A POESIA ESTÁ COM REFLUXOS, por A. da Silva O.

O silêncio abandonado
Amores futuros são passado
Ai deus o é

Nos subúrbios cheira sempre a crime passional
Praticado no centro histórico
Marido e mulher traficam sexo à mão armada

Ai deus o é

Uma chuva de diagnósticos
Uma tempestade num diagnóstico
Um diagnóstico a boiar num cadáver esquisito
De nenhures até ao acaso
O observado ao espelho faz reflectir o quotidiano
A paixão foi hoje enterrar mais um ente querido
As lágrimas caem dentro do pote das cinzas
Decote provocante da viúva
Ai deus o é
Uma desgraça semi nua e malfodida da cabeça aos pés
Perante o Sagrado
És um desgraçado

Pela porta do cadáver
Ai deus o é
Amigo
Então, problemas de coração?
Partido
Aí deus é meu amigo

Deus é o
Diz adeus
À sua fé

Perante o Sagrado
É um desgraçado

♦♦♦

a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita actualmente a revista Estúpida.

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

© mariam sitchinava

 

Conversão

é no escuro deste dia que vens?
tornei o meu quarto no absoluto
pois sei que é assim que te convém
dispostos à tua medida
paredes, tapetes e cama
e os candeeiros também
como queres que te espere?
sentada? ou preferes encontrar-me deitada?
e os braços? cruzados a simular certezas
ou caídos denunciando fragilidades?
seja como for, farás com que estremeça
com que me perca
com que me engula no tempo
por favor, deixa cair uma das tuas lágrimas sobre a minha pele
ou então, se ainda tiveres sangue dentro do teu peito gelado,
faz com que me entre directamente na boca
haverá grandeza maior do que te sentir pulsando nas minhas entranhas?
deram conta no mármore que morreste
tão ignorantes os simples sem desejos nem pensamentos
nada me importa que sejas sombra
a minha reverência basta para te agarrar
ouço-te, mesmo que me fales muito baixinho
e agradeço a companhia da tua mão parada
sem ti, nada mais do que uma pedra
inútil e deformada
pontapeada e esquecida
anda, anda       anda ainda hoje

já te pressinto debaixo da minha cama Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

VIRANDO HH E ANA C DO AVESSO – por Danyel Guerra

 

A OBSCENA SENHORA HH

 Hilda Hilst
Já a vist?
Já a ouvist?
Em que consist?

Hilda Hilst pensa
e logo exist, insist,
persist, sempre tensa

Ela só por chist
bebe um alpist*
dança twist
e não desist.

De punhete em rist,
Hilda sempre resist.
Com toda a bravura
Golpeia o mundo trist
da light literatortura,
essa droga dita dura
que nos causa tontura.

Tua Lori Lamby com furor
aquela Obscena Senhora
e as Cartas de um Sedutor
que depressa foi embora.

Hilda Hiiiilstérica,
Love game com o Vinicius.
Hilda Hooomérica,
Espreitando os orifícius.

Tu te insurgist
Tu investist
Tu sorrist
Tu até rist
Grande Hilda Hilst!

*aguardente de cana, cachaça Continuar a ler “VIRANDO HH E ANA C DO AVESSO – por Danyel Guerra”

OFTALMOGRAFIA – por Henrique Miguel Carvalho

 

PAISAGEM

eu entre
……………..as árvores
e a sós,
……………..trilho à sombra
……………..buscado

pelo escutar
……………..o clamor
oculto,
……………..o rumor
……………..inaprendível

entre frondes
……………..e ramos,
no contraponto
……………..e fugas
……………..ao vento

e no aroma,
……………..húmido
de aspecto,
……………..que cobre
este lugar
……………..ermo a todas
……………..as coisas

— até que,
……………..ouro e inflamado,
o sol remove
……………..e seca
……………..a paisagem

em clareira
……………..visível
e inoportuna,
……………..rodeando
……………..a cerca

em volta
……………..ao mundo,
para marcar
……………..o lugar
onde a humanidade
……………..estranha
……………..habita

