EDITORIAL – INFÂNCIA: PERCEÇÃO E REALIDADE – por Artur Manso

“L´enfance d´Ubu” by J. Miró

Tempo de infância. Voz da eternidade que lá mora

Vergílio Ferreira

Que a infância é estranha, é uma doença imóvel.
Tem um íman no meio. 

Herberto Helder

                                                                                                        [….…]

como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

José Tolentino Mendonça

Nas últimas décadas gerou-se um alvoroço inusitado em torno da infância, tempo que todos os adultos sem exceção viveram e são educados para o esquecer. Hoje é pela valorização enquanto pessoas humanas o que não acontecia, de facto, até ao século XX: pela garantia dos seus direitos anexados ao seu estado sensível, ainda longe do pensamento lógico-formal, do uso escorreito da razão, que só acontece pela adolescência. Até os Evangelhos que relatam os ensinamentos de Jesus, textos fundadores de uma visão igualitária da condição da criança e da mulher, no episódio da multiplicação dos pães, destacam essa subalternização: “os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças”. Mulheres e crianças passaram por séculos de desprezo e indiferença total.

Erraticamente, hoje, com tanto saber de experiência e ciência feito sobre o assunto, proliferam juízos sobre o ser criança enredados em vontades e desejos, pouco sensatos e ponderados. Na análise da infância, passou-se do oito ao oitenta. Na atualidade, no espaço da cultura ocidental, a proteção e consideração da infância é desmedida, quer do ponto de vista do lugar que ocupam na sociedade, quer na maneira de encarar a inocência que se diz serem portadoras. As diversas particularidades da criança cujo quotidiano não é regido pelo pensamento lógico-formal, se não forem consideradas por aproximação e simpatia, em reflexo, não farão bem ao seu desenvolvimento nem à sua relação com os adultos que as cuidam, quer em família, quer em sociedade. Agora pretende-se que se pronunciem sobre tudo e mais alguma coisa, validando-lhes posições ético-morais em qualquer idade como se de adultos se tratasse, recorrendo ao avanço científico que contradiz essas decisões pura e simplesmente porque os juízos morais, tal como os juízos de facto, dependem de uma série de fatores do desenvolvimento e maturidade intelectual que acontece em fases diferentes na vida de cada um e cada uma. Basta ler a obra de Jean Piaget (1896-1980) que fundou uma teoria do conhecimento a partir do estudo da gênese psicológica do pensamento humano e atender aos estádios de desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg (1927-1987). Hoje em um e outro lado há mais conhecimento, sim. Mas uma parte substancial dos problemas de interpretação dos ‘distúrbios’ exagerados e empolados sobre o desenvolvimento infantil devêm do falacioso “princípio da igualdade” que as democracias ocidentais introduziram na consideração da infância, por pressão das famílias e da sociedade. É sabido pelos melhores estudos que a aprendizagem cognitiva depende de criança para criança e que ocorre em períodos largos de tempo. Mas as escolas que os Estados controlam na totalidade, criaram a falsa ideia que entrando todas as crianças em idade igual num ciclo de estudo, todas estão em igual condição de atingir os objetivos mínimos de aprendizagem não havendo por isso razão para umas progredirem e outras estagnarem ou esperarem pelo tempo oportuno para, cognitivamente, consolidarem as aprendizagens e transitar para conhecimentos mais complexos sem ter aprendido os mais simples, procedimento que é contraproducente e violador do próprio sentimento da infância.

Pela minha parte continuo a reiterar que o superior interesse da criança é ser bem cuidada, amada e protegida, na família, no meio alargado e no Estado, nada mais. O resto é conversa para entreter académicos que precisam disso para ganhar a vida e colocar a imensa multidão que sobre o assunto nada sabe, em conflito permanente empurrando para o sistema legal decisões que manifestamente não lhes competem, tanto mais que quem legisla e quem aplica a lei, pouco pensou sobre o assunto e pouca ou nenhuma informação tem sobre a condição de ser criança, conduzindo as suas decisões por opiniões sem qualquer suporte científico ou racional. O critério que preside a uns e outros é: este ou esta que ganharam o estatuto de influenciadores, na TV, nas redes sociais ou livros de auto-ajuda, sobre este assunto, qualquer que seja o assunto, dizem que… Quem gere as escolas e aqueles e aquelas que nelas ensinam, sabem muito bem, ou deveriam saber já que passaram tantos anos a estudar os conteúdos do ensino e da aprendizagem, que a aprendizagem cognitiva, que é dessa que o ensino universal e obrigatório trata, é uma atividade de igual complexidade como aprender e desenvolver um desporto, uma arte, ou uma profissão diferenciada como seja a carpintaria, a mecânica, a eletrónica, a colunária… O ensino musical não coloca um aprendiz de violino como solista de uma orquestra que se queira séria, um grupo de bailado não coloca um aprendiz como primeiro bailarino, uma equipa de futebol não coloca um sub 15 a titular indiscutível num jogo de final da liga dos campeões. Mas a escola coloca todos os meninos e meninas de 6 anos no primeiro grau de ensino e decide que universalmente eles e elas não se irão diferenciar até à conclusão dos estudos.

São da transição do século XIX para o XX, os importantes trabalhos de Freud, sobre o assunto que, dignificando a criança, a colocam no seu devido lugar em relação aos adultos que a cuidam e à sociedade que a acolhe. Depois do idílio infantil que ingenuamente os adultos nas últimas décadas foram alimentando, e depois dos abusos indiscriminados que a falta de compreensão da condição infantil foi gerando, já é pelo menos, agora, tolerável, considerar, com recurso à prática de quem as cuida notar os laivos de um Pequeno ditador, na descrição de Javier Urra, ou O pequeno tirano, no relato de Jirina Prekop. É tempo de deixar as crianças serem crianças e entregar os casos patológicos, que são infinitamente menos do que aqueles que se apregoam, a quem tem formação e saber para tratar deles com inteira autonomia e responsabilidade de todos os envolvidos. A psicóloga Margarida Gaspar de Matos em um ensaio sobre a adolescência afirma com muita propriedade: “o adolescente tende a sobrevalorizar o grau de interesse que os outros têm nele – está sempre em ‘modo’ centro das atenções”.

Estar atento a estas e outras artimanhas semelhantes, é um grande avanço para a efetiva consideração que a infância deve merecer a todos e todas, sem subterfúgios nem sentimentalismos bacocos e enganadores. A educação familiar foi muito perdulária na relação criança/adulto, colocando-as em lugar subalterno. E a formação escolar alargada, fez durante séculos jus a essa maneira de encarar a infância, dizendo o poeta português Guerra Junqueiro “Isto escolas!… que indecência / Escolas, esta farsada! / são açougues de inocência, / são talhos de anjos, mais nada”. Acrescento: escola e sociedade de que a primeira é parte integrante.

