
A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO, FERRAMENTA COGNITIVA E VIA DE AUTOTRANSFORMAÇÃO HUMANA
- Introdução – O equívoco moderno sobre a poesia
A modernidade tardia herdou uma conceção empobrecida da poesia. No imaginário dominante, ela surge frequentemente associada ao lazer improdutivo, à emotividade juvenil ou a uma arte menor, ornamental, destituída de função cognitiva. Esta marginalização não é acidental: resulta diretamente da hegemonia da racionalidade instrumental, da lógica tecnocrática e da cultura utilitarista. Como analisado por Guy Debord, a sociedade contemporânea transforma a experiência em espetáculo e consumo, reduzindo a atenção profunda a um resíduo cultural [1].
Neste contexto, a poesia — que exige silêncio, interioridade, lentidão, ambiguidade e escuta simbólica — torna-se dissonante. Contudo, esta perceção ignora um dado estrutural da condição humana: a poesia não é um luxo tardio da civilização, mas um modo originário de organização da consciência. Antes da ciência, da filosofia sistemática e da historiografia, o humano já pensava poeticamente a sua relação com o mundo, com o sagrado, com a morte e consigo mesmo. Como demonstra Ernst Cassirer, o homem vive num universo simbólico antes mesmo de viver num universo factual [2].

- O nascimento do pensamento simbólico – A poesia como matriz da mente humana
A antropologia filosófica e a antropologia cognitiva convergem numa tese fundamental: o que distingue radicalmente o ser humano não é apenas a linguagem ou a técnica, mas a capacidade de simbolizar — isto é, de representar o ausente, condensar sentidos, estabelecer analogias entre domínios distintos da experiência.
Essa linha atravessa os estudos de Claude Lévi-Strauss e André Leroi-Gourhan, para quem o símbolo não surge como ornamento cultural, mas como função estruturante da própria inteligência [3]. A poesia é a forma mais concentrada e consciente desse poder simbólico.
2.1. Ancestralidade poética
As primeiras manifestações culturais humanas são inseparáveis da linguagem poética: cânticos rituais, narrativas míticas, fórmulas mnemónicas, hinos cosmológicos. A epopeia não é entretenimento: é arquivo do saber, cartografia do real, fundação ontológica do grupo. Como demonstra Jean-Pierre Vernant, na Grécia arcaica, mito, poesia e pensamento constituíam uma unidade estrutural de inteligibilidade do mundo [4].
Já Aristóteles afirmava que a poesia é “mais filosófica do que a história”, por apreender o universal e não o mero particular [5]. A poesia nasce, assim, como matriz do pensamento abstrato.
- A metáfora como tecnologia cognitiva
A modernidade reduziu a metáfora a ornamento retórico. Contudo, a filosofia da linguagem e as ciências cognitivas demonstram que a metáfora é uma operação estrutural do pensamento. Para Paul Ricoeur, a metáfora é criação ativa de sentido mediante a colisão de campos semânticos distintos, funcionando como motor de inovação conceptual [6].
Já a linguística cognitiva demonstra que o pensamento humano está organizado metaforicamente desde a sua base: não pensamos apesar das metáforas, mas através delas, como demonstrado por George Lakoff e Mark Johnson [7].
Estudos neurocientíficos conduzidos por Vilayanur Ramachandran e Edward Hubbard demonstram ainda que redes envolvidas na sinestesia e na metáfora partilham bases neuronais comuns, evidenciando que o cérebro é estruturalmente produtor de analogias simbólicas [8]. A poesia surge, assim, como laboratório cognitivo da mente humana.
- Evolução histórica da poesia e evolução da mente
4.1. Fase mítica e ritual
A poesia funciona como memória coletiva, lei simbólica e cosmogonia. O mito-poema não explica: reencena ontologicamente o fundamento do mundo, criando coesão social. Como demonstra Mircea Eliade, o mito organiza o real pela repetição simbólica do arquétipo [9].
4.2. Fase clássica – Forma, verdade e filosofia
Com a escrita, a poesia torna-se objeto de reflexão estética e epistemológica. Parménides escreve filosofia em verso; Platão teme o seu poder formativo; Aristóteles sistematiza a sua estrutura. A poesia é entendida como instrumento de conhecimento.
4.3. Fase medieval e renascentista – Transcendência e intimidade
A poesia oscila entre o sagrado e o amoroso, entre a liturgia e a experiência interior. A subjetividade começa a organizar-se simbolicamente como território próprio.
