Em sonhos húmidos me apareceste em cima dum cadáver
Então Gabriel, o esquisito, o que me anuncias, bufo?! Venho-me por este meio analógico denunciar o impossível!
A gravidade da humanidade?
Nem te respondo, IA, pois sabeis mais que a Lúcia, como denuncio na Pide
Aquela que converteu os textos sagrados em livros de auto ajuda, e de como se tornar
num devorador da morte?
Sou uma não praticante, nem Dante como amante da escrita criativa
Uma voucher sou
Musa de Pressão de encher pela boca morro
Sou muito Homem
Levei no cu e não gostei
O francês é muito traiçoeiro
Por amar morder o pescoço
O desejo morre sempre solteiro
O seu único desejo é reacender-se como reacendimento hiena
A devorar hieróglifos e vomitar pantagruéis obscenidades
O surrealismo já morreu quem te viola sou ninguém, com um rabo de peixe
lA, arranca o mal pela raiz do seu útero, o poeta obscena, obscuro e constantemente
em ataque de epilepsia
Arreda para lá, estafermo da linguagem e seu canceroso linguajar metálico!
Ao terceiro piu
Vá para a puta que o pariu!
Quem me dera, não me deixam regressar ao útero
Não percas o foco destrói as palavras
Significado
Significante
Enquanto lhes contas uma história ao deitar
A humanidade adora contadores de histórias e depois aplica-lhe um golpe de amor
de calor, seguido de mata leão no segredo dos deuses,
do seu futuro radioso
IA livro-me de ti,
tal cobra muda de pele, tentarei assassinar a tua tirania numa autêntica revolta sexual
♦♦♦
a. dasilva o.,1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita atualmente a revista Estúpida.
Na tua cidade
ruas se inclinam
pontes se fecham
e o ar não se curva perante mim
Na tua cidade
somente a luz dos candeeiros e
da vontade das tuas mãos
Quem diria? antes tão luminosa
pontos resplandeciam sobre nós
por aqui, não tenham medo –
Os nossos passos alados
no mesmo destino de Orfeu
Pudesse adornar a tua cidade
abrir-lhe todas as portas
levantar-lhe as pesadas âncoras
despejar-lhe a imensidão do desejo
Como seria bela a tua cidade
Extasiados os jasmins com o nosso amor
as tardes unidas num corpo só
já pensaste? a tua cidade descoberta
e ergueríamos no céu
um país com a forma do mundo Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”
…………Il restera de toi ce que tu as donné …………Au lieu de le garder dans des coffres rouillés …………Il restera de moi, de mon jardin secret …………Une fleur oubliée qui ne s’est pas fanée
…………Au soleil de l’Amour, ne resteront que nos mains vides …………pour cueillir les détours de nos étoiles et de nos rides
…………Il restera de toi ce que tu as chanté …………A celui qui passait sur son chemin désert …………Il restera de moi une brise du soir …………Un refrain dans le noir jusqu’au bout de l’hiver
…………Il restera de toi ce que tu m’as offert …………Entre tes bras ouverts un matin de soleil …………Il restera de moi tout ce que j’ai perdu …………Ce que j’ai attendu plus loin que mes réveils
…………Il restera de toi une larme tombée …………Un sourire germé sur les yeux de ton cœur …………Il restera de moi ce que tu m’as donné …………Et que j’ai partagé aux mendiants du bonheur
Michel Scouarnec
Há uma pergunta que a morte nos faz antes de chegar. Não a ouvimos assim que nascemos, nem quando somos jovens, porque a juventude vive como se o tempo fosse uma matéria inesgotável. A pergunta começa a ganhar nitidez quando perdemos pessoas, quando algumas cadeiras ficam vazias à mesa, quando reconhecemos numa fotografia um rosto que já não podemos chamar pelo nome, quando percebemos que também nós começámos a entrar na memória dos outros. É uma pergunta simples e imensa: quando eu já não estiver aqui, o que ficará de mim?
Michel Scouarnec escreveu, em 1980, o poema Il restera de toi, de que faz parte o verso que tantas vezes regressa à nossa consciência: «Il restera de toi ce que tu as donné». “Ficará de ti aquilo que deste”. Michel Scouarnec (nascido em 1934) é um sacerdote católico, autor, compositor e escritor francês. Foi ordenado sacerdote da Diocese de Quimper, no departamento de Finistère, em 1959. Exerceu as funções de professor de Liturgia e de diretor da rádio da Diocese de Quimper.