— e serei
……………..eu o atento?
observador
……………..do ofício
……………..de tais espaços

ou serei
……………..mãos e braços,
e pés?
……………..dúcteis,
recusando, de si,
……………..as mesmas
……………..pegadas

quando,
……………..ruídos e artificiais,
fragmentos
……………..de outro
……………..presente
convidam
à vida,
……………..outra distante,
da qual me escuso,
……………..por desejo
e omissão,
quase
……………..fauno
……………..transformado

— quem são
……………..aqueles?
cujas
palavras
……………..já não percebo,
……………..cujos gestos

desencontro,
……………..a espécie
insólita,
……………..que tem
……………..por caminho

a estrada
……………..— de quem?
aquelas mãos
……………..de novelo
……………..e crochet

em explicações
……………..acerca
do caso morto,
……………..nesse êxodo
……………..insensívelinsensível

às formas
……………..da luz,
ou às emoções
……………..nativas
……………..das folhas

— de quem?
……………..as faces
cujos sons
……………..assim
……………..trocados

se confundem
……………..com a espessura
das paredes,
e se extinguem,

postais
……………..de viagem
enegrecidos
de um tempo,
……………..por longínquo,
à mercê
das linhas
……………..particulares
……………..de certa geometria

— e retorno
……………..o olhar, numa dança
de bruços,
de regresso
……………..ao corpo
……………..das sombras

labirinto
……………..inacessível,
perdido
……………..de trilhos
……………..e trajectos

onde fetos
……………..e ervas,
floresta mínima,
crescem,
……………..à guarda
……………..das copas

majestáticas
……………..das alturas,
pelo odor verde
……………..da verdade,
……………..tolhido

na sintonia
……………..estática
dos insectos
……………..e vocais,
……………..as aves delirantes

Continuar a ler “OFTALMOGRAFIA – por Henrique Miguel Carvalho”

POESIA DE – Pedro Miguel Dias

Desconfio das pessoas que ignoram a lua cheia,
das pessoas que não fecham os olhos ao ouvir
uma música preferida na rádio,
daqueles que não choram no cinema
por receio do ridículo,
aqueles que nunca pararam o carro na berma
para admirarem um pasto verdejante,
que nunca falaram com um cão como se
ele os pudesse entender,
pessoas que nunca reconheceram um tio ou um vizinho
nas figuras dos painéis de Nuno Gonçalves,
aquela gente que não sorri ao ver uma criança
lambuzar-se com um gelado de morango.

 São essas as pessoas que começam guerras,
que aumentam impostos,
que atiram pedras aos pardais da cidade,
que gritam ao telefone como se a conversa
tivesse de nos incluir,
que inventam sobremesas sem açúcar,
que cospem para o chão,
que abrem os pacotes de bolachas no supermercado,
pessoas que pisam as azedas amarelas
à beira dos carreiros do jardim,
gente em quem não se pode confiar! Continuar a ler “POESIA DE – Pedro Miguel Dias”

CINCO POEMAS PARA ESTE NATAL – por Raphael Yudin

As Ratazanas

as ratazanas terem sobrevivido até aos nossos dias
não choca ninguém
pela simples razão de que todo o animal raso
& inteligente chega naturalmente ao topo do vaso,
na hierarquia das Cidades Altas,
qualquer invertebrado será um dia alguém.

a ordem social cumpre rigor militar extremo,
mesmo quando simula libertinagem,
a disciplina básica de instintos primários naturais
garante com treino e perícia
amabilidade, tolerância e camaradagem.

as ratazanas são suficientemente astutas e disciplinadas
para vender um sorriso, abraçar um sem-abrigo,
pegar uma criança ao colo,
excepcionalmente bondosas para inventar uma cura científica
 que encha de esperança e consolo a Humanidade.

