DA ERRÂNCIA DO MAL (…..) – EDITORIAL – por Artur Manso

“A Guerra” by Sara Vasconcelos

…OU DA NATUREZA DA HUMANIDADE

 

Onde está o perigo cresce também o que salva

Holderlin

24 de fevereiro de 2022. Mais uma vez, em plena Europa, a Rússia, Pátria de Gogol, Turguêniev, Tchékhov, Dostoiévski, Tolstoi, Pushkin, Borodin, Stravinsky, Eisenstein, Tarkóvski, por decisão do seu governo presidido por Vladimir Putin, irrompeu pela vizinha Ucrânia, causando destruição, sofrimento e morte inusitadas, sem qualquer propósito para lá do domínio territorial e da desmesurada manifestação brutal da força bélica. Mais uma vez milhões de pessoas que apenas querem ter uma existência tranquila, são expulsas do seu território que a força das armas reduz a escombros. A segunda grande guerra na Europa só findou em 1945, a horrível guerra na ex Jugoslávia teve inicio nos anos de 1990 e arrastou-se até ao inicio do século XXI. A invasão do Iraque aconteceu em 2003. Na Síria decorre uma guerra civil que foi iniciada em março 2011. Se a isto juntarmos diversos conflitos menores e a sangrenta e quase permanente disputa entre israelitas e palestinianos, os confrontos na Irlanda (só em julho de 2005 o IRA anuncia o fim da luta armada) ou no vizinho País Basco (só em janeiro de 2011 a ETA adotou o cessar-fogo permanente), o ataque às torres gémeas nos Estados Unidos da América a 11 setembro 2001, os massacres em França, do Charlie Hebdo a 7 janeiro 2015 e em 14 novembro no teatro Bataclan, ficamos com uma panorâmica recente da peregrinação do mal e da guerra. Como lembra o dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956), seja por questões metafísicas ou por corriqueiros interesses materiais, a civilização que os homens construíram, tal como relatado na Bíblia, em Homero, nos trágicos gregos, Shakespeare, Dante, Cervantes e tantos outros, está a transbordar de guerras cruéis e fratricidas, dos maiores horrores e atrocidades. Também Hanna Arendt ao relatar os testemunhos dos carrascos julgados no pós guerra, conclui que a natureza humana é servil aos maus instintos daqueles que detêm o poder, levando pessoas normais a obedecer cegamente e provocar sofrimento nos seus semelhantes.

