UMA NUANCE NAS NÓDOAS X – por Lúcio Valium

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A caminho da tipografia encontrei o do 24. Levava um pequeno rádio sintonizado numa estação estrangeira. Caminhava demasiado devagar. Ao ver-me disse calmamente a palavra pústula. Já pensou nesta palavra perguntou. Eu sou nestes tempos essa palavra. A minha mente é pura depravação e só me ocorre o choque como forma de comunicação. A violência como ato generoso. Fixando o chão com os olhos como que cuspindo fogo disse: tenho saudades suas. Há muito que não falo verdadeiramente com ninguém. Por onde andou. Estaremos mais vezes juntos a partir de agora disse eu. O meu jantar serão três cenouras cruas. E desandou olhando-me sorridente.

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Quando em belas artes usavas amarelo na madeira eu estava lá. Olhei-te muitas vezes ao enfrentares o plano ou o abismo. Ouvi de perto palavras entre ti e lapa, aguiar e batarda. Seguia os teus passos e inspirava o fumo que largavas. Li os teus pensamentos. A tua voz acompanhava a minha deambulação. Vi-te escrever e beber. Adivinhei as tuas indecisões e desejos íntimos. Percebi os teus agrados e tédios. Já estava longe e as minhas asas ficaram nos cordões para secar roupa. Havia muito para rasgar na pele terrestre. Um dia tinha sabido sem consulta que estava louco. Talvez um estranho por tão próximo, e Camus pudessem enganar-se nas quantidades ao misturar certas bebidas.

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Depois de Pepe Carvalho ter ido até à montanha arriscando-se a encontrar quem lhe partisse alguns ossos decidi ir em direção ao centro da cidade. O próximo comboio sai dentro de minutos. Penso encontrar Salinger no café Ceuta. Por vezes pára aí para tomar chá. Nunca o vi falar com ninguém exceto com um tal Pedro Pena. Homem elegante com grossos óculos de massa com sorriso fácil e terno ao contrário do escritor que não ri. Pena dedica-se à pintura de nus femininos. Gosta só de poetas muito idosos. Viaja exclusivamente para norte. Salinger isola-se num jardim com peixes. Logo ao nascer do dia. Conheci os dois quando estive internado na ala de nefrologia. Ambos se encontravam ali em camas demasiado próximas. Eles tinham visto a tua exposição na ordem dos pilotos de submarino.

LASCAS

O processo está na tômbola. Vénias e imposições institucionais. Fomentam-se danças e evidenciam-se garras e veneno tecnológico. Sonantes fórmulas para guiar ratinhos. As bases da estabilidade convivencial. Viperinas eminências exercendo a salivante atividade política. Simulacros e encenações com geometria e retórica. Tudo em contraverso ao que vivemos na hospedaria. Nada como os beijos que me deixas logo pela manhã a uma distância indizível dos nossos corpos banhando-se no azul ao fim da tarde. Agora vou buscar vinho branco e pôr música na cozinha. Blues para começar e abraçar-te.

ÂNGULOS

Os olhos moldam a vestimenta da sala. Cordões de barcos abraçam o leito do declive inclemente. Infernizar o ancestral lodo psíquico com pinceladas dementes é higiene de sabonete herbáceo ventoso. Um sal marítimo na pele dos lábios de fruta. Afinal as roupas dão boas vistas a entes diversos. Químicos semânticos agilizam os encantos neuronais e rodopia a escultura carnal cantante. Tudo em doses de gramagem não quimérica. sem exigências de cavalos indomáveis. Um segredo de mão em volta dos maxilares abre a grande portada dos ventrículos. Soltam-se então as pétalas noturnas.