as ratazanas
 usam perfume francês

um amigo meu casou-se com uma ratazana
que tocava piano;

conheceram-se num restaurante
ilegal chinês

o outro dia fui a uma palestra de ratazanas
para ratazanas onde deixavam entrar pessoas por convite;
fui convidado pela ratazana-chefe do meu escritório
como prémio de produtividade.

adormeci a meio.

de regresso ao trabalho no dia seguinte,
fui despedido,
nunca mais preguei olho com uma ratazana por perto,
 temendo acabar os meus dias
com o orgulho ferido,
a mendigar queijo, vinho e um cobertor,
como qualquer bom pedinte,
na ratoeira mais próxima
 a caminho do deserto.

♣♣♣

Chip Suey

Da ementa, constavam variadas especialidades com assinatura multicultural. Os melhores chefs do mundo haviam sido chamados para apresentar um cardápio gourmet à prova de críticas. Os mais talentosos artistas em biotecnologia, programação e engenharia genética serviam, pela primeira vez, no refeitório um inestimável tesouro gastronómico, confeccionado em segredo, há centenas de luas negras:

Entradas
Chip Suey de Piscina Aquecida
Chip Suey de Massagem Relaxante

Primeiro Prato
Chip Suey de Sexo on The Beach

Segundo Prato
Chip Suey de Viagens Exóticas

Sobremesa
Chip Suey de Arte Sacra

Digestivo
Chip Suey de Entretenimento Psicadélico Virtual

Em boa verdade, Chip Suey foi a designação primeva. Os chefs europeus escandinavos, os norte-americanos e os indianos quiseram pregar uma partida aos seus homólogos chineses. Hades achou piada e anuiu. Também não se pode dizer que a comunidade chinesa tenha levado demasiado a peito a provocação. É gente pragmática que negociou a sua parte na patente comercial com o próprio Hades, tudo na sombra dos congéneres. Hades voltou a achar graça e anuiu novamente.

A implementação electrónica de chips no cérebro, bem como a sua evolução tecnológica, depressa adquiriu novas nomenclaturas cuja linguística e semiótica humanas estão longe de alcançar.

Existiram também, durante algum tempo, chip suey´s que só podíamos encontrar no mercado negro. Só visitei o mercado uma vez. Perguntei por um chip suey de meditação vipassana. Precisava de algum foco. O chip suey oferecia um salteado de samadhis e nirvanas com milhares de luzes à escolha consoante imaginário, gostos, tendências e paixões de cada personalidade usuária da tecnologia. Ao fim do primeiro samadhi desisti.

Virei costas enquanto o vendedor continuava no meu encalce, tentando exibir outros chip suey´s igualmente tentadores: chip suey de yoga tântrico, chip suey de xamanismo siberiano, chip suey de astrologia quântica, entre outras ofertas interessantes. Consegui afastá-lo quando o questionei pelo chip suey de idealismo kantiano. Perante o meu pedido, perfeitamente natural, amuou e regressou ao seu posto de vendas.

♣♣♣

Fraterna Idade

Ética, virtude
paz, saúde,
sem uma filosofia moral
a quem vou chamar “igual”?

.Ética, virtude,
paz, saúde,
…..sem nada para pôr no pão,
…..a quem vou chamar “irmão”

♣♣♣

Nossa Senhora de Tudo

Nossa Senhora haveria de ser de quê
.se não fosse de tudo
como se para ser de todos,
.do cego, do paralítico, do mudo,
não tivesse de ser de todo o nada
sendo assim personificada
.amante, mãe, mulher amada.

Nossa Senhora de tudo
.é de quê
é de quem
.é do como
.é do porquê
é além do ET e do animal da TV.

Nossa Senhora haveria de ser outra
……se não Aquela que, não sendo nada,
pode ser absolutamente tudo assim personificada
.amante, mãe, mulher amada

♣♣♣

O Dinheiro

O dinheiro é um crime público.

