EDITORIAL – A ENERGIA NUCLEAR VOLTOU – E COM RAZÃO – por Ricardo Amorim Pereira

A recente decisão do governo nipónico de reativar a central de Kashiwazaki-Kariwa, a maior central nuclear do mundo em capacidade instalada, representa muito mais do que um simples reinício técnico. É um sinal político e estratégico claro de que, perante a urgência climática e a instabilidade energética global, a energia nuclear voltou a assumir um papel central na discussão sobre descarbonização. Num contexto em que o mundo precisa reduzir emissões de forma rápida, consistente e em larga escala, o nuclear apresenta-se como uma das poucas tecnologias capazes de responder simultaneamente à segurança energética, à estabilidade do sistema elétrico e à neutralidade carbónica. Continuar a ler “EDITORIAL – A ENERGIA NUCLEAR VOLTOU – E COM RAZÃO – por Ricardo Amorim Pereira”

NA TAL BOLINHA AZUL… – por Adelina Andrês

 

Lá tão longe e tão perto que até pode ser aqui, num sítio lindo lugar que não era não é só um sítio sítio lugar porque é onde quando e como todas as coisas dos mundos todos e de todas as coisas que não são mundos se anunciam e fazem acontecer e acontecem já está, e que são lindos lindos sempre porque nunca há feios sequer para comparar, há esferas bolinhas lindas de todos os tamanhos grandes e pequenas, pequeninas e tão minúsculas que servem todos os seres – pigmeus e gigantes, fadas e duendes… – que os habitam e visitam e que vão para lá, aqui, passear. Passear vadiar andar percorrer a pé e com asas e sem asas a voar, conforme o que de momento mais aprouver e deliciar!… Continuar a ler “NA TAL BOLINHA AZUL… – por Adelina Andrês”

“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes

“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO)PITAGÓRICAS

 – Trans (e) figuração e geometria secreta em António Telmo e Lima de Freitas

Pergunta – O que é a Ilha dos Bem-Aventurados?
Resposta – É o sol e é a lua.
P – O que é o Oráculo de Delfos?
R –  É a Tetractys.
P – O que é a Harmonia?
R – É o canto das Sereias.

François Millepierres, Pythagore, Fills D`Appollon, Gallimard, 1959, 119.

1.1. O pitagorismo de António Telmo (1927-2010) e Lima de Freitas (1927-1998) merecem bem uma meditação prolongada. Ora, precisamente o que surpreende – à luz da doutrina pitagórica – é a nobilíssima clarividência hermética de ambos e a (in) excedível valoração da mística e ocultismo do número e a proporção áurea. Supõe a liturgia algorítmica e a “golden ratio”. O nosso próprio interesse – proeminente – pela ciência «acroamática» ou esotérica provém, afinal, aparentemente ou rigorosamente falando, das reflexões-tipo sobre os conceitos-chave de transcendência e de realidade absoluta (que chamamos “o divino”). Quando comparamos, no conjunto, as reflexões pitagóricas de António Telmo e de Lima de Freitas, verificamos que ambos se referem à descoberta da estética da sectio aurea e que comentaram pormenorizadamente a década que é a natureza essencial de todo número – uma mónada de no mínimo 10. É interessante notar que Teofrasto – filósofo grego da escola peripatética que escreveu no século IV a.C. as “Doutrinas dos Filósofos da Natureza” (Phusikon Doxai) –  apresenta-nos uma ideia pitagórica bastante interessante – que o número ideal não está necessariamente sujeito a uma progressão sequencial ou causal de um a dez, mas é, antes, uma unidade com dez qualidades essenciais e potenciais, simultaneamente presentes na Década ou Tetraktys (eis porque pode representar, porventura, tanto uma unidade mínima quanto uma maximalidade em dez). Após ter posto em relevo, no início, as minúcias do hermetismo –  de que um dos aspectos primordiais é a kabbalah –  não é irrelevante a atenção –  (des) concertante  – sem alarde – destes nossos autores às “vias” de iluminação e realização espiritual do ser humano. Tratou-se, nos casos, ainda de um aprofundar dos estudos sobre a  kabbalah teórica (maasé bereshit) cujo alcance se estende desde a concepção do infinito até o mundo físico de coisas e acontecimentos que experimentamos como independentes e separados, passando pelas diferentes configurações da “divindade”, a “Árvore da Vida”, os mundos e seus habitantes, as almas humanas e seu destino, a semântica do alfabeto hebraico, e um longo etecetera. De facto, esse é o significado profundo da palavra kabbalah, que provêm da raiz hebraica, QBL, da qual deriva o verbo “lecabel”, receber. Kabbalah significa recepção. Não é assim surpreendente que, do acervo das ideias dos autores de “História Secreta de Portugal” (Vega, Lisboa, 1977) e de “Pintar o sete – Ensaios sobre Almada Negreiros, o pitagorismo e a gemetria sagrada” (INCM, Lisboa, 1990)  façam parte acentuada – desde o início –  os escritos da kabbalah (adcionando a quota-parte do conjunto das doutrinas esotéricas e místicas judaicas). É lícito, entretanto, mencionar o método de técnica oculta da kabbalah que professa a revelação central do sentido oculto do divino? Continuar a ler ““EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes”

“BAÚ DA POESIA”: DOIS POEMAS – de Amorim de Carvalho

BALADA HERÓICA DA LIBERDADE[i]

Por altas horas da noite é suspeito quem não há-de
já dormir… Anda a polícia de ronda pela cidade…

Fogem sombras, correm sombras, umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Por altas horas da noite pus-me a pensar: Que sentido
de existência pode haver em se ter ou não nascido?

Que sentido tem o vôo dos homens que à Lua vão,
para quem o vê apenas das grades duma prisão?

Que sentido tem o oiro a arder, ao sol, na seara,
para a noite sem manhã daquele que o semeara?

Ó liberdade do mundo, mas liberdade sem fome!
Ó mundo só inda em alma e por isso inda sem nome!

Por altas horas da noite eu pensei, pensei que um dia
pelo milagre de todos esse mundo se faria…

Nisto ouvi bater à porta, ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrava, e entrou para me dizer

que não pensasse! Este mundo era como Deus o fez…
Desta vez me perdoavam, sem perdoar outra vez.

