
A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO, FERRAMENTA COGNITIVA E VIA DE AUTOTRANSFORMAÇÃO HUMANA
- Introdução – O equívoco moderno sobre a poesia
A modernidade tardia herdou uma conceção empobrecida da poesia. No imaginário dominante, ela surge frequentemente associada ao lazer improdutivo, à emotividade juvenil ou a uma arte menor, ornamental, destituída de função cognitiva. Esta marginalização não é acidental: resulta diretamente da hegemonia da racionalidade instrumental, da lógica tecnocrática e da cultura utilitarista. Como analisado por Guy Debord, a sociedade contemporânea transforma a experiência em espetáculo e consumo, reduzindo a atenção profunda a um resíduo cultural [1].
Neste contexto, a poesia — que exige silêncio, interioridade, lentidão, ambiguidade e escuta simbólica — torna-se dissonante. Contudo, esta perceção ignora um dado estrutural da condição humana: a poesia não é um luxo tardio da civilização, mas um modo originário de organização da consciência. Antes da ciência, da filosofia sistemática e da historiografia, o humano já pensava poeticamente a sua relação com o mundo, com o sagrado, com a morte e consigo mesmo. Como demonstra Ernst Cassirer, o homem vive num universo simbólico antes mesmo de viver num universo factual [2]. Continuar a ler “A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO – por César Afonso”















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