UMA NUANCE NAS NÓDOAS X – por Lúcio Valium

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A caminho da tipografia encontrei o do 24. Levava um pequeno rádio sintonizado numa estação estrangeira. Caminhava demasiado devagar. Ao ver-me disse calmamente a palavra pústula. Já pensou nesta palavra perguntou. Eu sou nestes tempos essa palavra. A minha mente é pura depravação e só me ocorre o choque como forma de comunicação. A violência como ato generoso. Fixando o chão com os olhos como que cuspindo fogo disse: tenho saudades suas. Há muito que não falo verdadeiramente com ninguém. Por onde andou. Estaremos mais vezes juntos a partir de agora disse eu. O meu jantar serão três cenouras cruas. E desandou olhando-me sorridente.

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Quando em belas artes usavas amarelo na madeira eu estava lá. Olhei-te muitas vezes ao enfrentares o plano ou o abismo. Ouvi de perto palavras entre ti e lapa, aguiar e batarda. Seguia os teus passos e inspirava o fumo que largavas. Li os teus pensamentos. A tua voz acompanhava a minha deambulação. Vi-te escrever e beber. Adivinhei as tuas indecisões e desejos íntimos. Percebi os teus agrados e tédios. Já estava longe e as minhas asas ficaram nos cordões para secar roupa. Havia muito para rasgar na pele terrestre. Um dia tinha sabido sem consulta que estava louco. Talvez um estranho por tão próximo, e Camus pudessem enganar-se nas quantidades ao misturar certas bebidas.

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Depois de Pepe Carvalho ter ido até à montanha arriscando-se a encontrar quem lhe partisse alguns ossos decidi ir em direção ao centro da cidade. O próximo comboio sai dentro de minutos. Penso encontrar Salinger no café Ceuta. Por vezes pára aí para tomar chá. Nunca o vi falar com ninguém exceto com um tal Pedro Pena. Homem elegante com grossos óculos de massa com sorriso fácil e terno ao contrário do escritor que não ri. Pena dedica-se à pintura de nus femininos. Gosta só de poetas muito idosos. Viaja exclusivamente para norte. Salinger isola-se num jardim com peixes. Logo ao nascer do dia. Conheci os dois quando estive internado na ala de nefrologia. Ambos se encontravam ali em camas demasiado próximas. Eles tinham visto a tua exposição na ordem dos pilotos de submarino.

LASCAS

O processo está na tômbola. Vénias e imposições institucionais. Fomentam-se danças e evidenciam-se garras e veneno tecnológico. Sonantes fórmulas para guiar ratinhos. As bases da estabilidade convivencial. Viperinas eminências exercendo a salivante atividade política. Simulacros e encenações com geometria e retórica. Tudo em contraverso ao que vivemos na hospedaria. Nada como os beijos que me deixas logo pela manhã a uma distância indizível dos nossos corpos banhando-se no azul ao fim da tarde. Agora vou buscar vinho branco e pôr música na cozinha. Blues para começar e abraçar-te.

ÂNGULOS

Os olhos moldam a vestimenta da sala. Cordões de barcos abraçam o leito do declive inclemente. Infernizar o ancestral lodo psíquico com pinceladas dementes é higiene de sabonete herbáceo ventoso. Um sal marítimo na pele dos lábios de fruta. Afinal as roupas dão boas vistas a entes diversos. Químicos semânticos agilizam os encantos neuronais e rodopia a escultura carnal cantante. Tudo em doses de gramagem não quimérica. sem exigências de cavalos indomáveis. Um segredo de mão em volta dos maxilares abre a grande portada dos ventrículos. Soltam-se então as pétalas noturnas.

