
FUMO ABSTRATO
Caminhar ali com aqueles quadros nas paredes. Olhar o que veio das suas mãos, da carne mental vivida, da solidão lida. Imaginá-lo como um compositor e agora nós ali vendo de fora que tempos teria intervalado corrigido negado. Penso o que passou até terminar cada um e interrogo-me. Toda a deambulação perscrutante. Uma inquietude e a conceção lancinante. Uma forma de belo individual. Sabemos dos outros e das visitas mas fez o seu ver e continuámos de sala em sala onde penduraram tempos da sua vida. Cigarros e palavras álcool e questionamento. Quem andaria por ali além de si, pergunto. Deixava ver a peça ensanguentada antes de estar apresentável, volto a perguntar. Não quero respostas nem interferências. Imagino o que poderás sentir ao vê-lo nas fotografias, ao encontrar as imagens do seu mistério. Têm agora no museu o que era dele, os mesmos de sempre apoderando-se das flores inventadas do que não havia na história. Foi preciso vinho à saída, não foi turismo. Elevou o eu invisível que habita zonas de coral e já cá fora encontrámos todas as moedas preciosas. Um tesouro não dinheiro. Botões no chão, é o que valem os momentos como as imagens que vimos sabidas dele. Ainda algumas em fuga como uma que querias beijar com os olhos. Ficou ali tanta bondade. Choravam os olhos e a cabeça estalava já noite dentro. As tuas mãos envolviam a minha cabeça. Tocavam a pele e marcavam os ossos. Dança noturna e as cores dormindo no escuro das paredes. Também num lugar nosso indecifrável.

GATO AVARIADO
Sol escaldante e vinho de merda nunca foi boa combinação. Os ossos vertebrais rangem com demasiadas horas na estrada e o sono deve ser macio como uma lenta nuvem melancólica. Quando assim não acontece há sangue contaminado com escamas de deuses podres. Mas nada tira brilho à doçura de te ter. A vontade da minha pele na tua pele como limos em água fresca dá-me o perfume para flutuar e ver os teus olhos é um remédio musical. Um belo em fragmentos.
ASAS
O senhor das psiquiatrias quer introduzir invólucros como um mecânico no meu licoroso cérebro. O cabo das mudanças rompeu como um hímen vaginal. Já os buracos do sobrado fizeram entorses no andar. Tonturas gerais no existir quotidiano teimam em usar a força. desconstruiu-se um marfim no teu saborear e não havia arte no tempero do segundo prato. Os corpos tremeram em indelicadeza na escuridão fumada. Hoje li as tuas palavras enquanto andava perdido nas ruas e pedi para me adormeceres a meio da tarde. Vieram linhas em moldura sem vidro que adorei ver trazidas por ti ali com o sol na janela. Agora vou despir a camisa e inventar o nosso jantar.
COLA
Fechei livros e cadernos. Deitei tudo fora e atirei os trapos para dentro do carro. Chovia muito. Era quase noite. O som desnorteado do mar magoava-me as têmporas. Fui ter contigo. Era esse desejo que me enlouquecia o peito. A dor a espetar a carne. A demência e a fúria. Poder apagar da face da mente os desvarios. Poder parar o cérebro. Poder dormir nos teus braços no balanço quente da jangada. Noites enluadas com a tua pele em sossego. Entrar em outros tempos oficinais vindos dos olhos e das mãos. Novas cabeças abajur.
RESÍDUOS
Começaram a abrir fissuras grandes brechas. Fendas letais amputações. Cirurgias malignas. Delírios tóxicos a sufocar a simplicidade das marés. O engano dos dias. Chuvas frutos e nós feridos. Perdemos lentamente o segredo de comunicar. Que vem acontecendo perguntam alguns. Com resposta curta opta-se pelo desaparecimento. Pouco se veem confinados a quartos e trajetos. Horas coercivas repetem a esgotante cegueira do tempo. Ficaram resíduos de memórias esventradas silenciosas em fuga. É certo que estamos aqui vivos. Algo deformados com as mãos abertas à frente dos olhos inventando ofícios. Escolhemos caminhos pouco visíveis. Ainda fazemos coisas e quase não existimos. Poeira segundo os trâmites oficiais. Não usamos a mesma linguagem. As massas em todas as zonas vigiadas obedecem, falam, compram e procedem seguindo a lógica de imitar a forma. Flutuam. Vorazes colecionam peças anunciadas como quem come felicidade diariamente. Por aqui andamos lentamente escavando e mudamos as coisas de sítio. Vamos ao passado buscar o que inventámos e seguimos numa outra forma de deriva. Em nossos buracos fumamos e exercemos uma recusa. Somos animais terrenos. Na espécie ocupamos um catálogo folheado em demasia. Alguém espreita muito raramente. Agora está sempre frio para nos despirmos. Por vezes muito cedo vamos ver as cores do mar ou o nevoeiro nos montes. Inventamos nomes e personagens, músicas, frases. Colamos cores. Nascem imagens nas paredes e a luz aparece com saias novas. Aprendemos ainda alguma coisa e vemos a distância a que nos deixam.