Corriam, fugiam sombras… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Como faz medo pensar, fiz do pensamento um sonho.
Por altas horas da noite então a sonhar me ponho.

Pus-me a sonhar, a sonhar a mesma ideia querida:
tornar o mundo melhor para dar sentido à vida!

Por altas horas da noite ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrou, entrou para me prender.

Eu lhes disse que era um sonho. Olharam-me face a face.
Não sabiam o que fosse; disseram que eu não sonhasse,

porque o mundo tinha, sempre, de ser como Deus o fez…
Mais uma vez perdoaram, sem perdoar outra vez…

Sombras na noite fugiam… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Como faz medo sonhar, fiz do sonho uma canção.
Cantei-a numa voz alta, alta de revolução!

Não quero o mundo de Deus que fez o Bem com o Mal!
Que Deus se julgue a si próprio no Julgamento Final!

Eu quero o mundo do homem, mas que o homem, livre, o faça
universal como a luz e aberto como uma taça!

Eu não quero a cruz gamada nem o martelo com fouce:
porque este traz a polícia, e aquela a polícia trouxe.

Nem o martelo com fouce, nem a cruz gamada quero!
Quero o arco da aliança a cobrir o mundo inteiro!

Quero as suas sete cores, como bandeiras ao vento,
do amarelo das searas ao azul do pensamento!

Ó Sonho só inda em alma, e por isso inda sem nome,
de homens cidadãos do mundo, mundo livre mas sem fome!

Vamos dar um nome ao Sonho que na nossa alma vive:
a Liberdade no mundo, mundo sem fome mas livre!…

Por altas horas da noite, assim, assim cantei eu
a canção das sete cores, sete bandeiras no céu!

E a minha canção heróica, lívida, linda, suave,
saíu-me louca da boca e voou como uma ave!

Todos põem-se a cantá-la, aonde quer que ela fôr!
Essa canção do meu Sonho! Sonho do mundo melhor!

Já não há sombras que fogem, não há sombras que se escondem.
Mas homens que dão-se as mãos, corações que se respondem! Continuar a ler ““BAÚ DA POESIA”: DOIS POEMAS – de Amorim de Carvalho”

O QUE É A VERDADE? – por Artur Manso

 

 

“O que é a verdade?”Pilatos no julgamento de Jesus.

O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete
Aristóteles

                                                Não há factos eternos, como não há verdades absolutas
F. Nietzsche

O físico John Wheeler (1911-2008) referiu que “vivemos numa ilha rodeada por um mar de ignorância. À medida que cresce a ilha do nosso conhecimento, também cresce a costa da nossa ignorância”. Nada melhor do que as palavras de um físico, preocupado com a universalidade das leis científicas para procurar o que significa e como se encara aqui e ali, a demanda pela Verdade. Se a resposta fosse fácil, não haveria tanto silêncio, incompletude e dissimulação acerca do assunto. Conjeturemos, então, um pouco sobre o tema em torno do legado da tradição ocidental marcada pelo conhecimento greco-latino: as origens, porque sei que o assunto é complexo e tem muitas e diversas abordagens ao longo dos tempos e das diversas culturas.

O Evangelho do discípulo filósofo, João 18: 39 traz enunciado a dificuldade sobre a matéria quando relata o interrogatório de Pôncio Pilatos, governador romano da província da Judeia, ao jovem intransigente Jesus que afirmava ter vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos sabedor disso, pergunta-lhe: “O que é a verdade?”. E a resposta surpreende porque é um tranquilo abaixamento do olhar de Jesus, mergulhado em silêncio profundo. Parte da questão, a mais especulativa, talvez possa ter correspondência na afirmação de Jesus relatada em uma passagem anterior a esta:  “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8: 32), porque daqui depreende-se que a verdade é o compromisso de cada um com a vida toda num caminho de autenticidade e partilha. A verdade é o encontro com o pleno da existência, no reconhecimento da sua incompletude e no desejo de querer ser mais, não de uma maneira egoísta, mas de ser mais uns com os outros, mover-se em conjunto na causa do amor ao próximo, porque o meu próximo não é aquele me rodeia e me ocupa, desviando a minha atenção no quotidiano, mas sim aquele de quem, livremente e por escolha própria, me aproximo. A sabedoria antiga no rigorismo da lei mosaica tinha estabelecido dez princípios para a vida. Não eram muitos, mas o transgressor Jesus sabiamente resumiu-os a um apenas: “amar Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo”. Para satisfazer agora os emergentes espirituais laicos, guiados pelo olhar estético e cultural, e não tanto pelos livros das religiões, os simples deste mundo podem rasurar a primeira parte e grafar apenas: “ama o próximo como a ti mesmo” porque a essência do mandamento permanecerá intacta. Continuar a ler “O QUE É A VERDADE? – por Artur Manso”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

Tal qual uma folha

tornou-a de tom castanho o tempo
depois de a deixar viver com a cor das esmeraldas
viçosa, nascida anúncio de força com tamanho de vida
logo se juntou às aves, às flores e às ondas
cá dentro, desejo contido de a fazer minha
finjo de longe que lhe toco
e que a abraço no dia em que foi eleita rainha
agarra-se à cor que ainda lhe resta
sem temer o vazio do pó que a espera
mais fraca sou eu, é certo,
que nada sei da natureza e das suas leis
sou capaz, porém, de morrer de saudade
mesmo sem nunca me ter inteiramente pertencido

vejo-a cair
segue uma linha, destinada à passagem da
tonalidade da vida

cai sem pressa
ainda há beleza nos últimos segundos de vida

somente para ser pela natureza compreendida Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

NA PRIMEIRA PESSOA: 8 DE MARÇO, DIA INTERNACIONAL DA MULHER – por Cristina Costa

Mulher de Guerra, Mulher Inteira!

Sou fogo, mas também água
danço entre o turbilhão e a calma,
entre a chama que me arde no peito
e a maré que me devolve a alma.