4.4. Modernidade – Individuação e exploração da consciência
Com o romantismo, a poesia converte-se em investigação ontológica do eu. O poeta passa a ser explorador da consciência, do inconsciente e da fragmentação subjetiva.
4.5. Contemporaneidade – Resistência cognitiva
Num mundo saturado de estímulos, a poesia assume função contra-hegemónica: restaurar a atenção profunda. Gaston Bachelard descreve-a como casa da intimidade; Octávio Paz como ponte entre solidão e comunhão; Maria Gabriela Llansol como território de resistência ontológica [10].
- Poesia como disciplina mental e prática de autoconhecimento
A poesia não é apenas expressão espontânea da interioridade: é também uma disciplina rigorosa da atenção, da perceção e do pensamento. A sua prática — tanto na leitura quanto na escrita — mobiliza processos cognitivos e afetivos de elevada complexidade, configurando-se como uma verdadeira ginástica da consciência.
Atenção plena
A experiência poética exige um tipo de atenção distinto da atenção utilitária. Não se trata de ler para obter rapidamente informação, mas de permanecer no texto, nas suas pausas, nos seus ritmos, nas suas imagens. Essa atenção é qualitativa, não quantitativa. Cada palavra adquire densidade ontológica.
Neste sentido, a poesia funciona como treino de presença integral no instante, aproximando-se de estados de atenção descritos tanto na fenomenologia quanto nas práticas contemplativas. O leitor de poesia aprende a suspender a pressa, a habitar o mínimo, a escutar o que normalmente passa despercebido. Essa atenção profunda reorganiza o próprio modo de estar no mundo.
Tolerância à ambiguidade
Ao contrário do discurso técnico, que exige precisão unívoca, a poesia opera por camadas de sentido, por zonas de indeterminação e ressonância múltipla. Um poema não se esgota numa só interpretação — ele abre campos interpretativos.
Essa exposição sistemática à ambiguidade desenvolve no sujeito uma competência psíquica rara na cultura contemporânea: a capacidade de suportar a incerteza sem angústia imediata, de coexistir com contradições, paradoxos e zonas de sombra. Tal competência é fundamental tanto para a maturidade emocional quanto para o pensamento filosófico.
Do ponto de vista psicológico profundo, esta tolerância diminui a rigidez defensiva do ego e favorece a integração de conteúdos contraditórios da personalidade, num processo próximo daquilo que Carl Jung designava como individuação.
Escuta do silêncio
O poema não comunica apenas pelo que diz, mas também pelo que caladamente sugere. As pausas, os brancos tipográficos, as elipses semânticas, os vazios de sentido explícito criam uma pedagogia da escuta interior. Aprender a ler poesia é aprender a ouvir o que não se enuncia diretamente.
Neste aspeto, a poesia contraria a lógica da saturação informativa contemporânea. Ela ensina que o sentido não nasce apenas da acumulação de dados, mas da tensão fecunda entre palavra e silêncio. Essa escuta do intervalo favorece um tipo de consciência mais reflexiva, menos reativa e mais contemplativa.
Gestão simbólica de conflitos interiores
A vida psíquica humana é atravessada por conflitos: desejo e culpa, medo e impulso, finitude e aspiração ao absoluto. A poesia oferece um espaço simbólico de transmutação desses conflitos, onde o sofrimento não é negado, mas transformado em forma.
Ao converter afetos difusos em imagens, metáforas e ritmos, o sujeito retira o conflito do plano bruto da angústia e recondu-lo ao plano elaborado do sentido. Esse processo corresponde ao que a psicologia profunda descreve como simbolização: a transformação de conteúdos emocionalmente caóticos em estruturas representáveis e comunicáveis.
A poesia, nesse sentido, funciona como uma tecnologia simbólica de saúde psíquica, permitindo que aquilo que feriria, paralisaria ou fragmentaria o sujeito possa ser integrado numa narrativa interior habitável.
Raciocínio metafórico complexo
A metáfora não é apenas recurso estilístico: é um modo de pensar estruturalmente. O raciocínio metafórico implica colocar em diálogo domínios distintos da experiência, produzindo novas ligações cognitivas: o tempo como rio, a dor como casa, a memória como ferida ou como jardim.