VELAS
Que se fodam longe e nos deixem a grande distância dizia o do 24 que também é dos nossos já quase no final da conversa. Concordei com o olhar. Estávamos no jardim do centro de investigação de doenças linguísticas. Sabemos do capitalismo totalitário que corrói a miséria humana. Não perdemos tempo com análises gastas e subimos ao largo do mercado para beber vinho barato. Disse-me que esteve perante um coletivo de técnicos que pretendem julgar as suas decisões. Pensam ter forma de ler e analisar os motivos decisórios de um homem. Veio-se embora com um ligeiro travo de surrealismo a afagar-lhe os ouvidos. Bebemos dois copos e ofereci-lhe um livro muito triste A Neve do Almirante. Garantiu-me que leria sete páginas ao acaso, nada mais. Achei bem. Escreve frases quando se isola na instituição e vende-as na rua. É um vendedor de pensamentos. Não pretende que as pessoas pensem como ele mas que percebam que têm cérebro, corpo e tempo limitado. Que se interroguem sobre o que fazer para além do que já fazem. Mandámos vir o terceiro copo. Ao balcão estavam sentados quatro guardas-prisionais com grandes chaves presas no cinto. Ela chegou adivinhando facilmente o local onde estaríamos. Pediu um conhaque e ofereceu-me o livro Bilhar às Nove e Meia que tinha comprado em Trás-Os-Montes a uma mulher que costumava ler enquanto as ovelhas andavam por ali. Depois de beber saiu dizendo que ainda tinha que ir fazer mousse de chocolate e comprar salsa. Fiquei a olhar as suas pernas bonitas enquanto se afastava.

CABIDES
Curioso. Havia um quarto à espera há uns tempos. Cheguei numa noite quente. As transferências de instituição acontecem por motivos terapêuticos dizem. A questão ética e documental tem relação com os fios insondáveis da encenação pública penso. No meu piso há mais dois. Um sereno e reservado à beira dos 40. O outro misterioso barbudo de hábitos estranhos e pouco preocupado com a discrição a caminho dos 60. Aquele escreve este pinta. Aguarelas com certo psicadelismo. Usa bem a cor e há algo de onírico naquelas imagens. Já está por aqui há umas décadas. Quando chegou fumava charuto. Agora só bebe vinho mas diz adorar armagnac. A sua imagem é uma mistura de Karl Marx e Léo Ferré. Afirma não ser de lugar nenhum. Não há roupas na sua cama. Um outro que diz ser músico referiu há dias que o pintor habitou em tempos uma caravana. Quanto ao das escritas vive rodeado de livros em várias línguas e temáticas. A sua figura sugere uma simbiose entre Mário de Sá-Carneiro e Gustave Mahler. Nunca janta e levanta-se ao nascer do dia. Fala de modo cuidadoso e sai para caminhar nas redondezas. O guedelhudo procura diariamente o boteco que não fica longe daqui. Eu sou novo aqui. Cheguei quase no fim do trajeto dos outros. Só janto. Os outros pavilhões da instituição estão em obras. As salas parecem jaulas abandonadas. Há andaimes cadeiras e mesas velhas. Lixo fitas plásticas coisas irreconhecíveis tudo aos montes. Há embalagens novas a chegar. Cruzo-me com pessoas que não abrem a boca enquanto um ou outro não param de falar e há quem tenha problemas bem visíveis que ostentam com um trofeu. Os pobres até parecem achar-se superiores. Mas a quê ou a quem pergunto-me. Aqui há muita sombra e o tempo faz-se mais vagaroso. O que eu adorava era sair para o jardim e ver-te a ler com teu vestido azul claro. Deitava a minha cabeça nas tuas pernas e ficava assim até anoitecer.

