TRÊS POEMAS de Daniel Maya-Pinto Rodrigues

A PARTE POSITIVA DA TONTURA

Quando seguir pela estrada fora, com
livros de viagens juvenis nas mãos,
poderei entender melhor a luz das manhãs na estrada,
as árvores da distância nessa luz clara.
Poderei aproximar-me de ti, fora do tempo,
num trilho paralelo ao tempo,
num atalho que o próprio tempo
tenha reservado para nós.
A nossa roupa cintilará ao sol
enquanto andarmos, enquanto prosseguirmos andando
na distância visual perfeita. És
uma mulher que pouco conheço,
e isso é-me do agrado, enquanto caminho contigo.
O nosso diálogo contém as palavras ideais;
nada nos falta nessa distância. Prosseguiremos
livres, despreocupados
e, ao que tudo indica, felizes.

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A POESIA de Delalves Costa

O Relógio

Me apunhalaram. Uma carne fria
com estímulos eletrônicos,
assim deixaram minha alma.
Me arrancaram o susto de vida
e deram corpo ao previsto.
A alma que soprava arrepios
agora é piano sem lírica
e palpável às mãos do mundo.
Carne de metal: não chora,
não contempla. Só vê.
Frio é o afago, como é
também o nosso tempo
– esse homem de muitas portas
e chaves humanas,
e contudo vazio de mistério.
Arrancaram da caixa mágica
a lírica, a música e o susto.
O sangue já não é quente…
O corpo já não me escuta…
Me apunhalaram ainda n’alma
e me jogaram à carne fria
que não chora nem contempla.
Me arrancaram o susto
e no lugar puseram o relógio.

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PORTUGAL É UM NEROLOGISMO (…) – por Fátima Vale

PORTUGAL É UM NEROLOGISMO E O FOGO O BORDEL DE MESSALINA

em memória de Ruth Escobar que se foi esquecida

Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga. (…) Vivo, porque espero.”

– O Pobre Tolo, Teixeira de Pascoaes | 192

[esta mulher está
dentro de uma ruína com forma labiríntica
todo o alcance do olhar é um manifesto de terra queimada
as pernas vão-lhe enegrecendo até ver a filha
nesse momento desfazem-se]
marulha-me a cabeça
uma seita de fantasmas penteia-me os cabelos
e o pior ainda o pior
são estes malditos fios que me levam
a abraçar tudo quanto existe
e emaranham-se na ignorância e na raiva
na perfídia do quotidiano
dai-me uma faca que os corte

aos fantasmas
secai-me as veias destes raios invasores
eu caí neste condomínio de braços descartados
num voo trocado
nas asas de um pássaro de prata
espírito santo do meu azar
livrem-me desta cabeça
deste nerologismo lusitano
desta metáfora política
desta simulação da co-existência
deste totalitarismo da fala
ala ala ala Continuar a ler “PORTUGAL É UM NEROLOGISMO (…) – por Fátima Vale”

BESTIÁRIO DA SOMBRA E OUTROS POEMAS de Jaime Vaz Brasil

Bestiário da Sombra

A morte é um lobo à espreita:
imóvel, mudo e pulsante.
(No olho, o gelo põe cores
de quem domina, distante.)

A morte é serpente rasa
e nos vive – de pequenos –
destilando em nossas veias
o seu mais lento veneno.

A morte é um urso hibernante
que dorme, imóvel e quieto.
(Mas quando acorda, nos chama
para o seu sono secreto.)

A morte é um tigre faminto
na farta mesa das horas:
num salto breve, a surpresa
que nos alcança e abraça.

A morte é um rato inquieto
em seus caminhos esquivos.
(Finge que foge assustado,
mas rói o porão dos vivos.)

