
O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete
Aristóteles
Não há factos eternos, como não há verdades absolutas
F. Nietzsche
O físico John Wheeler (1911-2008) referiu que “vivemos numa ilha rodeada por um mar de ignorância. À medida que cresce a ilha do nosso conhecimento, também cresce a costa da nossa ignorância”. Nada melhor do que as palavras de um físico, preocupado com a universalidade das leis científicas para procurar o que significa e como se encara aqui e ali, a demanda pela Verdade. Se a resposta fosse fácil, não haveria tanto silêncio, incompletude e dissimulação acerca do assunto. Conjeturemos, então, um pouco sobre o tema em torno do legado da tradição ocidental marcada pelo conhecimento greco-latino: as origens, porque sei que o assunto é complexo e tem muitas e diversas abordagens ao longo dos tempos e das diversas culturas.
O Evangelho do discípulo filósofo, João 18: 39 traz enunciado a dificuldade sobre a matéria quando relata o interrogatório de Pôncio Pilatos, governador romano da província da Judeia, ao jovem intransigente Jesus que afirmava ter vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos sabedor disso, pergunta-lhe: “O que é a verdade?”. E a resposta surpreende porque é um tranquilo abaixamento do olhar de Jesus, mergulhado em silêncio profundo. Parte da questão, a mais especulativa, talvez possa ter correspondência na afirmação de Jesus relatada em uma passagem anterior a esta: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8: 32), porque daqui depreende-se que a verdade é o compromisso de cada um com a vida toda num caminho de autenticidade e partilha. A verdade é o encontro com o pleno da existência, no reconhecimento da sua incompletude e no desejo de querer ser mais, não de uma maneira egoísta, mas de ser mais uns com os outros, mover-se em conjunto na causa do amor ao próximo, porque o meu próximo não é aquele me rodeia e me ocupa, desviando a minha atenção no quotidiano, mas sim aquele de quem, livremente e por escolha própria, me aproximo. A sabedoria antiga no rigorismo da lei mosaica tinha estabelecido dez princípios para a vida. Não eram muitos, mas o transgressor Jesus sabiamente resumiu-os a um apenas: “amar Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo”. Para satisfazer agora os emergentes espirituais laicos, guiados pelo olhar estético e cultural, e não tanto pelos livros das religiões, os simples deste mundo podem rasurar a primeira parte e grafar apenas: “ama o próximo como a ti mesmo” porque a essência do mandamento permanecerá intacta.
Na tradição grega Aristóteles também tinha definido quatro como sendo as virtudes essenciais na vida de cada um: duas ligadas à ação e ao fazer, coragem e temperança, e duas ligadas à razão, ao conhecimento, sabedoria e prudência.
Na procura do sentido mais racional do conhecimento os gregos distinguiram a Aletheia (verdade), que designavam como conhecimento certo e rigoroso, da Doxa (opinião), conhecimento fragmentado e parcelar. Platão teorizou abundantemente, nomeadamente no Teeteto, sobre a Verdade (Episteme), o conhecimento certo, racional, apenas acessível no mundo das Ideias, e a Doxa, a opinião ou crença comum, que ocupa o mundo sensível, o mundo das sombras, das aparências e dos simulacros. A doxa pode ser verdadeira ou falsa, mas nunca pode comportar a verdade porque é variável e racionalmente não serve de fundamentação à verdade que é imutável e eterna. A Alegoria da caverna que Platão narra no livro VII da República, criação estética de um imaginário transcendente captado pela razão com o ensejo de se libertar dela, mostra bem o caminho difícil e penoso entre a doxa que reside nas sombras e a aletheia que a luz deixa avistar, no esclarecimento do conhecimento enquanto correspondência ou adequação entre pensamento e linguagem e a realidade e os factos que a compõem. Para Platão apenas isso, nunca mais que isso, porque a verdade é uma Ideia ou Forma em si de que os humanos, enquanto existentes, apenas podem contemplar em parte. As parcelas de que a existência é composta são apenas aproximações a essa outa realidade onde nos veremos, não como aqui, em espelho, em reflexo, mas “face a face” onde “conheceremos como somos conhecidos” (cf. ICoríntios, 13: 12, 13).