DISTÚRBIOS
Estou sentado num silêncio desconhecido. O tempo parece esquecer-se das suas atribuições. Está de pijama apático e não se mostra interessado em dar início ao programa diurno. Só os pássaros repetem as aulas de canto. São transgressores. Não é o tempo que os comanda. Há uma pauta nos ramos e nas ervas. Esta noite estava sozinho numa ala residencial da instituição. Às 5 horas ouvi uns barulhos. Talvez algum pássaro tivesse perdido a pauta e andasse por ali a remexer. ou um desalinhado com insónias e propósitos insondáveis. Mandam-me folhetos ilegíveis sobre a minha condição. Tenho de ir a um escritório pedir informações. Nunca são favoráveis as diretrizes apontadas ao meu nome. Será porque apareço pouco nos locais abertos de convivência geral. Fico a ler ali sentado noutro compartimento. Há uns dias uma residente perguntou-me o que estava a ler. Foi a única vez que aconteceu. É intrigante que nunca ninguém pergunte e que eu também não o faça. Se soubéssemos o que o outro lê poderíamos ter uma boa conversa. Mas vão rareando as verdadeiras conversas. Vou-me embora daqui. Já se ouvem alguns animais humanos. Os seus sons são muito mais desagradáveis. Não há harmonia e o volume sobe sem elegância. Nada que se compare às nossas conversas na hospedaria quando viajamos pelas vidas de escritores e pintores quando regressamos aos sítios da nossa viagem quando o vinho e o fogo nos acompanham e os olhos se unem na cama da nossa entrega. Agora vou até aos jardins ouvir a água e os ramos e os patos e deixar-me ir vendo-te ali na erva.
CRUZAMENTOS
Dizem na instituição que vão alterar procedimentos. As luminárias voltam a grasnar. Não ficam em silêncio muito tempo. Necessitam de evidência e capital. Esses exemplares andantes divertem-se com a vida dos que são sugados nos corredores. Agridem a harmonia mínima nas salas. Destilam uma arcaica e pérfida semântica sobre os dias mentais dos pacientes. Já não surpreende. Irão até onde puderem. Há que esperar tudo das baratas bafientas dos salões. Eu levava um livro grosso que nunca li. À minha espera estava um de pera já esbranquiçada. Ele é me que disse tudo. É um homem sempre bem informado. Sabe do que fala. Deixei-lhe o livro e fui escrever um documento para creditar as minhas últimas decisões. Fui aconselhado por burocratas experimentados porque não sabemos o que nos espera. Eu e o outro estamos à deriva no meio de papelada. Em tempos vagueámos por corredores mais atrativos. A doença inflacionou e as instituições oprimem a ramagem neuronal. As páginas já foram esmagadas. Resta o rosto humano e inquieto. Separamo-nos e saio para a hospedaria ante uma luz de encanto e música longínqua. Livros a esvoaçar e os teus olhos com tinta e lápis. Levas uma camisola de inverno no verão e jantámos numa estrada feita esplanada. Ao lado um bêbedo um desdentado e um outro absolutamente silencioso. Este sai da mesa e fica em pé à esquina longos minutos imóvel calado. Nós bebemos. Chega outro bêbedo e começa a falar. Depois desaparece. Passa um alienado que conhecemos há anos. Finge não nos ver. Depois passa a dona de um tasco onde paravam punks anarquistas e outros boémios. Frequentei esse antro de álcool há anos. Gostei da cara da mulher. Diz que ainda tem três ou quatro clientes. A luz vai diminuindo e a tua pele é a minha paisagem. A tua voz a minha sombra. Acabámos o vinho. Camus foi-se metendo na conversa. Esfreguei o olho com os dedos. Voava um triciclo amarelo perto do que estava à esquina. Uma miúda dormia sobre um computador na mesa suja de vinho. Os bigodes do tasqueiro mexiam-se sem que ele falasse. Uma gorda dizia que também queria ir onde o bêbedo fosse. A rua tinha o nome de um escritor. Suicidou-se no jardim. Filosófico diria Albert. O rádio dava luz enquanto as mentes flutuavam.
COÁGULOS
O processo está na tômbola. Vénias a imposições institucionais fomentam danças. Evidenciam-se garras e veneno tecnológico. Sonantes fórmulas para guiar ratinhos. As bases da estabilidade convivêncial. Viperinas eminências exercendo a salivante atividade política. Simulacros e encenações com geometria e retórica. Tudo em contraverso ao que vivemos na hospedaria. Nada como os beijos que me deixas logo pela manhã. A uma distância indizível dos nossos corpos banhando-se no azul ao fim da tarde. agora vou buscar vinho branco e pôr música na cozinha. Blues para começar e abraçar-te.
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Lúcio Valium – Um ser em desvio, sem lugar! Um homem vivo, em desordem! Um forasteiro que nos caminhos encontrou palavras e perdeu moradas!


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