FRÉMITO

Você é um pouco esdrúxulo diz sentando-se o do 24. E acena ao homem do balcão. Se durmo bem ocupo esta mesa pela manhã e nunca o vi por aqui. Sítio tão recôndito não é para os seus hábitos. Algo mudou. Vejo-o com o olhar de um desterrado. Fala devagar olhando para o outro lado da rua andando sem objetivo. Caminhei uma hora e meia até chegar aqui. Sabia que podia encontrá-lo, respondo. O que anda a ler, pergunta. Um argelino e um catalão. Ficamos em silêncio. Muda o semblante e aconselha   parar com as leituras. A sua voz é mais leve e sorri com vontade. Olha-me aparvalhado. Já tinha dito o mesmo a mim próprio. Esfrega a testa e diz então, ouça-se. Fico a pensar na frase. Levanta-se. Eu permaneço quieto. Decido ouvir-me e dar isso a ver. Foi bom vir aqui penso. Há palavras, chuva, e por vezes as do 24 são uma boa chuvada. Ou trovoada. Regressa com dois vermutes. Tinha-o procurado próximo da instituição, mas não apareceu. Diz enquanto me olha e leva o copo à boca que é mais fácil você encontrar-me. Deixei os territórios familiares. Afastei-me como se já não fosse dali. Fui encontrando sossego em zonas mais despidas. A veia niilista não lhe retira a força no olhar. O desprezo é um aliado e a fúria está nas suas palavras suaves e desvairadas. Acabo a bebida como quem termina um livro.

     X

Ouvia o som das folhas e tinha o cabelo salgado. O banco de madeira dos carris deixava o mar entrar nos meus escritos. Eu tinha decidido voltar a esculpir e trazia-te na cabeça. Depois ao fim da tarde era a tua pele que anunciava os peixes. Uma hora a rebolar em tintas azuis e ficou a nossa lua psíquica coberta de mel. Não se encontrava ali quase ninguém por isso entrámos na carroçaria e fomos para o meio das árvores. Há festa no globo segredavam-me as enzimas. Tinham desenhado mais ou menos uma fronteira. Contudo a água gelada saía do interior fleumático da montanha e quando os gatos ainda faziam contorcionismo via-se o chão por baixo do espelho. As costas aqueciam longe da jangada. De repente eu encharcado atirei-me para cima de ti e o rapaz de boné grande comeu o marisco quase todo. Cervejas e borboletas. Era assim que o tempo era nosso enquanto o comboio zumbia.

CACIFO

Tratar um cachimbo revela tarimba. O vento escancara as linhas de pensamento. Fico ali a limpar o nariz com um anis eletrónico sónico. Também pus fitas de cola nas capas. As copas desenham a janela. O bibliotecário ateu tem veia semiótica. Veremos se os dias não o deprimem. Ao lado das 4 salas de máquinas pode-se regressar à música solitária mas há muitas páginas a decifrar e o receituário invade as neuroses. De todo o modo o frio da noite foi amaciado pela tua pele. Adormecer e acordar contigo um tal ópio visual. As delícias orgânicas.

PEÇAS

Paredes altas azulejos vermelhos sangue. Pantalhas imaginárias vozes noctívagas. Uma seta voa sobre ramos de banalidades. Neste bloco vão desaparecendo os pobres andantes. Sonâmbulos cabides humanos vão a casa dormir. Confuso deixo-me estar. De um lado para outro olho o terreno como um gato. Aqui há investigação silenciosa. Alfaces poéticas na esterqueira pensante. O lixo real entra pelos óculos. Aspiradores inquietos leem radiações podres e irreprimíveis. Esvoaçam partituras antropológicas para entontecer consumidores de ideias filantrópicas. Caminho por aqui e depois sento-me. Por momentos surge um escritor para me visitar. Falamos pouco porque ouço mal. O relógio também é culpado, mas não o acuso. Todos os problemas são meus. Saio para o largo dos abrunheiros e medito sobre as manchas no chão. Quando vivia na infância comia aquela acidez e o risco dos ramos fracos. Os pássaros furavam os frutos que enferrujavam com doçura. Apesar de caminhar devagar no silêncio dos corredores a velocidade das páginas foi demoníaca. Não obstante as divindades de serviço e as majestades que guardam cerimoniosamente os valores isto descamba com uma voracidade histérica e a correria é desenfreada. Por isso me sinto tão otimista. Que se fodam os bordados e os naperons verbais e sentimentais dessa corja merdosa que se pavoneia por cá. Ou será um lapso do universo diria Lucrécia com seu saber. Vou mas é dar-lhe a mão e zarpar até mais norte para vadiar sem vínculo.