Entre os vários textos em que o olhar teórico e estético sobre a infância me vai ocupando destaco o último capítulo do ensaio Educação estética. O belo enquanto manifestação do bem (2024) onde percorro diversas aproximações à mesma, destacando a singular interpretação de Agostinho da Silva, que no seu jeito provocatório na Conversa Vadia com Manuel António Pina (24/05/1990) refere:

eu costumo brincar com a palavra adulto dizendo que o que acontece  com as crianças é que, quando chegam aí pelos 14, 15 anos, cortam-nas,  fazem-nas parar, e juntam-lhes outro bocado de um adulto – de   onde veio o verbo  adulterar. Quer dizer, toda a criança é adulterada porque lhe colou um adulto. Vamos ver se um dia se veem livres disso e  conseguem  viver até ao fim com a capacidade de imaginação e de criação que, em  geral, todas as crianças têm.

Agostinho foi leitor e hermeneuta de Fernando Pessoa, que em discurso poético impressivo do eu de cada um, fez a alma dizer em sentimento:

Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.
E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.
Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

É um mistério como a criança deixa de ser criança e se torna adulto, parecendo devir outro ser que coloca no recalcado ou no id esse intervalo de tempo, que em condições normais de desenvolvimento, que são felizmente maioritárias, é o mais autêntico e feliz da sua vida: sem conceitos nem preconceitos, apenas com a vontade infinita de fazer, desfazer, refazer os lugares que vai habitando, onde cada momento é a vida toda e toda a vida se faz e desfaz numa aventura rumo a um tempo sem fim.

George Orwell em um ensaio sobre Dickens, autor que muito escreveu sobre crianças e jovens em desenvolvimento e em sofrimento, refere que o século XIX não foi “uma altura boa para se ser criança, dominava a doutrina de que era preciso ‘’vergar o espírito’ das crianças. Milhares de crianças, às vezes apenas com seis anos, trabalhavam literalmente até morrer nas minas ou nas fábricas de têxteis, e mesmo nas public schools da moda, açoitavam-se os alunos até fazer sangue por darem erros em latim”. O séc XIX encarnava todos os tempos com nuances diferentes: tempos em que ser criança era estar sujeito/a a tudo: sevícias de toda a espécie, abusos, violações, mortes… com tolerância máxima para os agressores.

Como também hoje é realçado em todas as análises sobre a infância por parte dos adultos que só no decaimento das suas vidas dela se voltam a ocupar, mesmo que só em ressentida evocação, refere o mesmo autor, retrocedendo ainda mais no tempo de felicidade plena: “É difícil não ter a sensação de que o objetivo inconsciente de todos os prazeres típicos do mundo moderno é o retorno ao útero materno. Porque também ´nunca se estava sozinho, nunca se via a luz do dia, a temperatura era constante, não tínhamos de nos preocupar com comida ou trabalho, e os pensamentos (se é que os havia) eram abafados por um pulsar ritmado e contínuo”. A vida intrauterina é de facto outro grande mistério, de desconhecimento total naquilo que é o seu impacto no desenvolvimento de cada um, que, nesta dimensão das criaturas humanas, permanecerá para sempre. E é tão impressivo que durante toda a vida, a posição de descanso mais confortável, continuará a ser aquela em que o feto se torna criança e mantém até ver a luz do dia. Nos tempos que correm, até esta felicidade originária querem retirar a cada criança que maioritariamente ainda pode gozar da vida intrauterina, fazendo-as, aí, analisar e psicanalisar a seu modo e de acordo com os traumas que os adultos que as cuidam transportam, como escrevia a meio do século XX Jorge Amado, para cada uma nascer já com um complexo, uma neurose, um trauma, à sua escolha, ou melhor, autoimposto.

Vale a pena ler as recordações de infância do poeta do Marão, Teixeira de Pascoaes, porque nos fornece um olhar da infância sob o olhar do adulto e o que a nostalgia do passado representa na desilusão do futuro. O olhar poético, desprendido da imediatez e preocupado com o significado do que acontece quando crescemos e nos inquietamos com os fragmentos que se desprenderam de uma totalidade que pressentimos mas não alcançamos, esbarra com a factualidade de aqueles e aquelas que nos pareciam deuses e deusas quase inacessíveis e se tornam na nossa adultez, outros de nós, com as mesmas preocupações e ocupações, olhando para a infância deixada lá longe, num lugar, agora quase mitológico, onde tudo é perfeito e a visão límpida das coisas invocava o poder de um qualquer deus que assim as tinha criado: “Vivemos porque a vida é êxtase, espanto, enlevo, simpatia, um impressão alada em que se volatiliza o nosso ser e vai através do espaço”. À medida que crescemos, vamos sepultando a infância num lugar distante, coberto de neblina que nos impede de a olhar: “infância é uma nuvem, como a velhice é uma pedra: nuvem que abrange tudo, pedra que tudo restringe à sua forma dura e recortada”. A infância conserva o segredo das origens e a luz que tudo ilumina: “Para os meus olhos de criança, as coisas não eram exteriores, não existiam; viviam a vida pura, que é só alma, intimidade, substância eterna, em vez de forma transitória. O resgatar da infância torna suportável o ocaso da vida que quase sempre acaba por se nos apresentar um projeto mal realizado porque em prol da razão esqueceu a emoção, em prol da lei e da ordem, fez com que cada um e cada uma, se tornasse construtor de uma realidade que pouco lhe diz. A adultez torna-nos coproprietários de um condomínio organizado racionalmente que nos impede de ver para lá dos seus muros: “A criança que fui jaz em mim como na terra dum cemitério; mas a minha infância vive ainda. É imortal esse sentimento da origem, que é o substratum da memória, onde as recordações deitam raízes e absorvem as seivas que as alimenta. É dessa profundidade que alvoram aleluias, pressentimentos de Deus e do infinito, primaveras que, durante um momento, nos enchem a vida de flores”. A beleza era-nos espontânea e com ela adornávamos o nosso quotidiano: “Para uma criança todas as coisas têm um valor transcendente; e a sua vida é um êxtase de luz”.

Enquanto crianças vemos o mundo como uma construção de um deus maior, onde tudo tem uma razão de ser e ocupa um lugar adequado. A infância é o tempo de refazer o mundo que herdamos de Deus. É desprendimento e brincadeira, a adaptação do olhar às coisas ainda não vistas. Na infância sentimos o mundo e pressentimos o divino. Bailamos e pulamos ao som de vozes estridentes e de comportamentos humanos de cunho coletivo, que confunde o profano e o sagrado, transformando os adultos, aqui e ali, em condutores infantis de brinquedos coloridos e reluzentes, que querem, a espaços, continuar a brincar, tal como os Madredeus consubstanciam, ao ritmo da música e pelo encanto da voz em A Vaca de Fogo:

À porta daquela igreja
Vai um grande corrupio

Às voltas de uma coisa velha
Reina grande confusão

Os putos já fogem dela
Deitam fogo a rebentar

Soltaram uma vaca em chamas
Com um homem a guiar

São voltas
Ai, amor, são voltas
São as voltas da maralha
Ai, são voltas
Ai, amor, são voltas
São as voltas da canalha

À porta daquela igreja
Vive o ser tradicional

Às voltas de uma coisa velha
E não muda a condição.