FRÉMITO

Você é um pouco esdrúxulo diz sentando-se o do 24. E acena ao homem do balcão. Se durmo bem ocupo esta mesa pela manhã e nunca o vi por aqui. Sítio tão recôndito não é para os seus hábitos. Algo mudou. Vejo-o com o olhar de um desterrado. Fala devagar olhando para o outro lado da rua andando sem objetivo. Caminhei uma hora e meia até chegar aqui. Sabia que podia encontrá-lo, respondo. O que anda a ler, pergunta. Um argelino e um catalão. Ficamos em silêncio. Muda o semblante e aconselha   parar com as leituras. A sua voz é mais leve e sorri com vontade. Olha-me aparvalhado. Já tinha dito o mesmo a mim próprio. Esfrega a testa e diz então, ouça-se. Fico a pensar na frase. Levanta-se. Eu permaneço quieto. Decido ouvir-me e dar isso a ver. Foi bom vir aqui penso. Há palavras, chuva, e por vezes as do 24 são uma boa chuvada. Ou trovoada. Regressa com dois vermutes. Tinha-o procurado próximo da instituição, mas não apareceu. Diz enquanto me olha e leva o copo à boca que é mais fácil você encontrar-me. Deixei os territórios familiares. Afastei-me como se já não fosse dali. Fui encontrando sossego em zonas mais despidas. A veia niilista não lhe retira a força no olhar. O desprezo é um aliado e a fúria está nas suas palavras suaves e desvairadas. Acabo a bebida como quem termina um livro.

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Ouvia o som das folhas e tinha o cabelo salgado. O banco de madeira dos carris deixava o mar entrar nos meus escritos. Eu tinha decidido voltar a esculpir e trazia-te na cabeça. Depois ao fim da tarde era a tua pele que anunciava os peixes. Uma hora a rebolar em tintas azuis e ficou a nossa lua psíquica coberta de mel. Não se encontrava ali quase ninguém por isso entrámos na carroçaria e fomos para o meio das árvores. Há festa no globo segredavam-me as enzimas. Tinham desenhado mais ou menos uma fronteira. Contudo a água gelada saía do interior fleumático da montanha e quando os gatos ainda faziam contorcionismo via-se o chão por baixo do espelho. As costas aqueciam longe da jangada. De repente eu encharcado atirei-me para cima de ti e o rapaz de boné grande comeu o marisco quase todo. Cervejas e borboletas. Era assim que o tempo era nosso enquanto o comboio zumbia.

CACIFO

Tratar um cachimbo revela tarimba. O vento escancara as linhas de pensamento. Fico ali a limpar o nariz com um anis eletrónico sónico. Também pus fitas de cola nas capas. As copas desenham a janela. O bibliotecário ateu tem veia semiótica. Veremos se os dias não o deprimem. Ao lado das 4 salas de máquinas pode-se regressar à música solitária mas há muitas páginas a decifrar e o receituário invade as neuroses. De todo o modo o frio da noite foi amaciado pela tua pele. Adormecer e acordar contigo um tal ópio visual. As delícias orgânicas.

PEÇAS

Paredes altas azulejos vermelhos sangue. Pantalhas imaginárias vozes noctívagas. Uma seta voa sobre ramos de banalidades. Neste bloco vão desaparecendo os pobres andantes. Sonâmbulos cabides humanos vão a casa dormir. Confuso deixo-me estar. De um lado para outro olho o terreno como um gato. Aqui há investigação silenciosa. Alfaces poéticas na esterqueira pensante. O lixo real entra pelos óculos. Aspiradores inquietos leem radiações podres e irreprimíveis. Esvoaçam partituras antropológicas para entontecer consumidores de ideias filantrópicas. Caminho por aqui e depois sento-me. Por momentos surge um escritor para me visitar. Falamos pouco porque ouço mal. O relógio também é culpado, mas não o acuso. Todos os problemas são meus. Saio para o largo dos abrunheiros e medito sobre as manchas no chão. Quando vivia na infância comia aquela acidez e o risco dos ramos fracos. Os pássaros furavam os frutos que enferrujavam com doçura. Apesar de caminhar devagar no silêncio dos corredores a velocidade das páginas foi demoníaca. Não obstante as divindades de serviço e as majestades que guardam cerimoniosamente os valores isto descamba com uma voracidade histérica e a correria é desenfreada. Por isso me sinto tão otimista. Que se fodam os bordados e os naperons verbais e sentimentais dessa corja merdosa que se pavoneia por cá. Ou será um lapso do universo diria Lucrécia com seu saber. Vou mas é dar-lhe a mão e zarpar até mais norte para vadiar sem vínculo.

