
Tal qual uma folha
tornou-a de tom castanho o tempo
depois de a deixar viver com a cor das esmeraldas
viçosa, nascida anúncio de força com tamanho de vida
logo se juntou às aves, às flores e às ondas
cá dentro, desejo contido de a fazer minha
finjo de longe que lhe toco
e que a abraço no dia em que foi eleita rainha
agarra-se à cor que ainda lhe resta
sem temer o vazio do pó que a espera
mais fraca sou eu, é certo,
que nada sei da natureza e das suas leis
sou capaz, porém, de morrer de saudade
mesmo sem nunca me ter inteiramente pertencido
vejo-a cair
segue uma linha, destinada à passagem da
tonalidade da vida
cai sem pressa
ainda há beleza nos últimos segundos de vida
somente para ser pela natureza compreendida
♣♣♣
Eterno regresso
um ardor. é na alma
e duplica-se a vontade ao anoitecer
aumentam-se-me as mãos e os olhos
a fronte tão atenta e os pés
desmedidamente corajosos
encontro os meus amigos nos becos:
um deles é de carne quase nenhuma
e pede-me que o corrija com beijos
o outro – esse – é feito de
luz escura e de murmúrios arrastados
e mostra-me sem que lhe peça o
meu segredo dentro dos segredos
do mundo e fere-me tanto este meu amigo
– fere-me tanto que as lágrimas se escondem
em algum pedaço de paraíso que ainda me resta
e diz-me depois
– senta-te ao meu lado
bebe este copo de vinho e volta a ser
feliz como eras antes de escurecer

♣♣♣
Lírios ao frio
1983
oito horas
sai fumo do leite com café
e a tua respiração revela-me que ainda dormes
pus a manteiga somente de um lado
– hoje lembrei-me –
e na varanda os passarinhos aguardam por ti
acrescento duas colheres de açúcar
e o desejo de te contar com o que sonhei
caminhávamos de mãos dadas
os passos sem pressa e sem direção
a água que nos molhava era chuva ou mar
ou talvez o que nos brotava dos olhos felizes
dizíamos palavras que não usamos mais
e juntávamos as nossas bocas no
desembaraço de antigamente
não vens meu amor?
sei que já acordaste
preparei-te o pequeno-almoço
hoje lembrei-me que gostas de manteiga
somente de um lado
o leite com café está frio agora
e os passarinhos foram-se embora
queria tanto contar-te o meu sonho
talvez te fizesse recordar
e me atirasses algumas migalhas
♣♣♣
1978
de repente estavas ali
a delicadeza do vento
a alvura da tarde
as pontas do vestido brincando à tua volta
precisei que o muro me segurasse
e juntos, silenciosos e cúmplices
admiramos-te
nos seus mil anos nunca vira nada assim
– disse-me o muro –
e eu nem sabia ser possível tanta magia
tornei-me homem na presença do teu arrebatamento
regressei à realidade feito numa outra matéria
estranhamente leve, cintilante e certa
és agora o meu desígnio
o pouso onde quero entreter a alma
♣♣♣
do corpo arranquei um osso
procurei pelo maior
porque ouvi dizer que é o que tem mais verdade contida
enterrei-o de seguida o mais fundo que consegui
atenta para que não se enrosquem as suas raízes
com outras raízes que ali se formam
porque depois,
poderia acusar as oliveiras da minha fragilidade
para que não volte a acusar
novamente as oliveiras da minha fragilidade
aguardo deitada
♣♣♣
Última elegia
inflamo o peito com coragem
sirvo-me do fôlego que ainda me resta
– é nesta noite que vou –
dir-lhes-ei assim que estiver pronta
…pobres dos meus livros
rodeiam-me sem saber que me velam…
sofro pelo vosso futuro
que será de vós sem ninguém que vos leia?
quem vos falará com a reverência a que estais habituados?
peço-vos: recordai com meiga exaltação as nossas íntimas partilhas
– nunca houve entre nós nenhum constrangimento –
e invocai livremente todas as vezes em que vos agradeci a vida
eis então a verdade
neste que será o meu último fôlego
urram
zangam-se
caluniam-me
batem-me
lançam-se desenfreados contra o meu corpo vazio e mole
… meus livros!…
repentinamente
entristecem-se
agarram-se uns aos outros
choram lágrimas formadas no invisível de cada palavra
como nos podes abandonar desta maneira
se é para nós que vives?
enfrento-os com os olhos que ainda posso
não lhes respondo
não lhes sei responder
– que resposta lhes poderei dar
se julguei que me tinham tornado imortal? –
encolhem-se diante do meu ar já desvanecido
mas ainda viro a cabeça para trás
e lhes sorrio o brilho com que me alegraram a vida.
♦♦♦
Carla Pereira nasceu em Braga em 1983. Encantou-se cedo pelas possibilidades guardadas nos espaços do mundo, pelo que lhe é impossível existir entregando-se em definitivo. Arrebatam-na as composições de Verdi, os versos de Cesariny, as ideias de Aristóteles e os movimentos aperfeiçoados nos corpos que se esforçam por resistir ao tempo.


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