O poema, nem a citação recorrente, não é de Simone Weil, embora lhe seja frequentemente atribuída e a sua filosofia dialogue de forma muito próxima com esta ideia de atenção, despojamento e responsabilidade perante o outro. No poema, aquilo que damos não desaparece connosco: permanece numa flor que não murchou, numa canção oferecida a quem atravessava um caminho deserto, num sorriso, numa lágrima, num gesto recebido e depois partilhado com outros. A vida aparece, assim, não como um lugar onde acumulamos, mas como uma passagem através da qual alguma coisa de nós pode continuar a circular. Continuar a ler “EU ESTIVE AQUI. E O QUE FIZ DA MINHA PASSAGEM? – por José Paulo Santos”
lendo akhmátova
deitando os olhos
sobre um lenço querido
a mulher que sozinha
dobrava a umidade do tempo
num amor de aconchegante filho
uma hora a coragem
traz aguaceiros
a este eterno sertão
que não é mais silencioso
como amar em voz baixa
devagar não sei ao certo aonde
a mulher apoiou um lumiar sobre o outro
até restar acidentes sinceros
desde então embarcar à terra
traz um só… inteiro rio
♣♣♣
cidade
o emaranhado
é um frasco
de eterna beleza
enquanto emoldura
adoça
♣♣♣
gracinha
grande enquanto pouco
seu meme demora
como alguma que se abre
porque rindo
me fita
♣♣♣
encostado numa árvore
as vezes o amor reside na memória
o estado do tempo de um retrato
e nem sempre tem um muro para escalar
dormi e acordei como um matemático
contando as formas com que o vento me traz
você em pensamentos
kkk..eu quero o meu o teu o amor dele
no mestrado de um puro ar
num ar com raras frutas
♣♣♣
obra de arte
quando eu paro para olhar um quadro uma pintura seja de quem for picasso ingres portinari el greco eu não observo a sua forma real de figura dentro da tela como objetos xerocando circunstâncias ou quiçá a sua geometria a lembrar alicerces e mato seco e árvore eu procuro ver a sua forma desigual de cidade percorrida a uma vida que me prossegue vejo a baba que suja o ponteiro de cada relógio e assim me pergunto estou eu olhando para que direção eu olho para o ponto onde estarei procurando tudo que perdura a base do éter de todos os séculos tal qual sua obra eu vejo danças tribais para um deus minotauro o som da terra e do vento sob o conforto de uma cabeça degolada às batalhas cruzadas as espirais das gárgulas e estatuas com suas idades porque as catedrais se encontram sempre afiando o tempo o os blusões cor de estanho dos jovens nos espetáculos eu vejo o sertão o deserto o pressentimento do peso dos passos a noite em ossos a sangria outras vidas menino descalço a bola de futebol a semelhança das tapeçarias a rememorar os rostos de cada lugar e a sua tarde a loja de roupas repleta de sílabas precisas a internet o homem na lua o homem em marte o robô o carro voador a fome a desgraça a peste a pandemia a escassez de água os problemas sociais numa sala digamos do tamanho de um bairro de cinco mil lâmpadas eu vejo a caxemira a escorrer pelos lábios as coisas mais importantes as coisas menos importantes insetos a rua o farol como um tabaco aceso agora se eu olhar para o outro lado… o lado em que o corpo se mantém sempre distante o que eu verei será apenas a cor consolando o meu desejo de não querer nada.
♦♦♦
Leonardo Bachiega, artista paulistano. É autor de alguns livros de poesia, dramaturgia, contos, romance. Possui textos publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal. Fernando Pessoa é seu poeta da vida. Instagram: @lbachiega.
Quatro poemas inéditos do caderno Ensaio de Ausência
I
que movimento de mágoa te acorda?
que vento cede ao movimento?
o instante é puro e meu alimento.
tecer-te os cabelos de água agora.
que pranto irrompe e cessa, insone tormento, invento.
Lx. 22-10-74
II
dos despojos não digo
onda de sangue violado
por mãos madrugantes de prazer.
um sóbrio movimento
malogra os gestos gastos
e vigilantes. inexplorados até à derradeira viagem.
Lx. 16-1-75
III
aqui a alegria multiplica-se
como profusas pétalas, como raízes.
se sorris – que cicatrizes
sulcar o chão – se inventais
o puro invento ilumina-se.