Portanto, por agora e para esta existência que nos coube, a questão em torno da Verdade poderá ser replicada para os fazeres dos existentes da exposição de Aristóteles que na Metafísica a fundamenta enquanto correspondência: “Dizer do que é que é e do que não é que não é, é dizer a verdade e dizer do que é que não é e do que não é que é dizer algo falso”.
Martin Heidegger com novos argumentos em Ser e tempo (1927) regressa à distinção platónico-aristotélica para se pronunciar sobre a compreensão da verdade e recorda Platão para quem nenhum desvelamento, por mais perfeito que seja, nos leva às coisas em si, às Ideias, onde a verdade mora e nesse sentido, ela não pode ser nunca apreendida na totalidade. Apesar disso, Heidegger reforça que essa dificuldade não transforma a procura da verdade num mero utilitarismo ou pragmatismo porque enquanto ideia orientadora serve de suporte quer às ações quer às interpretações que permitem a vida em comum, aquela que agrega o circunstancialismo e o individualismo, que é análogo em todos os existentes.
Antes de Heidegger o niilista/pessimista Nietzsche profundo conhecedor e intérprete exímio do pensamento grego, refere-se ao tema em Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral, texto de 1873, publicado mais de uma década depois, em 1896. É uma reflexão que para lá de outras abordagens trata do uso da linguagem associada à verdade enquanto conceito. A verdade não pode ser absoluta porque os conceitos que as palavras expressam não são todos iguais. A linguagem tem sempre algo de metafórico que ultrapassa a realidade porque é uma criação humana que serve para os indivíduos se exprimirem e traduzirem os aspetos que tornem a realidade objetiva no uso quotidiano. A linguagem é pragmática, serve para dar sentido às relações humanas e mesmo nos aspetos que resultem em ilusão, torna-se essencial para a compreensão da vida em comum, da maneira como uns e outros se relacionam entre si e com a realidade. As palavras não exprimem uma realidade última, mas sim a aproximação a um modo de vida e compreensão do real que nos seja coerente e organizado.
A verdade, a existir, é expressa pelas constantes da natureza que se vertem nas leis científicas, mas isso para Nietzsche que procura o espírito do artista não a pode resumir porque também é o indivíduo na sua complexidade existencial que origina a ciência. A existência joga-se entre a intuição e a razão, não se compartimenta nem subsume a um aspeto ou ao outro. A tragédia grega é o exemplo de como a intuição e a interioridade, são o verdadeiro húmus das preocupações humanas como fica claro na sua original e singular interpretação acerca de A origem da Tragédia (1872). A razão, onde a verdade poderia ser dada, tem sempre menor peso que a emoção e por isso não se pode referir a nada como um absoluto.
Não há, por isso, maneira de a verdade se conhecer ou se exprimir pela linguagem humana servindo apenas esse conceito para tornar alguns aspetos da existência, nomeadamente a nível moral, absolutos e inabaláveis, contraposto ao poder metafórico, transitivo e incerto da linguagem que usamos para nos entendermos no quotidiano: uma linguagem que cria e recria ao belo prazer do indivíduo de acordo com o interesse instrumental que põe em cada coisa e cada ação. O sentido extra-moral da existência à maneira de Platão e Aristóteles pouco interessa a Nietzsche que concebe a vida como uma luta constante entre o princípio apolíneo, a ordem e a luz, e o princípio dionisíaco, a transgressão, a embriaguez, a desordem, o improviso. Alcançar um ideal não deve ser uma finalidade da existência porque esta é sempre individual e expressa-se metaforicamente transpondo significados de um contexto para outro, de acordo com a circunstância e o interesse de cada indivíduo numa dada ocasião.
A literatura e a poesia também não se conseguem libertar das dificuldades em torno da definição da verdade e por isso, com o uso de metáforas e algum humor, num registo meramente estético, isto é, sensível, abordam-na apenas em contraposição com o que realmente ela não é, mas sem o qual não se afirma nem se pode reconhecer, a mentira, o incerto e o circunstancial.
Mark Twain em A decadência da arte de mentir (1887) assume que os artifícios, as habilidades e o sentido final da mentira como arte de dissimular a virtude continuará para todo o sempre. Mas tem pena que no seu tempo, a arte de mentir enquanto técnica associada à inteligência e ao humor dos mais capazes, se tenha tornado em espécie de banalidade, usada de forma negligente para afirmar o que a razão não suporta e o bom senso repudia.