Sou forte, mas também frágil
porque a força vive no gesto que treme
no silêncio que pede colo,
na coragem de admitir que dói.

Sou tão afável como indelicada
porque ser mulher é ser contraste,
é ser verdade
luz e sombra no mesmo instante.

Sou amiga do meu amigo
dando o que não consinto a mim mesma,
o meu coração é casa aberta
porque me esqueço da sua chave.

Sou carinhosa, por vezes indiferente
porque nem sempre,
o mundo cabe no meu abraço
mas quando se lhe ajusta, desabrocha.

Sou arrojada por objetivos
teimo, insisto, recomeço,
porque a vida não me ensinou a desistir
mas a levantar-me depois de cair.

Sou apego e paixão
sou vento livre quando preciso,
sou raiz funda quando quero
sou escolha, sou caminho, sou mudança.

Sou mulher e sinto-me feliz
com as minhas crenças e princípios,
com a verdade que carrego no peito
com a história que escrevo todos os dias.

Sou uma mulher de guerra
não pela violência,
mas pela força de existir inteira
num mundo que me pede metades.

Felizes dias para todas nós, mulheres
que somos fogo, água, resistência, fragilidade
e tudo mais que quisermos ser…

♦♦♦

Cristina Costa – mulher, trabalhadora, estudante, amiga, cúmplice. Interessada pela surpresa dos dias e pela beleza da vida. 

O 17 DE MAIO GALEGO – por Fernando Martinho Guimarães

Há povos e países separados pela mesma língua. Portugal e o Brasil é um exemplo, ou os Estados Unidos da América e o Reino Unido. O mesmo se pode dizer da relação entre Portugal e a Galiza. Continuar a ler “O 17 DE MAIO GALEGO – por Fernando Martinho Guimarães”

QUANDO O ELOGIO DA IA GENERATIVA CONDUZ AO ANTI-INTELECTUALISMO – por Francisco Fuchs

Quando o elogio da IA generativa conduz ao anti-intelectualismo

Em fevereiro de 2026 teve início uma controvérsia sobre uma colunista do jornal Folha de São Paulo que usa IA generativa para produzir seus artigos. Escrevi este texto para publicação naquele jornal e estive a um clique de enviá-lo, porém desisti ao ler os abusivos “termos para envio”, que me impediriam de republicá-lo onde bem entendesse. Menciono esse contexto porque ele explica a concisão e o caráter ao mesmo tempo polêmico e didático deste texto, no qual esforço-me para equacionar o problema diante de um público amplo e diverso. Equivocam-se apologistas e detratores do uso de IA generativa: estes não compreendem que também a produção textual é produção de mercadoria; aqueles manifestam uma concepção rudimentar (e nociva) do trabalho intelectual. Continuar a ler “QUANDO O ELOGIO DA IA GENERATIVA CONDUZ AO ANTI-INTELECTUALISMO – por Francisco Fuchs”

AMANHÃ SERÁ VERÃO – por Jaime Vaz Brasil

 

Amanhã Será Verão

Eu sei, menina, que a vida
às vezes parece pouca:
meio morna e sonolenta
ou louca e quase demais…

Mas viver se faz
em tudo o que a gente inventa
e amanhã
amanhã será verão.

Eu sei que às vezes faz frio
sei do vazio e da sombra:
parece morta a semente
no berço branco da neve… Continuar a ler “AMANHÃ SERÁ VERÃO – por Jaime Vaz Brasil”

BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos

 

 

Há Em Mim Essa Asa
Não são penas, não é metal.
É memória de vento, é sopro de quem não desiste.
É o que se ergue quando o chão racha, quando a noite engole os passos, quando o mundo sussurra “desiste” e o coração responde: ainda não.
Há em mim essa asa —
não para fugir, mas para voar sobre o que dói.
Para carregar o peso dos dias como se fossem nuvens — pesadas, sim, mas que se dissolvem ao toque da luz.
Para olhar de cima o caos e, ainda assim, encontrar o mapa das estrelas dentro do medo.
Ela nasceu nos silêncios entre um grito e outro.
Nos instantes em que o corpo tremia, mas a alma teimava em não dobrar.
Nas madrugadas em que a dor era mais forte que o sono, e eu, mesmo assim, me levantei — porque amar é também resistir.
Porque amar é aprender a voar mesmo com asas molhadas de lágrimas.
Esta asa não foi dada. Foi forjada.
Em quedas que ensinaram o ar.
Em quedas que ensinaram o voo.
Em quedas que ensinaram que o céu não é destino — é escolha.
E cada batida, cada esforço, cada arranhão no vento, é um verso escrito com o sangue da tenacidade.
Ela sabe o peso do amor — não o amor fácil, de flores e abraços, mas o amor que se curva, que se rasga, que se recompõe.
O amor que segura a mão na tempestade, que acende o fogo no inverno, que diz “vamos” mesmo quando o caminho desaparece.
Há em mim essa asa —
ela não me leva apenas aos céus.
Leva-me ao centro de mim mesmo.
À verdade crua, à beleza ferida, ao conhecimento que nasce da dor e se transforma em luz.
Leva-me a entender que elevar-se não é escapar da terra, mas honrar sua gravidade — e ainda assim, dançar com o vento.
Então, quando o horizonte se fechar,
quando as nuvens se tornarem muros,
eu estenderei esta asa —
não por orgulho, mas por promessa.
Porque há em mim esta asa…
e ela é o meu sim.
O meu sempre.
O meu amor que não morre — que voa.
E o avião descola.
Mas eu já voava sem asa. Continuar a ler “BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS X – por Lúcio Valium

X

A caminho da tipografia encontrei o do 24. Levava um pequeno rádio sintonizado numa estação estrangeira. Caminhava demasiado devagar. Ao ver-me disse calmamente a palavra pústula. Já pensou nesta palavra perguntou. Eu sou nestes tempos essa palavra. A minha mente é pura depravação e só me ocorre o choque como forma de comunicação. A violência como ato generoso. Fixando o chão com os olhos como que cuspindo fogo disse: tenho saudades suas. Há muito que não falo verdadeiramente com ninguém. Por onde andou. Estaremos mais vezes juntos a partir de agora disse eu. O meu jantar serão três cenouras cruas. E desandou olhando-me sorridente.