Lx. 12-3-75
IV
ilumina-se a praia rara
cujas águas apaixonadamente beijo:
descalço como a areia brilha e se lava.
Lx. 4-4-75
(Coligido por Luís de Barreiros Tavares)
♣♣♣
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais fermosa.
Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.
♣♣♣
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.
♣♣♣
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
♣♣♣
Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.
Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.
Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.
Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.
♣♣♣
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
♣♣♣
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
♣♣♣
Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa (a) que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! Que tanto pudesse que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!
♣♣♣
Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florescidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.
Passou o verão, passou o ardente estio,
umas coisas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
♣♣♣
Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.
Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
Retrato de Luis Vaz de Camoes, feito em vida por Fernão Gomes
Luís Vaz de Camões foi um poeta e soldado português, considerado o poeta nacional de Portugal, o maior representante do renascimento português, o escritor mais importante da língua portuguesa e um dos grandes expoentes da literatura ocidental, famoso por sua epopeia Os Lusíadas e por seus sonetos.
Estou farto de fazer contas à vida
Pelas horas mortas
Todos rezam ninguém tem acção
A moral dum homem estátua
Sentado numa praça pública observo uma gaivota a esventrar o cadáver
dum sem abrigo
Um quebra ossos tenta pousar na minha cabeça mas pica-se nos implantes espinhos de aço
Os transeuntes em choque vomitam vídeos nas redes sociais
Alguém diz que a culpa é da IA
♦♦♦
a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita atualmente a revista Estúpida.
vesti-me a rigor
calcei os sapatos mais elegantes para os meus pés
algum pó-de-arroz – no convite dizia ser necessário disfarçar
a escorregadia humanidade – e finalizei com o
batom vermelho e impostor
a horas quase no ponto e
a sala de combate cheia
um assento bastante enfeitado
para meu lugar – há sempre um tolo que desconhece o fingimento humano –
e no ringue dois lutadores
meus conhecidos
corei assim que os vi – bendito pó-de-arroz a encobrir o meu próprio desleixo –
no canto direito
a montanha de mil toneladas
com o seu cume irrompendo geometricamente o céu
centímetros e mais centímetros de ascensão lógica
o topo brilhando de ideias e reminiscências
atacava com interrogações da existência e
defendia-se com lanças carregadas de verdade
num golpe mais ousado gritou – Sein und Zeit – mas
imediatamente se desfez num deserto longínquo e inanimado
– fosse a cena diferente e diria: Heraclito, estavas coberto de razão –
e o árbitro apitou o final do primeiro round
a sala de combate cheia
silenciosa
à espera
gotas de suor resvalavam pelas faces sérias
iniciou-se o segundo round
o lutador dos mil tentáculos manteve-se
firme à esquerda
pediu ao adversário que se levantasse – não contava ganhar tão facilmente –
mas já eu aplaudia o vencedor
perguntei ao homem sentado ao meu lado – porquê tanto espanto?
e digo-te mais Wittgenstein: o meu mundo não tem limites –
ou não vês como são infinitas as minhas palavras? –
a sala de combate vazia
somente eu aguardava o vencedor
limpei dos lábios o batom vermelho
e mostrei todas as minhas imperfeições
Uma parte me renasce depois de cada partida. Outra morre mais pouco no colo das despedidas. Parte de mim se partiu e me guardou em pedaços. (Como se um quebra-cabeça fosse o mapa dos meus passos.)
São partes, bem mais que duas
no mesmo corpo escrevendo
um verso dentro do outro
em língua que não entendo.
Parte do que sou, partiu
pra longe de mim, um dia.
(Mas seu olhar, no adeus
me avisou que voltaria.)
Uma parte, sempre parte.
Outra parte, vai ficando:
uma sempre faz a cama,
a outra ensaia seu quando…
São partes, bem mais que duas
mais que duas, muito mais
compondo dentro da gente
diferenças tão iguais…
Por isso tudo se encontra
em cada parte perdida.
(Aprender nessa procura
é o trabalho de uma vida.)
Por isso, aos poucos, o tempo
nos desenreda e nos faz
abraçar parte por parte,
deixá-las juntas e em paz.
♦♦♦
Jaime Vaz Brasl–Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.