O dinheiro é uma amante das Índias servida num prato de plástico. O dinheiro é um judeu montado a cavalo em cima de toda a gente. O dinheiro é a Amazónia a arder com a multidão a ver. O dinheiro é o sorriso das crianças em África à venda numa agência de turismo suíça. O dinheiro que afinal não é bom nem mau. O dinheiro que é só símbolo de troca.
O dinheiro que é apenas faca de dois gumes. O dinheiro igual à lâmina de barbear. O dinheiro que não é mais que a forma em missão ígnea. O dinheiro que cospe fogo-fátuo. O dinheiro que nunca pára no mealheiro. O dinheiro que abunda sempre nas Festas de Natal. O dinheiro que já se evaporou em meados de Janeiro. O dinheiro no altar é um erro fatal.

Parti o mealheiro
tão vasto como o espaço.

A Humanidade virá
agora em primeiro?

♦♦♦

Raphael Yudin é um autor que transita entre a poesia e a reflexão sobre a condição humana e o sentido da existência.

TRÊS POEMAS – por A. Dasilva O.

O caso português

Somos um povo
com um nó na garganta
quando pega em armas
é para se suicidar

♣♣♣

O caminho da água das pedras

Tudo começou com um amor à primeira vista
trocado entre Eva e Adão numa casa de pasto
Tasco do Paraíso numa noite de fado vadio

Abraçados entre juras de amor impossível
foram para o ninho de amor fazer o Livro
Às cinco pancadas
Numa guilhotina

♣♣♣

Um papagaio refractário

Tirei o assassino que há em mim
ao sol pendurei-o com uma corda ao pescoço
de tão contente
começou a declamar

No alto da ignorância
Sou uma criança
Lucida

♦♦♦

a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita actualmente a revista Estúpida.

TRÊS POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016)

Um poema inédito do caderno A Noite (1967)

meus olhos doem
de rua
do conceitual sucessivo anoitecer
recuam
de dúvida ou tempo
que não muda
movimento de ser ao sabor do
quarto
emigração de forte luz
entre os dedos
apontados fixados
num braço
apenas contacto
pela noite entro
na loucura de dentro

Lx. 25/7/67
(Coligido por Luís de Barreiros Tavares) Continuar a ler “TRÊS POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016)”

“TEMPO DE TIGRE” E OUTROS POEMAS – por Felipe Duarte de Paula

Tempo de tigre

No início da manhã, um tigre espreita meu quintal.
Ignoro sua intenção, embora o olhar carente
insinue que está à caça de amizade.
Acontece que não converso com animais selvagens.
Atrás da janela cerrada, contemplo o balé do felino
que, andando de lá pra cá, pisoteia meu gramado.

No meio da tarde, insiste em passear por ali o animal.
Imagino que já devorou tudo que encontrou pela frente.
Não posso assegurar que essa seja a verdade,
mas, sem dúvida, antes minhas crenças do que miragens.
Todos sabem: não se brinca com bicho de instinto assassino.
Entregar-se à toa à morte seria pecado.

No fim da noite, além de um vulto, nenhum outro sinal
da fera que ao meu redor se fez presente.
Não tive medo, posso afirmar despido de vaidade.
E, apesar do tigre, despontam intactas as paisagens
que adornam a província. Chegou a hora de entoar o hino,
fortificar o muro, reforçar a porta e o cadeado.

♦♦♦ Continuar a ler ““TEMPO DE TIGRE” E OUTROS POEMAS – por Felipe Duarte de Paula”