Termino, na roda da canalha, voltando ao início, e desejando que a educação em todas as suas dimensões, se esforce por preservar a essência da infância, ao texto primordial em defesa das crianças, aquele que os Evangelhos popularizaram da pregação de Jesus. Mas sigo, a singular exposição do acontecimento de Giovanni Papini, por serem palavras simples que incluem, sobre o assunto, tudo que mais importa:

.Jesus, por Si, firmava a sua infantilidade e declarava-Se sem vergonha idêntico às crianças que o cercavam. O santo, o pobre, o poeta .apresenta-se sob este novo aspeto que resume tudo: a criança, que é .limpa e cândida como o santo, nua e necessitada como o pobre, .maravilhada e amorável como o poeta. Jesus não ama as crianças apenas como modelos inconscientes dos candidatos à perfeição do Reino, mas também como os verdadeiros mediadores da verdade. A sua ignorância é mais iluminada que a sabedoria dos doutores; a sua ingenuidade é mais poderosa que o génio espelhado em eloquentes tecidos de raciocínios. Só um espelho nítido e limpo pode refletir a .revelação. 

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Artur Manso, É diretor adjunto da Revista Athena.pt. Nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar. 

O ESTADO NÃO É MEU DONO – por Artur Manso

O objetivo dos Governos é sempre o mesmo: limitar o indivíduo, domesticá-lo, subordiná-lo, subjugá-lo.

Max Stirner

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Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.

Agostinho da Silva

Não há dúvida que o indivíduo, por si só, não tem qualquer hipótese de sobreviver, morrerá poucas horas após ter olhado o lugar que passa a ser seu. Não há qualquer dúvida, também, que com a massificação das democracias de tipo ocidental, o Estado passou a ser, em nome de um bem maior que tarda a perceber-se qual seja, o “pai omnipotente” de todos e todas. Não podemos escolher como nascer nem como queremos ser educados. Não podemos escolher o que fazer com o nosso único bem, o nosso corpo. Não podemos escolher como morrer. Para tudo o Estado impõe uma maneira própria, universal, de nos entendermos e nos resolvermos, individual e coletivamente. O Estado em prol da liberdade que não nos consente, obriga-nos a ser submissos a um conjunto de normas e valores que decreta, diz, em nome do bem comum. Continuar a ler “O ESTADO NÃO É MEU DONO – por Artur Manso”

O QUE É A VERDADE? – por Artur Manso

 

 

“O que é a verdade?”Pilatos no julgamento de Jesus.

O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete
Aristóteles

                                                Não há factos eternos, como não há verdades absolutas
F. Nietzsche

O físico John Wheeler (1911-2008) referiu que “vivemos numa ilha rodeada por um mar de ignorância. À medida que cresce a ilha do nosso conhecimento, também cresce a costa da nossa ignorância”. Nada melhor do que as palavras de um físico, preocupado com a universalidade das leis científicas para procurar o que significa e como se encara aqui e ali, a demanda pela Verdade. Se a resposta fosse fácil, não haveria tanto silêncio, incompletude e dissimulação acerca do assunto. Conjeturemos, então, um pouco sobre o tema em torno do legado da tradição ocidental marcada pelo conhecimento greco-latino: as origens, porque sei que o assunto é complexo e tem muitas e diversas abordagens ao longo dos tempos e das diversas culturas.

O Evangelho do discípulo filósofo, João 18: 39 traz enunciado a dificuldade sobre a matéria quando relata o interrogatório de Pôncio Pilatos, governador romano da província da Judeia, ao jovem intransigente Jesus que afirmava ter vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos sabedor disso, pergunta-lhe: “O que é a verdade?”. E a resposta surpreende porque é um tranquilo abaixamento do olhar de Jesus, mergulhado em silêncio profundo. Parte da questão, a mais especulativa, talvez possa ter correspondência na afirmação de Jesus relatada em uma passagem anterior a esta:  “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8: 32), porque daqui depreende-se que a verdade é o compromisso de cada um com a vida toda num caminho de autenticidade e partilha. A verdade é o encontro com o pleno da existência, no reconhecimento da sua incompletude e no desejo de querer ser mais, não de uma maneira egoísta, mas de ser mais uns com os outros, mover-se em conjunto na causa do amor ao próximo, porque o meu próximo não é aquele me rodeia e me ocupa, desviando a minha atenção no quotidiano, mas sim aquele de quem, livremente e por escolha própria, me aproximo. A sabedoria antiga no rigorismo da lei mosaica tinha estabelecido dez princípios para a vida. Não eram muitos, mas o transgressor Jesus sabiamente resumiu-os a um apenas: “amar Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo”. Para satisfazer agora os emergentes espirituais laicos, guiados pelo olhar estético e cultural, e não tanto pelos livros das religiões, os simples deste mundo podem rasurar a primeira parte e grafar apenas: “ama o próximo como a ti mesmo” porque a essência do mandamento permanecerá intacta. Continuar a ler “O QUE É A VERDADE? – por Artur Manso”

EDITORIAL – ONDE ESTÁ A SABEDORIA? – por Artur Manso

                                         

Escuta e serás sábio. O começo da sabedoria é o silêncio.
Pitágoras
∞◊∞
Eu não procuro saber as respostas,
procuro compreender as perguntas.

Confúcio 

Na tradição judaico-cristã os Livros Sapienciais são sete: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico. Uns são de maior extensão, outros de menor. Uns são mais introspetivos e centrados no sujeito, outros abertos à comunidade. São livros de ajuda a si mesmo, melhor dito pertencem ao grupo de leituras e meditações que os gurus atuais da autoajuda, os poucos que realmente conhecem a tradição, com milhões de likes e seguidores, reproduzem nos seus catecismos de forma ardilosa, sem citar as fontes. Não as ignoram é certo, e as suas obras seriam bem mais pobres no seu desconhecimento. Os livros sapienciais, não se encontram apenas nas religiões, eles percorrem todas as tradições e culturas, e a mentalidade ocidental, desde sempre relativizou os seus conteúdos e respetivos ensinamentos, porque na verdade poucos eram os que sabiam ler e a mensagem chegava sempre deturpada de acordo com os interesses de quem exercia o poder: as Igrejas e os Estados. Assim, de acesso a muito poucos, iam repousando sem serem abertos não só os livros sagrados, mas os de toda a tradição: Bhagavad-Guitá, Vedas, Sócrates/Platão, Séneca, Marco Aurélio, Confúcio, Buda, Jesus, Agostinho de Hipona, Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Ramakrishna, Ghandi e alguns outros, não muitos, que a verdadeira Sabedoria é um privilégio de raros. Continuar a ler “EDITORIAL – ONDE ESTÁ A SABEDORIA? – por Artur Manso”

DA VIDA QUE A MORTE OCULTA – por Artur Manso

Em memória de Eduardo Alves Ribeiro (1956-2025)

                             O justo, ainda que morra cedo, terá repouso. Velhice venerável não é longevidade, nem é medida pelo número de anos.

Liv. Sabedoria, 4: 7-8

                            Talvez um indivíduo deva considerar que a sua própria morte é o último fenómeno da natureza.

                         Stephen Crane

Jamais perdi um amigo
só a morte mo levou
e vivo o deu ao eterno
e vivo a mim o deixou.