SINAPSES  SÓNICAS

A falta de música atordoa-me as membranas. Falo também da que não existe nas palavras destes humanos. Da ausência dela no seu andar e nos seus gestos. Há uma obediente repetição de banalidades seguindo a linha dominante. Praga injetada nos veios ancestrais. O triunfo do simulacro. A cegueira alastra na falência sónica das vidas em série. Rareiam sons únicos e a estranheza do ser inesperado. Não há música nos quartos e nos corpos nos jardins e nos olhares na pele e nos átrios. Escondida no silêncio foi-se embora ou foi esquecida. Pergunto.

(?)

Havia um uivo e a janela abanava. Também se rasgou a cortina enquanto as vassouras dos homens juntavam folhas no dia ensombrado. Era preciso mudar as calças molhadas e voltar a sair para comprar tabaco. É simples a escrita e a música dos encontros. Sons na carne.

ANTIMENTE

Não pensar e não escavar. Desprogramar a mente cortar-lhe os fios. Apagar as marcas os troços viciados e a fórmula obscura.  Escutar o nada passar em frente sem pesar causas e apalpar versões. Andar. Olhar. Não interiorizar. Deixar juízos quietos intocáveis. Desrefletir e saborear a anti análise. Musicar a ausência ostentar o humor na pele e no corpo. Ser gataria sem tempo definido. Perder o fio inverter os ponteiros e trocar o passo. Desrealizar. Ser sem grelha. Fazer lentamente do desejo do dia a forma impensada. Deixar tudo por um tempo inventado e mergulhar nele para vir à superfície das águas a nudez. Leve e muito mais lisa a arte de fazer desreal a impostura repetitiva. Sair com outra mala outros pincéis novos olhos. Rasgar partituras opressivas do salão bafiento. Aninhar ler dispensar sair ir ver as folhas. Luas antes de nascer o sol. Sons ventosos. Chovia e o silêncio entrava nos poros cerebrais. Ancorada num porto sossegado a íntima vida dormia. Logo de manhã irá para os montes falar com o vento e com as vacas.

PRODUÇÕES

Querem apresentar um estudo. Chamam-me ao gabinete. Caminhando cabisbaixo pergunto-me o que terão estudado. Não me desvio de quem passa. Vejo estes seres como quem olha para vidro muito para lá deles. Trespasso-os com indiferença altiva. No átrio uns papalvos gritam. Sigo sem olhar e sento-me junto ao guichê sem dizer palavra. Tiro do bolso do casaco textos de Alba e Forte. Leio saltando folha e linha. Decorrem uns minutos e entrementes um ser de bata clara põe à frente dos meus olhos um envelope. Seguro-o levanto-me e vou para um banco ao fundo do corredor. Abro o estudo e leio.  Suburbano-depressivo ostenta por vezes um silêncio ameaçador. Melancólico-paranóico. Parece arreganhar-se-lhe os dentes quando ouve um sino. Ficam-lhe de pedra os maxilares ao passar na secretaria. Apático-agressivo desafiante-distante anda pelos corredores como se fosse fruidor sónico contorcendo-se lentamente em virtude da guerrilha entre os sons inexistentes que ouve no íntimo e os reais que despreza no edifício.