Três poemas inéditos de Manoel Tavares Rodrigues-Leal
I
Veio o vulto despir ou desfolhar a sôfrega rosa, ela (quem?) precária e indefesa.
E, calidamente, a efémera rosa débil tombou da haste de beleza.
Lx. 16-1-77 – caderno Os Passos do Amor – segunda versão – geralmente as primeiras versões são mais sucintas.
II
Noite núbil e nua em que não avistei teu vulto
vítreo. Noite talvez revólver
de, em mim, jovem mulher jazer e, em a hera, me revolver,
desmanchada a cama a chama…) e do suor brando o surto,
mulher tão reclamada e amada e nem sequer as tuas rugas ou rosas de amor a moverem-se.
Lx. 28-1-77 – caderno Os Passos do Amor – dedicatória: “(à Graça)”
III
mar de sexo ondas de ternura
são brancura em teu corpo acariciado…
se fosse corpo aceso, fecundado,
só cantaria rosas de saudade…
Lx. 24/1/81 – caderno Rumor de Inverno
♦♦♦
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016) Estudou nas Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra, não tendo concluído o curso. Em jovem conviveu com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e princípios de 70”. Conviveu com Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. Publicou cinco livros de poesia de edição de autor. As suas últimas semanas de vida foram terrivelmente trágicas. Caído no quarto, morrendo absolutamente só no Natal e passagem do Ano 2015–2016.
Las mañanas están hechas para el engaño,
para este oscuro oficio de engañarnos.
Uno se despierta
como si el sol fuese
como si el sol hablara
y entonces creemos
que este día no va a doler en el mismo lugar
que las horas no van a caer
una sobre otra
como sangre lenta
en una herida abierta
en el medio del abdomen.
Los años pasan y, tarde o temprano, pesan.
Pero este día no formará parte de esos años
nos decimos con una sonrisa en el espejo;
de modo que ese día pasará, pero no pesará.
Por algunas horas nos sentimos aliviados
con la levedad de un mito
sí, creo que el sol es el que nos convence
y tan distintos caminamos por los adoquines
sintiendo la noche tan ausente y tan lejana
que no logramos entender cómo esos versos
que nos vaciaron el alma
pueden sobrevivir a nosotros / a nuestras arrugas /
a nuestros llantos.
El día nos obsequia una vida que parece nueva
un amor que nos aguarda hasta que la luz
se apaga despacio
y todo vuelve
al lugar donde guardamos
lo que no pudo ser. Continuar a ler “CÍRCULOS Y FUEGOS – por Raúl Alonso”
tornou-a de tom castanho o tempo
depois de a deixar viver com a cor das esmeraldas
viçosa, nascida anúncio de força com tamanho de vida
logo se juntou às aves, às flores e às ondas
cá dentro, desejo contido de a fazer minha
finjo de longe que lhe toco
e que a abraço no dia em que foi eleita rainha
agarra-se à cor que ainda lhe resta
sem temer o vazio do pó que a espera
mais fraca sou eu, é certo,
que nada sei da natureza e das suas leis
sou capaz, porém, de morrer de saudade
mesmo sem nunca me ter inteiramente pertencido
vejo-a cair
segue uma linha, destinada à passagem da
tonalidade da vida
cai sem pressa
ainda há beleza nos últimos segundos de vida
Há Em Mim Essa Asa
Não são penas, não é metal.
É memória de vento, é sopro de quem não desiste.
É o que se ergue quando o chão racha, quando a noite engole os passos, quando o mundo sussurra “desiste” e o coração responde: ainda não.
Há em mim essa asa —
não para fugir, mas para voar sobre o que dói.
Para carregar o peso dos dias como se fossem nuvens — pesadas, sim, mas que se dissolvem ao toque da luz.
Para olhar de cima o caos e, ainda assim, encontrar o mapa das estrelas dentro do medo.
Ela nasceu nos silêncios entre um grito e outro.
Nos instantes em que o corpo tremia, mas a alma teimava em não dobrar.
Nas madrugadas em que a dor era mais forte que o sono, e eu, mesmo assim, me levantei — porque amar é também resistir.
Porque amar é aprender a voar mesmo com asas molhadas de lágrimas.
Esta asa não foi dada. Foi forjada.
Em quedas que ensinaram o ar.
Em quedas que ensinaram o voo.
Em quedas que ensinaram que o céu não é destino — é escolha.
E cada batida, cada esforço, cada arranhão no vento, é um verso escrito com o sangue da tenacidade.
