
ESCOVA
Ia em vários anos de ofícios quando resolvi dedicar-me à construção de pequenos barcos. Mas nunca soube navegar. Embora tenha conversado algumas vezes com o diabo ele navegador batido não me transmitiu segredos. Fiquei entregue à minha papelada. Conheci muitos que incorporaram os preceitos negociais. Foram bons clientes de deus. Que hei-de fazer pergunto-me atónito. Talvez seja melhor aprender a fazer remendos. A questão é que eu ainda estava vivo. Mas tinha um certo asco a tarefas enclausuradas. Não quer dizer que fosse muito teimoso. Nunca pedi que me ensinassem piano. Também sei que fui eu quem foi embora. Havia uma certa curiosidade. E pensava no que seria um ser liberto andar à procura de conhecimento. Naquela altura eu já precisava de tempo e uma janela chegava para ouvir a noite.
Andava nestes passos mentais quando esbarro com o do 24 junto à biblioteca. Trazia livros que lhe escorregaram das mãos. Ao apanhá-los tentou esconder os títulos. Mas pude ler um título Rapsódia e Miniaturas. Convidou-me para um galão. Estava frio e era bom uma bebida quente. Fomos ao Café Cavalo Negro. Bebeu devagar e em silêncio. Depois pediu dois brandes. Ler é um ato complexo afirmou em seguida. Pense em tudo que contêm os livros. Se soubermos procurar podemos encontrar coisas preciosas. Mas a vida, a vida é o mais importante. Contudo o cérebro pede-me leitura. É um alimento um remédio. Liga linhas perdidas para fazer o assombro de uma voz. Continuámos a beber noite dento. Quando cheguei dormias com a luz acesa. Sobre a mesa de cabeceira estava o mesmo título que vi nas mãos do gajo do 24. Deitei-me e abracei-te. Ouvia-te dormir. Sentia o calor da tua pele a deliciar-me a noite.

L
Saborear bocadinhos cósmicos.
Como libelinha tocando a água.
A louça um vestido.
Imagens entram nelas em visão enaltecida.
Mexer as cores para alimento.
Sentir uma forma.
Em solidões insuperáveis.
Tem as palavras guardadas.
Vem dos seus encantos a força.
Assim deambulamos com as nossas asas.
E vai como gata fazendo os lugares.
Mexe nos candeeiros ao anoitecer
Amanhece em silêncios e colagens.
Vem de longe e devagar a sua entrada no dia.
Faz cores sobre os olhos camas curvas.
Também aparecem como saias nas pinturas.
Por vezes encontra bocados de alma perdidos.
E descansa as têmporas no seu âmago.
Deixou por aí tempos do olhar.
Intensos movimentos.
Cor ligações desejo.
Fêmea de pregar madeiras no desenho da cabana.
Cores afetos em pegadas silenciosas.
Um braço duro de carpintaria para aquecer corações.
Mudando as formas do visível acaricia-o.
Em seu tango psíquico um saber indecifrável.
Fala às coisas de si num tempo de avó.
Elementos e fogo e oferta de sabores.
Um olhar íntimo vai buscar encantos.
Passeia nas vielas que ligam corpos.
E enfeitiça com a dança da sua pele.
Em coreografias enleantes na noite de tempestade.
ASSUNTO
A vida é uma brincadeira de loucos. Há trafulhas nas montras que asseguram a diversão coletiva. Ia pensando ao andar pelas ruas junto à estação hoje lugar de peregrinação para encher a rede. Virei os olhos e desandei para longe. Há quatro dias que lia até dentro da noite. Horas e horas a ler. Então resolvi alterar a imagem dos dias. Os teus desenhos fizeram-me tremer. Sararam a aridez do olhar. Preencheram fendas de ausência. Senti uma força doida ao espalhá-los pela hospedaria. Em silêncio andei por ali olhando-os. Não sabia dizer o que eram. Pareciam objetos belos vindos de um local desconhecido. Voltei à leitura na noite seguinte. Havia um assassino. Matou um homem como se fosse a obra da sua vida e ficou irremediavelmente sozinho o resto da vida. Os últimos dias viveu-os numa ilha com sua mulher. Conheceu um jovem numa praia a quem contou a sua história como se fosse um amigo. Leio por estas noites as linhas desse encontro durante o dia atordoado com tanta página devorada saí. Passei no bar junto à biblioteca e vi um homem grande com um bonito cachecol emborcar cerveja e uísque silenciosamente. Ainda era manhã. Depois fui ao quiosque e falei da minha leitura a um catalão jogador de xadrez que estava sentado junto aos livros. Falei-lhe do livro e resumidamente do assunto tratado naquelas 600 páginas. Ouviu calmamente e para minha surpresa disse que tinha estado na ilha onde tinha conhecido a mulher do assassino e frequentado o seu bar. Apertei-lhe a mão como se o abraçasse e desapareci. Só parei na hospedaria. Agora deixo que os teus desenhos voem lentamente pelos meus olhos e me invadam um cérebro em delírio.
