Ainda hoje ali se encontra, com uma lápide alusiva.

Casa “Vila Simultânea” em Vila do Conde
Lápide da casa de Vila do Conde

O azul do Atlântico fica em frente. Mas é a luz, a tonalidade da luminosidade solar que mais os impressiona. Robert Delaunay escreve a propósito: «les rayons de soleil plus humains, plus proches, du Portugal».

Sonia no jardim, em Vila do Conde

É nesse local que pintam com denodo. Trabalham arduamente no jardim, entre plantas exuberantes e passeiam-se à noite ao luar.

Cuidadosos com a técnica, fabricam eles próprios as tintas que usam, visando o maior tempo de conservação dos quadros. Amistosos, enviam para o próprio Amadeo o produto do seu fabrico artesanal.

É aqui que Sonia se entusiasma pela técnica da pintura a cera, no que contagia o próprio Eduardo Viana, companhia constante no local. Muitos dos seus quadros deste período evidenciam a ascendência da pintura dos Delaunay.

Amadeo, nutre profunda amizade por eles, visitando-os amiúde, a partir da sua casa em Manhufe, onde se fixará, até à sua morte em Espinho em 1918. Sam Halpert , velho amigo de Robert, fica até 1916.

No Natal desse ano, os Delaunay estão como em casa.

Amadeo surge-lhes com um bolo, evidência de uma amizade. Sonia retribui, confeccionando para a mulher deste, Lucie Pecetto, um colar «simultâneo».

Imersos numa ambiência estimulante, a produção sucede a ritmo infrene.

Os seus quadros têm grandes dimensões, as telas são pintadas em partes e cozidas para formar o conjunto. Como forma de resolução do problema, utilizam a técnica renascentista de integrar as linhas de separação dos pedaços de tela nas linhas de força do próprio quadro, o espectador não nota a diferença.

«Tem-se a impressão de viver num país de sonho», escreve Sonia numa das suas cartas, fascinada pela «luz exaltante de todas as cores» do país que lhe é dado observar. Congestionados pela natureza circundante, podem gabar-se de que ali «os nossos olhos vão até ao sol».

Inseridos amistosamente na comunidade da cultura portuguesa, o espírito gregário leva-os a implantar uma associação de artistas a que apõem o nome de «Corporation Nouvelle» [«Nova Corporação»], nela englobando os seus amigos portugueses, Amadeu Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Almada Negreiros, e estendendo a filiação, numa relação de distância, a D. Rossine – uma pintora russa residente em Paris – e aos poetas Guillaume Apollinaire e Blaise Cendrars.

A influência francesa é então omnipresente nesse sector intelectual em ascensão.

Chega, entretanto, o fatídico mês de Abril de 1916. Robert tem de se deslocar a Vigo, para se sujeitar a uma junta de revisão, devido à sua condição de reformado militar. A mulher acompanha-o.

Mas tem de regressar a Portugal. Está longe de imaginar o que a espera: sem que de imediato se aperceba porquê «Madame é retida», como prontamente informa Sousa-Cardoso, em carta expedida para o marido, já instalado em Vigo.

A suspeita de espionagem acaba por surgir, penumbrosa demais para a sua alma de pintora da luz.

Todos os ingredientes ajudavam a compor este quadro.

Uma denúncia teria dado azo à detenção.

Os factores de dúvida acumulavam-se em torno de si.

Primeiro, a nacionalidade da denunciada, russa e como tal na ocasião originária de um país que havia feito um odioso acordo de paz com Berlim.

Depois, a sua vivência, esquiva e cosmopolita, estranha numa ambiência provinciana, susceptível de gerar a maldade dos rumores e da suspeição em relação ao que seriam os seus verdadeiros motivos e fins.

Além disso e sobretudo, a própria natureza e teor dos quadros que a artista pintava, nomeadamente os célebres «discos simultâneos», em que muitos viam a expressão típica de mensagens para os submarinos alemães que passavam ao largo.

Finalmente os contactos que o casal manteria com artistas alemães, entre os quais A. Macke, Franz Marc e Paul Klee.

Vítima de uma intriga, vê com mal contido espanto as autoridades portuguesas confiscarem-lhe o passaporte, para logo de seguida ser informada que a empregada doméstica, Beatriz Morais, havia sido presa na fronteira para Espanha.

Na sequência das investigações, conduzidas pela 2ª secção da Polícia Judiciária, o próprio Eduardo Viana é, por sua vez, igualmente detido, à ordem das autoridades administrativas e sob o pretexto das suas assíduas visitas a casa dos Delaunay. Sonia Delaunay, por determinação das autoridades é colocada sob o regime de residência fixa. Acusado de «traidor da Pátria» e de «conspirador», como se lamentaria numa carta de 14 de Abril, suportaria múltiplas humilhações no cárcere.

O pesadelo da situação mantém-se durante três semanas, durante as quais o alerta é passado a todo o grupo de Lisboa, que, na medida do possível a cada um move influências pessoais e políticas em favor do esclarecimento do caso.

Na «Brasileira» não se fala em outra coisa.

Amadeo desloca-se ao Porto para tentar intervir junto das autoridades no sentido de que esclareçam a situação. Em 20 de Abril de 1916 escreve a Robert Delaunay dando conta de que o responsável da referida denúncia anónima seria um empregado do Consulado de França.