Esse tipo de raciocínio desenvolve uma inteligência transversal, analógica e não linear, fundamental tanto para a criatividade científica quanto para a maturidade filosófica. Ao contrário do pensamento algorítmico, a metáfora não resolve — reconfigura o problema.
Sob este aspeto, a prática poética torna o pensamento mais elástico, menos dogmático e mais capaz de integrar dimensões sensoriais, afetivas e conceptuais numa única operação mental.
5.1. Função terapêutica e existencial
A relação entre escrita simbólica e saúde psíquica deixou de ser apenas uma intuição filosófica ou literária para adquirir validação empírica no campo da psicologia contemporânea. Os estudos conduzidos por James Pennebaker demonstram de forma consistente que a escrita regular sobre experiências emocionalmente significativas promove reorganização afetiva, redução dos níveis de stress, melhoria do sistema imunitário e fortalecimento da coerência narrativa do eu [11].
O que está em causa, nesses processos, não é apenas um efeito catártico imediato, mas uma operação mais profunda de estruturação simbólica da experiência. Ao escrever, o sujeito deixa de estar submerso no caos emocional bruto e passa a ocupar uma posição reflexiva face à própria dor. A experiência é retirada do plano da vivência fragmentada e reconduzida ao plano da representação, onde pode ser pensada, simbolizada e integrada. O sofrimento, assim, não é eliminado — é transformado em linguagem, e a linguagem concede-lhe forma, distância e inteligibilidade.
Esta passagem do afeto informe à palavra estruturada corresponde, no plano psicológico, a uma verdadeira reconfiguração da identidade narrativa. O indivíduo deixa de se perceber apenas como vítima de acontecimentos e passa a reconhecer-se como autor de sentido. A escrita poética, em particular, intensifica este processo, pois não se limita à organização lógica dos eventos: ela atua também sobre as zonas obscuras, pré-verbais e simbólicas da experiência.
A poesia como alquimia da dor
Enquanto a escrita autobiográfica linear procura ordenar os factos, a poesia opera uma verdadeira alquimia do sofrimento. A dor, quando vertida em imagem, ritmo e metáfora, deixa de ser apenas peso e passa a ser também forma, expressão e criação. Este processo não implica estetizar a dor de modo superficial, mas transfigurá-la simbolicamente.
Neste sentido, a poesia aproxima-se de uma antiga função ritual: a de converter a ferida em signo, a perda em linguagem, o trauma em figuração. O que fere, ao encontrar forma, deixa de ferir da mesma maneira. A palavra poética torna-se, assim, um dispositivo de contenção psíquica contra o desmoronamento interior.
Poesia e maturação interior
Em chave existencial, a função terapêutica da poesia não se esgota na redução do sofrimento. Ela atua também como dispositivo de amadurecimento espiritual e ontológico. Rainer Maria Rilke concebia a dor como lugar de gestação interior, defendendo que a existência só se torna profunda quando o sujeito aceita habitar as suas próprias contradições. Para ele, a poesia é precisamente o espaço onde essa travessia se torna possível.
Já Fernando Pessoa compreende a poesia como multiplicação da consciência: através da heteronímia, da introspeção e da fragmentação do eu, o sujeito não se empobrece — amplia-se. A poesia, nesse sentido, não oferece identidade fixa, mas consciência expandida.
Por sua vez, Wallace Stevens defende que a imaginação poética não é fuga da realidade, mas força constitutiva dela. A poesia não descreve apenas o mundo — recria-o simbolicamente. Ao modificar a forma como o sujeito imagina, modifica também a forma como existe.
Integração existencial e criação de sentido
Num plano mais amplo, a poesia atua como instrumento de integração existencial. Ela permite que o sujeito articule:
- passado traumático,
- presente instável,
- e projeções de futuro
numa narrativa simbólica dotada de sentido. Esta função aproxima a poesia daquilo que Viktor Frankl identifica como necessidade fundamental do ser humano: a necessidade de sentido como condição de sobrevivência psíquica.
A poesia não responde diretamente à pergunta pelo sentido da vida — mas cria o espaço simbólico onde essa pergunta pode ser suportada sem colapso.
- A poesia e a ideologia – Liberdade como condição do símbolo
A relação entre poesia e ideologia é estruturalmente tensa. Enquanto a ideologia opera pela redução da complexidade, pela fixação de sentidos e pela organização do mundo em sistemas coerentes e fechados, a poesia move-se na direção oposta: ela abre fendas no sentido, acolhe a ambiguidade, expõe a instabilidade do real e recusa a domesticação total do significado.