SAIR
Caminho devagar para que as ideias não tombem. Por estes dias bebo uma mistela contra os fungos mentais de 12 em 12 horas. Ligo-me a livros. Paro num bar junto aos grandes pavilhões. Pessoas idóneas dizem-me que o do 24 se esgueirou. Deixou estas paredes e não tem sido visto por perto. Há teorias que circulam. Talvez alguém sinta a sua falta. Por pouco tempo penso o que terá ocorrido na mente daquele homem. Sem patrão nem líder sem deus nem ambição. Só teve pessoas com quem viveu em sonhos simples. Não me preocupo com o do quarto 24. Sigo para a tipografia e colo bocados. Depois fico parado na praça olhando o movimento das sombras e deixo-me estar. Não tenho fome e sou abandonado por memórias. Acumulam-se fugas na travessia psíquica. Após uma sessão de inventário lógico lexical apanho um autocarro. Sei o que procuro num dia frio. Desejo um copo de tinto. Entro num botequim próximo da editora ser sem dono onde servem vinho do norte e presunto. Já o tinha visto por estes lados. Bebo lentamente sem olhar para ninguém. Vem o segundo e ouço a sua voz a pedir calmamente uma garrafa à rapariga enquanto se senta a meu lado. Sabia que vinhas disse. Porquê perguntei. É a força respondeu. De que força falará questionei-me em silêncio. A força do incompleto do indizível. É ela que embeleza os bons absurdos. Um silêncio prolongado e vinho a descer. Os olhos parados. Levantou a botelha vazia sem dizer palavra e encheu os copos. Não sei se os ramos vão aguentar disse. Estou a agarrar-me aos mais finos, aos que com o vento fazem uma música lancinante. Sei as feridas e os decretos de cor. De tudo o que farei serei o autor. É um desejo ficas a saber.

VESTIDOS
Na hospedaria dançam-me os olhos. A mente inebriada aconchega-se às conchas mágicas que deixas nas paredes. A sensualidade o belo as visões desarmadas tão belas em si invadem um ser de olhar melancólico e terno que agora olha sozinho o que veio de ti. Da tua saia da tua voz do teu medo do teu silêncio do teu verniz. Dos teus lábios mentais manuais olhantes. Quer dizer teias em seus contrastes. Um free jazz guantánamo voa para que poisem cabeças embrulhadas como borboletas ou ostras enigmáticas e eu fico doido. Surgem ainda objetos voadores num céu laranja que conheço há séculos em mim sem nunca os ver. apesar de te estalarem os ossos. Tu voas e eu em teu colo.
SUSPIROS
Olho o pó com sol a bater-lhe e fico anestesiado. Estrelas no tampo negro partilham os aposentos onde lês em cobertor azul. Também um lençol zebra faz de gargantilha. Coisas para inebriar um atirador furtivo de frases enferrujadas. É o excesso de barulhos internos mas a caligrafia das tuas cores na parede aquece-me os fragmentos à deriva. Não é psiquiatria é corpo o conceito a privilegiar. Melhora a respiração quando me tocas na sala a tua sensualidade vai convivendo com a oficina. Depois há manobras íntimas que lentamente engendram um epílogo, uma descolagem. Viajamos juntos nesta rulote puxada pela terra mãe. Num tempo devorador aprendemos a ler na cozinha e hoje há gaivotas embirrentas. Nada que afronte os anjos oleg alojados na minha gravata em seu auto estilo a caminho dos teus lábios.
SUSPIROS (1)
Também me lembro de dióspiros e da sua polpa à volta dos lábios como a tinta azul nos dedos. Da caneta dos ditados quer dizer do mau comportamento e do medo. Castigos manchas de memória. Virando as patilhas para outro orifício vejo-nos a andar pelos pinhais perto do mar deserto. O cheiro e o uivo dos ramos a caruma as dunas. Dois animais antes de jantar ou no início telúrico do dia. E as cores o incompreensível pavoneio das cores. O seu movimento e metamorfose a lentidão e languidez. E a tua forma de saborear de absorver de respirar.