A morte é águia à espreita
em seu voo mais rasante.
(Com suas as garras, nos prende
e nos some, num instante.)
Ou morte é pássaro leve
ave branca, de outra escola
que nos flutua em silêncio
enquanto abre a gaiola…

♣♣♣

O Adeus

O adeus nasce do instante
entre a palavra e o passo.
(Mas cresce vazio de colo:
estreito, e com todo espaço.)

E nos ensaia seus gestos
seus rituais, suas danças.
É tão esquivo de corpo
que mão nenhuma o alcança.

O adeus nos alimenta
entre a memória e o fato.
(Mas come além do que é boca:
é a fome longe do prato.)

E vive assim, desde cedo
na pele de toda gente.
Chega descalço ou de gala,
e nos faz ave ou semente.

O adeus planta uma sombra
no que seria ou que foi.
(Por que o olho da saudade
só abre um tempo depois.)

Ele é como se, na escada,
a perna fosse o tropeço.
Por isso, prende e liberta
e é sempre fim e começo.

♣♣♣

Coração de Milonga

Enquanto o tempo desenhava
teu rosto dentro do meu corpo,
saudade em dó menor cantei mil vezes.

Falei de nós, um tanto triste
e um bandoneón chorou comigo:
amor, quando é amor, não morre nunca.
(E pra fugir de cada sombra
da solidão, que erguia os olhos,
me disfarçei na dor de um sustenido).

Amor, quem sabe um dia desses
no espelho da milonga eu veja
teu beijo renascido num segundo.

Por ti, amor, cantei o mundo
em noites longas que aprendia
a amar em sol maior
e tempestades…

Amar nas ruas, bares, campos
amar em solos de guitarra.
Amar com toda voz
e em silêncio.

Amar como só poderia
meu coração de milonga.

Quem sabe ler paixões humanas
na vida, sempre tão estranha,
se o amor as vezes fecha toda casa?
Andei por mares, vales, luas
andei em pedras, muros, portos,
amor, varei coxilhas do avesso.
(E andei no rastro do teu nome
no meu cavalo de brinquedo
colhendo a flor azul que me pedias).

Amor, quem sabe um dia desses
na alma da milonga eu veja
a face calma e breve das respostas…

Por ti amor cantei o mundo
em longas noites que aprendia
a amar em sol maior
e tempestades…

Amar nas ruas bares campos
amar em solos de guitarra.
Amar com toda a voz
e em silêncio.

Amar como só poderia
meu coração de milonga.

TRÊS POEMAS DE Nuno Higino

UMA MANEIRA DE DIZER O QUE NÃO SE ENTENDE

Precisava duma casa onde coubesse a minha vida toda, soalheira,
abrigada da invernia, distante dos lugares familiares, onde coubesses tu,
uma árvore ao pé, móvel e literária, imprecisa como uma lâmpada
de névoa, e ser ela o jardim todo e o jardineiro. Já vou suportando atrasos,
partidas adiadas, quem não parte também regressa, regressaremos todos,
um dia dentro duma carruagem a chiar numa estação desconhecida,
a desembaciar o vidro com a mão, porque havemos de chegar sempre a algum lugar? Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE Nuno Higino”

das presilhas do coração – por Maria Toscano

1.

 os homens atam as presilhas do coração
ao cós da promessa de maternidade eterna.

acreditam, os homens, ser sua grandeza
permanecerem sempre filhos apaparicados e

dispensados de ser autónomos e maduros.

nem a todos toca a fábula diabólica.
homens serenos plenos e acertados com lágrima e riso
de ombros e afectos largos/ de peito e siso
continuados inteiros na posição de caminhar Continuar a ler “das presilhas do coração – por Maria Toscano”

AZIMUTES – por Diniz Cortes

Foto de Diniz Cortes

Rolam velas de lume no limbo do mar….
Entrego-me ao sol , despido e sonolento na manhã já alta…
Despejo com avidez o cinzeiro da noite anterior e revejo-me na busca do azul…
Empalideço ao notar que as nuvens são reais como eu….
Desenho na areia o meu nome talvez em busca de mim…
Alinho-me a Oeste , procurando a luz que já empalidece…
Afundo-me no sonho desperto de ser como sou…
Dobro o jornal e desejo-me dentro de mim…
Adormeço acreditando que as nuvens se despedem…ao longe…