Agostinho da Silva

É comum no espaço onde me movo discutir a minha crença/fé a partir da religião judaico-cristã, onde fui educado, assumindo me mais cristão que católico, à maneira do tolerante e liberal J. J. Rousseau. Assim sendo, para que não restem dúvidas sobre o assunto que irei tratar, a vida e a morte que já desenvolvi no ensaio Breve é toda a vida. Para uma pedagogia da morte e do morrer (2021), começo com as belas palavras de Paulo, ainda em vida, mas com a morte no horizonte: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda”. 2 Timóteo, 4:7-8. Na Apologia de Sócrates, quando o mestre ateniense procura refutar as acusações de que é alvo, na sua demanda pela verdade e justiça já tinha afirmado, também, que tal compromisso resultava das ordens que tinha recebido do Deus. Portanto na excecionalidade de muitas personalidades, a evocação de um Deus, ou deuses, como supremo ordenador daquilo que é dado à existência, é algo que se repete com frequência. A troca de ideias mais viva surge sempre em torno das questões-limite, nomeadamente a morte e como o Criador, se for esse o termo adequado, parece ser cruel ao consentir que as crianças sofram e morram e que uma boa parte das mortes precoces, caso isso seja termo adequado, envolvam seres humanos realmente bons, daqueles que acrescentam luz à luz, que têm o dom de iluminar a escuridão. Continuar a ler “DA VIDA QUE A MORTE OCULTA – por Artur Manso”

TECNOLOGIA, EDUCAÇÃO E DEMOCRACIA – por João Pedro Vidal

Hoje em dia, muita gente acha que sabe muito sobre o mundo e sobre as coisas só porque vê coisas nas redes sociais. É nelas que se concentra um dos maiores fluxos de comunicação e disseminação de informação, o que é fantástico, mas também aterrador. Aquele hábito de pesquisar ativamente, que se verificava nos primeiros tempos da internet, praticamente desapareceu. Em vez disso, a internet tornou-se um espaço de consumo, onde os utilizadores consomem só o que os algoritmos decidem mostrar. Muitas vezes, sem se aperceberem, cedem a autoridade sobre o que é verdadeiro ou relevante ao que aparece no ecrã. Agora, é normal as pessoas terem uma opinião, por mais disparatada que seja. Toda a gente se sente confiante para dar a sua opinião. O problema surge quando aquilo que deveria ser encarado como uma opinião pessoal e subjetiva, como um saber informal ao que os gregos chamavam doxa, é agora adotado como conhecimento rigoroso, verdadeiro e objetivo. Esta distorção séria do conhecimento ganha força numa época em que a verdade é cada vez mais relativa. Vivemos tempos em que a objetividade está a ser destruída pela tirania narcisista da subjetividade. Antigamente, as pessoas debatiam de forma racional, mas agora parece que só interessa o barulho. A opinião de um influencer parece valer mais do que a de um perito, não porque é mais verdadeira, mas porque chega a mais pessoas. Neste novo sistema, o valor de uma opinião não depende de ser coerente ou adequada à realidade, mas da capacidade dissuasora do comunicador. Continuar a ler “TECNOLOGIA, EDUCAÇÃO E DEMOCRACIA – por João Pedro Vidal”

DA ADOLESCÊNCIA E DA JUVENTUDE – EDITORIAL POR ARTUR MANSO

DA ADOLESCÊNCIA E DA JUVENTUDE. EQUIVOCOS E OMISSÕES

Recentemente ocorreram quatro episódios sobre a vida dos adolescentes a iniciar a juventude, que alarmaram os frequentadores das redes sociais e consumidores de séries, o novo entretenimento de quase todos. Falo de Adolescence (2025), Adolescência em português, dos criadores Jack Thorne e  Stephen Graham, e realização de Philip Barantini. O enredo gira em torno de Jamie Miller (Owen Cooper), um estudante inglês de 13 anos que é preso por ter assassinado uma colega da escola. A trama, só por si, não traz nada de novo porque jovens assassinos de seres humanos da mesma idade ou de idades diferentes, são constantes ao longo da história da humanidade: no passado, no presente e no agora. Nos primórdios da internet tal como a conhecemos, e ainda longe das redes socias, mesmo que em contexto diverso, já tinha sido adaptado ao cinema (1990) o romance ficcional de William Golding, O deus das moscas (1954), onde é descrito, o inaudito grau de crueldade entre os jovens em situação limite. Entre outros exercícios cinéfilos, veja-se também o filme de Hector Babenco, Pixote, a lei do mais fraco (1980) onde se pode conferir todo o tipo de violência dos mais jovens, mas essencialmente, um quotidiano dentro dos centros educativos juvenis onde a violência física e verbal entre todos, as crianças e jovens que deveriam ser cuidadas, e os cuidadores descuidados, onde apenas vigora a lei do mais forte, no confronto constante físico e verbal, com mortes à mistura, de uns e outros: os que devem ser educados e aqueles que deveriam educar. Estranhamente este ambiente que era tolerado nos centros de reinserção juvenil, migrou, como se observa na referida série, para o ensino universal e obrigatório, sendo agora quase normal em qualquer escola, de qualquer ciclo, em qualquer lugar. Portanto, a nova realidade sob o signo da internet e redes sociais, e os grupos que por aí pululam para levar os jovens instáveis a abraçar ideários extremistas e anti humanos é só mais um passo na concreção da maldade inerente à comunidade humana. Estes movimentos seguem na linha de outros igualmente perversos e violentos ligados a organizações sociais e religiosas de culturas ocidentais e não ocidentais, que também foram bem sucedidos no recrutamento de fieis às suas causas sem o recurso ao ciberespaço. Para nos situarmos, convém, portanto, referir que a crise da sociedade e da escola que a integra já não é de agora, apenas as circunstâncias mudaram, nada mais. O que se segue é a posição sobre o tema de quem há mais de 50 anos se dedica a aprender e a ensinar.

O que há, de novo, na adolescência e na juventude num mundo global onde a violência está presente no quotidiano de cada um, nas notícias, nos écrans, na família, no bairro e agora na internet com expoente máximo nas redes sociais? A que se deve tanta histeria acerca dos impulsos mais básicos dos seres humanos? Precisou o mundo ocidental de ver uma infeliz trivialidade, que sendo um comportamento limite, se repete em todos os tempos e lugares, para questionar a evolução tecnológica e o pouco sentido que se encontra nas comunidades escolares? Talvez sim, porque se estes comportamentos não são novos, o facto de agora, quando ocorrem, envolverem adolescentes e jovens em idade escolar exageradamente obrigatória até aos 18 anos ou aí perto, é recente.