SINAPSES  SÓNICAS

A falta de música atordoa-me as membranas. Falo também da que não existe nas palavras destes humanos. Da ausência dela no seu andar e nos seus gestos. Há uma obediente repetição de banalidades seguindo a linha dominante. Praga injetada nos veios ancestrais. O triunfo do simulacro. A cegueira alastra na falência sónica das vidas em série. Rareiam sons únicos e a estranheza do ser inesperado. Não há música nos quartos e nos corpos nos jardins e nos olhares na pele e nos átrios. Escondida no silêncio foi-se embora ou foi esquecida. Pergunto.

(?)

Havia um uivo e a janela abanava. Também se rasgou a cortina enquanto as vassouras dos homens juntavam folhas no dia ensombrado. Era preciso mudar as calças molhadas e voltar a sair para comprar tabaco. É simples a escrita e a música dos encontros. Sons na carne.

ANTIMENTE

Não pensar e não escavar. Desprogramar a mente cortar-lhe os fios. Apagar as marcas os troços viciados e a fórmula obscura.  Escutar o nada passar em frente sem pesar causas e apalpar versões. Andar. Olhar. Não interiorizar. Deixar juízos quietos intocáveis. Desrefletir e saborear a anti análise. Musicar a ausência ostentar o humor na pele e no corpo. Ser gataria sem tempo definido. Perder o fio inverter os ponteiros e trocar o passo. Desrealizar. Ser sem grelha. Fazer lentamente do desejo do dia a forma impensada. Deixar tudo por um tempo inventado e mergulhar nele para vir à superfície das águas a nudez. Leve e muito mais lisa a arte de fazer desreal a impostura repetitiva. Sair com outra mala outros pincéis novos olhos. Rasgar partituras opressivas do salão bafiento. Aninhar ler dispensar sair ir ver as folhas. Luas antes de nascer o sol. Sons ventosos. Chovia e o silêncio entrava nos poros cerebrais. Ancorada num porto sossegado a íntima vida dormia. Logo de manhã irá para os montes falar com o vento e com as vacas.

PRODUÇÕES

Querem apresentar um estudo. Chamam-me ao gabinete. Caminhando cabisbaixo pergunto-me o que terão estudado. Não me desvio de quem passa. Vejo estes seres como quem olha para vidro muito para lá deles. Trespasso-os com indiferença altiva. No átrio uns papalvos gritam. Sigo sem olhar e sento-me junto ao guichê sem dizer palavra. Tiro do bolso do casaco textos de Alba e Forte. Leio saltando folha e linha. Decorrem uns minutos e entrementes um ser de bata clara põe à frente dos meus olhos um envelope. Seguro-o levanto-me e vou para um banco ao fundo do corredor. Abro o estudo e leio.  Suburbano-depressivo ostenta por vezes um silêncio ameaçador. Melancólico-paranóico. Parece arreganhar-se-lhe os dentes quando ouve um sino. Ficam-lhe de pedra os maxilares ao passar na secretaria. Apático-agressivo desafiante-distante anda pelos corredores como se fosse fruidor sónico contorcendo-se lentamente em virtude da guerrilha entre os sons inexistentes que ouve no íntimo e os reais que despreza no edifício.

INDUÇÕES

Revela uma certa daltonia ética. Usa o olhar como ave de rapina exibindo um semblante de compaixão por nada em concreto. Niilista agarrado ao tempo como humidade caminha junto aos beirais e bebe em sítios desaconselháveis. Dificilmente será convidado para o pavilhão superior. Tende a perder capacidades. A sua inadaptação é incurável. Que se fodam diz para o do 24 já na sala de jogo. Os veredictos que penduram no ecrã serão levados pela ventania. Querem decifrar o novelo mas não tocam numa linha. Desconhecem a minha alergia. Seja o que pensa responde o do 24 e dispa a face dos preconceitos que eles lhe querem colar. Ignore os eventos nauseabundos que sabotam a leveza. Flutue nos dias. Use o vocabulário e o olhar como música física. Faça a poesia dos lugares. Invente formas. E saiu…

