
Tempo de infância. Voz da eternidade que lá mora
Vergílio Ferreira
Que a infância é estranha, é uma doença imóvel.
Tem um íman no meio.
Herberto Helder
[….…]
como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura
José Tolentino Mendonça
Nas últimas décadas gerou-se um alvoroço inusitado em torno da infância, tempo que todos os adultos sem exceção viveram e são educados para o esquecer. Hoje é pela valorização enquanto pessoas humanas o que não acontecia, de facto, até ao século XX: pela garantia dos seus direitos anexados ao seu estado sensível, ainda longe do pensamento lógico-formal, do uso escorreito da razão, que só acontece pela adolescência. Até os Evangelhos que relatam os ensinamentos de Jesus, textos fundadores de uma visão igualitária da condição da criança e da mulher, no episódio da multiplicação dos pães, destacam essa subalternização: “os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças”. Mulheres e crianças passaram por séculos de desprezo e indiferença total.
Erraticamente, hoje, com tanto saber de experiência e ciência feito sobre o assunto, proliferam juízos sobre o ser criança enredados em vontades e desejos, pouco sensatos e ponderados. Na análise da infância, passou-se do oito ao oitenta. Na atualidade, no espaço da cultura ocidental, a proteção e consideração da infância é desmedida, quer do ponto de vista do lugar que ocupam na sociedade, quer na maneira de encarar a inocência que se diz serem portadoras. As diversas particularidades da criança cujo quotidiano não é regido pelo pensamento lógico-formal, se não forem consideradas por aproximação e simpatia, em reflexo, não farão bem ao seu desenvolvimento nem à sua relação com os adultos que as cuidam, quer em família, quer em sociedade. Agora pretende-se que se pronunciem sobre tudo e mais alguma coisa, validando-lhes posições ético-morais em qualquer idade como se de adultos se tratasse, recorrendo ao avanço científico que contradiz essas decisões pura e simplesmente porque os juízos morais, tal como os juízos de facto, dependem de uma série de fatores do desenvolvimento e maturidade intelectual que acontece em fases diferentes na vida de cada um e cada uma. Basta ler a obra de Jean Piaget (1896-1980) que fundou uma teoria do conhecimento a partir do estudo da gênese psicológica do pensamento humano e atender aos estádios de desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg (1927-1987). Hoje em um e outro lado há mais conhecimento, sim. Mas uma parte substancial dos problemas de interpretação dos ‘distúrbios’ exagerados e empolados sobre o desenvolvimento infantil devêm do falacioso “princípio da igualdade” que as democracias ocidentais introduziram na consideração da infância, por pressão das famílias e da sociedade. É sabido pelos melhores estudos que a aprendizagem cognitiva depende de criança para criança e que ocorre em períodos largos de tempo. Mas as escolas que os Estados controlam na totalidade, criaram a falsa ideia que entrando todas as crianças em idade igual num ciclo de estudo, todas estão em igual condição de atingir os objetivos mínimos de aprendizagem não havendo por isso razão para umas progredirem e outras estagnarem ou esperarem pelo tempo oportuno para, cognitivamente, consolidarem as aprendizagens e transitar para conhecimentos mais complexos sem ter aprendido os mais simples, procedimento que é contraproducente e violador do próprio sentimento da infância.