MAIS TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho

COMÉDIA

e tudo ser
……………uma piada
 para quê?
…………..se apenas
para provar
…………..a sobranceria
…………..ao mundo

assim
……………ocultando,
mãos
…………..sobre a face,
o quão acima,
…………..quão alto
…………..à visão

da circunferência,
…………..se pensa ser,
e enganando,
…………..fútil
engraçado,
………….o próprio engano
………….enganador

que engana,
…………..num estúpido
movimento
…………..de lábios
…………..curvos para cima

 gáudio
…………..ou sofro,
o choro
…………..é a verdade
………….travessa

ao corpo,
…………..e a lembrança,
na carne,
…………..das águas
…………..da Criação

 mas o riso,
…………..demência
frívola,
…………..é Caos
…………..premeditado

ou a diminuição
…………..ontológica
de tudo,
………….. por ocultação
…………..imparcial

de um medo,
…………..de cuja sorte
só Deus
…………..é o imperturbável
…………..detentor

 candidez
…………..alva,
o choro
não ilude
…………..ou trai apenas
…………..confessa

apenas
…………..diz   eis-te,
sem palavras
…………..que vasculhem
…………..o sentido

quando rir,
…………..prazer banal,
troça
…………..ou faz-pouco,
movendo-se
…………..inveja, irmão
…………..da jovem

crueldade,
…………..como pranto
dito
ao contrário,
…………..por súbita
…………..repressão facial

 pois demora-se
…………..o riso?
na beleza
…………..de uma só face,
…………..ou apenas

a medindo
…………..por ostentação
e vaidade,
…………..para depois
…………..lhe esborratar

a pintura
…………..eis o segredo
de qualquer
palhaço,
…………..e o porquê
…………..da sua máscara

e não
…………..louvar a bravura,
o enfrentar
…………..elegante
do touro,
…………..sem cobrar
…………..bilhetes

à entrada
…………..para assistir
ao espectáculo
…………..final,
despindo
…………..o vulto
…………..à razão

♣♣♣

Continuar a ler “MAIS TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho”

PERTENCIMENTO de Jaime Vaz Brasil

Pertencimento*

 

Pertenço a minha memória
e ela me escreve, em conflito.

(Na fresta, sou quem espia
entre a verdade e o mito).

Dentro de mim há um palco
onde tropeço na dança.

(Minha história – em seu novelo –
me enreda em fato ou lembrança?).

Pertenço a minha memória,
mas só ao que ela me dita:

versão, ato ou livro em branco
onde sequer foi escrita

Dentro de mim, um duelo
entre o exato e o talvez.

(Como se assim, me lembrasse
o que a vida ainda não fez…)

Pertenço a minha memória
entre algoz e prisioneiro.

(Em sangue, tantas metades
já não me fazem inteiro).

Dentro de mim, outra coisa,
sentindo além do que sente.

Existo além dos sentidos:
eu existo alheiamente.

—–

*O poema “Pertencimento” foi musicado por Pedro Guerra, e participou de uma Califórnia da Canção.

♦♦♦

Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

A MULHER AVARIADA – por Idalina Correia da Silva


© Maria Correia

Começou por lhe cair o chapéu,
Depois o botão do casaco marron,
Mas logo ficou órfã de pai, mãe, irmão e um punhado de namorados
Emagreceu bastante só até acabar por engordar muito
Perdeu paixões, missas, comícios e ficou sentada à espera do fim do mundo
Como um marco miliar à beira do asfalto, só a fumar.

Estilhaçou tudo o que construiu
Até o disco hernial L5-S1
Mas logo se despediu do rumo que era um homem de carne e osso
Culpou infamemente a literatura, os jornais e o cinema
Abandonou ideias, encantamentos, histórias e ficou sentada à espera do seu fim.

Como o pó de uma corrida todo-o-terreno, só a beber cerveja. Continuar a ler “A MULHER AVARIADA – por Idalina Correia da Silva”