LÁBIOS
Água vento. Sons para reconfortar o excesso labial que se beijem e murmurem serenas fonéticas os vermelhos carnudos. Esta era a ideia que apareceu à chuva. Ia fotocopiar o texto de um filósofo de camisolas de lã com três botões. Nestas alturas afundado é conveniente deixar trabalhar a encefalia. Que surjam louças pintadas no real. Podemos ouvir zumbidos internos e os segredos de fantasmas cansados e intervir alterando os seus desígnios. Mesmo com dores nos ventrículos há que subverter a estratégia desses dançarinos cáusticos. E regressei para a tua malga. Depois recortei fragmentos. Escrita e chuva acomodam os ossos antes de chegares com um abraço.

DESREPETIR
Estes dias consomem a mente e massacram o corpo. Gelo em forma de vento as águas espetam. Articulações doentes. Repetitivas fórmulas de usar o tempo. Em campânulas de fuga ou o prazer na sombra da intempérie e a cidade a deixar para sempre a sua história. Há seres empurrados para fora do seu jardim e outros com asco olham a mutilação e a reconstrução cirúrgica do corpo das ruas. Evapora-se lentamente a vida e em seu lugar abjetos bípedes vivem da finança. Infantilismo empreendedor. Repetem a lei cruel inscrita na vacuidade humana. Entretanto na instituição vivem-se dias conturbados. Há indignação e cansaço extremo. O rodopio diário mostra os figurantes como ratos em roldana imparável e quando se desliga o botão vão para casa extenuados ligar-se a outros ecrãs de controle mental. Muitos dormem terrivelmente mal. Há alfinetes mentais que lhes infernizam a noite. Andam às cegas a caminho de nada.
A carroça vai também envelhecendo. As nossas deambulações levam-nos até ao mar longe da cidade. Pequenos povoados quietos quase abandonados permitem que descansemos os olhos em pinheiros muito altos inclinados. Barcos sossegados junto a pequenas casas pintadas em melancolias sem sol.
Regresso com os relâmpagos enquanto dormes com a mão na minha perna e deixas que os olhos voem por negras órbitas de ausência. Trazes um pão grande para casa. Ando devagar para que sonhes deixando a estrada e olhando a tua cara que respira uma música suave. Um regresso e um pouco de encantamento depois de uma travessia dura. Chuva trovoada e o mar negro com azul noite. Trazes biscoitos para casa. Vou à cidade agora antes de escurecer. Tenho que ir buscar o caderno de crítica musical. Se não chover beberei um tinto na rua de Sampaio Bruno.
QUADRÍCULAS
Os neurónios precisam de café. Saio da hospedaria para o sol. Pele muito clara da longa permanência nas sombras. Manchas e protuberâncias que o tempo gravou. Aqui no país celebra-se um dia de abril. Ecrãs invasores políticos de montra repetem formatações orais ano após ano. Não há um que fuja à cantoria retilínea de solenes encenações. Nunca se ouve viva a revolta visceral contra a fraude assassina. Nenhum brame viva a libidinagem. Nem uma só voz sai da sintonia angélica. Nem sonhar em ecoar naquelas doiradas paredes uma frase como vivam os prazeres individuais ou abaixo o trabalho. É a sessão contínua do 25 nas bocas inertes. Certamente que o do quarto 24 deve estar a masturbar-se à conta daquelas boquinhas de lábios bem pintados. Boa arte seria a de escrever discursos para políticos. incisivos textos sobre o ser vivente acerca do que poderia melhorá-los. Por exemplo sobre os usos do tempo da poesia necessária a cada animal humano. Entretanto decidi ir comprar uns rissóis para comermos à beira do misterioso rio. Ali na zona de Crestuma numa pequena aldeia com fábricas abandonadas e casas vazias ainda se encontra algum silêncio. Podemos beber cerveja na mesa à beira da estrada com a tua saia puxada para cima e os olhos a mudarem de cor.
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Lúcio Valium – Um ser em desvio, sem lugar! Um homem vivo, em desordem! Um forasteiro que nos caminhos encontrou palavras e perdeu moradas!


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