INDUÇÕES

Revela uma certa daltonia ética. Usa o olhar como ave de rapina exibindo um semblante de compaixão por nada em concreto. Niilista agarrado ao tempo como humidade caminha junto aos beirais e bebe em sítios desaconselháveis. Dificilmente será convidado para o pavilhão superior. Tende a perder capacidades. A sua inadaptação é incurável. Que se fodam diz para o do 24 já na sala de jogo. Os veredictos que penduram no ecrã serão levados pela ventania. Querem decifrar o novelo mas não tocam numa linha. Desconhecem a minha alergia. Seja o que pensa responde o do 24 e dispa a face dos preconceitos que eles lhe querem colar. Ignore os eventos nauseabundos que sabotam a leveza. Flutue nos dias. Use o vocabulário e o olhar como música física. Faça a poesia dos lugares. Invente formas. E saiu…

DECORAÇÕES

A maluqueira generalizada com bombons às cores e pobreza semântica arrepia os ossos de qualquer homem que viveu em quartos alugados. Papagaios aprisionados em grelhas digitais ostentam uma verborreia de caramelo enjoativo. Eu não abro a boca nesta sala caótica. Olho cada um dos figurantes como um fantoche de esparguete. Bebo água e engulo comprimidos para calafetar os ouvidos. Ensaboo o coração antagónico num wc gelado e fujo para o bar. Não há sopa. As prateleiras estão vazias, mas colaram bonecada brilhante nas paredes. As fêmeas andam em patins à espera do cabeleireiro. Não há um olhar humano. Fantasia e papel de embrulho. Mesquinhez avassaladora e vozes de televisão. Vómito e bom comportamento enfileirados. Nem um livro. Nada de música ou auto estilo. Nunca um rasgo singular. Vou à biblioteca ver se encontro o do 24. Não o vejo nos livros ou nos jornais. Dou uma volta pelas estantes de neurociências e entro na pequena sala das enciclopédias. Está sentado ao fundo num pequeno sofá. Dorme com um volume ao lado. O seu ressonar é música insólita nesta manhã demente. Não o acordo. Abro um livro como quem desaparece.

LUVA

Não sei quando ou de onde veio. Apetrecho musical diria o do 24. Trata-se de um aparelho alérgico a certas patologias. Radar que se contorce nos momentos de estupidez desde logo a minha. Então aparece um outro eu. Vinha a conversa a propósito da invasão do espaço do tempo e do corpo nas salas matinais. A falta de bem é uma cegueira asquerosa e os bicos de pés estão encardidos tal a imundice nas ligações integradas. Resquícios atávicos de bons modos e falsidade longe do monólogo desbragado do inadaptado. Aqui só falo para seres em queda.

MENTE SÓNICA

Eu estava ali encostado à janela de sol com os olhos fechados. Enquanto sentia na cara a luz e a quentura pensava no início do mundo. Depois apeteceu-me pensar na demência lúdica da guerra fria. Que se fodam os meus pensamentos. Nem são meus. Estão de passagem. Aqui queriam colar-me ao grupo de homens dos dias repetidos. Destoei e viciei-me em desvios sabendo que nas vias longas há alarmes. Breves sons agudos à passagem de humanos. Um controle em nome da higiene abstrata. Sigo para zona pouco convidativa. Sinto sossego. Nem um som tirando a música dos segundos. A sala está luminosa como um aquário. Lá fora o gelo. Voltaram os derrames nos olhos. Pequenas cortinas rubras. Pode ser alergia ao tecido digital ou lâminas minúsculas nos licores. De qualquer modo vejo. O melhor é falar menos usar tempo e afundar os olhos em linhas. Ouvir íntimos devaneios e mudar algo em cada dia. Não seguir os passos.

LI

Os wc estão gelados como os grandes espaços e as salas. Só o sol, o vinho noturno e o teu corpo me aquecem. Onde andarão as nuvens, interrogo. Já bastava de sol no teto planetário. Entontece os neurónios mais instáveis. Não aguento muito tempo o tratamento dos raios. Nevralgias nas articulações e irritação semântica. Algas e ostras na retina. Depois entro nos desvarios alcoólicos. De resto tudo aqui à volta é papel químico. Mímicas imitantes. A instituição onde agora me alojo é monstruosa. Só posso encontrar o do 24 lá fora. Tenho-o evitado. Não me apetece sair de mim. Preciso de tempo mental para encontrar o que mudar. Tenho que anular a apatia sozinho e subverter as diretrizes do meu esquema físico encefálico. Indo ao fundo invento-me e crio o que adio há demasiado tempo. Escrever na manhã cinzenta liberta as garras. Aqui há poucos lugares com música. Uma sala grande friíssima que será boa nos dias quentes onde ouço música sem música e saboreio o melhor de ti.