A ideologia necessita de adesão, de alinhamento, de previsibilidade. O poema, pelo contrário, funda-se na indocilidade do símbolo. Onde a ideologia exige respostas, a poesia cria perguntas. Onde a ideologia constrói identidades rígidas, a poesia dissolve fronteiras. Onde a ideologia fixa interpretações, a poesia multiplica leituras. Trata-se, portanto, de duas lógicas cognitivas e existenciais radicalmente distintas.
Neste sentido, o poema não pode ser inteiramente instrumentalizado sem ser destruído. Sempre que a linguagem poética é forçada a servir um sistema doutrinário, ela perde o seu núcleo essencial: a liberdade simbólica.
O símbolo como ameaça ao pensamento único
O símbolo é perigoso para qualquer regime de pensamento fechado porque ele não se deixa esgotar por uma única interpretação. Diferentemente do slogan político, do dogma religioso rígido ou da palavra de ordem ideológica, o símbolo mantém-se em permanente excedente de sentido. Ele diz sempre mais do que aquilo que é permitido dizer.
É precisamente essa propriedade que faz da poesia um antídoto natural contra o pensamento único. O leitor de poesia é treinado para desconfiar das evidências imediatas, para habitar zonas de indecisão, para suportar o inacabado. Ao formar sujeitos sensíveis à ambiguidade, a poesia torna-os menos vulneráveis à sedução das explicações totais, das verdades simplificadas e das narrativas absolutas.
Perseguição dos poetas como sintoma político
Não é por acaso que regimes autoritários, totalitários ou dogmáticos tendem a desconfiar profundamente dos poetas. A história do século XX fornece exemplos eloquentes dessa incompatibilidade estrutural entre poesia e poder ideológico. A perseguição de Osip Mandelstam, o silenciamento forçado de Anna Akhmatova e o exílio de Joseph Brodsky não são episódios isolados: constituem sintomas recorrentes do medo que o poder tem da palavra livre [12].
O que o poder teme nesses poetas não é apenas o conteúdo explícito dos seus versos, mas a própria estrutura simbólica da linguagem poética, que escapa ao controlo, à vigilância total e à normatização ideológica. O poema cria zonas de respiração no interior de sistemas opressivos. Ele devolve ao sujeito a experiência íntima da liberdade — ainda que apenas na interioridade.
Poesia, resistência e soberania interior
Mesmo quando não assume forma explícita de denúncia política, a poesia permanece, por natureza, uma forma de resistência ontológica. Ao preservar a complexidade do real contra as forças da simplificação, ela defende a soberania da consciência contra a colonização totalitária da linguagem.
Nesse sentido, a poesia não combate a ideologia no seu próprio terreno — o da propaganda, da palavra de ordem e da persuasão massiva — mas num plano mais profundo: o da formação da sensibilidade e da imaginação. Ao educar o sujeito para a nuance, para a contradição e para o mistério, a poesia constrói uma subjetividade menos manipulável.
A verdadeira liberdade que a poesia oferece não é apenas política no sentido imediato, mas existencial: a liberdade de não reduzir o real a uma só narrativa, a um só sistema de valores, a uma só grelha interpretativa.
O poema como espaço de não-redutibilidade
Dizer que o poema não serve causas não significa afirmar que ele é neutro. Significa que ele é irredutível. Ele não se submete integralmente a nenhuma causa sem perder a sua condição de poema. O seu compromisso não é com uma ideologia específica, mas com a verdade complexa da experiência humana.
Por isso:
- o poema não serve causas: revela camadas;
- não confirma identidades: expõe fraturas;
- não consolida certezas: ilumina ambiguidades.
A poesia não pacifica o real — aprofunda-o.
- Felicidade poesia – A poética da vida interior
A cultura contemporânea tende a identificar felicidade com consumo, desempenho, acumulação de experiências e estímulos. Trata-se, porém, de uma conceção frágil e instável, dependente de fatores externos e submetida à lógica da escassez permanente. Em contraste, a tradição filosófica e poética sugere que a felicidade profunda não se confunde com euforia nem com satisfação imediata, mas com uma forma de clareza interior habitável, isto é, com a capacidade de o sujeito sustentar a própria existência com sentido, coerência e densidade emocional.