X

Quando em belas artes usavas amarelo na madeira eu estava lá. Olhei-te muitas vezes ao enfrentares o plano ou o abismo. Ouvi de perto palavras entre ti e lapa, aguiar e batarda. Seguia os teus passos e inspirava o fumo que largavas. Li os teus pensamentos. A tua voz acompanhava a minha deambulação. Vi-te escrever e beber. Adivinhei as tuas indecisões e desejos íntimos. Percebi os teus agrados e tédios. Já estava longe e as minhas asas ficaram nos cordões para secar roupa. Havia muito para rasgar na pele terrestre. Um dia tinha sabido sem consulta que estava louco. Talvez um estranho por tão próximo, e Camus pudessem enganar-se nas quantidades ao misturar certas bebidas.

X

Depois de Pepe Carvalho ter ido até à montanha arriscando-se a encontrar quem lhe partisse alguns ossos decidi ir em direção ao centro da cidade. O próximo comboio sai dentro de minutos. Penso encontrar Salinger no café Ceuta. Por vezes pára aí para tomar chá. Nunca o vi falar com ninguém exceto com um tal Pedro Pena. Homem elegante com grossos óculos de massa com sorriso fácil e terno ao contrário do escritor que não ri. Pena dedica-se à pintura de nus femininos. Gosta só de poetas muito idosos. Viaja exclusivamente para norte. Salinger isola-se num jardim com peixes. Logo ao nascer do dia. Conheci os dois quando estive internado na ala de nefrologia. Ambos se encontravam ali em camas demasiado próximas. Eles tinham visto a tua exposição na ordem dos pilotos de submarino.

LASCAS

O processo está na tômbola. Vénias e imposições institucionais. Fomentam-se danças e evidenciam-se garras e veneno tecnológico. Sonantes fórmulas para guiar ratinhos. As bases da estabilidade convivencial. Viperinas eminências exercendo a salivante atividade política. Simulacros e encenações com geometria e retórica. Tudo em contraverso ao que vivemos na hospedaria. Nada como os beijos que me deixas logo pela manhã a uma distância indizível dos nossos corpos banhando-se no azul ao fim da tarde. Agora vou buscar vinho branco e pôr música na cozinha. Blues para começar e abraçar-te.

ÂNGULOS

Os olhos moldam a vestimenta da sala. Cordões de barcos abraçam o leito do declive inclemente. Infernizar o ancestral lodo psíquico com pinceladas dementes é higiene de sabonete herbáceo ventoso. Um sal marítimo na pele dos lábios de fruta. Afinal as roupas dão boas vistas a entes diversos. Químicos semânticos agilizam os encantos neuronais e rodopia a escultura carnal cantante. Tudo em doses de gramagem não quimérica. sem exigências de cavalos indomáveis. Um segredo de mão em volta dos maxilares abre a grande portada dos ventrículos. Soltam-se então as pétalas noturnas.

FRÉMITO

Você é um pouco esdrúxulo diz sentando-se o do 24. E acena ao homem do balcão. Se durmo bem ocupo esta mesa pela manhã e nunca o vi por aqui. Sítio tão recôndito não é para os seus hábitos. Algo mudou. Vejo-o com o olhar de um desterrado. Fala devagar olhando para o outro lado da rua andando sem objetivo. Caminhei uma hora e meia até chegar aqui. Sabia que podia encontrá-lo, respondo. O que anda a ler, pergunta. Um argelino e um catalão. Ficamos em silêncio. Muda o semblante e aconselha   parar com as leituras. A sua voz é mais leve e sorri com vontade. Olha-me aparvalhado. Já tinha dito o mesmo a mim próprio. Esfrega a testa e diz então, ouça-se. Fico a pensar na frase. Levanta-se. Eu permaneço quieto. Decido ouvir-me e dar isso a ver. Foi bom vir aqui penso. Há palavras, chuva, e por vezes as do 24 são uma boa chuvada. Ou trovoada. Regressa com dois vermutes. Tinha-o procurado próximo da instituição, mas não apareceu. Diz enquanto me olha e leva o copo à boca que é mais fácil você encontrar-me. Deixei os territórios familiares. Afastei-me como se já não fosse dali. Fui encontrando sossego em zonas mais despidas. A veia niilista não lhe retira a força no olhar. O desprezo é um aliado e a fúria está nas suas palavras suaves e desvairadas. Acabo a bebida como quem termina um livro.

     X

Ouvia o som das folhas e tinha o cabelo salgado. O banco de madeira dos carris deixava o mar entrar nos meus escritos. Eu tinha decidido voltar a esculpir e trazia-te na cabeça. Depois ao fim da tarde era a tua pele que anunciava os peixes. Uma hora a rebolar em tintas azuis e ficou a nossa lua psíquica coberta de mel. Não se encontrava ali quase ninguém por isso entrámos na carroçaria e fomos para o meio das árvores. Há festa no globo segredavam-me as enzimas. Tinham desenhado mais ou menos uma fronteira. Contudo a água gelada saía do interior fleumático da montanha e quando os gatos ainda faziam contorcionismo via-se o chão por baixo do espelho. As costas aqueciam longe da jangada. De repente eu encharcado atirei-me para cima de ti e o rapaz de boné grande comeu o marisco quase todo. Cervejas e borboletas. Era assim que o tempo era nosso enquanto o comboio zumbia.

CACIFO

Tratar um cachimbo revela tarimba. O vento escancara as linhas de pensamento. Fico ali a limpar o nariz com um anis eletrónico sónico. Também pus fitas de cola nas capas. As copas desenham a janela. O bibliotecário ateu tem veia semiótica. Veremos se os dias não o deprimem. Ao lado das 4 salas de máquinas pode-se regressar à música solitária mas há muitas páginas a decifrar e o receituário invade as neuroses. De todo o modo o frio da noite foi amaciado pela tua pele. Adormecer e acordar contigo um tal ópio visual. As delícias orgânicas.