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Lúcio Valium – Um ser em desvio, sem lugar! Um homem vivo, em desordem! Um forasteiro que nos caminhos encontrou palavras e perdeu moradas!

A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO – por César Afonso

 

A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO, FERRAMENTA COGNITIVA E VIA DE AUTOTRANSFORMAÇÃO HUMANA

  1. Introdução – O equívoco moderno sobre a poesia

A modernidade tardia herdou uma conceção empobrecida da poesia. No imaginário dominante, ela surge frequentemente associada ao lazer improdutivo, à emotividade juvenil ou a uma arte menor, ornamental, destituída de função cognitiva. Esta marginalização não é acidental: resulta diretamente da hegemonia da racionalidade instrumental, da lógica tecnocrática e da cultura utilitarista. Como analisado por Guy Debord, a sociedade contemporânea transforma a experiência em espetáculo e consumo, reduzindo a atenção profunda a um resíduo cultural [1].

Neste contexto, a poesia — que exige silêncio, interioridade, lentidão, ambiguidade e escuta simbólica — torna-se dissonante. Contudo, esta perceção ignora um dado estrutural da condição humana: a poesia não é um luxo tardio da civilização, mas um modo originário de organização da consciência. Antes da ciência, da filosofia sistemática e da historiografia, o humano já pensava poeticamente a sua relação com o mundo, com o sagrado, com a morte e consigo mesmo. Como demonstra Ernst Cassirer, o homem vive num universo simbólico antes mesmo de viver num universo factual [2]. Continuar a ler “A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO – por César Afonso”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS IX – por Lúcio Valium

FUMO ABSTRATO

Caminhar ali com aqueles quadros nas paredes. Olhar o que veio das suas mãos, da carne mental vivida, da solidão lida. Imaginá-lo como um compositor e agora nós ali vendo de fora que tempos teria intervalado corrigido negado. Penso o que passou até terminar cada um e interrogo-me. Toda a deambulação perscrutante. Uma inquietude e a conceção lancinante. Uma forma de belo individual. Sabemos dos outros e das visitas mas fez o seu ver e continuámos de sala em sala onde penduraram tempos da sua vida. Cigarros e palavras álcool e questionamento. Quem andaria por ali além de si, pergunto. Deixava ver a peça ensanguentada antes de estar apresentável, volto a perguntar. Não quero respostas nem interferências. Imagino o que poderás sentir ao vê-lo nas fotografias, ao encontrar as imagens do seu mistério. Têm agora no museu o que era dele, os mesmos de sempre apoderando-se das flores inventadas do que não havia na história. Foi preciso vinho à saída, não foi turismo. Elevou o eu invisível que habita zonas de coral e já cá fora encontrámos todas as moedas preciosas. Um tesouro não dinheiro. Botões no chão, é o que valem os momentos como as imagens que vimos sabidas dele. Ainda algumas em fuga como uma que querias beijar com os olhos. Ficou ali tanta bondade. Choravam os olhos e a cabeça estalava já noite dentro. As tuas mãos envolviam a minha cabeça. Tocavam a pele e marcavam os ossos. Dança noturna e as cores dormindo no escuro das paredes. Também num lugar nosso indecifrável.

by Chema Madoz

GATO AVARIADO

Sol escaldante e vinho de merda nunca foi boa combinação. Os ossos vertebrais rangem com demasiadas horas na estrada e o sono deve ser macio como uma lenta nuvem melancólica. Quando assim não acontece há sangue contaminado com escamas de deuses podres. Mas nada tira brilho à doçura de te ter. A vontade da minha pele na tua pele como limos em água fresca dá-me o perfume para flutuar e ver os teus olhos é um remédio musical. Um belo em fragmentos. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS IX – por Lúcio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS VIII – por Lúcio Valium

 