A ser assim, convém esclarecer alguns equívocos que se prendem com os padrões ocidentais de educação e do conceito que se passou a fazer da adolescência e juventude que nunca foram bem entendidos e agora encontram-se sobrevalorizados. As crianças, os jovens e os adultos são, por natureza, egoístas, interesseiros e egocêntricos. A diferença está que na situação de adultos, cada ser humano pensa naquilo que diz e faz, antecipando as consequências, enquanto as crianças e os jovens agem emotivamente, sem se preocuparem com o desfecho dos seus atos que em idades mais precoces, nem sequer estão em condições de avaliar. Era bom que as crianças fossem os seres puros e simples tal como são apresentadas desde os textos bíblicos “deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino dos céus” (Mateus, 19, 14) ou a criança como protótipo do bom selvagem que Rousseau (1712-1778) elogia. No primeiro caso Novalis esclarece que a criança dos Evangelhos não é a criança mimada dos tempos modernos, os pequenos tiranos, mas que aí se apresenta o espírito indistinto da infância. No segundo caso, Rousseau valorizando as caraterísticas próprias de infância, que não são as de um adulto em potência, também adverte: “Toda a maldade procede da fraqueza; a criança, porque fraca, é má; dai-lhe forças, torná-la-eis boa”. Por sua vez, Jean Cocteau na ficção As crianças terríveis (1929) começa por falar dos “instintos tenebrosos da infância. Instintos animais, vegetais, cujo exercício é difícil de surpreender, porque a memória não os conserva mais que a recordação de certas dores e porque as crianças se calam quando os adultos se aproximam. Calam-se e retomam ares dum outro mundo. Esses grandes comediantes sabem eriçar-se, de repente, de picos como um bicho ou armar-se de humilde doçura como uma planta, sem nunca divulgarem os ritos obscuros da sua religião. Sabemos apenas que ela exige artimanhas, vítimas, julgamentos sumários, terrores, suplícios, sacrifícios humanos.”

Compete, portanto, à sociedade e nela à escola atenuar a maldade das crianças educando-as livremente para a partilha, o respeito, a autonomia responsável, o acolhimento do diferente. Se as sociedades continuarem a forçar a educação escolar das crianças nos moldes pré definidos e facciosos atuais, o cenário descrito na referida série só irá piorar porque a criança sentir-se-á cada vez mais fraca, será mais maliciosa, porque a sociedade e a escola não a ajudam nem a estimulam no caminho da bondade, da compreensão e da partilha que precisa de trilhar. Este poderá ser o melhor dos mundos possíveis como sustentava Leibniz (1646-1716) e parodiava ou contrapunha o enciclopedista Voltaire (1694-1778) no escrito Cândido ou do otimismo (1758), com o terramoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755 à mistura, mas não é, nunca foi, nem será, o mundo ideal, seja porque for. Vejam-se as oportunas e contundentes considerações que o poeta e crítico Charles Baudelaire (1821-1867) teceu ao estado de natureza, onde, entendia só haver abusos e crimes da pior espécie. Fora do mundo construído pela humanidade baseado em valores, normas, regras morais e respeito de uns pelos outros, reina apenas a barbaridade, o terror e a morte, argumentário suficientemente exposto em A invenção da modernidade (Relógio D’Água, 2006). Com o mesmo sentido, mas com uma profundidade mais próxima da essência da poesia, Guerra Junqueiro no volume póstumo Ensaios espirituais (2025), refere: “Só a dor infinita produz o amor absoluto […]. O perfeito vive do imperfeito, como a chama vive do combustível. O mal é a condição do bem, o erro a condição da verdade, o crime a condição da virtude”.

A civilização e a cultura são o resultado de atos violentos ou da limitação da violência no agregado social, de uma consideração pessimista da condição humana, porque mesmo no registo mais benigno de Rousseau e do Evangelho cristão, a falta está sempre presente. Terão sido de Jesus as seguintes palavras: “Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois eu vim para fazer que o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família”, Mateus 10, 34-36. Sei que a passagem continua com um referente teológico, mas isso não apaga estas primeiras linhas que devem ser lidas e meditadas em contexto social e escolar laico porque efetivamente traduzem as características básicas da organização social. Séculos antes, Hesíodo no Mito das Cinco Idades já referia que a quinta Idade, aquela que era a sua e continua a ser a nossa, a raça de ferro, era uma raça de homens que têm “as fontes grisalhas. O pai não será igual aos filhos. Nem estes a ele. Não haverá amor entre irmãos, como era antigamente. Aos pais logo que envelheçam eles os desonrarão, insultá-los-ão com palavras duras. Honrarão antes o criminoso e o insolente. A justiça será a violência e a vergonha não existirá” (cf. Hesíodo, Trabalhos e dias, 109-200). Desde aí até à realidade atual, onde nas palavras de Jorge Amado, as crianças aprendem no ventre materno onde “se fazem psicanalisar para escolher cada qual o complexo preferido, a angústia, a solidão, a violência”, a condição humana, na sua essência, tem sido uma perda contínua e acentuada, sem naturalmente estar em causa o reconhecimento efetivo dos enormes progressos no mundo ocidental no reconhecimento de uma igualdade social efetiva: das crianças, das mulheres, das raças, das minorias de qualquer proveniência.

Mais perto de nós, olhemos os desenhos animados, momentos lúdicos da educação dos mais novos no ideário de Walt Disney (1901-1966) que promove os contos infantis de todas as tradições. E o que temos aí? Fábulas em torno do bem e do mal passadas às crianças e aos jovens onde impera a violência e o triunfo sobre a mesma, exponenciadas pelas mais recentes sagas dos super heróis dirigidas ao universo juvenil: Super homem, Batman, Mulher maravilha, Homem aranha, Capitão américa, Thor, Volverine… Há de facto por parte das sociedades e das culturas a perceção de que o processo natural da vida é violento, competindo a cada um relativizá-lo e empenhar-se efetivamente para que o bem, a verdade e a paz triunfem, mesmo que a espaços. Tal desiderato não é fácil porque até os hinos nacionais de praticamente todos os países são bélicos, apelos constantes à luta de uns contra os outros, do duro triunfo de cada povo sobre os seus adversários. Nenhum é de inclusão, todos são de fragmentação e se mais não houvesse, num mundo perfeito, não há barreiras entre uns e outros porque no princípio o mundo era uno, habitado pela mesma Humanidade.

E se os gregos antigos já se queixavam que o mundo não tinha salvação porque os indivíduos em idades jovens apenas diziam disparates e agiam despropositadamente, referindo os educadores que cada criança e jovem devia ser tratado como se fosse um pau torto, tendo os mais velhos, com a educação prestada, que os endireitar, a que os modernos acrescentaram, veja-se por exemplo John Locke (1632-1704), a imagem de crianças e jovens como uma espécie de tábua em branco onde os ensinamentos do dia a dia devem ser fixados: ciência e conhecimento, normas e regras de vida, do fazer e do agir. A violência gratuita entre os mais novos sempre foi uma realidade, mesmo a verbal e a de género. Classificar uns e outros e umas e outras de feios e feias, cromos e cromas, anões e escadotes, esqueléticos e anafados, narigudos, orelhudos, etc, infelizmente foi e é uma prática social tolerável. A diferença agora é que as designações locais passaram a globais, o que demorava tempo a saber-se e muitas vezes só quando estava resolvido se tonava público, é, agora, pré anunciado para todos e em todo o mundo sem qualquer pudor e sentido de responsabilidade. A juventude sabe que as consequências pelos atos que anunciam e de facto praticam, serão nulas ou quase: os direitos da infância e da juventude atenuam a quase totalidade das transgressões. Sempre foi consensual que a infância e a juventude são fases complicadas da vida, alheadas, ainda, de um saber, de uma experiência e de uma vivência, que permita distinguir com clareza o bem e o mal. E hoje como ninguém parece distingui-lo, desde os pais, aos professores, passando pelos políticos que nos governam e aqueles que dirigem as igrejas, a situação não melhora, antes pelo contrário: passamos todos a habitar na era dos coitadinhos!

