O INSTANTE É PURO E MEU ALIMENTO. POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal

 

Quatro poemas inéditos do caderno Ensaio de Ausência

I

que movimento de mágoa te acorda?
que vento cede ao movimento?
o instante é puro e meu alimento.
tecer-te os cabelos de água agora.

que pranto irrompe e cessa, insone tormento, invento.

Lx. 22-10-74

II

dos despojos não digo
onda de sangue violado
por mãos madrugantes de prazer.

um sóbrio movimento
malogra os gestos gastos
e vigilantes. inexplorados até à derradeira viagem.

Lx. 16-1-75

III

aqui a alegria multiplica-se
como profusas pétalas, como raízes.
se sorris – que cicatrizes
sulcar o chão – se inventais
o puro invento ilumina-se.

Lx. 12-3-75

IV

ilumina-se a praia rara
cujas águas apaixonadamente beijo:
descalço como a areia brilha e se lava.

Lx. 4-4-75

(Coligido por Luís de Barreiros Tavares)

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Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.

MAIS TRÊS POEMAS INÉDITOS de Manoel Tavares Rodrigues-Leal

 

Três poemas inéditos de Manoel Tavares Rodrigues-Leal

I

Veio o vulto despir ou desfolhar a sôfrega rosa, ela (quem?) precária e indefesa.

E, calidamente, a efémera rosa débil tombou da haste de beleza.

Lx. 16-1-77 – caderno Os Passos do Amor – segunda versão – geralmente as primeiras versões são mais sucintas.

II

Noite núbil e nua em que não avistei teu vulto

vítreo. Noite talvez revólver

de, em mim, jovem mulher jazer e, em a hera, me revolver,

desmanchada a cama a chama…) e do suor brando o surto,

mulher tão reclamada e amada e nem sequer as tuas rugas ou rosas de amor a moverem-se.

Lx. 28-1-77 – caderno Os Passos do Amor – dedicatória: “(à Graça)”

III

mar de sexo ondas de ternura

são brancura em teu corpo acariciado…

se fosse corpo aceso, fecundado,

só cantaria rosas de saudade…

Lx. 24/1/81 – caderno Rumor de Inverno

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Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016) Estudou nas Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra, não tendo concluído o curso. Em jovem conviveu com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e princípios de 70”. Conviveu com Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. Publicou cinco livros de poesia de edição de autor. As suas últimas semanas de vida foram terrivelmente trágicas. Caído no quarto, morrendo absolutamente só no Natal e passagem do Ano 2015–2016.

TRÊS POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016)

Um poema inédito do caderno A Noite (1967)

meus olhos doem
de rua
do conceitual sucessivo anoitecer
recuam
de dúvida ou tempo
que não muda
movimento de ser ao sabor do
quarto
emigração de forte luz
entre os dedos
apontados fixados
num braço
apenas contacto
pela noite entro
na loucura de dentro

Lx. 25/7/67
(Coligido por Luís de Barreiros Tavares) Continuar a ler “TRÊS POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016)”