ESCOVA

Ia em vários anos de ofícios quando resolvi dedicar-me à construção de pequenos barcos. Mas nunca soube navegar. Embora tenha conversado algumas vezes com o diabo ele navegador batido não me transmitiu segredos. Fiquei entregue à minha papelada. Conheci muitos que incorporaram os preceitos negociais. Foram bons clientes de deus. Que hei-de fazer pergunto-me atónito. Talvez seja melhor aprender a fazer remendos. A questão é que eu ainda estava vivo. Mas tinha um certo asco a tarefas enclausuradas. Não quer dizer que fosse muito teimoso. Nunca pedi que me ensinassem piano. Também sei que fui eu quem foi embora. Havia uma certa curiosidade. E pensava no que seria um ser liberto andar à procura de conhecimento. Naquela altura eu já precisava de tempo e uma janela chegava para ouvir a noite.

Andava nestes passos mentais quando esbarro com o do 24 junto à biblioteca. Trazia livros que lhe escorregaram das mãos. Ao apanhá-los tentou esconder os títulos. Mas pude ler um título Rapsódia e Miniaturas. Convidou-me para um galão. Estava frio e era bom uma bebida quente. Fomos ao Café Cavalo Negro. Bebeu devagar e em silêncio. Depois pediu dois brandes. Ler é um ato complexo afirmou em seguida. Pense em tudo que contêm os livros. Se soubermos procurar podemos encontrar coisas preciosas. Mas a vida, a vida é o mais importante. Contudo o cérebro pede-me leitura. É um alimento um remédio. Liga linhas perdidas para fazer o assombro de uma voz. Continuámos a beber noite dento. Quando cheguei dormias com a luz acesa. Sobre a mesa de cabeceira estava o mesmo título que vi nas mãos do gajo do 24. Deitei-me e abracei-te. Ouvia-te dormir. Sentia o calor da tua pele a deliciar-me a noite. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS VIII – por Lúcio Valium”

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (II)– por Adelina Andrês

VIVER NESTE CHÃO ou NASCER NATURAL(MENTE) CRESCER

Na noite e à luz acesa do interior de um quarto. No chão num tapete ao lado das botas do pai que não estava de momento. A trabalhar lá fora e o trabalho de parir cá de dentro. Que iria demorar pensava a mãe pela experiência passada e penosa da outra vez. O irmão tio não estava que tinha fugido de medo. De medo e de susto daquelas coisas que não conhecia nem queria. De medo e de fuga. Não demorou não demorou e nasceu logo. Só a espanhola vizinha apareceu e já estava tudo acontecido: a criança, a mãe, as botas e o tapete. No tapete. Foi só a ajuda de chamar a parteira para cortar o último cordão umbilical. Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (II)– por Adelina Andrês”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS VII – por Lúcio Valium

VIDROS

Há vozes. Ao fundo do corredor surgem linhas humanas. E o cambalear é interrompido. Descalço as botas e as meias estão gastas. Onde andaste. Pergunta imaginária. Respondo em silêncio à não-pergunta. Mas ninguém. É tudo cá dentro. Viroses assaltam os armários. Farpas encefálicas aparecem a meio da noite. Tento lavar o terraço mas nascem ervas incógnitas. E os envelopes recebidos exigem lentes felinas. Tudo é decifrado à base do cifrão.

Pobres das palavras que desaparecem diria o do 24. Os pobres não as escondem. Agora há teclados e superfícies deslizantes. Material moderno para infetar as mentes. Há muito que estou ultrapassado apontam os entendidos. Procuro engendrar a auto-exclusão. Portanto brindemos ao simples. Ao que ainda não se deixou esventrar. Honra aos seres que sabem acariciar. Que deixam assim, sem estragar. O mesmo se faça com o que chamam natureza já que os figurantes se acham fora dela. E com este uivo sinto-me tão feliz por sermos dois animais. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS VII – por Lúcio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS VI – por Lúcio Valium

 

RELÓGIO

O que marca o tempo? O que decide que é hora? Sendo estas frases interrogações olho para dentro, depois de ser usado pelo mecanismo impiedoso. E acontece ver. Sentir nas vértebras o uivo da resposta. O agora é a medicação. A fórmula falível. Farei do corpo uma mercadoria saqueada. Será roubado dos lugares coercivos e irá visitar imprevistos. Será uma vida enviada para desvendar. Furtando-se aos limites institucionais terá a arma do homem sozinho, um pensamento em movimento. Eu respondo ao que vivi e vou sem rumo sabendo do conforto da hospedaria. Sei quanto te quero, em desvio sempre para ti.