DECORAÇÕES

A maluqueira generalizada com bombons às cores e pobreza semântica arrepia os ossos de qualquer homem que viveu em quartos alugados. Papagaios aprisionados em grelhas digitais ostentam uma verborreia de caramelo enjoativo. Eu não abro a boca nesta sala caótica. Olho cada um dos figurantes como um fantoche de esparguete. Bebo água e engulo comprimidos para calafetar os ouvidos. Ensaboo o coração antagónico num wc gelado e fujo para o bar. Não há sopa. As prateleiras estão vazias, mas colaram bonecada brilhante nas paredes. As fêmeas andam em patins à espera do cabeleireiro. Não há um olhar humano. Fantasia e papel de embrulho. Mesquinhez avassaladora e vozes de televisão. Vómito e bom comportamento enfileirados. Nem um livro. Nada de música ou auto estilo. Nunca um rasgo singular. Vou à biblioteca ver se encontro o do 24. Não o vejo nos livros ou nos jornais. Dou uma volta pelas estantes de neurociências e entro na pequena sala das enciclopédias. Está sentado ao fundo num pequeno sofá. Dorme com um volume ao lado. O seu ressonar é música insólita nesta manhã demente. Não o acordo. Abro um livro como quem desaparece.

LUVA

Não sei quando ou de onde veio. Apetrecho musical diria o do 24. Trata-se de um aparelho alérgico a certas patologias. Radar que se contorce nos momentos de estupidez desde logo a minha. Então aparece um outro eu. Vinha a conversa a propósito da invasão do espaço do tempo e do corpo nas salas matinais. A falta de bem é uma cegueira asquerosa e os bicos de pés estão encardidos tal a imundice nas ligações integradas. Resquícios atávicos de bons modos e falsidade longe do monólogo desbragado do inadaptado. Aqui só falo para seres em queda.

MENTE SÓNICA

Eu estava ali encostado à janela de sol com os olhos fechados. Enquanto sentia na cara a luz e a quentura pensava no início do mundo. Depois apeteceu-me pensar na demência lúdica da guerra fria. Que se fodam os meus pensamentos. Nem são meus. Estão de passagem. Aqui queriam colar-me ao grupo de homens dos dias repetidos. Destoei e viciei-me em desvios sabendo que nas vias longas há alarmes. Breves sons agudos à passagem de humanos. Um controle em nome da higiene abstrata. Sigo para zona pouco convidativa. Sinto sossego. Nem um som tirando a música dos segundos. A sala está luminosa como um aquário. Lá fora o gelo. Voltaram os derrames nos olhos. Pequenas cortinas rubras. Pode ser alergia ao tecido digital ou lâminas minúsculas nos licores. De qualquer modo vejo. O melhor é falar menos usar tempo e afundar os olhos em linhas. Ouvir íntimos devaneios e mudar algo em cada dia. Não seguir os passos.

LI

Os wc estão gelados como os grandes espaços e as salas. Só o sol, o vinho noturno e o teu corpo me aquecem. Onde andarão as nuvens, interrogo. Já bastava de sol no teto planetário. Entontece os neurónios mais instáveis. Não aguento muito tempo o tratamento dos raios. Nevralgias nas articulações e irritação semântica. Algas e ostras na retina. Depois entro nos desvarios alcoólicos. De resto tudo aqui à volta é papel químico. Mímicas imitantes. A instituição onde agora me alojo é monstruosa. Só posso encontrar o do 24 lá fora. Tenho-o evitado. Não me apetece sair de mim. Preciso de tempo mental para encontrar o que mudar. Tenho que anular a apatia sozinho e subverter as diretrizes do meu esquema físico encefálico. Indo ao fundo invento-me e crio o que adio há demasiado tempo. Escrever na manhã cinzenta liberta as garras. Aqui há poucos lugares com música. Uma sala grande friíssima que será boa nos dias quentes onde ouço música sem música e saboreio o melhor de ti.

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Lúcio Valium – Um ser em desvio, sem lugar! Um homem vivo, em desordem! Um forasteiro que nos caminhos encontrou palavras e perdeu moradas!