Os Refugiados de Sara Vasconcelos

Os textos fundantes de todas as civilizações são relatos de conflitos sociais e pessoais. A mitologia grega conta que para a criação do mundo Úrano (céu), parceiro de Gaia (terra), foi derrubado violentamente pelo seu filho Cronos que o castrou para logo de seguida violentar, à semelhança do pai, todos os que o rodeavam devorando os filhos à medida em que nasciam para que nenhum o viesse a derrubar. Tendo Zeus escapado à morte acabará por vencer o pai Cronos e tornar-se o novo tirano. O semideus Prometeu, ao ver que os humanos estavam completamente subjugados e mantidos na ignorância pela crueldade divina decide ofertar-lhes os saberes básicos e as destrezas técnicas para que pudessem viver com liberdade e autonomia, mas os deuses não apreciaram tanta bondade e ordenaram a sua morte de forma violenta e cruel, o mesmo acontecendo com Sísifo que não se poderá libertar do trabalho inútil de arrastar a pedra ao cume da montanha para logo de seguida deslizar de novo para o ponto de origem tornando inglório o esforço despendido. Os mitos da criação bíblica não são menos violentos. Em Génesis, 4 aparece o episódio da morte violenta de Abel pelo seu irmão Caim, lendo-se mais à frente no capítulo 18 o diálogo entre Javé e Abraão que antecede a destruição de Sodoma e Gomorra. O mesmo trilho segue a poesia: Homero escreve a Ilíada história da guerra contra Troia e a Odisseia em que relata as peripécias mais ou menos cruéis a que o herói e estratega do confronto troiano Ulisses é sujeito por ter duvidado da ajuda divina em tão importante conquista que demorou uma década a ser consumada. As tragédias gregas que serviam para acalmar os povos pela comoção que despertavam nos espetadores em torno da dor alheia, que poderia muito bem ser a de cada um, são relatos de uma crueza impressionante: Édipo, Antígona, As bacantes espírito continuado com o mesmo sucesso e igual mestria muitos séculos depois por Shakespeare, que sendo mestre na tragédia e na comédia, a segunda fica ofuscada na violência da primeira em peças que se tornaram, tal como as gregas, imortais: Romeu e Julieta (1592), Hamlet (1599) Rei Lear (1605) Macbeth (1606). A mudança de paradigma anunciada no Evangelho de Cristo também não foge ao temor e tremor de uma humanidade atormentada. O seu nascimento contorna a vontade dos reis para o matar e a sua morte está envolta em uma crueldade desmedida, relatada no esplendor do mal no filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo (2004) em linha com a secular tradição da semana santa, aquela que antecede a Páscoa católica, nomeadamente em algumas regiões de Espanha e no continente sul americano, em que os participantes ao reviverem esse momento, voluntariamente infligem nos corpos tortura atroz. Mel Gibson também mostra em Apocalypto (2006) a luta entre os homens prosseguida em nome dos deuses, com o aviltamento dos vencidos em rituais sangrentos, no período da civilização Maia. Alguns anos antes já tinha apresentado Braveheart (1995) centrado na figura do guerreiro escocês da época medieval William Wallace, onde transparecem os horrores da guerra por motivos territoriais, neste caso dos povos da escócia contra o domínio imposto pela Inglaterra à altura governada por Eduardo I, queimando e arrasando tudo, matando, violando e aviltando os seres mais indefesos como as mulheres e as crianças. Repare-se, também, na letra sempre guerreira e triunfante dos hinos das Nações.

O iluminismo agarrado a um otimismo desmesurado na natureza humana quis inverter essa tendência, mas as guerras continuaram a ser uma constante entre os povos e mesmo autores otimistas como Rousseau e Voltaire deixaram-se enredar na teia da desgraça, tornando-a omnipresente. Voltaire quer assumir no Cândido as virtudes de um mundo humanamente bem ordenado, mas nada pode contra a revolta da natureza que exemplifica no terramoto de Lisboa (1755). Paradoxalmente, como lembra Baudelaire, poeta e critico da modernidade, fora do legado cultural enquanto criação humana, não há qualquer possibilidade de aperfeiçoamento individual. O problema é que essa herança se constrói sobre o aviltamento da condição humana, da escravatura, de que são exemplo as grandes obras que nos habituamos a admirar. O progresso é fruto da violência e não limita nem atenua a peregrinação do mal que continuará na melhor literatura, poesia e arte em geral, juntamente com a ciência, a explorar a fraqueza de que os humanos são feitos e a sua obsessão pela destruição. Desta forma, é apenas uma questão de tempo para se saber quem continuará a maldade de Putin.

O russo Dostoiévski fez dizer ao príncipe Míchkin, personagem de O idiota que “a beleza salvará o mundo”, mas a evolução da humanidade é mais concordante com o prenúncio de Jack Landon que em A peste escarlate avança que a violência insana destrói a civilização para de seguida, fruto da criatividade e da ousadia dos indivíduos, invariavelmente, configurarem o caos informe em uma nova ordem que de novo farão perecer: “a sabedoria dos tempos passados, será a dos tempos vindouros. As massas sofrerão labutando como antigamente. E sobre a quantidade enorme de carcaças sangrentas, crescerá sempre a extraordinária beleza da civilização. A história do mundo não deixará de retomar o seu curso eterno”.   

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Artur Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.

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