PEÇAS

Paredes altas azulejos vermelhos sangue. Pantalhas imaginárias vozes noctívagas. Uma seta voa sobre ramos de banalidades. Neste bloco vão desaparecendo os pobres andantes. Sonâmbulos cabides humanos vão a casa dormir. Confuso deixo-me estar. De um lado para outro olho o terreno como um gato. Aqui há investigação silenciosa. Alfaces poéticas na esterqueira pensante. O lixo real entra pelos óculos. Aspiradores inquietos leem radiações podres e irreprimíveis. Esvoaçam partituras antropológicas para entontecer consumidores de ideias filantrópicas. Caminho por aqui e depois sento-me. Por momentos surge um escritor para me visitar. Falamos pouco porque ouço mal. O relógio também é culpado, mas não o acuso. Todos os problemas são meus. Saio para o largo dos abrunheiros e medito sobre as manchas no chão. Quando vivia na infância comia aquela acidez e o risco dos ramos fracos. Os pássaros furavam os frutos que enferrujavam com doçura. Apesar de caminhar devagar no silêncio dos corredores a velocidade das páginas foi demoníaca. Não obstante as divindades de serviço e as majestades que guardam cerimoniosamente os valores isto descamba com uma voracidade histérica e a correria é desenfreada. Por isso me sinto tão otimista. Que se fodam os bordados e os naperons verbais e sentimentais dessa corja merdosa que se pavoneia por cá. Ou será um lapso do universo diria Lucrécia com seu saber. Vou mas é dar-lhe a mão e zarpar até mais norte para vadiar sem vínculo.

SINAPSES  SÓNICAS

A falta de música atordoa-me as membranas. Falo também da que não existe nas palavras destes humanos. Da ausência dela no seu andar e nos seus gestos. Há uma obediente repetição de banalidades seguindo a linha dominante. Praga injetada nos veios ancestrais. O triunfo do simulacro. A cegueira alastra na falência sónica das vidas em série. Rareiam sons únicos e a estranheza do ser inesperado. Não há música nos quartos e nos corpos nos jardins e nos olhares na pele e nos átrios. Escondida no silêncio foi-se embora ou foi esquecida. Pergunto.

(?)

Havia um uivo e a janela abanava. Também se rasgou a cortina enquanto as vassouras dos homens juntavam folhas no dia ensombrado. Era preciso mudar as calças molhadas e voltar a sair para comprar tabaco. É simples a escrita e a música dos encontros. Sons na carne.

ANTIMENTE

Não pensar e não escavar. Desprogramar a mente cortar-lhe os fios. Apagar as marcas os troços viciados e a fórmula obscura.  Escutar o nada passar em frente sem pesar causas e apalpar versões. Andar. Olhar. Não interiorizar. Deixar juízos quietos intocáveis. Desrefletir e saborear a anti análise. Musicar a ausência ostentar o humor na pele e no corpo. Ser gataria sem tempo definido. Perder o fio inverter os ponteiros e trocar o passo. Desrealizar. Ser sem grelha. Fazer lentamente do desejo do dia a forma impensada. Deixar tudo por um tempo inventado e mergulhar nele para vir à superfície das águas a nudez. Leve e muito mais lisa a arte de fazer desreal a impostura repetitiva. Sair com outra mala outros pincéis novos olhos. Rasgar partituras opressivas do salão bafiento. Aninhar ler dispensar sair ir ver as folhas. Luas antes de nascer o sol. Sons ventosos. Chovia e o silêncio entrava nos poros cerebrais. Ancorada num porto sossegado a íntima vida dormia. Logo de manhã irá para os montes falar com o vento e com as vacas.

PRODUÇÕES

Querem apresentar um estudo. Chamam-me ao gabinete. Caminhando cabisbaixo pergunto-me o que terão estudado. Não me desvio de quem passa. Vejo estes seres como quem olha para vidro muito para lá deles. Trespasso-os com indiferença altiva. No átrio uns papalvos gritam. Sigo sem olhar e sento-me junto ao guichê sem dizer palavra. Tiro do bolso do casaco textos de Alba e Forte. Leio saltando folha e linha. Decorrem uns minutos e entrementes um ser de bata clara põe à frente dos meus olhos um envelope. Seguro-o levanto-me e vou para um banco ao fundo do corredor. Abro o estudo e leio.  Suburbano-depressivo ostenta por vezes um silêncio ameaçador. Melancólico-paranóico. Parece arreganhar-se-lhe os dentes quando ouve um sino. Ficam-lhe de pedra os maxilares ao passar na secretaria. Apático-agressivo desafiante-distante anda pelos corredores como se fosse fruidor sónico contorcendo-se lentamente em virtude da guerrilha entre os sons inexistentes que ouve no íntimo e os reais que despreza no edifício.

INDUÇÕES

Revela uma certa daltonia ética. Usa o olhar como ave de rapina exibindo um semblante de compaixão por nada em concreto. Niilista agarrado ao tempo como humidade caminha junto aos beirais e bebe em sítios desaconselháveis. Dificilmente será convidado para o pavilhão superior. Tende a perder capacidades. A sua inadaptação é incurável. Que se fodam diz para o do 24 já na sala de jogo. Os veredictos que penduram no ecrã serão levados pela ventania. Querem decifrar o novelo mas não tocam numa linha. Desconhecem a minha alergia. Seja o que pensa responde o do 24 e dispa a face dos preconceitos que eles lhe querem colar. Ignore os eventos nauseabundos que sabotam a leveza. Flutue nos dias. Use o vocabulário e o olhar como música física. Faça a poesia dos lugares. Invente formas. E saiu…

DECORAÇÕES

A maluqueira generalizada com bombons às cores e pobreza semântica arrepia os ossos de qualquer homem que viveu em quartos alugados. Papagaios aprisionados em grelhas digitais ostentam uma verborreia de caramelo enjoativo. Eu não abro a boca nesta sala caótica. Olho cada um dos figurantes como um fantoche de esparguete. Bebo água e engulo comprimidos para calafetar os ouvidos. Ensaboo o coração antagónico num wc gelado e fujo para o bar. Não há sopa. As prateleiras estão vazias, mas colaram bonecada brilhante nas paredes. As fêmeas andam em patins à espera do cabeleireiro. Não há um olhar humano. Fantasia e papel de embrulho. Mesquinhez avassaladora e vozes de televisão. Vómito e bom comportamento enfileirados. Nem um livro. Nada de música ou auto estilo. Nunca um rasgo singular. Vou à biblioteca ver se encontro o do 24. Não o vejo nos livros ou nos jornais. Dou uma volta pelas estantes de neurociências e entro na pequena sala das enciclopédias. Está sentado ao fundo num pequeno sofá. Dorme com um volume ao lado. O seu ressonar é música insólita nesta manhã demente. Não o acordo. Abro um livro como quem desaparece.