Neste horizonte, a poesia não surge como ornamento da felicidade, mas como uma das suas arquiteturas interiores. Ela não promete eliminar o sofrimento, mas oferece instrumentos simbólicos para o compreender, transfigurar e integrar na totalidade da vida psíquica.
Nomeação emocional e autoconhecimento
Grande parte do sofrimento humano nasce da incapacidade de nomear com precisão os próprios estados interiores. Emoções mal distinguidas tornam-se massas difusas de angústia, ansiedade ou vazio. A poesia atua justamente nesse limiar delicado entre o indizível e o dizível. Ela ensina a nomear o sentir, a dar forma verbal às zonas obscuras da experiência, permitindo ao sujeito reconhecer-se no que sente.
Nomear é, aqui, mais do que descrever: é organizar a vivência, torná-la inteligível e habitável. Ao reconhecer-se nas palavras do poema — quer como leitor, quer como autor — o sujeito passa a dispor de uma gramática interior para a sua própria experiência emocional. Esse processo constitui um dos fundamentos silenciosos da felicidade profunda: não a ausência de dor, mas a possibilidade de compreendê-la.
Ordenação simbólica do caos interior
A vida psíquica é atravessada por tensões, perdas, contradições, desejos inconciliáveis. Sem mediação simbólica, essas forças tendem a fragmentar a consciência. A poesia opera como princípio de ordenação do caos, não por via da simplificação redutora, mas através da configuração simbólica da complexidade.
Ao organizar a experiência em imagens, ritmos e metáforas, a poesia cria uma coerência que não é lógica no sentido estrito, mas existencialmente significativa. O sujeito passa a reconhecer-se numa trama simbólica que unifica aquilo que, no plano imediato da vivência, se apresenta como disperso. Essa unificação não elimina os conflitos, mas torna-os pensáveis e suportáveis.
Transmutação do sofrimento
Uma das funções mais profundas da poesia na economia da felicidade é a sua capacidade de transmutar o sofrimento em forma. Dor que permanece muda tende a cristalizar-se em sintoma; dor que encontra figuração simbólica pode converter-se em matéria de sentido. A poesia não anestesia a ferida — dá-lhe espessura simbólica.
Essa transmutação não é apenas psicológica, mas ontológica: o sofrimento deixa de ser apenas algo que acontece ao sujeito e passa a ser algo que entra na sua obra interior, isto é, na construção da sua identidade e da sua visão do mundo. Ao transformar a dor em linguagem, a poesia converte a passividade do padecer na atividade de criar sentido.
Criação de sentido e continuidade interior
A felicidade profunda depende menos da soma de experiências agradáveis do que da capacidade de construir uma narrativa existencial coerente. A poesia contribui diretamente para essa tarefa, pois permite que o sujeito ligue passado, presente e futuro numa estrutura simbólica de continuidade.
Ao contrário das narrativas sociais padronizadas — sucesso, progresso, desempenho — a narrativa poética é singular, aberta, móvel. Ela legitima o desvio, a falha, a interrupção, o inacabado como dimensões constitutivas da existência. Essa legitimação é essencial para uma felicidade não ilusória, pois impede que o sujeito interprete cada fratura como fracasso absoluto.
Poesia como conhecimento, liberdade e transformação
É neste ponto que se torna plenamente compreensível a afirmação de Octávio Paz segundo a qual o poema é simultaneamente forma de conhecimento, liberdade e transformação [13]. Conhecimento, porque a poesia revela dimensões do real inacessíveis ao discurso puramente conceptual. Liberdade, porque o símbolo resiste à fixação ideológica e ao encarceramento do sentido. Transformação, porque o contacto continuado com a linguagem poética altera silenciosamente o modo de perceber, sentir e existir.
A felicidade que daí resulta não é espetacular nem ostensiva. É uma felicidade discreta, interior, estrutural, fundada na capacidade de habitar o próprio mundo interno sem colapso, sem fuga e sem endurecimento.
- Conclusão – Recuperar a poesia é recuperar a inteligência humana
Ao longo deste ensaio, procurou-se demonstrar que a poesia está longe de ser uma atividade marginal, ornamental ou supérflua. Pelo contrário, ela emerge como uma das formas mais antigas, densas e estruturantes da inteligência humana. A poesia antecede a ciência, precede a filosofia sistemática e funda, no plano simbólico, a própria possibilidade de pensamento abstrato, de memória cultural e de consciência reflexiva.