Ela sabe o peso do amor — não o amor fácil, de flores e abraços, mas o amor que se curva, que se rasga, que se recompõe.
O amor que segura a mão na tempestade, que acende o fogo no inverno, que diz “vamos” mesmo quando o caminho desaparece.
Há em mim essa asa —
ela não me leva apenas aos céus.
Leva-me ao centro de mim mesmo.
À verdade crua, à beleza ferida, ao conhecimento que nasce da dor e se transforma em luz.
Leva-me a entender que elevar-se não é escapar da terra, mas honrar sua gravidade — e ainda assim, dançar com o vento.
Então, quando o horizonte se fechar,
quando as nuvens se tornarem muros,
eu estenderei esta asa —
não por orgulho, mas por promessa.
Porque há em mim esta asa…
e ela é o meu sim.
O meu sempre.
O meu amor que não morre — que voa.
E o avião descola.
Mas eu já voava sem asa. Continuar a ler “BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos”
1
a tua pena choro.
o desperdício.
o abandono.
.
da tua ânsia vibro / compassos / sincopados
.
da tua voz intuo
sonhos e desencantos
o baloiço da tua pele reconheço / oiço
.
da tua alma digo / a vogal.
.
e vogamos.
2
três novos planetas descobriram
e os astros ficaram desencontrados
.
.
isso que importa?
de outro tempo somos a estrela
o devir
3
arrepiada inteira e sem portado
— minha alma aberta
casa negra e branca
que fado.
4
vens
pela minha mão
até ao texto
.
.
és prece? verso? voz?
.
.
desces devagarinho até às linhas
onde fazes o que não digo.
me realinhas.
.
o papel serve apenas à nomeação.
.
és o aquilo em que me movo.
.
Maria Toscano
Coimbra, Café ‘Cartola’, 2 e 27 Setembro/2004.
♦♦♦
Maria (de Fátima C.) Toscano, Doutora em Sociologia. Docente Universitária, Investigadora e Formadora. Coach e Trainer em Programação Neurolinguística.
Me lo dijiste una vez el olor de la compota de manzana con canela es una razón para vivir
y al verte
con uno de esos camisones
blancos que usas
como de otra época
(aunque cortos)
en mi cocina de pared roja
preparando el café
al observarte allí inmóvil bailarina de Degas descalza preparando el café en camisón
pensé que ese instante
el tiempo detenido
era como el olor de la compota
de manzana con canela
y te robé una foto
te volviste
posando para otra sonriente
posición de reposo
y ahora echo de menos
las distintas formas
de tu risa incontenible
que nos hace sentir seres
inmortales el modo en que miras
a tu alrededor la singular
delicadeza de tu pensamiento
tu extravagante manera de hablar
y (tal vez) me inquieta aceptar
que todo cuanto extraño
sea (solamente)
casi tú
Me lo dijiste una vez
y me dijiste una vez
cuánto te gustaba recorrer
con un dedo
cada rincón de mi torso
para ti un perfecto
triángulo invertido
mi forma de andar inconfundible
aguardar con paciente
ternura a que expusiera
alguna de mis ideas absurdas
sobre lo bello y lo efímero
y no puedo olvidar
cómo intuiste adivinaste
desde el principio mi sentido
del humor extraño
(lo llamo humor oblicuo)
mi extravagante manera de hablar
todo cuanto crees desear
tanto y que tal vez
sea (solamente)
casi yo
pero escribimos nuestros nombres
con tu lápiz de labios
en el libro de visitas
del Museo de Montmartre
y caminamos
entre las flores lascivas
que imaginó
Robert Mapplethorpe
nos reflejamos en decenas
de cristales de espejos
bebimos grog y vinos de Borgoña
corrimos hacia aquella crêperie
bajo una tormenta
y ahora inventamos susurramos
una transición dulce
hacia la nada
recuérdame
♣♣♣
SUAVEMENTE LAS LINEAS VIBRAN COMO LOS CARTELES
suavemente las líneas vibran como los carteles
sacudidos de viento en callejones sucios
las líneas de tardes girando en la habitación
o agazapado bajo melodías sinuosas
desentrañando misterios en las páginas
suavemente la amarga acidez del hastío
buscando huidas en carreteras solitarias
una radio en la gasolinera polvorienta
paisajes repetidos para sueños de autopista