Pela minha parte continuo a reiterar que o superior interesse da criança é ser bem cuidada, amada e protegida, na família, no meio alargado e no Estado, nada mais. O resto é conversa para entreter académicos que precisam disso para ganhar a vida e colocar a imensa multidão que sobre o assunto nada sabe, em conflito permanente empurrando para o sistema legal decisões que manifestamente não lhes competem, tanto mais que quem legisla e quem aplica a lei, pouco pensou sobre o assunto e pouca ou nenhuma informação tem sobre a condição de ser criança, conduzindo as suas decisões por opiniões sem qualquer suporte científico ou racional. O critério que preside a uns e outros é: este ou esta que ganharam o estatuto de influenciadores, na TV, nas redes sociais ou livros de auto-ajuda, sobre este assunto, qualquer que seja o assunto, dizem que… Quem gere as escolas e aqueles e aquelas que nelas ensinam, sabem muito bem, ou deveriam saber já que passaram tantos anos a estudar os conteúdos do ensino e da aprendizagem, que a aprendizagem cognitiva, que é dessa que o ensino universal e obrigatório trata, é uma atividade de igual complexidade como aprender e desenvolver um desporto, uma arte, ou uma profissão diferenciada como seja a carpintaria, a mecânica, a eletrónica, a colunária… O ensino musical não coloca um aprendiz de violino como solista de uma orquestra que se queira séria, um grupo de bailado não coloca um aprendiz como primeiro bailarino, uma equipa de futebol não coloca um sub 15 a titular indiscutível num jogo de final da liga dos campeões. Mas a escola coloca todos os meninos e meninas de 6 anos no primeiro grau de ensino e decide que universalmente eles e elas não se irão diferenciar até à conclusão dos estudos.
São da transição do século XIX para o XX, os importantes trabalhos de Freud, sobre o assunto que, dignificando a criança, a colocam no seu devido lugar em relação aos adultos que a cuidam e à sociedade que a acolhe. Depois do idílio infantil que ingenuamente os adultos nas últimas décadas foram alimentando, e depois dos abusos indiscriminados que a falta de compreensão da condição infantil foi gerando, já é pelo menos, agora, tolerável, considerar, com recurso à prática de quem as cuida notar os laivos de um Pequeno ditador, na descrição de Javier Urra, ou O pequeno tirano, no relato de Jirina Prekop. É tempo de deixar as crianças serem crianças e entregar os casos patológicos, que são infinitamente menos do que aqueles que se apregoam, a quem tem formação e saber para tratar deles com inteira autonomia e responsabilidade de todos os envolvidos. A psicóloga Margarida Gaspar de Matos em um ensaio sobre a adolescência afirma com muita propriedade: “o adolescente tende a sobrevalorizar o grau de interesse que os outros têm nele – está sempre em ‘modo’ centro das atenções”.
Estar atento a estas e outras artimanhas semelhantes, é um grande avanço para a efetiva consideração que a infância deve merecer a todos e todas, sem subterfúgios nem sentimentalismos bacocos e enganadores. A educação familiar foi muito perdulária na relação criança/adulto, colocando-as em lugar subalterno. E a formação escolar alargada, fez durante séculos jus a essa maneira de encarar a infância, dizendo o poeta português Guerra Junqueiro “Isto escolas!… que indecência / Escolas, esta farsada! / são açougues de inocência, / são talhos de anjos, mais nada”. Acrescento: escola e sociedade de que a primeira é parte integrante.
Entre os vários textos em que o olhar teórico e estético sobre a infância me vai ocupando destaco o último capítulo do ensaio Educação estética. O belo enquanto manifestação do bem (2024) onde percorro diversas aproximações à mesma, destacando a singular interpretação de Agostinho da Silva, que no seu jeito provocatório na Conversa Vadia com Manuel António Pina (24/05/1990) refere:
eu costumo brincar com a palavra adulto dizendo que o que acontece com as crianças é que, quando chegam aí pelos 14, 15 anos, cortam-nas, fazem-nas parar, e juntam-lhes outro bocado de um adulto – de onde veio o verbo adulterar. Quer dizer, toda a criança é adulterada porque lhe colou um adulto. Vamos ver se um dia se veem livres disso e conseguem viver até ao fim com a capacidade de imaginação e de criação que, em geral, todas as crianças têm.
Agostinho foi leitor e hermeneuta de Fernando Pessoa, que em discurso poético impressivo do eu de cada um, fez a alma dizer em sentimento:
Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.
E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.
Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.
