BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos

 

 

Há Em Mim Essa Asa
Não são penas, não é metal.
É memória de vento, é sopro de quem não desiste.
É o que se ergue quando o chão racha, quando a noite engole os passos, quando o mundo sussurra “desiste” e o coração responde: ainda não.
Há em mim essa asa —
não para fugir, mas para voar sobre o que dói.
Para carregar o peso dos dias como se fossem nuvens — pesadas, sim, mas que se dissolvem ao toque da luz.
Para olhar de cima o caos e, ainda assim, encontrar o mapa das estrelas dentro do medo.
Ela nasceu nos silêncios entre um grito e outro.
Nos instantes em que o corpo tremia, mas a alma teimava em não dobrar.
Nas madrugadas em que a dor era mais forte que o sono, e eu, mesmo assim, me levantei — porque amar é também resistir.
Porque amar é aprender a voar mesmo com asas molhadas de lágrimas.
Esta asa não foi dada. Foi forjada.
Em quedas que ensinaram o ar.
Em quedas que ensinaram o voo.
Em quedas que ensinaram que o céu não é destino — é escolha.
E cada batida, cada esforço, cada arranhão no vento, é um verso escrito com o sangue da tenacidade.
Ela sabe o peso do amor — não o amor fácil, de flores e abraços, mas o amor que se curva, que se rasga, que se recompõe.
O amor que segura a mão na tempestade, que acende o fogo no inverno, que diz “vamos” mesmo quando o caminho desaparece.
Há em mim essa asa —
ela não me leva apenas aos céus.
Leva-me ao centro de mim mesmo.
À verdade crua, à beleza ferida, ao conhecimento que nasce da dor e se transforma em luz.
Leva-me a entender que elevar-se não é escapar da terra, mas honrar sua gravidade — e ainda assim, dançar com o vento.
Então, quando o horizonte se fechar,
quando as nuvens se tornarem muros,
eu estenderei esta asa —
não por orgulho, mas por promessa.
Porque há em mim esta asa…
e ela é o meu sim.
O meu sempre.
O meu amor que não morre — que voa.
E o avião descola.
Mas eu já voava sem asa.

♣♣♣

Se eu morrer de manhã
fecha a janela sem pressa
e deixa que o nevoeiro decida
se entra ou se demora.
Não me busques nas esquinas
onde o teu passo se perdeu
tu não te lembras do cheiro
daquela rua debruada de azulejos
que descíamos em silêncio
nem do rio que nos fingiu espelho
enquanto o comboio levava o teu olhar
para além da margem.
Não guardes o café que sobrou
naquela mesa de madeira velha
onde o salpicar do vento
misturava sal com açúcar
e tu rias sem saber
que aquele instante não voltaria
— nem sequer na tua memória.
Se alguém perguntar por mim
não digas que caminhámos
sob telhados de barro quente
ou que repousámos
à sombra de sobreiros que contam séculos
enquanto nós contávamos minutos.
Deixa apenas que o ar leve
o rumor de um cais distante
onde as gaivotas levam vozes
mas nunca nomes.
Pois amar-te é como escrever
na areia molhada de uma praia
que a maré apaga antes do amanhecer —
e eu feliz fui apenas a letra
que aceitou desaparecer
sem pedir que me recordasses.

♣♣♣

Da janela do mar vejo o comboio
E os carris escorrem na chuva da vidraça.
As estações são conchas que o tempo esqueceu
abertas ao sopro de nomes nunca ditos.
O meu rosto dissolve-se em vapor de vidro
e o sal que me olha não é do mar
mas da ausência.
Os vagões carregam esquecimentos em caixas de lata
elados com cera de lua minguante.
Um pássaro de relógio canta às avessas —
o seu canto não marca horas mas silêncios.
Na plataforma do peito alguém parte sem mala
deixando apenas o eco de um perfume de cinza.
A chuva escreve poemas em língua de peixe
versos que nadam de costas para o fundo de mim.
E o comboio? Não tem destino só origem
nasce do meu olhar quando pára de nomear o mundo.

♣♣♣

A Queda das Asas de um Anjo
Depois da trovoada da casa
não viemos com a chuva que lava
nem trouxemos o ar limpo do outro lado da tempestade.
Erguemos em vez disso
um muro feito de silêncios
— sem tijolo
só com olhares que não se encontram.
Não dizemos “desculpa”
não sussurramos “espera”
nem sequer confessamos “estamos zangados” —
palavra que ao menos salvaria o que resta
da nossa humanidade ferida.
Fechamo-nos como portas
que já não reconhecem a chave
do outro lado.
E aqui estamos
com as mãos cheias do que não tivemos
coragem de dizer —
ou de ouvir.
Não é o fim do mundo
mas o desmoronar lento de um mundo pequeno
aquele onde ainda nos bastava
um “até logo” ao sair para o inútil lá fora
um “dorme bem” antes do escuro das trevas.
Agora viramos as costas
como quem apaga um erro —
não com fúria mas com indiferença.
E pior que o silêncio negro
é saber que não merecemos
nem um ao outro
a despedida breve
o simples “ainda estamos aqui”
mesmo que trémulo.
É desrespeito por nós mesmos
que nos negamos ao alívio da palavra
é violência silenciosa
essa energia que desfaz a alma
não com gritos mas com ausência
— com a recusa de nos reconhecermos
mesmo quando partilhamos o mesmo teto
o mesmo nome
o mesmo leito frio.
Porque amar também é saber
que mesmo feridos
ainda somos dois anjos —
mesmo que juntos
tenhamos deixado cair as asas
em câmara lenta
sem som
sem nome
sem um “até já”
para as segurar.

♣♣♣

Palavras Molhadas
Chove.
E cada pingo que se desfaz na calçada é sílaba que escorre do céu
As palavras molhadas não se dizem — sentem-se
São húmidas como o olhar de quem recorda
Líquidas como a tinta que se desfaz na folha
Trémulas como o coração que escuta o tambor da chuva no telhado
O céu veste-se de cinza
E há uma beleza imensa na melancolia das nuvens
Como se o mundo inteiro escrevesse poesia com água
Com versos que se evaporam antes de serem lidos
Com metáforas que se escondem nas poças
Com rimas que se desfazem no silêncio dos passos apressados
A humidade cola-se à pele
E é no olhar que se sente o peso do céu
Um cinto de névoa aperta a memória
E tudo o que foi dito em dias de sol parece agora distante
Como uma carta esquecida num bolso antigo
As palavras molhadas não gritam
Sussurram
São tímidas como o som da chuva nas folhas secas
Como o eco de um poema que nunca foi lido
Como o abraço que ficou por dar
E eu que caminho entre pingos e pensamentos
Deixo que a chuva me escreva
Que me molhe por dentro
Que me transforme em verso.

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 José Paulo Santos nasceu em 1969. Viajou muito e viveu em vários países como França, Brasil, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Tunísia expandindo a Língua e Cultura Portuguesas. Licenciou-se emEnsino de Português e Francês (agora em LSVLD). Escreve e publica Poesia. É cronista e dedica-se à Filosofia, à Psicologia e às preocupações humanas. É formador do IEFP.