♦♦♦

Manuel Diniz Gaspar Cardoso Cortes. Médico – Chefe de Serviço de Medicina Geral e Familiar e Terapeuta Familiar pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar.
Fotógrafo de Natureza e Vida Selvagem desde 1980. Prémio Carreira do FAPAS e C. M. Castelo de Vide em 2016 pelo trabalho desenvolvido nesta área.
Aluno de Mestrado em “Arqueologia pré-Histórica e Arte Rupestre” UTAD – 2016/2018
Autor dos livros ”Momentos ao Natural” (2007) e “Viagem” (2015)

POEMAS de Alberto Cecereu

 

2

Soñé que las palomas volaban como monedas
hacia las antiguas piletas de avenida 9 de julio
y ahí me esperaban las lechosas con sus
corona de carruajes, de maratones, de barricadas
extendiendo hacia mi cuello

y la avenida 9 de julio era un desierto
en verdad toda la Capital Federal era un desierto

(tú eras un desierto y me mirabas)

todo era una gran meseta de arena ocre que destellaba rayos de colores reflejos de Historia como gritos

porque de los edificios abandonados de la avenida
colgaban millones de asentamientos humanos
que buscaban la esperanza en los astrólogos imaginarios
esos que ahora gobernaban los países abandonados después
de lo fines del mundo

soñé que el obelisco era una joya en el desierto morado
que del Río de la Plata solo quedaban los yacimientos petrolíferos
oxidados y disecados

(tú eras el yacimiento y explotabas)

y danzaban las sectas de colores todos los viernes
al atardecer cantando los coros humanos
recordando la gloria que alguna vez hubo
cómo el mejor de los campeonatos de polo en los country y en las fincas

algunos andaban como en una bicicleta llevando
mensajes de los territorios perdidos más allá del desierto habitado
allá donde se supone no quedaba nadie

el eco de señales de radio
el griterío de los bebés abandonados
el llanto de los soldados en la cordillera
la agonía de los colonos que se ahogaron
en la última maratón de los que escapaban
de las inundaciones perpetuas transandinas

(ese país ya no existe pero tú sí)

y seguían andando como en una bicicleta
recitando los mensajes como poemas
como si con eso nacieran flores globos espejos burbujas

(tú eras las burbujas pero estaba el desierto y yo era el desierto)

♣♣♣

8

a mi me llaman el colorino

porque rescato los fuegos artificiales de los infartados

los sueños de los drogadictos

y las bendiciones papales de los desquiciados

e inventamos en el brocal de las botellas

las sinfonías                      los finales

los mediáticos créditos fílmicos

el cancionero fatalista de los hospitales

para que celebremos la escuela de los esclavos

la escultura de los pañuelos

en el adorno de los discursos

de los chiquillos del poder

los niñitos de las financieras que creen que han descubierto

a dios en los manuales de supervivencia

y repiten como un canto: “el estado tiene una función subsidiaria”

y repiten repiten                                                                                        y repiten

el mantra tántrico

la mentira de las mentiras

el escapulario de las tumbas

pero

nos queda el ravotril a borbotones

las ampollas de morfina gratuitas, públicas y de calidad

nos queda la lucha armada

y las reuniones molotoveras

para hacer germinar toda la poesía como una expulsión gástrica

donde podría hacer que sucedan hasta los versos galácticos:

hasta el temblorcillo colorino

♣♣♣

12

soñé con el levantamiento kawésqar

volcanes dándose vueltas en milenarios tornados satánicos

mientras el arca kercis definía la extranjería de los colores del mar

y los ríos se dibujaban arriba en el cosmos de las rocas

la arcilla de los lagos

el murmullo de las estepas

(tu cuerpo se estremecía con el fuego y no te veía)

y así una vez más se precipitaba la revolución futurista del alacalufe de orión
con sus diez mil naves cantando las
óperas del origen de los canales: la civilización de las luces: el estremecer: griterío
hacia el ritmo de las cavernas
que se inventan con la copulación del hielo

