A MEMÓRIA QUE URGE REAVIVAR – por Manuel Igreja Cardoso

A nossa memória individual exclusiva e própria de cada um, tende a se ir esfumando com o passar do tempo, coisa que obviamente sabemos e sentimos. Em cada dia, novos acontecimentos vão ocupando o seu devido espaço na capacidade de registo, enquanto alguns das horas idas se vão diluindo como paisagem coberta por uma ténue neblina que move e encobre.

Quem nos dera que assim não fosse, pelo menos no que respeita às coisas boas e às pessoas acerca de quem nos nasce muito carinho. Relativamente ao desagradável e apesar de tudo fazer parte de nós, mais vale que o manto diáfano do esquecimento, o cubra o quanto melhor possível.

Sabemos que o nosso quotidiano se veio tornando tendencialmente frenético e repleto de coisas e de loisas e sem tempo para dar ao tempo. Como em repelões, tudo acontece, tudo passa muito depressa e sem que por vezes a memória proceda ao devido registo.

Também o saber que adquirimos com o que nos ensinam, com o que vemos e com o que vivemos, se vai enriquecendo e guardando, não deixando, porém, de se ir escondendo por debaixo das pedras que impedem o fluxo dos conceitos que moldam a sabedoria.

Uma vez que cada qual não é somente ele, por estar inserido no meio em que outros agem e estão, das dinâmicas do viver, resulta o resultado evolutivo de onde surge a identidade individual pela soma das partes, resultando na identidade coletiva com os seus defeitos e com as suas virtudes.

Sendo a memória o pilar que nos sustenta e nos permite colocar o farol que nos indica os caminhos percorridos e a percorrer, urge que seja preservada, garantida e divulgada. Tendo-a cuidada, podemos aprender com os erros, conseguimos evitar cometer alguns outros, num processo em que conseguimos fazer melhor para sermos melhores.

Ao longos dos séculos, sempre os seres humanos se preocuparam com o registo daquilo que foram sendo, contando, desenhando, esculpindo e registando para que no futuro se soubesse o que então se sabia e como se vivia. Viam longe os nossos antepassados cientes que estavam de que o total é a soma das partes. Por conseguinte, sabiam também que das memórias individuais resulta a memória coletiva.

Por isso, uma e outra são essências. Por isso, ambas se devem manter de chama viva e se devem respeitar enquanto molde dinâmico e como fonte da sabedoria que orienta e que sustenta. Somente assim, se garante a passagem de testemunho geracional com melhores modos de vida, com mais tranquilidade e com garantia de futuros promissores.

Cada um de nós de nós e cada qual daqueles a quem compete pensar e agir no delinear nas vias a seguir, deve tudo fazer para conste permanente alegadamente, tudo ou o mais possível, o que a História nos pode dizer e ensinar, sobre os acontecimentos signos de orgulho, mas inequivocamente sobre os acontecimentos infames e terríveis perpetrados e consentidos por gente que virou fera.

Perto de si que isto lê, e de mim que isto escrevi, não passaram muitas décadas desde que a barbárie supostamente purificadora, espalhou o inferno na Terra, tornando banal a destruição e a morte com o beneplácito de imediatamente antes respeitáveis cidadãos comuns.

Nestes dias em que se tudo se esquece e com contornos insanamente desmedidos, urge que quem já viu ou já soube se relembre, e se ensine a quem não sabe, os desmandos alegremente cometidos, para que continue acesa a chama da decência que nos diferencia.

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Manuel Igreja Cardoso, nasceu em 1960 no concelho de Armamar e reside na cidade do Peso da Régua no Alto Douro Vinhateiro.  Licenciado em História, a par da sua atividade profissional da EDP – Energia de Portugal, desenvolveu nos últimos 25 anos uma profícua atividade na escrita de contos, artigos de opinião e de crónicas que tem vindo a publicar em diversos jornais regionais. Tem publicado um livro de contos, um com a história da Associação Humanitária dos Bombeiros do Peso da Régua, e outro com história da ACIR – Associação Comercial.