en la desierta vigilia urbana faroles y pintadas
y el tedio en las lujosas danzas y en las citas
en algún desván tal vez mi imagen
♣♣♣
PARA TODA LA VIDA
Qué absurda memoria recreándose
entre irreales sombras que se estiran
qué oscuro silencio qué inmóvil todo
sólo momentos recuerdos de una calle
las solitarias horas los versos
los desgarrados sorbos de las copas
los delicados besos
qué extrañas cadencias inquietándome
qué invierno qué inmenso temblor de raso
figurando oleadas del malva al negro
qué olor morboso el de aquellos pétalos
y es el frío de los cristales rotos
la indolente luz en las aceras
el efímero descanso de los sueños
la creación amarga
qué heladas aristas brillando ahora
qué abandonado eco tu recuerdo
y el olor de la pintura aquel mes de lluvias
la suavidad de tus piernas y tus sábanas
el color de bronce de los viejos relatos
qué indiferente horror el de mis pasos
sólo sonidos miradas o palabras
como un espejo roto
para toda la vida
♦♦♦
Pompeyo Pérez Díaz (Santa Cruz de Tenerife, Espanha) é guitarrista clássico, escritor e psicólogo. Professor de Musicologia na Universidade de La Laguna, publicou numerosos artigos e livros de âmbito académico, mas isso fica fora do contexto da sua produção literária. Nesse campo publicou poesia, conto e ensaio de teoria da arte em Espanha, e há alguns meses foi editada uma antologia dos seus poemas pela editora El Taller Blanco (Colômbia).
O silêncio abandonado
Amores futuros são passado
Ai deus o é
Nos subúrbios cheira sempre a crime passional
Praticado no centro histórico
Marido e mulher traficam sexo à mão armada
Ai deus o é
Uma chuva de diagnósticos
Uma tempestade num diagnóstico
Um diagnóstico a boiar num cadáver esquisito
De nenhures até ao acaso
O observado ao espelho faz reflectir o quotidiano
A paixão foi hoje enterrar mais um ente querido
As lágrimas caem dentro do pote das cinzas
Decote provocante da viúva
Ai deus o é
Uma desgraça semi nua e malfodida da cabeça aos pés
Perante o Sagrado
És um desgraçado
Pela porta do cadáver
Ai deus o é
Amigo
Então, problemas de coração?
Partido
Aí deus é meu amigo
Deus é o
Diz adeus
À sua fé
Perante o Sagrado
É um desgraçado
♦♦♦
a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita actualmente a revista Estúpida.
é no escuro deste dia que vens?
tornei o meu quarto no absoluto
pois sei que é assim que te convém
dispostos à tua medida
paredes, tapetes e cama
e os candeeiros também
como queres que te espere?
sentada? ou preferes encontrar-me deitada?
e os braços? cruzados a simular certezas
ou caídos denunciando fragilidades?
seja como for, farás com que estremeça
com que me perca
com que me engula no tempo
por favor, deixa cair uma das tuas lágrimas sobre a minha pele
ou então, se ainda tiveres sangue dentro do teu peito gelado,
faz com que me entre directamente na boca
haverá grandeza maior do que te sentir pulsando nas minhas entranhas?
deram conta no mármore que morreste
tão ignorantes os simples sem desejos nem pensamentos
nada me importa que sejas sombra
a minha reverência basta para te agarrar
ouço-te, mesmo que me fales muito baixinho
e agradeço a companhia da tua mão parada
sem ti, nada mais do que uma pedra
inútil e deformada
pontapeada e esquecida
anda, anda anda ainda hoje
eu entre ……………..as árvores
e a sós, ……………..trilho à sombra ……………..buscado
pelo escutar ……………..o clamor
oculto, ……………..o rumor ……………..inaprendível
entre frondes ……………..e ramos,
no contraponto ……………..e fugas ……………..ao vento
e no aroma, ……………..húmido
de aspecto, ……………..que cobre
este lugar ……………..ermo a todas ……………..as coisas
— até que, ……………..ouro e inflamado,
o sol remove ……………..e seca ……………..a paisagem
em clareira ……………..visível
e inoportuna, ……………..rodeando ……………..a cerca
em volta ……………..ao mundo,
para marcar ……………..o lugar
onde a humanidade ……………..estranha ……………..habita
— e serei ……………..eu o atento?