(tu cuerpo desnudo subiendo hacia el éxtasis y no te sentía)

todos eran modos de combates del fin del mundo
contra la catarsis de los dioses
como una estampida de guanacos sucediendo en los úteros cobrizos
de los pueblos de nácar
creando el espectáculo perpetuo de los desesperados

(precipitan tus ruidos y así nace la extremidad de las islas y te gimo)

soñé con el levantamiento kawésqar
hacia las estatuas de cenizas
que habían construido los extraterrestres en el inicio del norte: la magnificencia: el desprecio:
el arca kercis en la resistencia de los esclavos: la guerra de las leyendas así explotando como nubes de alcohol
sucediendo en una maratón de fogatas
en el transcurso de tu cuerpo ahí crepitando

(te toco)

♣♣♣

22

cataratas

aparecen cataratas en el fondo del jardín

dibujando ángeles

 

28

Jackie

tiene unos ojos gigantes        verdes como el amazonas

preciosos

como el suspiro de los humanos dementes

pero lloran a través del temporal del silencio

y esto solo es un designio de su historia oculta

del porqué está acá en esta clínica diminuta

de ese 21 de diciembre

el día

que quiso matar a sus tres hijos y suicidarse

argumentando que ni todo el oxígeno de este planeta le era suficiente

para hacer renacer el torrente de sangre de su corazón morado

de sus piernas de mariposa

de sus manos drogadictas

 

Jackie

tiene nombre de primera dama

pero no les importó

a los animales que se la violaron cuando tenía 12 años

ni menos para su marido que le hacía el arte del boxeo

en su cara

cada quince días después de su virtuosidad en el Club de Golf

a pesar de todo eso

cantaba precioso a los gatos del recinto psiquiátrico

y contaba las historias de Oswald Denis

en sus periplos para transformarse

actor de Hollywood

que derrochan al arte como sueños que digan

los versos asiáticos

transcoloridos

como cantos del coro más allá del horizonte de espejos

 

Jackie quería morir

en los limbos del misterio y el excremento

como depuración de los azúcares

de sus ojos gigantes                       verdes como el amazonas

preciosos

como el suspiro de los humanos demente

♣♣♣

31

Hubo días que podía imaginar centenares de manifiestos

que construían catedrales y bodegas

con redondas cúpulas celestes que mostraban un teatro de payasos

también existían los pájaros blancos: la blancura de los blancos: los pájaros saliendo

y entrando en las lagunas lunares que hablaban: que recitaban pestañeos.

El poeta se arrodilla y ora:

Tú eres la Santa Marta de los Prostíbulos, diadema de los espectáculos que te reaparecen en los circos de magia de los hombres atléticos desnudos y chorreados con la inmensidad de las ondas galácticas, y los caballos de plata y las series de la cinematografía.

Diáfana hasta la negritud de las orgías, esas que provocan que nazcan las ángeles nubias en los arcos del inicio del paraíso de los cantos que provocan el caos de la anarquía prioritaria de los pensamientos azules.

Santa Marta de los genitales morados que desfilan en el nacimiento de Elizabeth Ann Short, y aunque te quiera recitar las canciones del nuevo amor, es inevitable la masacre de tu cuerpo. Martita telúrica, asesina viral, fanática de los videos de internet, momificadora de la pornografía.

Santa Martita, tetona jugosa, bisexual escondida, elevamos el canto de todos los nuestros, de toda la comunidad escondida elevada: exaltada: fundadora: rascacielos.

Repitan conmigo: Ruega por nosotros santa Madre de Dios, Para que seamos dignos de alcanzar las promesas de nuestro Señor Jesucristo.