5 POEMAS EM VERSO E PROSA – por Luís Fausto

Explicação

Quando te vi aparecer vinhas já sem qualquer palavra. Arranhavas as pernas nas urzes e espinhos dos cardos, os cães corriam-te loucamente à volta porque em ti conheciam a liberdade e a obediência. Depois, a um teu gesto, improfundável e erudito, os animais prontamente se esticaram numa seta como se soubessem que daquelas serenas urzes se levantaria uma imensa revoada e que um sucessivo trovão abrasaria o ar.
No fim do silêncio, caíram duas aves. Abriste os olhos, tristes, tão claros que para muitos seriam apenas belos. Ninguém saberia descodificar no teu fácil gesto de prender as aves à cinta a consternação de possuir um indissolúvel poder, nem, na tua sóbria execução da virilidade, a indecisa suspeita de uma justiça estragada, embora inominável, nem o desencontro do homem consigo mesmo quando a dúvida o instala em dois estados de permanência.
Mas isto passou-se rápido. Quando te olhei outra vez, já te afastavas com os cães na direção oposta à do vento, sem me dares qualquer explicação. Continuar a ler “5 POEMAS EM VERSO E PROSA – por Luís Fausto”

ABRAÇAR O INACABADO: UMA DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS- por Marianela Tiranti Gattino

© Bodan Zwir

 

Dupla negação
Não é possível
renegar de quem se é.
Não é possível
privar aos outros
de aprender
a ser mais humanos
a partir do que podem
ressoar conosco,
nesta convivência planetária.
Não é possível
renegar de quem se é,
porque isso implica
enfatizar a negação
disso que somos.
Porque temos uma história
e temos transitado um caminho.
Porque somos com outros
e geramos um impacto.
Não é possível
privar aos outros de nos conhecer,
e não é possível
privar-nos de conhecê-los.
Aprender a viver,
de isso se trata,
aceitando nossa luz
e nossa sombra,
em todos. Continuar a ler “ABRAÇAR O INACABADO: UMA DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS- por Marianela Tiranti Gattino”

BOCA A BOCA – por Vinicius Comoti

To create a little flower is the labour of ages.
William Blake

I
esperma numa cisterna com uma enfezada raposa comemorando a vitória sobre os segredos da língua a fuligem alusiva de estrelas banhadas no magma das representações semeadas pelo absurdo de uma noite inventada pelos juncos & pupilas mascadas no devaneio de ruas caducas onde a amnésia se estreita entre os ventos sobre os escombros do sonho confundido com gerânios acolchoados pela hipnose da catedral mijada pelos mendigos & flores sem lembranças

II
o que me voltava & me deglutia na sangria do açougue dos espíritos o que me indagava sobre o verde dos hospícios o que me afligia com a navalha de uma esperança assassina os dias no espelho da ilusão de um rosto sem aura & calma o caos com bochechas quentes

quem é você?
bebê de bicho

III
os pivetes surfavam no teto do trem
o mais tímido, escorregou-se no vagão & foi moído no trilho como uma moeda sem valor
o outro, arguto ao ritmo da locomotiva, lançando manobras mirabolantes, não percebeu o fio &
morreu como capa de jornal: onda de ferro leva surfista eletrocutado

IV
todas as camas na lama de amor & narcóticos
lampejos mutilados pelo desejo
beijos como travesseiros arrojados na penetração
do céu transformado em véu
amantes com dedos de rinoceronte

V
te encontro na sombra do caos
& lhe desfiro os tentáculos de uma cega sensibilidade
nossas cabeças na correnteza
& a gravidade abruptamente se estende ao contágio
dos pássaros fundidos no aço
camuflagem prolongada na solidão

VI
a mosca na garapa
o pombo no pastel

VII
a insônia da voz pluviosa
na rua que jamais foi rua
besta criada com pantufas

VIII
asas
desesperadas Continuar a ler “BOCA A BOCA – por Vinicius Comoti”

JÁ NÃO HÁ ESPAÇO PARA POEMAS FÁCEIS – por Sandra Guerreiro

© Ryanniel Masucol

 

