POEMAS – de Maria Gomes

VICTOR BREGEDA - Past, Present, and Future 
© Victor Bregeda – Past, Present, and Future

 

1

Mais do que deuses, precisamos do limiar do sagrado
do lugar onde bebem as aves,
de regressar ao silêncio de uma noite ida;
mais do que deuses, precisamos do anúncio súbito
da clemência implorada
dos trabalhos do mar;
mais do que deuses, precisamos do homem, da pele do homem,
da sua peugada
sobreposta à penumbra da flor nascida.
Mais do que deuses, precisamos da fronteira da meia-noite
do círculo lunar do grande rio
que corre no sangue da terra humilde. Continuar a ler “POEMAS – de Maria Gomes”

5 POEMAS DE “FILHOS DE ABEL”- por André Rosa

Poema 1

Os carros correm como que eu não tenho pressa

Os carros correm como que eu não tenho pressa
As faixas separadas de mim

De repente a buzina me interessa que os carros sejam exatamente assim
Faróis ao auto!
Velocidade é fim
Parada inglesa
Parada de taipas
Parada XVI Continuar a ler “5 POEMAS DE “FILHOS DE ABEL”- por André Rosa”

D´A UTOPIA DO CARNAVAL SEM FIM – de Bernardo Almeida

Remoto

O som do mar
a ricochetear
nas fronteiras
invisíveis
da inóspita imensidão

Chão em desintegração
queda, apupo, alienação
E o oceano, em derrisão,
impassível – a compor
a canção da criação
do infinito
Íntima transformação
no ínfimo átimo universal Continuar a ler “D´A UTOPIA DO CARNAVAL SEM FIM – de Bernardo Almeida”

POESIA – de Francis Kurkievicz

 

MAGO

Na floresta para Waldberta
O guia perde o poeta.
Na serpentecostal selva remotta
Um criancião paracleto
O aguardava com sinais cristântricos.
Do cóccix à pineal
Pousou o mestre a mão
E alçou alucifeéricos fogos pecúlios
Despertando-lhe uma pedagogia petrográfica aprendiz.
E o poeta petiz
Reencontrou-se guia apóstata
Ifá de Orumilá.
Axé! Ave! Amém!

Continuar a ler “POESIA – de Francis Kurkievicz”

TRÊS TEMPOS POÉTICOS – de Henrique Miguel Carvalho

by Plato Terentev

CONVIDADO

ao cair
            do astro maior
aguardo,
             felicitações
             remotas

que pelo
            nome
nunca o dizem,
             até que
             — é sempre assim,
um estranho
             de maneiras
             inconcretas Continuar a ler “TRÊS TEMPOS POÉTICOS – de Henrique Miguel Carvalho”

POEMINHOS (31-40)- por Jaime Vaz Brasil

Foto de Tomáš Malík

31.

Artista

segue tempo adiante.

Crítico
só respira no durante… Continuar a ler “POEMINHOS (31-40)- por Jaime Vaz Brasil”

POESIA de – Lua Pinkhasovna

 

Espelho de Afrodite

Entre constelações, esferas rochosas, violentas estrelas mortiças e cintilantes cometas, nascer Vênus pode ser considerado uma afronta ao restante dos planetas
Pisando em trompas, ventres, ovários e vulvas e aquela mistura que poucos sabem ao certo o nome, lambuzo-me de sangue menstrual derramado nas ruas
Há polícia? O que há? Será que alguém me escuta? É claro que não, eu sou notícia corriqueira de uma realidade fantasticamente banal
O sangramento da violência não é repudiado, apenas é visto com asco aquele que mostra que sou um ser próprio, forjada em minha natureza
sem ser sexy, sendo apenas espécie
e que sinto por fora e por dentro me desmanchando em vermelho Continuar a ler “POESIA de – Lua Pinkhasovna”

A ÚLTIMA CEIA COM AS ESTRELAS – por Madalena Medeiros

“The Sacrament of The Last Supper”by Salvador Dali

 

Na eternidade boreal…

Vislumbra-se rumos dissipados em névoas!
Fragrâncias fortes e inesquecíveis,
Patentes num céu boreal.
Onde vou cear e adormecer esta noite?

Volvido nos rodopios da noite boreal,
As minhas Asas esbatem-se, num
Céu turquesa e anil, reluzem
beijos eternos de seres florescentes.

Felizardos dos eternos olhos!
Sentados em estrelas, donos
De um universo escuro e eterno,
Pincelam singelas e extemporâneas vidas.

Eternidade boreal! És sobejamente,

Luz de milhares de anos,
Despertar do adormecido,
E de estrelas que cintilam
aos olhos famintos de indignos de ti!

♣♣♣

ALCANÇADA A TUA LUZ, ELA É…

Mundo invisível, leve e solto
Em que as penas, são POESIA!
Onde a alvura é daltónica
Aos olhos do Ser espiritual…

Ouvem-se Gargalhadas e correrias,
nas estradas de luz em série!
Avistam-se Campos de feno matizado,
Em telas exuberantes e infindáveis..