Em torno do caráter metafórico da linguagem quando se fala em verdade e mentira fica também o exemplo de Oscar Wilde em O declínio da mentira (1891) onde argumenta que a verdade raramente, ou quase nunca se dá a conhecer, cabendo a cada um transformar a existência pela criação e recriação das almejadas verdades absolutas com o recurso à arte que confere sentidos múltiplos a realidades idênticas, na procura de uma essência que não se deixa abarcar. A verdade é um ideal a perseguir e o materialismo que domina o dia a dia dos indivíduos e dos povos, mais preocupados com o que se vê e se pode ter, com a objetividade das coisas e a instrumentalidade das ações, impede a procura e inibe caminhos novos e múltiplos para desejos profundos dos indivíduos que à partida acham desnecessário e perigoso perseguir. De muitos fragmentos se constrói a verdade que no seu uso comum só se encontra com a dissimulação da mentira: “Raramente a verdade é pura, e nunca é simples”. Portanto, que a arte sirva para inventar a verdade que para sempre nos haverá de escapar.
Poderemos ainda explorar e trazer para o jogo político atual a reflexão de George Orwell recolhida no escrito 1984 dado à estampa em 1949 na ressaca de duas terríveis guerras no seio da europa culta e considerada civilizada. Aí nos diz, quanto ao totalitarismo, quando as partes, os partidos, se destacam e são volvidos em verdades absolutas: “Tudo se dissolve na névoa. O passado é apagado, o apagado é esquecido, a mentira torna-se verdade”, descrevendo ao pormenor o Ministério da Verdade, onde a história se reescreve conforme as conveniências do poder político totalitário porque “quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. A história apenas narra os feitos de quem vence, obnubilando-lhe os defeitos. Dos fracos não reza a história porque esta é uma narrativa em torno dos vencedores.
Aproximo-me daqueles e daquelas que pensam que a verdade, estando lá longe, depois do horizonte que nos escapa a cada passo, só poderá ser estruturadora da nossa condição existencial através do sentimento estético que, no encalce de Vergílio Ferreira, entendo como um “sentir que nos abre ao mundo das origens do qual a arte é a expressão materializada […] é através dele que temos acesso à verdade (e beleza) essencial, ao mundo da aparição e do milagre. Toda a vida autêntica do espírito é nele que se condensa, porque ele é o meio em que essa autenticidade se revela. Tudo o mais (de uma ideologia, doutrina, filosofia, etc.) são concreções segundas que, quando surgem, já tudo através dele está resolvido” (Conta corrente, II, Quetzal, p. 81).
Li algures que “não há santo sem passado, nem pecador sem futuro”, expressão que revela bem a verdade como referência maior da ação humana, como constante de uma vida cuja obrigação é encaminhar-se para a perfeição. É um estar sempre em movimento com o olhar posto na linha do horizonte que quer ao amanhecer, quer durante o dia, quer ao entardecer e no crepúsculo, permanece imóvel sem nunca se deixar tocar. A distância da linha do horizonte em relação a cada um é sempre a mesma e a todos apela ao seu encontro, sabendo cada qual que jamais a poderá tocar. A verdade é o que permanece qundo tudo o resto se esvai.
A liberdade que a verdade promete, porque de facto a sua necessidade é intrínseca a cada individuo, fica bem evidente no poema de António Franco Alexandre com que quero terminar porque nunca é de mais reproduzi-lo. A verdade somos nós, não aquilo que de nós aparece, mas aquilo que de nós se expressa quer seja pela ação, pelo espírito, pelo sentimento, pela imaginação, pela criação: pela essência que nos une a todos e tanto desejo temos de recuperar… e que por aqui, nesta existência, não se irá sentar conosco na soleira da porta, porque como referia Hegel, “a verdade é maior do que nós e do que o nosso tempo”.
Verdade, somos iguais
temos quase a mesma idade
o sangue a esmo que escorre
a vertente dos sinais
rasgamos sombra na chuva
o corpo aberto ao jamais
luva em luva nos abrimos
cada qual com sua chave
demasia nos visita
no som pálido das horas
o erro nu nos demora
cada um por si imita
o som branco dos demais
verdade, somos iguais.
♦♦♦
Artur Manso, É diretor adjunto da Revista Athena.pt. Nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.


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