É um mistério como a criança deixa de ser criança e se torna adulto, parecendo devir outro ser que coloca no recalcado ou no id esse intervalo de tempo, que em condições normais de desenvolvimento, que são felizmente maioritárias, é o mais autêntico e feliz da sua vida: sem conceitos nem preconceitos, apenas com a vontade infinita de fazer, desfazer, refazer os lugares que vai habitando, onde cada momento é a vida toda e toda a vida se faz e desfaz numa aventura rumo a um tempo sem fim.
George Orwell em um ensaio sobre Dickens, autor que muito escreveu sobre crianças e jovens em desenvolvimento e em sofrimento, refere que o século XIX não foi “uma altura boa para se ser criança, dominava a doutrina de que era preciso ‘’vergar o espírito’ das crianças. Milhares de crianças, às vezes apenas com seis anos, trabalhavam literalmente até morrer nas minas ou nas fábricas de têxteis, e mesmo nas public schools da moda, açoitavam-se os alunos até fazer sangue por darem erros em latim”. O séc XIX encarnava todos os tempos com nuances diferentes: tempos em que ser criança era estar sujeito/a a tudo: sevícias de toda a espécie, abusos, violações, mortes… com tolerância máxima para os agressores.
Como também hoje é realçado em todas as análises sobre a infância por parte dos adultos que só no decaimento das suas vidas dela se voltam a ocupar, mesmo que só em ressentida evocação, refere o mesmo autor, retrocedendo ainda mais no tempo de felicidade plena: “É difícil não ter a sensação de que o objetivo inconsciente de todos os prazeres típicos do mundo moderno é o retorno ao útero materno. Porque também ´nunca se estava sozinho, nunca se via a luz do dia, a temperatura era constante, não tínhamos de nos preocupar com comida ou trabalho, e os pensamentos (se é que os havia) eram abafados por um pulsar ritmado e contínuo”. A vida intrauterina é de facto outro grande mistério, de desconhecimento total naquilo que é o seu impacto no desenvolvimento de cada um, que, nesta dimensão das criaturas humanas, permanecerá para sempre. E é tão impressivo que durante toda a vida, a posição de descanso mais confortável, continuará a ser aquela em que o feto se torna criança e mantém até ver a luz do dia. Nos tempos que correm, até esta felicidade originária querem retirar a cada criança que maioritariamente ainda pode gozar da vida intrauterina, fazendo-as, aí, analisar e psicanalisar a seu modo e de acordo com os traumas que os adultos que as cuidam transportam, como escrevia a meio do século XX Jorge Amado, para cada uma nascer já com um complexo, uma neurose, um trauma, à sua escolha, ou melhor, autoimposto.
Vale a pena ler as recordações de infância do poeta do Marão, Teixeira de Pascoaes, porque nos fornece um olhar da infância sob o olhar do adulto e o que a nostalgia do passado representa na desilusão do futuro. O olhar poético, desprendido da imediatez e preocupado com o significado do que acontece quando crescemos e nos inquietamos com os fragmentos que se desprenderam de uma totalidade que pressentimos mas não alcançamos, esbarra com a factualidade de aqueles e aquelas que nos pareciam deuses e deusas quase inacessíveis e se tornam na nossa adultez, outros de nós, com as mesmas preocupações e ocupações, olhando para a infância deixada lá longe, num lugar, agora quase mitológico, onde tudo é perfeito e a visão límpida das coisas invocava o poder de um qualquer deus que assim as tinha criado: “Vivemos porque a vida é êxtase, espanto, enlevo, simpatia, um impressão alada em que se volatiliza o nosso ser e vai através do espaço”. À medida que crescemos, vamos sepultando a infância num lugar distante, coberto de neblina que nos impede de a olhar: “infância é uma nuvem, como a velhice é uma pedra: nuvem que abrange tudo, pedra que tudo restringe à sua forma dura e recortada”. A infância conserva o segredo das origens e a luz que tudo ilumina: “Para os meus olhos de criança, as coisas não eram exteriores, não existiam; viviam a vida pura, que é só alma, intimidade, substância eterna, em vez de forma transitória. O resgatar da infância torna suportável o ocaso da vida que quase sempre acaba por se nos apresentar um projeto mal realizado porque em prol da razão esqueceu a emoção, em prol da lei e da ordem, fez com que cada um e cada uma, se tornasse construtor de uma realidade que pouco lhe diz. A adultez torna-nos coproprietários de um condomínio organizado racionalmente que nos impede de ver para lá dos seus muros: “A criança que fui jaz em mim como na terra dum cemitério; mas a minha infância vive ainda. É imortal esse sentimento da origem, que é o substratum da memória, onde as recordações deitam raízes e absorvem as seivas que as alimenta. É dessa profundidade que alvoram aleluias, pressentimentos de Deus e do infinito, primaveras que, durante um momento, nos enchem a vida de flores”. A beleza era-nos espontânea e com ela adornávamos o nosso quotidiano: “Para uma criança todas as coisas têm um valor transcendente; e a sua vida é um êxtase de luz”.