1
por baixo dos passos
sob a asa
……………desenho
o afinco contorno
……………essa bátega de água a ferver pelas costas
pela vela abaixo
……………devolvendo
como fazem as aranhas

reclamar o posto
mórfico

em desvio e desvario

2
já não há espaço para poemas fáceis
são demasiados leitos que não se conseguem desver

e eis que racha a folha
que nos vai calhar

e a pergunta flutua
no queixo que segura a boca fechada

3
há as peles que toldam o andar
e os pulos dos dias esquecidos no caderno
há o desformar o sangue
e os socalcos prontos a confrontarem o vento

no meio de nós Continuar a ler “JÁ NÃO HÁ ESPAÇO PARA POEMAS FÁCEIS – por Sandra Guerreiro”

CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso

Em frente a Jesus crucificado
nu, só e abandonado
de rosto triste e semblante plasmado
abandono o rancor, sinto-me confortado
olho-o no rosto e seu olhar curvado
afaga-me a tormenta
ampara-me o pecado.
Com outros prometo
em remorso disfarçado
aliviar-lhe o desgosto
da carne rasgada
que embebe as suas chagas.
Volvida a meditação
com a consciência aliviada
pelo perdão que não mereço
dos pecados sucessivos
dou-vos graças e outra vez peço
que me aceiteis como vosso amigo.

♣♣♣

Talvez fosse maio
e junho já estivesse a espreitar.
A chuva não caía
e o vento não queria incomodar.
As jovens moças
passeavam para que as admirassem.
Os sentidos de uns e de outros
cruzavam-se e encantavam-se
demorando-se aqui e ali.
A curiosidade das crianças,
o vigor da juventude
e a astúcia dos mais velhos
iam-se diluindo
nos instantes passados
que o tempo arrebatava. Continuar a ler “CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso”

ANARCISTA – por Francisco Fuchs

Sou um Rei sem reino, disse-me o velho
sem afastar o frio olhar do espelho:
achava-se um diamante bruto,
ainda que deveras fosse um puto.

Havia que tornar-se marionete
para melhor servir ao baronete
sempre a explorar qualquer fantoche
capaz de suportar o seu deboche.

Ao flagrar o malévolo narciso
senti-me incapaz de conter o riso:
escarneci, e sei que errei;

melhor será abandonar de vez
essa tão grandiosa pequenez
e continuar a ser um reino sem rei.

♦♦♦

Francisco Traverso Fuchs gosta de olhar para fora e adora olhar para dentro, mas evita perder tempo com espelhos. Fundou o anarcismo, doutrina que ensina a permanecer tão longe quanto possível das superfícies espelhadas e de seus adoradores.

ALDEIAS – por Jaime Vaz Brasil

 

edição © JML

Da vinci em seu pára-quedas
sobre a macondo de márquez…

A ofélia de clarice
junto à pedra de drummond. Continuar a ler “ALDEIAS – por Jaime Vaz Brasil”

SEXTETOS – por Januário Esteves

54

Ponho os violinos de Vivaldi
a tocar para os pássaros
que pousam no meu quintal
e é em glória no arrabalde
que nos extasiava até aos píncaros
numa trovoada que não faz mal. Continuar a ler “SEXTETOS – por Januário Esteves”

ARQUEOLÓGICAS III – por José Carlos Sánchez-Lara

 

 Arqueológicas III*

Lo visto
pertenece al plasma
y sus relaciones
con la masa cerebral

absorta
en desmenuzar imagen
y secuencia.

Velocidades de un afuera
en comarcas
del sentir. Continuar a ler “ARQUEOLÓGICAS III – por José Carlos Sánchez-Lara”

POEMAS DE JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO

 

BOLINHOS FEITOS DE ONTEM E FEIJÃO

Miné na cozinha
faz bolinhos de feijão
enquanto minha mãe
conversa ao telefone
sobre a última moda do verão
A manhã vai passando
pelo céu das nuvens paradas
fatiada em diminutos segundos
pela fina lâmina dos ponteiros do relógio
feito a navalha gasta
no barbear matinal do meu pai

Lá fora a vida me espreita
no aguardo das perdas que um dia virão
e eu continuo absorto e distraído
assistindo o desenho animado
que está passando na televisão