Amén.

♦♦♦

Alberto Cecereu (Valparaíso, 1986)Poeta y profesor. Es Licenciado en Historia y Licenciado en Educación.

En sus inicios fue becario del Taller de Poesía de La Sebastiana, Fundación Pablo Neruda y miembro del Seminario de Reflexión Poética de la misma institución. En 2005 publica su primer libro de poesía, “Noticias sobre la Inmanencia” (Ediciones Altazor), y en 2016 “Los Exaltados” (Ediciones Altazor). En este 2018, publicará su plaquette “Los Ermitaños” en Trizadura Ediciones y prepara su próximo libro, “El Delirio” en Ediciones Filacteria para 2019.

En 2006 se le otorga la Beca a la Creación Literaria del Consejo Nacional de la Cultura y las Artes para escribir “Los Viajes del Druida” (que aún permanece inédito). Ese mismo año gana el Premio Enrique Lihn de la Universidad de Valparaíso.

Su poesía aparece en la Antología El mapa no es el territorio (Editorial Fuga, 2007), además de diversos medios de Chile y el extranjero. Es traducido al inglés y publicado en California Quaterly (Volume 2, Number 2) de Estados Unidos.

Es colaborador y columnista habitual de SITIOCERO (www.sitiocero.net), un espacio de expresión y comunicación de una comunidad diversa y plural, donde publica escritos concentrados en la crítica social y la reflexión de la realidad.

A POESIA DE Cecília Barreira

Poema de amor fusiforme

198 ANOS DO NASCIMENTO DE BAUDELAIRE A 9 DE ABRIL DE 1821

“Je suis comme  le roi d´un  pays pluvieux,
Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très vieux”

Ampliou-se há 198 anos em Paris na rue Hautefeuille, 13,
Rutilâncias em breves liceus,
Em vidas dissolutas, nos absurdos de ameaças sangue, sonhos em borboleta, inegável a estadia dos deuses,
Em 1839 amou em para-brisas Jeanne Duval, de vícios contados e maturados, Continuar a ler “A POESIA DE Cecília Barreira”

ESCRITA EM PAPEL E LÁGRIMAS – por Fellipe Cosme

Fotografia ©GoodFon.com

escrita em papel e lágrima
num pedaço de amor
jogado no lixo

tanto faz o lixo
que desatina
dói e agoniza

sim e não
a porta aberta
e ninguém entrou

uma escada flutuante
do avesso de um poema
que se rasga dentro de si.

beijo sonoro de um eu
funda o esvaziamento retorcido

centro da cicatriz
que o corpo carrega do século
caixa quadrado sem voz

relação disforme e a explosão
de luz e som e o sentir
em roma, atenas e moscou

lidos rios fracassam verde
frio o verso parafraseando
a inquietude de uma face. Continuar a ler “ESCRITA EM PAPEL E LÁGRIMAS – por Fellipe Cosme”

ALGUMA POESIA de Ieda Estergilda de Abreu

Mário Cesariny Figuras de Sopro, 1947

Bruxices

Queria voar.
Poeira, persianas, vassoura de palha, vôos razantes pela casa,
cabelos de palha e vento, vassoura no canto da sala calada, varrida.
Quatro panelas no fogo, boiando no espaço
cansaço.
Quatro panos de prato, quatro panelas que amofinam
quatro panos pra lavar.
Queria voar.