Enquanto crianças vemos o mundo como uma construção de um deus maior, onde tudo tem uma razão de ser e ocupa um lugar adequado. A infância é o tempo de refazer o mundo que herdamos de Deus. É desprendimento e brincadeira, a adaptação do olhar às coisas ainda não vistas. Na infância sentimos o mundo e pressentimos o divino. Bailamos e pulamos ao som de vozes estridentes e de comportamentos humanos de cunho coletivo, que confunde o profano e o sagrado, transformando os adultos, aqui e ali, em condutores infantis de brinquedos coloridos e reluzentes, que querem, a espaços, continuar a brincar, tal como os Madredeus consubstanciam, ao ritmo da música e pelo encanto da voz em A Vaca de Fogo:
À porta daquela igreja
Vai um grande corrupio
Às voltas de uma coisa velha
Reina grande confusão
Os putos já fogem dela
Deitam fogo a rebentar
Soltaram uma vaca em chamas
Com um homem a guiar
São voltas
Ai, amor, são voltas
São as voltas da maralha
Ai, são voltas
Ai, amor, são voltas
São as voltas da canalha
À porta daquela igreja
Vive o ser tradicional
Às voltas de uma coisa velha
E não muda a condição.
Termino, na roda da canalha, voltando ao início, e desejando que a educação em todas as suas dimensões, se esforce por preservar a essência da infância, ao texto primordial em defesa das crianças, aquele que os Evangelhos popularizaram da pregação de Jesus. Mas sigo, a singular exposição do acontecimento de Giovanni Papini, por serem palavras simples que incluem, sobre o assunto, tudo que mais importa:
.Jesus, por Si, firmava a sua infantilidade e declarava-Se sem vergonha idêntico às crianças que o cercavam. O santo, o pobre, o poeta .apresenta-se sob este novo aspeto que resume tudo: a criança, que é .limpa e cândida como o santo, nua e necessitada como o pobre, .maravilhada e amorável como o poeta. Jesus não ama as crianças apenas como modelos inconscientes dos candidatos à perfeição do Reino, mas também como os verdadeiros mediadores da verdade. A sua ignorância é mais iluminada que a sabedoria dos doutores; a sua ingenuidade é mais poderosa que o génio espelhado em eloquentes tecidos de raciocínios. Só um espelho nítido e limpo pode refletir a .revelação.
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Artur Manso, É diretor adjunto da Revista Athena.pt. Nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.









tifacetado que adquiriu um vasto saber e uma sólida cultura, obtendo o doutoramento em Filosofia na prestigiada Sorbonne com a tese De la connaissance en général à la connaissance esthétique, tendo Étienne Souriau (1892-1979) e Mikel Dufrénne (1910-1995), eminentes e prestigiados estetas que o século XX conheceu, estado no júri que lhe avaliou as provas. 




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