LUVA

Não sei quando ou de onde veio. Apetrecho musical diria o do 24. Trata-se de um aparelho alérgico a certas patologias. Radar que se contorce nos momentos de estupidez desde logo a minha. Então aparece um outro eu. Vinha a conversa a propósito da invasão do espaço do tempo e do corpo nas salas matinais. A falta de bem é uma cegueira asquerosa e os bicos de pés estão encardidos tal a imundice nas ligações integradas. Resquícios atávicos de bons modos e falsidade longe do monólogo desbragado do inadaptado. Aqui só falo para seres em queda.

MENTE SÓNICA

Eu estava ali encostado à janela de sol com os olhos fechados. Enquanto sentia na cara a luz e a quentura pensava no início do mundo. Depois apeteceu-me pensar na demência lúdica da guerra fria. Que se fodam os meus pensamentos. Nem são meus. Estão de passagem. Aqui queriam colar-me ao grupo de homens dos dias repetidos. Destoei e viciei-me em desvios sabendo que nas vias longas há alarmes. Breves sons agudos à passagem de humanos. Um controle em nome da higiene abstrata. Sigo para zona pouco convidativa. Sinto sossego. Nem um som tirando a música dos segundos. A sala está luminosa como um aquário. Lá fora o gelo. Voltaram os derrames nos olhos. Pequenas cortinas rubras. Pode ser alergia ao tecido digital ou lâminas minúsculas nos licores. De qualquer modo vejo. O melhor é falar menos usar tempo e afundar os olhos em linhas. Ouvir íntimos devaneios e mudar algo em cada dia. Não seguir os passos.

LI

Os wc estão gelados como os grandes espaços e as salas. Só o sol, o vinho noturno e o teu corpo me aquecem. Onde andarão as nuvens, interrogo. Já bastava de sol no teto planetário. Entontece os neurónios mais instáveis. Não aguento muito tempo o tratamento dos raios. Nevralgias nas articulações e irritação semântica. Algas e ostras na retina. Depois entro nos desvarios alcoólicos. De resto tudo aqui à volta é papel químico. Mímicas imitantes. A instituição onde agora me alojo é monstruosa. Só posso encontrar o do 24 lá fora. Tenho-o evitado. Não me apetece sair de mim. Preciso de tempo mental para encontrar o que mudar. Tenho que anular a apatia sozinho e subverter as diretrizes do meu esquema físico encefálico. Indo ao fundo invento-me e crio o que adio há demasiado tempo. Escrever na manhã cinzenta liberta as garras. Aqui há poucos lugares com música. Uma sala grande friíssima que será boa nos dias quentes onde ouço música sem música e saboreio o melhor de ti.

♦♦♦

Lúcio Valium – Um ser em desvio, sem lugar! Um homem vivo, em desordem! Um forasteiro que nos caminhos encontrou palavras e perdeu moradas!

A MEMÓRIA QUE URGE REAVIVAR – por Manuel Igreja Cardoso

A nossa memória individual exclusiva e própria de cada um, tende a se ir esfumando com o passar do tempo, coisa que obviamente sabemos e sentimos. Em cada dia, novos acontecimentos vão ocupando o seu devido espaço na capacidade de registo, enquanto alguns das horas idas se vão diluindo como paisagem coberta por uma ténue neblina que move e encobre.

Quem nos dera que assim não fosse, pelo menos no que respeita às coisas boas e às pessoas acerca de quem nos nasce muito carinho. Relativamente ao desagradável e apesar de tudo fazer parte de nós, mais vale que o manto diáfano do esquecimento, o cubra o quanto melhor possível. Continuar a ler “A MEMÓRIA QUE URGE REAVIVAR – por Manuel Igreja Cardoso”

o papel serve apenas à nomeação – por Maria Toscano

 

o papel serve apenas à nomeação

conheço o sal da tua pele”, Jorge de Sena

1
a tua pena choro.
o desperdício.
o abandono.
.
da tua ânsia vibro / compassos / sincopados
.
da tua voz intuo

sonhos e desencantos
o baloiço da tua pele reconheço / oiço
.
da tua alma digo / a vogal.
.
e vogamos.

2

três novos planetas descobriram
e os astros ficaram desencontrados
.
.
isso que importa?
de outro tempo somos a estrela

o devir

3
arrepiada inteira e sem portado
— minha alma aberta
casa negra e branca
que fado.

4
vens

pela minha mão
até ao texto
.
.

és prece? verso? voz?
.
.
desces devagarinho até às linhas
onde fazes o que não digo.
me realinhas.
.
o papel serve apenas à nomeação.
.
és o aquilo em que me movo.
.
Maria Toscano

Coimbra, Café ‘Cartola’, 2 e 27 Setembro/2004.

♦♦♦

Maria (de Fátima C.) Toscano, Doutora em Sociologia. Docente Universitária, Investigadora e Formadora. Coach e Trainer em Programação Neurolinguística.