AO LONGE

Deram-me medicação errada. Sem saberem foi melhor assim. Andei semanas à deriva. Desertei da instituição em transe. Não tinha sítio onde ficar para onde fui. Havia montanhas monstruosas, e grandes planícies. Era uma zona fria. Depois indicaram-me um quarto com duas pequenas camas. Um velho sofá e uma cadeira a desfazer-se. Um guarda-fatos torto. A janela não abria. Escadas de pedra levavam-me ao cubículo. Eram dias de estranheza. Eu era uma experiência. Decorria no meu corpo um ritual animalesco e doloroso. Tinha alucinações. Ouvia a tua voz na música ventosa e escorriam em mim as memórias das nossas noites. Via as coisas com os teus olhos e falava com ninguém como se ouvisses. Um voo solitário sem guia ou prescrição. Teria que procurar um terminal. Estava mergulhado numa intensidade de imprevisto a sugar dias narcóticos e agora vi as tuas novas botas em tons de azul.

FERIDAS

Hienas famintas cravam-se nos passos que tento dar. Na instituição anunciam-se testes lógicoencefálicos. Abstrações de horizonte pragmático. Cadáveres teóricos tentam ferir-me as livres associações. Desenho um risco com fracasso assegurado. Os corredores voltam a ser um circuito inflamado. Regressa o outono quente e doentio em sua inusual vestimenta. Os humanos empurram os dias sem interrogações. Mantém-se a ausência. Aquisições orientadas por usurários Implacáveis. Produtos infiltrados nos seres. Aqui os documentos colam-se às têmporas do indivíduo. Grelhas para anular opções. Saio das salas da administração com dias contados. Faço o caminho para a hospedaria para inventar caminhos. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS VI – por Lúcio Valium”

SOBRE A FELICIDADE E O SEU REVERSO – por M. H. Restivo

 

Vários assuntos há que retornam às nossas mentes como coisa não resolvida que precisa de nova ponderação para que os corações se acalmem e a vida siga sendo o que é. Para os mais práticos, será coisa fútil voltar a reflexões que se arrastam há milénios e que, tanta tinta corrida, não reúnem ainda consensos. Mas outros há que, como eu, se põem a fazer contas à vida, querendo saber do lucro e do prejuízo de tamanha labuta. Quem assim procede não poderá deixar de usar a felicidade como parâmetro, pois, no fundo, não é isso que tem mais valor? Alguns acusar-me-ão de ser hedonista, mas defendo-me dizendo que felicidade e prazer não são a mesma coisa, a felicidade é um conceito mais complexo que não exclui a dor dos seus domínios. Já o prazer não contempla a dor, são duas realidades diferentes que, como bem disse Burke, têm a sua própria escala. E, no entanto, sendo difícil definir o que nos faz felizes, já se chegou a uma ideia sobre a felicidade — a medida dos homens para sopesar a vida. Continuar a ler “SOBRE A FELICIDADE E O SEU REVERSO – por M. H. Restivo”

FALAR SEMPRE ALTO E CLARO – entrevista a Nicolau Saião

 

                                             


FALAR SEMPRE
ALTO E CLARO

Entrevista a
nicolau saião

Por Manuel Beirão, Joaquim Simões  e Luís Miguel Barreiros


Perguntas de Manuel Beirão

“Escrita e o seu contrário”, o título do seu livro mais recente. Porquê este título, Nicolau?