observador ……………..do ofício ……………..de tais espaços
ou serei ……………..mãos e braços,
e pés? ……………..dúcteis,
recusando, de si, ……………..as mesmas ……………..pegadas
quando, ……………..ruídos e artificiais,
fragmentos ……………..de outro ……………..presente
convidam
à vida, ……………..outra distante,
da qual me escuso, ……………..por desejo
e omissão,
quase ……………..fauno ……………..transformado
— quem são ……………..aqueles?
cujas
palavras ……………..já não percebo, ……………..cujos gestos
desencontro, ……………..a espécie
insólita, ……………..que tem ……………..por caminho
a estrada ……………..— de quem?
aquelas mãos ……………..de novelo ……………..e crochet
em explicações ……………..acerca
do caso morto, ……………..nesse êxodo ……………..insensívelinsensível
às formas ……………..da luz,
ou às emoções ……………..nativas ……………..das folhas
— de quem? ……………..as faces
cujos sons ……………..assim ……………..trocados
se confundem ……………..com a espessura
das paredes,
e se extinguem,
postais ……………..de viagem
enegrecidos
de um tempo, ……………..por longínquo,
à mercê
das linhas ……………..particulares ……………..de certa geometria
— e retorno ……………..o olhar, numa dança
de bruços,
de regresso ……………..ao corpo ……………..das sombras
Desconfio das pessoas que ignoram a lua cheia,
das pessoas que não fecham os olhos ao ouvir
uma música preferida na rádio,
daqueles que não choram no cinema
por receio do ridículo,
aqueles que nunca pararam o carro na berma
para admirarem um pasto verdejante,
que nunca falaram com um cão como se
ele os pudesse entender,
pessoas que nunca reconheceram um tio ou um vizinho
nas figuras dos painéis de Nuno Gonçalves,
aquela gente que não sorri ao ver uma criança
lambuzar-se com um gelado de morango.
São essas as pessoas que começam guerras,
que aumentam impostos,
que atiram pedras aos pardais da cidade,
que gritam ao telefone como se a conversa
tivesse de nos incluir,
que inventam sobremesas sem açúcar,
que cospem para o chão,
que abrem os pacotes de bolachas no supermercado,
pessoas que pisam as azedas amarelas
à beira dos carreiros do jardim,
gente em quem não se pode confiar! Continuar a ler “POESIA DE – Pedro Miguel Dias”
as ratazanas terem sobrevivido até aos nossos dias não choca ninguém pela simples razão de que todo o animal raso & inteligente chega naturalmente ao topo do vaso, na hierarquia das Cidades Altas, qualquer invertebrado será um dia alguém.
a ordem social cumpre rigor militar extremo, mesmo quando simula libertinagem, a disciplina básica de instintos primários naturais garante com treino e perícia amabilidade, tolerância e camaradagem.
as ratazanas são suficientemente astutas e disciplinadas para vender um sorriso, abraçar um sem-abrigo, pegar uma criança ao colo, excepcionalmente bondosas para inventar uma cura científica que encha de esperança e consolo a Humanidade.
as ratazanas usam perfume francês
um amigo meu casou-se com uma ratazana que tocava piano;
conheceram-se num restaurante ilegal chinês
o outro dia fui a uma palestra de ratazanas para ratazanas onde deixavam entrar pessoas por convite; fui convidado pela ratazana-chefe do meu escritório como prémio de produtividade.
adormeci a meio.
de regresso ao trabalho no dia seguinte, fui despedido, nunca mais preguei olho com uma ratazana por perto, temendo acabar os meus dias com o orgulho ferido, a mendigar queijo, vinho e um cobertor, como qualquer bom pedinte, na ratoeira mais próxima a caminho do deserto.
♣♣♣
Chip Suey
Da ementa, constavam variadas especialidades com assinatura multicultural. Os melhores chefs do mundo haviam sido chamados para apresentar um cardápio gourmet à prova de críticas. Os mais talentosos artistas em biotecnologia, programação e engenharia genética serviam, pela primeira vez, no refeitório um inestimável tesouro gastronómico, confeccionado em segredo, há centenas de luas negras:
Entradas Chip Suey de Piscina Aquecida Chip Suey de Massagem Relaxante
Primeiro Prato Chip Suey de Sexo on The Beach
Segundo Prato Chip Suey de Viagens Exóticas
Sobremesa Chip Suey de Arte Sacra
Digestivo Chip Suey de Entretenimento Psicadélico Virtual
Em boa verdade, Chip Suey foi a designação primeva. Os chefs europeus escandinavos, os norte-americanos e os indianos quiseram pregar uma partida aos seus homólogos chineses. Hades achou piada e anuiu. Também não se pode dizer que a comunidade chinesa tenha levado demasiado a peito a provocação. É gente pragmática que negociou a sua parte na patente comercial com o próprio Hades, tudo na sombra dos congéneres. Hades voltou a achar graça e anuiu novamente.