Ainda não conheço a língua das ruas
o entrelaçar ardiloso das Moiras
o cheiro dos cravos e dos crisântemos
nem os caminhos que me levarão
para fora desta bolha azul de sabão

O princípio de mim vai se construindo
por debaixo da ingenuidade da carne
no pântano caudaloso da memória
e quando lá me olhar para trás
vou me ver sentado
assistindo desenho animado na televisão
quando Miné está na cozinha
fazendo saudosos bolinhos de feijão
e minha mãe conversando ao telefone
sobre a última moda daquele remoto esquecido verão Continuar a ler “POEMAS DE JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO”

PALAVRAS AZUIS ACORDAM A MADRUGADA** – por Ponti Pontedura

1

Escreve tuas palavras de horror.
Mas não grites.

Não levantes a voz acima do poema.
Escreve em caligrafia fria teu pavor pálido.

Para onde vamos quando enlaçamos as mãos?
Sentei-me ao pé da árvore e me colei ao solo.
A gravidade me consola e lança a maçã no meu colo.
Gravitando em torno da palavra, o poema nos acolhe
em sua órbita mordaz. Continuar a ler “PALAVRAS AZUIS ACORDAM A MADRUGADA** – por Ponti Pontedura”

OUTONO E OUTROS POEMAS – por A. Dasilva O.

Outono

Faz com que os poemas
saiam do cimo das árvores
As gralhas não perdoam Continuar a ler “OUTONO E OUTROS POEMAS – por A. Dasilva O.”

MOVIMENTOS DE AMOR E AMADO (TRÊS POEMAS) – por Alberto Andrade

MOVIMENTOS DE AMOR E AMADO

I

Se este raio de enxofre nos deixar,
Restara-nos ainda, Joaninha,
Ouvir no orvalho as ondas deste altar.

Se estrelas, pólen, vacas e até a minha
Voz, espreitarem o ermo deste espelho,
O susto nos será. E então, asinha,

O Sol inundará de antigo anseio
O pulso escrupuloso que nos rege
E petrifica. Então, como coelhos

Bêbados, beijaremos novas vestes. Continuar a ler “MOVIMENTOS DE AMOR E AMADO (TRÊS POEMAS) – por Alberto Andrade”

POEMAS DE ATÁVICA – por Claudia Vila Molina

 Suburbios
Guardan sus baúles
porque la luz los enciende a medianoche
y no es necesario sonreír con esa negrura
más una sombra desconectará los lamentos
y sus ecos volverán a posarse
sobre techos de casas en fermentación
los sueños se grabarán para siempre en párpados
almas viejas serán reanudadas en viejos continentes
y un olor marino continuará rondando sobre las ciudades. Continuar a ler “POEMAS DE ATÁVICA – por Claudia Vila Molina”

POESIA DE DINIZ GONÇALVES JUNIOR

 

 

 

 

 

un vestido y un amor

de calcinha e camisa do river
você se insinua ouvindo fito paez

atrapalho-me ao desligar a tv cor-de-laranja:
monges lutando com bambus,
facas ginsu, nevasca no hotel overlook

um pôster de felicity jones, o tapete persa
do seu triângulo sem bermudas, miados
da gata vira-lata, musgo na banheira rosa,
um anúncio do conhaque fernet:
e a madrugada é um olho de vidro coberto
pelo vapor dos bueiros
Continuar a ler “POESIA DE DINIZ GONÇALVES JUNIOR”

OS SETE PECADOS CAPITAIS & OUTRAS QUADRAS FERINAS de Henrique Duarte Neto

OS SETE PECADOS CAPITAIS 
& 
OUTRAS QUADRAS FERINAS

por HENRIQUE DUARTE NETO 

Gula

Verdadeiro fanatismo do excesso,
da intemperança do ingerir.
Haverá limite para a gula?
Para uns nada há que seja indigesto. Continuar a ler “OS SETE PECADOS CAPITAIS & OUTRAS QUADRAS FERINAS de Henrique Duarte Neto”