Continuar a ler “ALGUMA POESIA de Ieda Estergilda de Abreu”

POEMAS DE José Luís Outono

Linha d´Água, by Mário Cesariny

TEMPESTADES A COBERTO DE OUSADIAS

rios de água cadente enclausuram olhares provocadores
… …
tempestades a coberto de ousadias
… …
filmes absurdos de diálogos silenciados
pelo sino da memória cansada
… …
desafios gotejantes emolduram
discursos correntes sem novidades
… …
a matemática prossegue a sua análise do ontem
depois do fracasso de amanhã ter esquecido o hoje Continuar a ler “POEMAS DE José Luís Outono”

POESIA E IMAGENS de Lucinda Loureiro

Fotografia de Lucinda Loureiro

PALAVRAS

Vou-me vestindo de palavras.
Palavras à solta,
De rédeas curtas.
Recuso as esporas, as farpas,
Os trajes de luzes e os ferretes.
Leio-me nos versos soltos, sem edição,
Sem filtros ou construção.
Não conheço regras, nem métricas.
Vou-me despindo com palavras,
Em possíveis poemas

Continuar a ler “POESIA E IMAGENS de Lucinda Loureiro”

SONHOS PESCADOS – Por Marcos Fernando Kirst

«Linha d`Água» (s/d), Mário Cesariny —óleo sobre madeira

Na dobra da onda
que sacode a praia
trazendo avalanche
de água e de sal;
ali pesco o sonho
de vida sereia,
castelo na areia,
o mar meu quintal.

Na sombra forjada
do olho cerrado
chamando a visita
do Lorde Morfeus;
ali teço sonhos
de vida sonhada,
à qual pago nada,
e crio outros eus.

Desperto, acordado,
vigiando ou sonado,
atraio os dormires
à vida vivida
e tenho então sempre
um sonho pescado
andando ao meu lado:
união dividida.

♦♦♦

Marcos Fernando Kirst é jornalista e escritor, residente na cidade de Caxias do Sul (RS). É colunista do jornal “Pioneiro”, onde publica crônicas semanais literárias. Foi Patrono da Feira do Livro de Caxias do Sul em 2010. Em 2011, ganhou o Concurso Anual Literário Municipal de Caxias do Sul com a obra poética “Em Silêncios”. Integra a Academia Caxiense de Letras desde 2012, onde ocupa a cadeira número 11. Ganhador do Prêmio Açorianos de Criação  Literária 2014 com a novela “A Sombra de Clara”, também laureada com o Prêmio Vivita Cartier, em Caxias do Sul, em 2016. Já lançou 21 livros.

 

POEMAS DE – Gisela G. Ramos Rosa

Newsfeed-Rhyming-Couplet by Corina Botton

“Comment interroger ce qui nous échappe aussitôt?”
 Bernard Noel

A António Ramos Rosa

Toda a presença vence os limites do corpo
tudo está por dentro, por detrás de quem olha.
Minucioso trabalho o da construção do poema foi o
que me transmitiste, lâmpada que se acende ao ritmo
do corpo das mãos como asas num vislumbre
que queima. Lá onde estás, não me perguntes se
escrevo e se me invento. Continuar a ler “POEMAS DE – Gisela G. Ramos Rosa”

TRÊS POEMAS DE Marília Miranda Lopes

Terça-feira: Mercúrio

Este tempo invernoso omite
claridades nos teus olhos vivos:
palavras que rebentam nas bolhas
que raiam dos anéis das íris.
Não precisas, pois, de suster
a respiração nesse augúrio:
a mensagem vem de Mercúrio,
segue já na corrente, a ver
as margens e o mar ao longe:
aguarelas ternas que flambam
o verbo calado, em suspenso,
sem vontade de se debruçar
da tua boca que consente
salitre nos lábios e bruma
do dia em que fomos navio
e vela, e mastro, e terra una.

Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE Marília Miranda Lopes”

TRÊS POEMAS DE Rudá Ventura

RUÍNAS DE ÁGORA

Há tanta boca
E tanta voz desmedida
Nesse silêncio repetido e gritado,

Nesse vazio de palavras que ecoam esquecidas,
Onde à margem de toda prosa
Talvez repouse alguma verdade.

Há tanta boca
E nenhum som profundo;
Há tantos dentes devorando os sonhos
E tão ímpio tornou-se o mundo,
Que mastigado resta pra nós.

Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE Rudá Ventura”