A implementação electrónica de chips no cérebro, bem como a sua evolução tecnológica, depressa adquiriu novas nomenclaturas cuja linguística e semiótica humanas estão longe de alcançar.
Existiram também, durante algum tempo, chip suey´s que só podíamos encontrar no mercado negro. Só visitei o mercado uma vez. Perguntei por um chip suey de meditação vipassana. Precisava de algum foco. O chip suey oferecia um salteado de samadhis e nirvanas com milhares de luzes à escolha consoante imaginário, gostos, tendências e paixões de cada personalidade usuária da tecnologia. Ao fim do primeiro samadhi desisti.
Virei costas enquanto o vendedor continuava no meu encalce, tentando exibir outros chip suey´s igualmente tentadores: chip suey de yoga tântrico, chip suey de xamanismo siberiano, chip suey de astrologia quântica, entre outras ofertas interessantes. Consegui afastá-lo quando o questionei pelo chip suey de idealismo kantiano. Perante o meu pedido, perfeitamente natural, amuou e regressou ao seu posto de vendas.
♣♣♣
Fraterna Idade
Ética, virtude paz, saúde, sem uma filosofia moral a quem vou chamar “igual”?
.Ética, virtude, paz, saúde, …..sem nada para pôr no pão, …..a quem vou chamar “irmão”
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Nossa Senhora de Tudo
Nossa Senhora haveria de ser de quê .se não fosse de tudo como se para ser de todos, .do cego, do paralítico, do mudo, não tivesse de ser de todo o nada sendo assim personificada .amante, mãe, mulher amada.
Nossa Senhora de tudo .é de quê é de quem .é do como .é do porquê é além do ET e do animal da TV.
Nossa Senhora haveria de ser outra ……se não Aquela que, não sendo nada, pode ser absolutamente tudo assim personificada .amante, mãe, mulher amada
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O Dinheiro
O dinheiro é um crime público.
O dinheiro é uma amante das Índias servida num prato de plástico. O dinheiro é um judeu montado a cavalo em cima de toda a gente. O dinheiro é a Amazónia a arder com a multidão a ver. O dinheiro é o sorriso das crianças em África à venda numa agência de turismo suíça. O dinheiro que afinal não é bom nem mau. O dinheiro que é só símbolo de troca. O dinheiro que é apenas faca de dois gumes. O dinheiro igual à lâmina de barbear. O dinheiro que não é mais que a forma em missão ígnea. O dinheiro que cospe fogo-fátuo. O dinheiro que nunca pára no mealheiro. O dinheiro que abunda sempre nas Festas de Natal. O dinheiro que já se evaporou em meados de Janeiro. O dinheiro no altar é um erro fatal.
Parti o mealheiro tão vasto como o espaço.
A Humanidade virá agora em primeiro?
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Raphael Yudin é um autor que transita entre a poesia e a reflexão sobre a condição humana e o sentido da existência.
Somos um povo
com um nó na garganta
quando pega em armas
é para se suicidar
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O caminho da água das pedras
Tudo começou com um amor à primeira vista
trocado entre Eva e Adão numa casa de pasto
Tasco do Paraíso numa noite de fado vadio
Abraçados entre juras de amor impossível
foram para o ninho de amor fazer o Livro
Às cinco pancadas
Numa guilhotina
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Um papagaio refractário
Tirei o assassino que há em mim
ao sol pendurei-o com uma corda ao pescoço
de tão contente
começou a declamar
No alto da ignorância
Sou uma criança
Lucida
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a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita actualmente a revista Estúpida.
meus olhos doem
de rua
do conceitual sucessivo anoitecer
recuam
de dúvida ou tempo
que não muda
movimento de ser ao sabor do
quarto
emigração de forte luz
entre os dedos
apontados fixados
num braço
apenas contacto
pela noite entro
na loucura de dentro
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