Enquanto forma superior de pensamento simbólico, a poesia não se limita a expressar emoções: ela organiza a experiência, articula os grandes eixos da existência — tempo, corpo, morte, desejo, perda, transcendência — e transforma o caos sensível em forma habitável. Nesse sentido, ela é verdadeiramente uma arquitetura da consciência, uma construção interior onde o sujeito pode reconhecer-se, reconstruir-se e habitar-se.
A poesia é também um laboratório de autotransformação. Ao operar simultaneamente sobre a linguagem, a emoção, a imaginação e a identidade narrativa, ela altera silenciosamente a estrutura do eu. Não se trata de uma transformação espetacular, mas de um trabalho lento de deslocamento interior, no qual o sujeito aprende a ver de outro modo, a sentir de forma mais articulada e a pensar com maior amplitude simbólica. A poesia não promete salvação imediata, mas produz mutações subtis na maneira de existir.
No plano ético e político profundo, a poesia constitui ainda um espaço de liberdade ontológica. Num mundo dominado por algoritmos, métricas de desempenho, aceleração permanente e utilitarismo generalizado, a experiência poética resiste à redução da vida a dado, função ou mercadoria. O poema não é mensurável, não é previsível, não é totalmente instrumentalizável. Ele preserva uma zona de indomabilidade no interior da linguagem, e essa indomabilidade é, em si mesma, uma forma de liberdade.
Revalorizar a poesia no século XXI não é, portanto, um gesto nostálgico nem elitista. É um gesto radicalmente contemporâneo. Significa afirmar que o humano não se esgota nem na eficiência, nem na produtividade, nem no consumo, nem na velocidade. Significa defender a lentidão contra a aceleração, a profundidade contra a superfície, o símbolo contra o dado bruto, a interioridade contra a saturação exterior.
Nesse horizonte, a poesia revela-se como uma das últimas reservas de complexidade simbólica da condição humana. Onde a linguagem técnica tende a simplificar, a poesia complexifica. Onde a ideologia fixa, a poesia abre. Onde o sistema exige adaptação, a poesia reintroduz a pergunta.
Recuperar a poesia é, assim, recuperar:
- a capacidade de pensar sem fórmulas,
- de sentir sem estereótipos,
- de interpretar sem dogmas,
- e de existir sem reducionismos.
Mais do que salvar um género literário, revalorizar a poesia é salvar uma forma de inteligência — talvez a mais antiga, a mais vulnerável e, paradoxalmente, a mais necessária num tempo que ameaça transformar o pensamento em cálculo e a vida em função. A poesia não resolve o mundo. Mas impede que ele se torne irrespirável.
REFERÊNCIAS
[1] Debord, Guy. A Sociedade do Espetáculo.
[2] Cassirer, Ernst. An Essay on Man.
[3] Lévi-Strauss, Claude. O Pensamento Selvagem; Leroi-Gourhan, André. Le Geste et la Parole.
[4] Vernant, Jean-Pierre. Mito e Pensamento entre os Gregos.
[5] Aristóteles. Poética, cap. IX.
[6] Ricouer, Paul. La Métaphore Vive.
[7] Lakoff, George; Johnson, Mark. Metaphors We Live By.
[8] Ramachandran, V.; Hubbard, E. Estudos sobre sinestesia e metáfora.
[9] Eliade, Mircea. Mito e Realidade.
[10] BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço; PAZ, Octávio. El Arco y la Lira; LLANSOL, Maria Gabriela. Geografia de Rebeldes.
[11] PENNEBAKER, James. Opening Up.
[12] MANDELSTAM, O.; AKHMÁTOVA, A.; BRODSKY, J. Poetas perseguidos em contextos totalitários.
[13] PAZ, Octávio. El Arco y la Lira.
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César Alexandre Afonso nasceu em Vinhais, em 1962, é Licenciado em Psicologia Clínica, Psicodramatista pela Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Especialista em Comportamento Desviante e Ciências Forenses pelas Universidades de Medicina de Lisboa e Porto. Professor Convidado do ISCSP e ISPA. É autor diversos livros de Poesia e Romance desde 1982, sócio da SPA. Sócio fundador da Academia de Letras de Trás-os-Montes, Membro da Academia de Letras e Artes de Portugal.


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