Os jovens hoje passam muito tempo ou quase todo o tempo isolados? Isso não é verdade, porque o convívio dos jovens com os mais velhos sempre foi reduzido. Uns e outros sempre se separaram entre eles, os mais novos, na sua solidão, nos quartos ou outros aposentos, ou em qualquer lado com quem quer que fosse mais próximo das suas idades. E estavam muito mais horas isolados numa espécie de autogestão, porque a escola não era obrigatória e a que havia, por norma, só ocupava uma parte do dia: ou a manhã, ou a tarde. Sim: não tinham computadores nem smartphones ligados a todo o momento a tudo e a todos. Mas esta nova realidade até proporcionou muito mais tempo de convívio e presença de uns com os outros do que nos tempos idos, mesmo que agora haja a particularidade de estarem sentados na mesma sala, na mesma mesa, no mesmo restaurante, todos os membros de uma família, que escolhem entreter-se na proximidade ausente uns dos outros, porque todos permanecem em silêncio a olhar o ecrã que têm à frente: o pai não sabe o que a mãe está a ver, esta não imagina o que o pai está a escutar e os filhos, em atitude mimética veem e ouvem o que querem e lhes apetece, todos eles de headphones nos ouvidos.

Ora se a escola pretende moldar as crianças e os jovens a um certo estilo de vida e a uma determinada interpretação da realidade, como pode a sociedade, as famílias e as pessoas permitir uma internet negra ao serviço das crianças e jovens? São os pais que devem vigiar as crianças? Em parte, sim, em parte, não. E como o podem fazer quando as crianças crescem sem compreender bem a quem pertencem?: se ao pai, se à mãe alternadamente; se contra o pai ou contra a mãe na maior parte dos dias; se como seres em crescimento a que apenas se provê o conforto mínimo e as necessidades básicas? Se seres vagantes entre uns e outros, seres em confusão entre laços de toda a espécie: daqueles que por natureza são os seus; dos que apenas lhe pertencem por afinidade; dos que têm que partilhar sem desejar ou querer. E nesta confusão, vem ainda o Estado decretar no espírito da lei o superior interesse da criança, que devia apenas consistir no bom senso e na obrigação estrita de cada criança ser cuidada e protegida por todos: família, sociedade, Estado. O resto é entretenimento porque se sabe, recorrendo aos dados das ciências, que até uma certa idade a criança toma as decisões de forma egoísta e emocional, sem perceber nem antes nem depois de as tomar, as reais consequências dos seus atos. Este período acontece até à designada, na terminologia antiga, Idade da Razão, que é a idade em que cada membro da espécie humana, de forma livre, consciente e racional está em condições de avaliar as consequências dos seus atos, distinguir o bem e o mal, e assumir a responsabilidade pela sua conduta, qualquer que ela seja. A idade da razão, durante séculos, era apontada próximo dos 7 anos.

Os tempos mudaram, é certo. Mas os seres humanos continuam a nascer e a desenvolver se exatamente da mesma maneira. Na generalidade, nascem ou com um corpo biológico e fisiológico masculino ou feminino que desenvolvem ao longo do tempo. Sob o signo da cultura woke que se tem tornado quase lei de Estado, o que fazem as sociedades e as escolas? Começam desde o inicio a confundir questões de natureza com apropriações de cultura. Não se escolhe ser masculino ou feminino: nasce-se, genericamente, feminino ou masculino. O género nada tem que ver com o preconceito que se instalou de que sendo neutros na infância, então, quando na adolescência as naturais transformações fisiológicas e biológicas trouxerem a cada um o interesse sexual, a vontade, o desejo e o prazer de partilhar o corpo com o corpo de outrem, possam escolher sem preconceitos, para a satisfação dos instintos carnais, seres de um ou outro género. Essa escolha não tem nada a ver com a educação: haverá sempre exceções, mas por norma, como bem narra o mito do andrógeno que Platão expõe em O banquete, 189d-193e, narrativa semelhante à de outras culturas e civilizações sobre o mesmo assunto, inicialmente, os seres humanos encontravam-se unidos por troncos esféricos e ao tentar invadir a residência dos deuses, o Olimpo, Zeus castigou-os cortando-os ao meio, fazendo de um, dois, representando cada um metade de um todo de que se encontra afastado, mas que afincadamente procura a outra parcela. O desejo pela união é aqui representado pelo Amor. Quando se encontravam unidos uns seres eram femininos, originados da terra, outros masculinos, originados do sol, o andrógeno (que participa de ambos) originado da lua, é o único originariamente heterossexual. Os que foram cortados de Andróginos sentem atração por mulheres, os que foram cortados de Andros sentem atração por homens e mulheres e os que são cortes de Gynos sentem atração por outras mulheres. Era apenas isto que se transmitia a uns e outros. Mas a contemporaneidade não tendo que fazer a tantos intelectuais e eruditos que as suas escolas certificam, passou a desprezar as grandes narrativas porque são ilusórias, mesmo que integradoras, e apostou na compartimentação do conhecimento, onde para justificar o investimento feito na formação dos novos fazedores da ciência, passa a alimentar as ideias mais disparatadas e contraditórias sobre tudo e mais alguma coisa.

Também não me parece feliz a associação que a série e aqueles que a seguiram fazem do conceito incel no que diz respeito à teoria dos celibatários involuntários, associando o crime cometido à ideia de rejeição amorosa, neste caso, da figura masculina. Tentar convencer um jovem de 13 anos a alimentar comportamentos de rebaixamento e discriminação sobre o universo feminino, é algo que ao que parece abunda pela internet. Coisa diferente é associar um crime de um adolescente em transição, com a ideia de que as mulheres não gostam dele e dificilmente conseguirá uma relação física com elas, restando-lhe o celibato, a ausência de relações sexuais, que não deseja nem quer. Ora isto é um disparate porque os jovens, mesmo com a liberalidade sexual atual, iniciam, por norma, a sua vida sexual algum tempo depois dos 13 anos, e, na verdade, para ter sexo, hoje como sempre, é só preciso ter algum dinheiro e comprar momentos de prazer com alguém que livremente lhos disponibilize.