As redacções dos jornais são postas ao corrente.

Finalmente verificada a natureza caluniosa da denúncia, sob a sibilina alegação de se ter tratado de uma «gaffe», os suspeitos são isentos de responsabilidades, mas estão crivados de rancor, a resistência moral enfraquecida por esta insólita e abstrusa situação.

Numa carta, que Paulo Ferreira arquivaria numa colectânea amigável saída em 1981, pela PUF, Eduardo Viana ainda acalentava esperanças, agora que o assunto estava nas mãos de um advogado, que Sonia fosse largamente indemnizada «par ce cochon de consul de France, l’ auteur de toute cette gaffe».

Viana é igualmente liberto, mas a prisão havia-o feito adoecer. Durante as buscas policiais alguns dos seus quadros haviam sido danificados.

A passagem do tempo fez esquecer o episódio e desinteressou os envolvidos de tentarem apurar quem seriam os responsáveis pelo evento.

Uns meses depois regressam a Portugal, para se fixarem em Valença do Minho.

Para que o seu regresso fosse possível tiveram intervenção o ministro das Finanças e o ministro do Interior.

A população mais ilustrada local saúda a sua presença.

Animados, reacende o seu enamoramento pelo país.

O Convento jesuíta local, proporciona-lhes uma sala para que possam trabalhar com sossego e o mínimo de condições de conforto.

A Santa Casa da Misericórdia local encomenda-lhes um painel em azulejos para o Asilo Fonseca. Os Delaunay pintam-no, dando origem ao quadro «Hommage ai Donateur».

A sua produção recrudesce.

Os Delaunay ficarão em Portugal até ao princípio de 1917.

Os últimos meses de vida em Portugal passam-nos no Asilo Fonseca em Valença, para o qual pintam um azulejo «L’hommage au donateur».

Depois disso residirão em Espanha, até 1920. Um ano depois de terem partido, morre Amadeo, com trinta e um anos de idade.

Nesse ano a Revolução soviética priva-os dos bens e rendimentos que tinham na sua pátria de origem.

Confinados a terem de permanecer em Espanha, Sonia trabalha em decoração de interiores e em desenhos de moda em vestuário. Conhecem e trabalham com Manuel de Falla e Nijinsky.

A partir de então a notoriedade e o sucesso estão-lhes garantidos.

Gloria Swanson veste casacos desenhados por Sonia Delaunay, Mallet-Stevens usa os seus desenhos para o revestimento de sofás, o seu traço está presente no mobiliário. A cantora Fançoise Hardy surge vestida por Dior com um «desin» de Sonia Delaunay, em 1967 a Matra lança um carro com o seu «décor».

Ornando as roupas que as mulheres trazem, a pintura entra na rua.

O caso do suposto envolvimento dos Delaunay com a espionagem ficou como uma bizarria insólita que os tempos de então proporcionavam.

O mais interessante é que o próprio Almada Negreiros pudesse, afinal, ter tido um eventual papel, ainda que involuntário, no episódio.

Almada tinha pelos Delaunaly uma inflamada admiração. Ilustra-o, no seu estilo excessivo, uma carta sua para Sónia: «amanhã dar-lhe-ei toda a minha alma epiléptica de admiração por vós».

Resulta isso das «Conversas com Sarah Afonso» editadas em 1982 por Maria José Almada Negreiros na Arcádia.

Afonso foi, como se sabe, a mulher do pintor, poeta e pensador José de Almada Negreiros. Maria José é a sua neta.

Segundo Sarah Afonso a prisão dos Delaunay ficara a dever-se involuntariamente a Almada.

Este havia escrito o conto «K4, quadrado azul».

Até então inédito, o manuscrito havia sido então levado por Amadeu Souza- -Cardoso, o qual se prontifica a fazê-lo imprimir no Porto, onde se encontrariam meios de tipografia mais acessíveis.

Passado o tempo, a impaciência do seu autor começa a não se compadecer com as delongas.

Dispara-lhe então um telegrama «Dá notícias K4 quadrado azul».

Teria sido o alerta dos polícias. «Ao Almada não disseram nada, não sei porquê, mas ao Amadeu foram perguntar o que era aquilo e depois todo o grupo foi interrogado», contaria Sarah a sua neta.

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Foto Destaque: Casal Delaunay

José António Barreiros é advogado. Tem-se dedicado à escrita jurídica e ao ensaio histórico, como a apresentação de O Príncipe de Maquiavel e nomeadamente no sector dos estudos sobre a guerra secreta em Portugal nos anos 1939-1945. Publicou os livros A Lusitânia dos Espiões, colectânea de artigos; O Homem das Cartas de Londres, biografia de Rogério de Menezes, agente do Eixo; Uma Agente Dupla em Lisboa, biografia de Nathalie Sergueiew, do XX Committee; O 13º Passageiro, sobre a fatídica viagem do actor Leslie Howard a Lisboa e Traição a Salazar, sobre actuação do SOE em Portugal. Traduziu e prefaciou a narrativa histórica Eu roubei o Santa Maria de Jorge Soutomaior. Na área da ficção, é autor de Contos do Desaforo e do romance Não se Brinca com Facas.

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