TRÊS POEMAS DE JANUÁRIO ESTEVES

 

Eon

Daqui a um milhão de anos estaremos no jardim das delicias, como seres espirituais incorpóreos
Terraformando planetas secos e sem vida em paraisos artificiais, movendo-os para próximos de estrelas mães
Para que a luz se liquidifique e a fotossíntese aconteça
Nos abraços espiralados da simbiose das orquideas
Com os cavalos marinhos transferindo os genes para
Alienígena que vai habitar o novo mundo tenha os números certos que o seu criador lhe deu para viver
Em harmonia com a natureza e entre si, alimentando-se sómente do ar que os pulmões transformam em alimento
E a vida exista sem punição eterna num limbo cósmico.

♣♣♣

Inquietação do vazio

Só no silencio a palavra ressoa
Faminta de verbalizar em comunhão
Como uma espada que nos magoa
E nos fere em demanda o coração

Mas prosseguindo em saudade
Converso com o destino fugidio
O que advém da precária idade
Num somatório de dias vadio

Florescem do escuro receios
Que habitam a casa latejantes
Esquartejando a carne dos anseios
Num sem número de instantes.

♣♣♣

Missa para defuntos

Agora que aqui chegaste e não sabes que morreste
lamento em surdina o apelo de misericórdia
que justifica os teus atos enquanto fostes vivo
e nunca quiseste saber da morte dos outros
pois a divina morte a todos leva sem exceção
retribuindo a causa no efeito da tua vida
e nas ações de bem ou mal que protagonizaste
levando o teu ser pela estrada que não sabe para onde vai
nos dias consumidos pelas lutas que te fizeram
demasiado humano pelo sofrimento que causaste
aterrado pelas causticas coisas que acontecem
sem saber de onde vem o sal que nos tempera
nem a luz que nos acende e confronta escuridão
buscando voltar ao aconchego do útero criador
para que do nada tudo fossemos e um manto divino
nos resguardasse o corpo como a mortalha que te cobre.

♦♦♦

Januário Esteves usa o pseudónimo “Januanto”. Nasceu em Coruche, Portugal (1960).  Escreve poesia desde os 16 anos. Em 1987 publicou no Jornal de Letras e participou ao longo dos anos em algumas publicações colectivas. Publicou na revista brasileira Musa Rara, na revista americana EIGHTEENSEVENTY .POETRY.BLOG., na Revista Brasileira LiteraLivre, na revista romena Poesis, na revista australiana Otoliths, na revista americana BlazeVox, na revista americana Harbinger Asylum, na revista americana Ducor Review, na revista indiana Taj Mahal.

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