Se as mesmas constatações se repetem ao longo dos tempos por gente diversa e atenta, com a maciez dos adultos face àqueles que têm por obrigação educar, com a assunção de direitos sem lhes associar os deveres intrínsecos, com receio do principio da legalidade que prevalece sobre tudo e sobre todos, que sobrepõe o autoritarismo à autoridade, o que esperam das crianças e dos jovens que cedo se apercebem que dificilmente os seus atos lhes irão acarretar consequências graves? Veja-se o exemplo da frequência escolar: sob o princípio da autoridade e do respeito devido a uns e a outros, alunos e alunas que não acatassem os seus deveres básicos, como o respeito aos professores, aos colegas, ao restante pessoal escolar, bem como a frequência de aulas, eram rapidamente excluídos da escola e da frequência escolar. Agora, com a escolaridade obrigatória até aos 18 anos e com a liberalidade legalmente instalada na relação pedagógica, os meninos e as meninas sabem que podem ser mal educados e desrespeitosos com os professores e professoras, como sabem que ter mais ou menos faltas às aulas para nada interessa. Num caso e noutro, a legalidade exige que a escola os retenha por lá até aos 18 anos. Assim sendo, é natural que os professores e as professoras que para nada contam nestes procedimentos se ausentem por completo do processo educativo. Estão ali como uma espécie de guardadores de meninos e meninas que se revezam várias vezes por dia cumprido as diretivas de quem lhes paga, porque precisam de ganhar dinheiro para suprir às despesas. Nem os políticos e muito menos quem dirige as escolas, que na generalidade são mais intransigentes que os políticos de quem dependem, fazem o que quer que seja para lá de satisfazer os caprichos dos meninos e das meninas: sejam quais forem, eles e elas terão sempre razão. Os professores e as professoras tornaram-se os tiranos que a atualidade já não consente e as crianças e jovens, neste entretanto, fazem o que querem e como querem, porque sabem que os seus atos poucas ou nenhumas consequências adversas lhes irão acarretar. Shakespeare pronunciava-se assim, ou fazia dizer a uma das suas múltiplas personagens: “a desgraça destes tempos é que os loucos guiam os cegos” e Dostoievski (1821-1881) mais perto de nós e já inserido nas mudanças da modernidade relevava que “a tolerância chegará a tal ponto que as pessoas inteligentes serão proibidas de fazer qualquer reflexão para não ofender os imbecis”.

Não resta qualquer dúvida que as correções feitas, e bem, em assuntos de impacto universal que têm que ver como a sociedade se organiza e se estrutura, foram e continuam a ser da maior urgência e utilidade e devem obedecer ao respeito absoluto por todos os seres humanos independentemente do sexo, raça, religião, condição social, formação, etc: “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um”, refere-se em Gálatas, 3, 28.  Devemos ter presente que este é apenas um ideário a perseguir e que jamais será conseguido. Basta lembrar que no tempo da escravatura pelas novas terras da América os escravos e escravas quando eram alforriados, tornados cidadãos livres de pleno direito, esmagadoramente iam comprar outros cidadãos e cidadãs seus iguais, que submetiam à mesma escravatura de que tinham padecido, na ignorância de que permitir os mesmos direitos e exigir idênticos deveres a todos e a todas, é condição fundamental para uma sociedade mais justa. Mas confundir assuntos essenciais com opiniões e formas de vida particulares que acabam por se impor unilateralmente à imensa maioria que se torna silenciosa e compactua com o que não conhece e que os ignorantes certificados lhe transmitem, a coisa já é outra. A mudança, qualquer que ela seja, requer apenas simplicidade e bom senso, nada mais, pois como refere o matemático e filósofo Bertrand Russel: “A boa vida é aquela que é inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento”.

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Artur Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.

AMORIM DE CARVALHO EVOCAÇÃO DA VIDA E OBRA – por Artur Manso

AMORIM DE CARVALHO
  EVOCAÇÃO DA SUA VIDA E OBRA 
  NOS CENTO E VINTE ANOS DO NASCIMENTO  

No presente ano de 2024, comemoram-se 120 anos do nascimento de Amorim de Carvalho (Porto, 1904-Paris, 1976), distinto intelectual que Portugal conheceu no século XX, tendo-se afirmado como poeta, ensaísta, crítico e filósofo.

Autodidata multifacetado que adquiriu um vasto saber e uma sólida cultura, obtendo o doutoramento em Filosofia na prestigiada Sorbonne com a tese De la connaissance en général à la connaissance esthétique, tendo Étienne Souriau (1892-1979) e Mikel Dufrénne (1910-1995), eminentes e prestigiados estetas que o século XX conheceu, estado no júri que lhe avaliou as provas. Continuar a ler “AMORIM DE CARVALHO EVOCAÇÃO DA VIDA E OBRA – por Artur Manso”

IN MEMORIAM PAULO LÚCIO / LÚCIO VALIUM – por Artur Manso

Paulo Lúcio / Lúcio Valium

A caminho da sexta década da existência temporal, o Paulo Lúcio fechou os olhos, cerrou os ouvidos, os pulmões deixaram de arfar e o coração parou de bater. A experiência chegou ao fim. Não sabemos de onde vimos, nem para onde vamos, mas a tremenda simplicidade do ser humano que se multiplica numa torrente de improbabilidades contínuas em um ambiente tão adverso é, para mim, um indicador que nesta dimensão, apenas passamos uma parte daquilo que realmente somos. Com a morte, ultrapassamos a estranheza deste lugar que nos acolhe sem sabermos porquê nem para quê!

Conheci o Paulo Lúcio há mais de trinta anos quando ambos frequentávamos a Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Começamos a ser amigos nas salas de cinema, e só depois nos cafés. Eu trabalhava e estudava para aumentar a cultura e o saber nas áreas que me cativavam; as humanidades e as artes.

Na altura ainda havia todos os anos uma dezena de produções cinematográficas que valia a pena ver, a que se acrescentavam diversas reposições. Pelos meus afazeres e para não as perder, tinha que aproveitar as matinés. Percorria por isso, a quase totalidade das salas de cinema nas tardes de um qualquer dia de semana e quando estava sentado à espera que as luzes se apagassem e a sessão tivesse início, era frequente entrar, sem qualquer combinação, o Paulo Lúcio.

E do cinema vinham as conversas acerca do que interessava a ambos: poesia, música, literatura, filosofia. Cavaqueira sobre estes assuntos a partir do que os autores faziam. Nunca o habitual diálogo sobre o que este ou aquele, o que neste programa televisivo ou página de crítica se diz e escreve sobre o assunto. Ambos detestávamos a critica e a fraca qualidade que a mesma apresenta, porque sabíamos que uma boa parte dela é retomada, com breves adaptações, das revistas internacionais da especialidade que por cá são pouco conhecidas, como, no caso do cinema, os prestigiados Cahiers du Cinéma.

Era nesse espírito que bebíamos frequentemente uns copos, em grupo mais alargado, aqui e ali, e, num período de tempo, em casa dele que prolongávamos depois da jantarada simpaticamente servidos por ele e a sua companheira da altura, a Céu, a que se juntava a pequena criança de ambos, a Ana. Elas iam dormir que se fazia tarde. Nós continuávamos a noite entre copos, livros e música. A criança que veio depois, a Catarina, só a conheci em mais um acaso, anos mais tarde, num berreiro com a irmã e os pais num dia quente de agosto amenizado pelo estacionamento refrigerado de um centro comercial.

O Paulo Lúcio adorava ler textos à sorte que compunham um lote restrito de preferências, dentre os muitos que se encontravam espalhados pela mesa, e lia bem. Mas também lia aquilo que escrevia, ele e os restantes convivas. Na altura pouco ou quase nada cada um de nós tinha ainda publicado. Eu viria a publicar mais tarde, o Paulo só agora, por insistência minha e cumplicidade da Júlia Moura Lopes, diretora da Athena, que infelizmente não teve oportunidade de o conhecer, mas que admirava a sua escrita e o seu traço. Desse deslumbramento, ainda brinquei com ele e senti a ironia das palavras que ele sabia que eu apreciava. Dizia-me que eu era um bom tipo e tinha sorte em encontrar pessoas solícitas e amáveis como a Júlia. E eu dizia-lhe que tínhamos uns copos, os três, em divida uns aos outros que, agora, jamais serão retribuídos. Ele traçava com as suas palavras um círculo em torno de si mesmo, das suas e nossas circunstâncias. Já pelo fim, confiou-me um volume inacabado dos seus textos, que espero, com a conivência e bondade da Júlia, pulicar na íntegra.