Reseña de “Más allá del fin” de Manuel Rojas – por Moises Cardenas

 

En el umbral: Una reseña de Más allá del fin de Manuel Rojas

por Moisés Cárdenas

Más allá del fin de Manuel Rojas, publicado en 2024 por Zócalo Editores en la colección “Los Pequeños Seres”, es una obra que explora lo sobrenatural, lo misterioso y lo existencial. El libro, de 116 páginas, incluye ilustraciones del propio autor, lo que añade un componente visual introspectivo y onírico. En la portada de Más allá del fin, se observa una figura negra que se extiende con los brazos abiertos contra un estallido de colores cálidos y violentos. No es solo una ilustración: es la declaración visual del libro entero. Manuel Rojas, desde el Táchira profundo, nos invita a cruzar un umbral donde lo cotidiano se quiebra y lo sobrenatural —brujas heredadas de la bisabuela Rosa, gatos negros enredados en cables de alta tensión, monstruos que sonríen desde la memoria familiar— se estira hacia nosotros como esa sombra alargada. No hay finales definitivos aquí; solo extensiones, umbrales, ciclos que insisten en renacer más allá del colapso. La figura de la portada manifiesta ser un Cristo o un espectro en éxtasis/dolor, los colores intensos que aparece un atardecer apocalíptico o un amanecer sobrenatural, y las siluetas animales abajo (el gato negro es inconfundible, y esa otra forma más alta podría ser un lobo, un monstruo o incluso una bruja estilizada). Es una imagen que grita lo que el libro es: un umbral visual y narrativo hacia lo que queda después del fin, donde lo humano se estira, se deforma y convive con lo no-humano para entrarse en lo animal.

En cuanto a la estructura y el contenido, el libro es una antología de doce cuentos cortos, sin prólogo o introducción formal, lo que invita a una lectura inmersiva desde el primer relato. La estructura es lineal, con cada cuento independiente pero conectado por motivos recurrentes como la niebla, gatos negros, dimensiones alternas y monstruos internos/externos. Utiliza un lenguaje descriptivo, con párrafos largos que crean atmósferas opresivas, esto se puede ver en el cuento “Alerta: Alta tensión” donde se describe lo sobrenatural, el regreso de los muertos y el gato como presagios, “Era un gato negro, de ojos grandes y cara redonda con una cinta roja en el cuello.” (rojas, 2024, p. 11) quizá la cinta pueda ser la búsqueda de la suerte o el cuidado de algo por suceder, sea lo que sea, al leer el cuento se puede darse cuenta que su prosa es densa, exige una lectura lenta. La forma fragmentada del libro refleja la fragmentación de la memoria y el yo. Sobre este, Haydée Yolanda Márquez se expresa en la contraportada: “El yo, se amalgama en todos los egos que lo pueblan… el otro yo sutil, enmascarado, como toda la gama de yoes de un poeta loco y resignado a caminar por las calles recorridas por sus ojos… ” Aquí se revela la faceta autobiográfica y existencial. El autor se reconoce como un observador, el poeta loco que camina sobre las “letras del alma dormida” que llevan a cuentos con finales abiertos o abruptos que dejan al lector en suspense, reforzando el tema del “fin” inconcluso.

El autor dedica la obra a su bisabuela Rosa, “por quien me enteré que las brujas existían”, (Rojas, 2024, p. 7) establece un tono personal y folclórico. Los epígrafes bíblicos (1 Tesalonicenses 5:4) y de Tallemant des Réaux sobre el más allá, anticipan la temática central: la frontera entre la vida y lo que yace “más allá del fin”, el libro refleja inquietudes existenciales, posiblemente alegóricas de la desintegración social.

Entre los temas principales, se destaca el más allá y la muerte. El título evoca lo que sucede “más allá del fin”, explorando la muerte no como cierre, sino como transición. Relatos como “Evolución”  y “La nueva creación” imaginan apocalipsis y renacimientos cósmicos, con ecos bíblicos y sci-fi. En “Todavía puedo salvarme”, los sueños son portales a dimensiones paralelas, cuestionando la realidad. En la obra lo sobrenatural y el horror,  predominan elementos de terror gótico venezolano, como brujas en el cuento “  En algún lugar de la casa”, se presentan los monstruos en la “La sonrisa del monstruo”       y criaturas híbridas. Influenciado por el folclore andino del Táchira), Rojas incorpora gatos negros, niebla y lagos malditos como símbolos de lo oculto.

También se evidencia el existencialismo y la soledad. Muchos personajes enfrentan aislamiento (físico o mental), reflejando crisis personales o sociales. En “A pesar de la niebla”, una pareja se pierde en un laberinto mítico, alegoría de la búsqueda identitaria. Surge en sus páginas la ciencia ficción y evolución. El cuentos como “ Evolución” fusionan horror con especulación futurista, explorando mutaciones y extraterrestres, en línea con la literatura caribeña postapocalíptica. El escritor hace referencias culturales en alusiones a la Biblia, mitos hiperbóreos, Frankenstein y Drácula enriquecen el intertexto, conectando lo local con lo universal.

Manuel Rojas incorpora ilustraciones interiores, abstractas y surrealistas (siluetas deformes, figuras oníricas), complementan el texto, evocando a artistas como Dalí o Goya. La narración es mayoritariamente en primera persona, lo que intensifica la subjetividad y el terror psicológico. No hay moralismos; los finales ambiguos invitan a la reflexión, fiel al estilo caribeño de lo inconcluso.

Más allá del fin, es una obra madura y perturbadora, donde Manuel Rojas explora los límites de la existencia con maestría. Su fuerza radica en fusionar lo cotidiano con lo sobrenatural, invitando a cuestionar la realidad. Recomendada para lectores de horror y ficción especulativa, deja una impresión duradera de inquietud existencial. En un mundo “fin”, el autor sugiere que siempre hay un “más allá”, un ciclo eterno de creación y destrucción. Esta colección consolida a Manuel Rojas como una voz esencial en la literatura venezolana contemporánea.

Bibliografía

Rojas, Manuel. (2024). Más allá del fin, Zócalo Editores.

Más allá del fin 
Manuel Rojas. Zócalo Editores.
San Cristóbal, 2025. 116 p.
Colección Pequeños Seres.

♦♦♦

Manuel Rojas Escritor, narrador, poeta, ensayista. Ha sido merecedor de diferentes premios en poesía, cuento y ensayo, como el del Octavo Festival Mundial de Poesía, convocado por la Casa Nacional de las Letras Andrés Bello, 2011. Recibió el Primer Premio Ganador en Poesía en 2004 con la obra Ceremonia del Ocaso, en el I Concurso Certamen Mayor para las Artes y las Letras colección Cada Día Un Libro de la Fundación Editorial El Perro y la Rana.