NS – Porque, e isto creio que se dá com todos os autores, por cada poema que se faz, que nos chega, há outros que não se fazem, que como disse numa frase feliz Jules Morot, são só pensamento. Que esboçamos ou se iniciam ao correr dos minutos, dos fragmentos de tempo em que nos fixamos, mas que deixamos e, com frequência, nunca mais se encontram. Continuar a ler “FALAR SEMPRE ALTO E CLARO – entrevista a Nicolau Saião”

UMA FOTOGRAFIA VISTA À LU(P)A – por Idalina Correia da Silva

 

Uma fotografia vista à Lu(p)a

© Maria Correia

Entre ficar a olhar para anteontem e fazer uma expedição à Lua há curiosas semelhanças. O facto de me acontecer viver a primeira com a mesma frequência com que desejo a segunda não é mera coincidência. Sempre que revivo mentalmente os lugares por onde passei, tenha sido ontem ou anteontem, sinto-me uma espécie de lunática de trazer por casa. Ver ou rever coisas, lugares, pessoas não é mais do que apontar uma lanterna fosca desde o quarto minguante da Lua.
Só sombra, só floresta densa a irromper pelos muros colossais, pessoas de pedra e animais de vento, noites em fuga pela estrada que se mata pelas matas adentro. Aldeias que ficaram de raízes soltas ou avulsas ou sem raízes a orbitar remotamente sem gravidade nenhuma e a respirar para dentro de si mesmas como quem mergulha na costa do tempo. Carcaças de casas sem gente expedidas anteontem para a lua e, por acidente. O filme negro e a luz um cometa, a história uma dúvida, qualquer presença eternamente distante e a vida inteira pouco mais do uma aldeia vista a montante.

© Maria Correia

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Idalina Correia da Silva e Maria Correia são a mesma pessoa. Ambas trabalham em estreita colaboração, a primeira escreve, a outra fotografa e desenha.
Idalina Correia da Silva é Mestre em Filosofia pela Universidade do Minho. Sempre que pode ensina Filosofia nas escolas secundárias aqui e ali. Quando não pode, é copywriter publicitária e consultora de comunicação.

UMA NUANCE NAS NÓDOAS V – por Lúcio Valium

 

NOITE

lua de creme em jangada de cobertor azul

CADEIRA

A instituição está quase deserta. Foram ao passeio anual. Aqui permaneceram poucos. Alguns não integram. Desprezam convenções e enquadramentos. Líderes específicos e ondas bíblicas. O arejado silêncio nos corredores e nas áreas comuns é o melhor dos medicamentos. Está fresco e parece haver uma metafísica sonâmbula invertida. Como se os que ficaram estivessem a voar quietos. Num recolhimento cósmico. Só a palavra indispensável é proferida. Todas as partes do grande edifício assumem outra identidade. Os olhares veem, destacando as linhas dos momentos. Tomo um comprimido para as dores estruturantes. Caminho sem ir a lado nenhum. Posso ler as folhas que vou amontoando nos bolsos do casaco. Tenho outra cadeira para a hospedaria. Foi oferecida. É boa madeira e ajuda as peças vertebrais a ficarem mais ordenadas. Ontem o mar e a luz do fim do sol, davam à tua pele um tom de fogo. E a risca negra sobre as pálpebras fazia o belo com a rebeldia das águas. Há pouco chamaram-me para um compartimento onde estava o do 24. Anda muito devagar. Tinha passado por mim no bar. Parou para me dizer que tem ouvido uns sons na cabeça. Como um rádio sem sintonia. E que também tem sentido um paladar estranho na boca. Será de estar a ler Lautréamont, perguntou-me. Evidentemente, respondi. Mude de leitura, aconselhei. Agradeceu e disse que ia fazê-lo. Mais tarde quando entro no compartimento o do 24 come uma banana e fuma. O delegado espreita pela janela. Depois vira-se e olha-nos. Queria falar-vos do passeio, diz. Recusa da asfixia, responde o do 24 antes da pergunta. E sai. O chão acolhe afável o olhar do delegado. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS V – por Lúcio Valium”