 

Continuar a ler “A ÚLTIMA CEIA COM AS ESTRELAS – por Madalena Medeiros”

7 POEMAS DO CORAÇÃO (…) – por Maria Toscano

… de trevos e rosas imaculadas
by hernan pauccara

1.

há muitas palavras para mentir e apenas uma para a verdade.
no jardim das maravilhas da minha vida
jazem vários caules hercúleos,
eternamente iluminados pela seiva
interna
a correr desde o coração.
morrerei já não jovem, sei-o agora.
e do passar dos tempos sei, também agora,
que as convenções podem matar o brilho de um olhar
uma covinha no rosto
um arrepio na nuca.
só que nunca o amor será vencido.
mora em lugar altaneiro
onde poucos acedem
de onde muitos desabam
– ali
ao alcance da tal palavra pura. Continuar a ler “7 POEMAS DO CORAÇÃO (…) – por Maria Toscano”

3 POEMAS DE “AZUL INSTANTÂNEO”*- por Pedro Vale

É preciso viver sem paixões.
Mergulhar no absoluto anonimato,
Permanecer morto ou vivo até ao fim.
Aclamar o tumulto escuro e bruto.
Encenar o drama clemente e lento.
Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.
Descobrir um novo fundo de poesia e aguardar
uma voz que nos ordene docilmente:
– Não te movas, nem te inquietes,
nem traias o que
ainda não
és.

Continuar a ler “3 POEMAS DE “AZUL INSTANTÂNEO”*- por Pedro Vale”

ARQUITECTURAS – de Ricardo Amorim Pereira

Foto de Paulo Burnay

1.

Falta paz
Não apenas a ausência da guerra
Falta faz termos paz
Nada desejarmos ou querermos mudar
Falta nos seres algum “deixa para lá”
“Tudo bem”
“Não faz mal”
Ninguém pediu para nascer mas depois tudo nos é pouco
Quando o pouco do que não pedimos
Quando nada éramos
Nos devia bastar
Contentar
Se assim fosse
Se o pouco dado ao nada que corre para o nada fosse muito
Teríamos tudo
Tudo temos porque sim
Por Deus ou pelo destino
Só nos falta a lembrança do que somos e para onde iremos
Quando nada formos e não nos acharmos
Nem mesmo a reclamar   Continuar a ler “ARQUITECTURAS – de Ricardo Amorim Pereira”

CINCO POEMAS DE MARIA TOSCANO

 

um.

nasci para aprender a ser árvore/
crescente desde o coração da terra/
voadora pelos ramos e asas /
espraiando-me entre cumes e desertos, /
montanhas mágicas serras áridas /
e mornas planícies morenas dos suis.
até desarvorar – fidelíssima e de vez – /
no amoroso corpo envolvente
do meu devoto amor , o mar.

© Maria Toscano, Novembro, Coimbra Continuar a ler “CINCO POEMAS DE MARIA TOSCANO”

APRESENTAÇÃO DE “A CASA DOS POETAS” de José Pérez

 

POEMINHOS DE JAIME VAZ BRASIL (21 a 30)

21.

O Eu Lírico

De dia
o eu operário.

De noite
o falsário.

Porém:
quem é quem? Continuar a ler “POEMINHOS DE JAIME VAZ BRASIL (21 a 30)”

DOIS POEMAS DE Cecília Barreira

 

© Karolina Grabowska

UM TEMPO DE PAZ, UM TEMPO DE GUERRA

Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
Os comboios não paravam nas estações
As geografias não coincidiam com os mapas
Os meses eram anos
E os anos eram séculos
Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
E os soldados não tinham pátria
E as munições eram do mundo inteiro
Os países alargavam-se nas fronteiras
As geografias não coincidiam com os mapas
O amor, uma saudade uma impossibilidade
Os homens e as mulheres já não choravam
As lágrimas secas de tanta pólvora
E as bocas quietas
Sem palavras
Sem gritos
Sem sons
Porque os dias eram cinzentos
E os segundos já não cabiam nos relógios
Um tempo de paz
Um tempo de guerra Continuar a ler “DOIS POEMAS DE Cecília Barreira”

TRÊS POEMAS DE Bruno de Sousa

Rua da Liberdade

Na Rua da Liberdade
Cabe o Mundo inteiro.
Bicicletas pedalando sonhos
Na noite quente de Abril. Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE Bruno de Sousa”

A POESIA DE A. DA SILVA O.

 

Quando me falam em capitalismo saco logo do porta-aviões, diz Piropos em modo de voo


Um animal de palco
ferido de morte

Ao actor tudo é possível
Aparecer em cena depois do pano da vida cair
Mas nunca sai como entra,
dilu Ente

Continuar a ler “A POESIA DE A. DA SILVA O.”

