
Há povos e países separados pela mesma língua. Portugal e o Brasil é um exemplo, ou os Estados Unidos da América e o Reino Unido. O mesmo se pode dizer da relação entre Portugal e a Galiza.
Indistintos na origem, Portugal e Galiza partilharam o mesmo caminho até aos séculos XIV/ XV. Mas, para que Portugal fosse, teve que se fazer contra Castela, enquanto a Galiza ficava parte de Espanha, vendo o seu sul apartar-se e fazer-se ao mar, exportando a língua para os quatro cantos do mundo.
Com a integração em Espanha, a Galiza viveu o seu deserto sob a forma de uma língua calada. Após séculos de apagamento, que ficaram conhecidos pela expressão «séculos escuros», a Galiza assiste, na segunda metade do século XIX, a uma redescoberta da sua matriz identitária. É o Ressurgimento, o renascimento galego.
Um nome sobressai nesta refundação da cultura e da língua galaico-portuguesa: Rosalía de Castro.
Na verdade, são os seus livros – Cantares Gallegos, publicado em Vigo, em 1863 e Folhas Novas, publicado em Madrid, no ano de 1880 –, escritos no suave e mimoso falar da Galiza, que dão um novo alento à língua escrita e, por via disso, à identidade cultural galega.
O século XX haveria de aprofundar este movimento de reapropriação da dignidade perdida da fala e da escrita galega, apesar da vitória franquista na Guerra Civil de Espanha e das imposições centralistas de Madrid.
Em Março de 1963 – cem anos depois da publicação do livro de Rosalía de Castro -, um grupo de intelectuais e académicos assinam uma petição, propondo que se escolha um dia para celebrar as Letras Galegas. 17 de Maio é o dia escolhido e o primeiro nome a ser celebrado foi, como não podia deixar de ser, o de Rosalía de Castro. De 1963 até hoje, foram muitas as figuras de relevo literário e cultural celebradas e homenageadas em todos os 17 de Maio.
Entre os nomes celebrados, encontram-se dramaturgos, Roberto Vidal Bolaño em 2013, poetas, Luisa Villalta e Manuel Maria, em 2014 e 2016, respetivamente e, no passado ano de 2025, as cantadeiras, enquanto depositárias da cultura popular galega.
Neste ano de 2026, a Real Academia Galega deu assentimento à proposta feita pelas académicas Ana Romaní, Marilar Aleixandre, María López Sández, Margarita Ledo Andión, Chus Pato e Francisco Fernández Rei, de a figura homenageada no Dia das Letras Galegas ser Begoña Caamaño (1964-2014). Comprometida com a literatura e com o periodismo, a obra e a vida de Begoña Caamaño soube cumprir a união entre a reflexão e a ação, a cumplicidade com o ativismo das grandes causas, a liberdade, o pacifismo e a justiça social, e a ficção do mundo presente na magia e nos sonhos.
Begoña Caamaño publicou, em 2009, pela Editorial Galáxia, Circe ou O pracer do azul, uma novela em que se revisita a feminilidade na mitologia grega. Também pela Editorial Galáxia, saiu a lume, em 2012, a novela Morgana en Esmelle. Imediatamente reconhecida, a qualidade ficcional do livro mereceu a atribuição de vários prémios literários, dos quais destacamos o da Associação de Escritoras e Escritores em Língua Galega (AELG) e o prémio Antón Losada Diéguez.
Na declaração da escolha de Begoña Caamaño para figura homenageada no 17 de Maio galego de 2026, destaca-se a afirmação do diálogo constante que a escritora viguense estabeleceu entre a literatura e o jornalismo. O compromisso com o idioma galego, a par com a sua mobilização ativista com as causas sociais e a defesa dos direitos humanos, permitem sublinhar, na declaração dos proponentes de Begoña Caamaño, uma vida e obra «para la ética, para el movimiento, para el pensamiento crítico, para un país y un idioma que cultivó con precisión y esmero».
Dia festivo por toda a Galiza, do programa institucional organizado pela Real Academia Galega, constam recitais e maratonas de leitura, lançamentos e apresentação de livros e, de uma maneira geral, procura-se celebrar a cultura e a língua galaico-portuguesa.
Daqui, das ilhas dos Açores, desejamos que a festa seja bonita!
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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.


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