____X___

Moisés Cárdenas Poeta, escritor, prologuista, profesor y licenciado en Educación Mención Castellano y Literatura. recibió el Primer Premio en el XVI Concurso de Poesía del Ministerio de Educación (IPASME) Caracas, Venezuela, 2008, con su poemario El silencio en su propio olvido. Actualmente cursa el Diplomado Internacional en Promoción de la Literatura Infantil. (Fundación Alfredo Harp Helú, México).

EL TIEMPO HABITADO – de Pompeyo Pérez Díaz

 

EL OLOR DE LA COMPOTA DE MANZANA CON CANELA

                                                                    Almost Blue
                                                                    Elvis Costello

Me lo dijiste una vez
el olor de la compota de manzana
con canela
es una razón para vivir
y al verte
con uno de esos camisones
blancos   que usas
como de otra época
(aunque cortos)
en mi cocina de pared roja
preparando el café
al observarte   allí inmóvil
bailarina de Degas
descalza preparando
el café en camisón
pensé que ese instante
el tiempo detenido
era como el olor de la compota
de manzana con canela
y te robé una foto
te volviste
posando para otra   sonriente
posición de reposo
y ahora echo de menos
las distintas formas
de tu risa incontenible
que nos hace sentir seres
inmortales el modo en que miras
a tu alrededor la singular
delicadeza de tu pensamiento
tu extravagante manera de hablar
y (tal vez) me inquieta aceptar
que todo cuanto extraño
sea (solamente)
casi tú
Me lo dijiste una vez
y me dijiste una vez
cuánto te gustaba recorrer
con un dedo
cada rincón de mi torso
para ti un perfecto
triángulo invertido
mi forma de andar inconfundible
aguardar con paciente
ternura a que expusiera
alguna de mis ideas absurdas
sobre lo bello y lo efímero
y no puedo olvidar
cómo intuiste   adivinaste
desde el principio   mi sentido
del humor extraño
(lo llamo humor oblicuo)
mi extravagante manera de hablar
todo cuanto crees desear
tanto y que   tal vez
sea (solamente)
casi yo

pero escribimos  nuestros nombres
con tu lápiz de labios
en el libro de visitas
del Museo de Montmartre
y caminamos
entre las flores lascivas
que imaginó
Robert Mapplethorpe
nos reflejamos en decenas
de cristales   de espejos
bebimos grog y vinos de Borgoña
corrimos hacia aquella crêperie
bajo una tormenta
y ahora inventamos   susurramos
una transición dulce
hacia la nada

recuérdame

♣♣♣

SUAVEMENTE LAS LINEAS VIBRAN COMO LOS CARTELES

suavemente las líneas vibran como los carteles
sacudidos de viento en callejones sucios
las líneas de tardes girando en la habitación
o agazapado bajo melodías sinuosas
desentrañando misterios en las páginas
suavemente la amarga acidez del hastío
buscando huidas en carreteras solitarias
una radio en la gasolinera polvorienta
paisajes repetidos para sueños de autopista
en la desierta vigilia urbana faroles y pintadas
y el tedio en las lujosas danzas y en las citas
en algún desván tal vez mi imagen

♣♣♣

PARA TODA LA VIDA

Qué absurda memoria recreándose
entre irreales sombras que se estiran
qué oscuro silencio qué inmóvil todo
sólo momentos recuerdos de una calle
las solitarias horas los versos
los desgarrados sorbos de las copas

los delicados besos

qué extrañas cadencias inquietándome
qué invierno qué inmenso temblor de raso
figurando oleadas del malva al negro
qué olor morboso el de aquellos pétalos

y es el frío de los cristales rotos
la indolente luz en las aceras
el efímero descanso de los sueños
la creación amarga
qué heladas aristas brillando ahora
qué abandonado eco tu recuerdo
y el olor de la pintura aquel mes de lluvias
la suavidad de tus piernas y tus sábanas
el color de bronce de los viejos relatos
qué indiferente horror el de mis pasos
sólo sonidos miradas o palabras
como un espejo roto
para toda la vida

♦♦♦

Pompeyo Pérez Díaz (Santa Cruz de Tenerife, Espanha) é guitarrista clássico, escritor e psicólogo. Professor de Musicologia na Universidade de La Laguna, publicou numerosos artigos e livros de âmbito académico, mas isso fica fora do contexto da sua produção literária. Nesse campo publicou poesia, conto e ensaio de teoria da arte em Espanha, e há alguns meses foi editada uma antologia dos seus poemas pela editora El Taller Blanco (Colômbia).

CAPA EDIÇÃO Nº 34 E FICHA TÉCNICA

EDIÇÃO E PROPRIEDADE: Pencil Box – Multimédia, Ldª-

 ISSN 2184-0709

DIRECÇÃO: Júlia Moura Lopes

DIRECTOR ADJUNTO – Artur Manso

Logótipo e SEO : David Fernandes

Email: revista.athena2017@athena

Paginação Web: Júlia Moura Lopes

Apoio Web: David Fernandes e Luís Guerra e Paz

♣♣♣

COLABORARAM NA EDIÇÃO Nº 34

DEZEMBRO DE 2025

CAPA  – Fotografia de Paulo Burnay
EDITORIAL : “ONDE ESTÁ A SABEDORIA?” por  Artur Manso.
COLABORARAM:

ADELINA ANDRÉS, A. DA SILVA O, ADELINA ALEXANDRE TEIXEIRA MENDES, ARACELI OTAMENDI, ARTUR MANSO, CARLA PEREIRA, CÉSAR AFONSO, CLAUDIA VILA MOLINA, DANYEL GUERRA, FERNANDO MARTINHO GUIMARÃES, FRANCISCO FUCHS, HENRIQUE MIGUEL CARVALHO, JAIME VAZ BRASIL, JOSÉ PAULO SANTOS, LUCIO VALIUM, MARIA TOSCANO , RAPHAEL YUDIN, ROLANDO REVAGLIATI, RICARDO AMORIM PEREIRA.