POEMAS DE INVERNO – por Ana Margarida Borges

Foto by Ana M. Borges

Sextilha de Inverno

Já me anoitecem os passos
Quando à varanda me chego.
Chove frio nos meus braços
Galhos secos, desapego.
Inverno, lume, lareira
Fogo e cinzas. Vida inteira. Continuar a ler “POEMAS DE INVERNO – por Ana Margarida Borges”

TRÊS POEMAS DE “MEIO FIO” – de Flavia Ferrari

ANUNCIAÇÃO

Não é possível olhar o alto
Se o ar ao redor está todo preenchido

O espaço pode ser este lugar sufocante
Nomeado
Mas não reconhecido Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE “MEIO FIO” – de Flavia Ferrari”

POEMINHOS – 11 – 20 – por Jaime Vaz Brasil

Foto by Paulo Burnay

11.

Noite antes
noite depois:
   eis a constante.

Existir
     é relâmpago. Continuar a ler “POEMINHOS – 11 – 20 – por Jaime Vaz Brasil”

POEMAS DE Rosa Sampaio Torres

“Longa Viagem ao Mundo das Palavras Azuis” by Cruzeiro Seixas.

Inspirada em tela de Cruzeiro Seixas,
  “Longa viagem em palavras azuis” ;
  influência igual de “Lapo e eu”  de Dante. 

Desejo

Singrar longamente

     em alvas velas

             por mares azuis. Continuar a ler “POEMAS DE Rosa Sampaio Torres”

PROSE AND POEMS – by Susan Pensak

Fotografia de Paulo Burnay

Is it raining yet? Is there a chance of rain? Has it rained? Is that smoke I see coming out of the chimney across the street? Is this a picture? Am I looking at something that isn’t moving outside my window? Is that rain? Is that the sound of dragons, dungeons, wildlife, air purifiers, birds, fate? What was the illness I didn’t know by name that made the man’s left eye open incompletely (the one who was begging paradoxically, using a plastic brochure stand as his lectern, like a preacher)? What was his soul affliction? (What’s mine?) Continuar a ler “PROSE AND POEMS – by Susan Pensak”

TRÊS POEMAS DE Tito Leite

Foto de zsófia fehér

URGÊNCIA

Procuro uma palavra sobre a matéria
pueril dessas tardes.
Uma palavra escondida em alguma
boca seca de detalhes.

Falta mãos para colher as flores
de março e o mormaço dos dias
atuais espanta todas as borboletas. Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE Tito Leite”

POEMAS DE OUTONO – Ana Margarida Borges

Foto de Ana Margarida Borges

SINFONIA DE OUTONO

Há perfeita sintonia
Entre as folhas e meu canto.
É o espanto que me guia
Na palidez outonal
Como o rio, me despeço
Deste enorme matagal
De Bacus. À vida cedo
E ao Douro me confesso

Continuar a ler “POEMAS DE OUTONO – Ana Margarida Borges”

SEVLA ORIEBIR – por Correia Machado

 

As curvas doces desaguam em rectas um pouco menos que obtusas

que lhe fazem o rosto um poema para eu dizer, para eu olhar, e me desfazem a vontade de ser de muitas.

Eu serei só dela. Continuar a ler “SEVLA ORIEBIR – por Correia Machado”

TEXTOS POÉTICOS DE Claudia Vila Molina

 

©Júlia Moura Lopes- rio de mel

Memorias de luz

1

Ilumino el tiempo
parten trenes hacia el país del ensueño

2

Rostros avanzan por la muralla
tanta similitud en nuestros roces
que estallamos en un minuto
y agonizamos Continuar a ler “TEXTOS POÉTICOS DE Claudia Vila Molina”

POEMINHOS – Série de I a X- de Jaime Vaz Brasil

Foto de NSU MON
Poeminhos

1.

é a esperança

voando a pé.

—◊-◊-◊—

2.

A poesia existe

no que a palavra

não disse. Continuar a ler “POEMINHOS – Série de I a X- de Jaime Vaz Brasil”

NO QUIERO VER UNA MUJER LLORAR – por José Pérez

“Mulher Chorando”, by Pablo Picasso

NO QUIERO VER UNA MUJER LLORAR

Para Polimnia Sánchez, en Nueva York

y Julia Moura Lopes, en Porto

Por impostura o condena
aberración o inocencia
pobreza o abatimiento
no quiero ver una mujer llorar

Que se derrumben las catedrales
mausoleos y grandes torres
Que se calcinen los lechos
jardines profanados
cocinas ensangrentadas
aposentos y oficinas
donde se hayan hundido sus lágrimas

Por cobardía o jerarquía
dominación o violencia
abandono o traición
no quiero ver una mujer llorar Continuar a ler “NO QUIERO VER UNA MUJER LLORAR – por José Pérez”

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