Fomos sempre amigos especiais, como são os outros poucos que ainda me restam. Conhecemo-nos, convivemos durante anos, fomos cúmplices de umas coisas e de outras. Estivemos sem nos ver e comunicar muitos anos. Encontrávamo-nos quase por acaso, intermitentemente, para ultimamente estarmos mais vezes próximos e aproximados.

Neste tempo, já recordávamos muito mas voltávamos ao comentário do que conhecia bem, nomeadamente a Beat Generation do Jack Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg. Há pouco tempo tínhamos tido, quando entre as pandemias jantamos e lhe levei o ensaio que tinha publicado acerca da morte e do morrer, voltado ao tema da estrada fora, agora um pouco fora da estrada, ou daquela pela qual íamos caminhando. E já bem por uma noite dentro, depois de ter estado a conversar com outro amigo, o Zé Vasconcelos, a propósito do filme Contos da loucura normal de Marco Ferreri, mesmo que o assunto que detinha o fio da conversa fosse a atriz que o protagonizava a bela Ornella Muti. Na verdade, não conseguia identificar nem o filme nem a obra em que se baseava. Para satisfazer a minha ignorância, em vez de perguntar ao Google resolvi ligar ao Paulo Lúcio e estivemos várias horas pela noite dentro, a trocar impressões sobre esse e outros filmes que tão bem conhecia e as obras em que se baseavam, no caso em apreço, Histórias de Loucura normal de Charles Bukowski, autor que o tinha influenciado, na escrita e na vida.

Outras vezes ligava-lhe quando passava por qualquer lugar que ambos tínhamos pisado e costumava atender numa serra qualquer onde descansava o corpo e o olhar, ou algures, junto a uma cozinha onde ultimava uns petiscos para a seguir os partilhar tranquilamente com alguém especial.

E era assim entre nós: conversa inútil sobre coisas fúteis. Sempre com a sua ironia provocante para manter o fio do tempo bem esticado entre todos os momentos, os que passaram e os que se desejavam, plasmado no único tempo que interessa, o presente de então.

Agora o Paulo Lúcio passou a habitar outra dimensão. Melhor, pior, igual, assim, assim, só ele saberá. Como refiro e tendo a acreditar porque de facto sou crente, a eternidade pode ter que ver com as coisas terrenas, mas não é espectável que uns e outros se encontrem tal qual se anuncia.

Por cá somos imortais enquanto formos recordados. Em outras dimensões nada sabemos e com certeza não seremos tal qual aquilo que por aqui fomos. Querido amigo, quando te digo até sempre, é mesmo isso, porque a conversa acabou e não voltaremos a habitar os mesmos lugares na companhia um do outro. E suspeito que na eternidade não nos reconheceremos porque por aqui vemos em espelho e na perpetuidade face a face. Mas o que isso realmente significa, por agora, só tu é que sabes!

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Artur Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.

DA ERRÂNCIA DO MAL (…..) – EDITORIAL – por Artur Manso

“A Guerra” by Sara Vasconcelos

…OU DA NATUREZA DA HUMANIDADE

 

Onde está o perigo cresce também o que salva

Holderlin

24 de fevereiro de 2022. Mais uma vez, em plena Europa, a Rússia, Pátria de Gogol, Turguêniev, Tchékhov, Dostoiévski, Tolstoi, Pushkin, Borodin, Stravinsky, Eisenstein, Tarkóvski, por decisão do seu governo presidido por Vladimir Putin, irrompeu pela vizinha Ucrânia, causando destruição, sofrimento e morte inusitadas, sem qualquer propósito para lá do domínio territorial e da desmesurada manifestação brutal da força bélica. Mais uma vez milhões de pessoas que apenas querem ter uma existência tranquila, são expulsas do seu território que a força das armas reduz a escombros. A segunda grande guerra na Europa só findou em 1945, a horrível guerra na ex Jugoslávia teve inicio nos anos de 1990 e arrastou-se até ao inicio do século XXI. A invasão do Iraque aconteceu em 2003. Na Síria decorre uma guerra civil que foi iniciada em março 2011. Se a isto juntarmos diversos conflitos menores e a sangrenta e quase permanente disputa entre israelitas e palestinianos, os confrontos na Irlanda (só em julho de 2005 o IRA anuncia o fim da luta armada) ou no vizinho País Basco (só em janeiro de 2011 a ETA adotou o cessar-fogo permanente), o ataque às torres gémeas nos Estados Unidos da América a 11 setembro 2001, os massacres em França, do Charlie Hebdo a 7 janeiro 2015 e em 14 novembro no teatro Bataclan, ficamos com uma panorâmica recente da peregrinação do mal e da guerra. Como lembra o dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956), seja por questões metafísicas ou por corriqueiros interesses materiais, a civilização que os homens construíram, tal como relatado na Bíblia, em Homero, nos trágicos gregos, Shakespeare, Dante, Cervantes e tantos outros, está a transbordar de guerras cruéis e fratricidas, dos maiores horrores e atrocidades. Também Hanna Arendt ao relatar os testemunhos dos carrascos julgados no pós guerra, conclui que a natureza humana é servil aos maus instintos daqueles que detêm o poder, levando pessoas normais a obedecer cegamente e provocar sofrimento nos seus semelhantes. Continuar a ler “DA ERRÂNCIA DO MAL (…..) – EDITORIAL – por Artur Manso”

O AMOR PLATÓNICO: Fragmento a Propósito de um Equívoco – por A. Sarmento Manso

Foto by Paulo Burnay

Platão é um grande exegeta do amor, tratando-o de forma única, deixando um lastro de desejo e luxúria que perdura até à atualidade em qualquer das suas manifestações: homossexual, heterossexual, bissexual, espiritual. No entanto dessa herança ressalta de boca em boca uma ambiguidade em torno daquilo que passou a designar-se de amor platónico expressão cunhada por Marsílio Ficino (1433-1499). Os estudiosos mais atentos vão enunciando o seu verdadeiro significado, mas raramente, nesse pormenor, saem do enredo em que a tradição o confinou. Platão nos diálogos O banquete e Fedro trata do amor físico e metafísico, abrangendo em simultâneo o corpo e a alma, a carne e o espírito, a sedução e a contemplação. Continuar a ler “O AMOR PLATÓNICO: Fragmento a Propósito de um Equívoco – por A. Sarmento Manso”

EXCERTO DE “BREVE É TODA A VIDA”- por Artur Manso

Para uma pedagogia da morte e do morrer.

A questão

Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.

Séneca 

As décadas finais do século XX introduziram a sociedade ocidental em uma nova relação com a morte, atitude que se veio a extremar ao longo do primeiro quartel do seculo XXI onde a máxima de Confúcio “aprende a viver como deves, e saberás morrer bem” parece ter sido compreendida de forma defeituosa. O que se passou para Continuar a ler “EXCERTO DE “BREVE É TODA A VIDA”- por Artur Manso”