TRÊS POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016)

Um poema inédito do caderno A Noite (1967)

meus olhos doem
de rua
do conceitual sucessivo anoitecer
recuam
de dúvida ou tempo
que não muda
movimento de ser ao sabor do
quarto
emigração de forte luz
entre os dedos
apontados fixados
num braço
apenas contacto
pela noite entro
na loucura de dentro

Lx. 25/7/67
(Coligido por Luís de Barreiros Tavares)

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Dois poemas inéditos do caderno Os Passos do Amor (1977)

I
“Os Passos do Amor”

Assim metal de infância o afirmo,
quando o desenho da noite é nu e cru,
e o gume da juventude queima.
Então amor é espera mulher e centro,
onde se navegue, em rara oferta, onde amor é adivinho
não anoitece, obra sua, perfuma e é de brilhos meu labirinto.

Lx. 12-1-77

♣♣♣

II

Meu amor de azul como evanesce!
Meu amor trincado e vegetal.
Meu amor mal amado que não amadurece senão em escrita, descrita.
Assim o poeta ascende e revela-se mortal.

Lx.16-1-77
(Coligido por Luís de Barreiros Tavares)

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Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016) Estudou nas Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra, não tendo concluído o curso. Em jovem conviveu com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e princípios de 70”. Conviveu com Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. Publicou cinco livros de poesia de edição de autor. As suas últimas semanas de vida foram terrivelmente trágicas. Caído no quarto, morrendo absolutamente só no Natal e passagem do Ano 2015–2016.