“BAÚ DA POESIA”: DOIS POEMAS – de Amorim de Carvalho

BALADA HERÓICA DA LIBERDADE[i]

Por altas horas da noite é suspeito quem não há-de
já dormir… Anda a polícia de ronda pela cidade…

Fogem sombras, correm sombras, umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Por altas horas da noite pus-me a pensar: Que sentido
de existência pode haver em se ter ou não nascido?

Que sentido tem o vôo dos homens que à Lua vão,
para quem o vê apenas das grades duma prisão?

Que sentido tem o oiro a arder, ao sol, na seara,
para a noite sem manhã daquele que o semeara?

Ó liberdade do mundo, mas liberdade sem fome!
Ó mundo só inda em alma e por isso inda sem nome!

Por altas horas da noite eu pensei, pensei que um dia
pelo milagre de todos esse mundo se faria…

Nisto ouvi bater à porta, ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrava, e entrou para me dizer

que não pensasse! Este mundo era como Deus o fez…
Desta vez me perdoavam, sem perdoar outra vez.

Corriam, fugiam sombras… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Como faz medo pensar, fiz do pensamento um sonho.
Por altas horas da noite então a sonhar me ponho.

Pus-me a sonhar, a sonhar a mesma ideia querida:
tornar o mundo melhor para dar sentido à vida!

Por altas horas da noite ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrou, entrou para me prender.

Eu lhes disse que era um sonho. Olharam-me face a face.
Não sabiam o que fosse; disseram que eu não sonhasse,

porque o mundo tinha, sempre, de ser como Deus o fez…
Mais uma vez perdoaram, sem perdoar outra vez…

Sombras na noite fugiam… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Como faz medo sonhar, fiz do sonho uma canção.
Cantei-a numa voz alta, alta de revolução!

Não quero o mundo de Deus que fez o Bem com o Mal!
Que Deus se julgue a si próprio no Julgamento Final!

Eu quero o mundo do homem, mas que o homem, livre, o faça
universal como a luz e aberto como uma taça!

Eu não quero a cruz gamada nem o martelo com fouce:
porque este traz a polícia, e aquela a polícia trouxe.

Nem o martelo com fouce, nem a cruz gamada quero!
Quero o arco da aliança a cobrir o mundo inteiro!

Quero as suas sete cores, como bandeiras ao vento,
do amarelo das searas ao azul do pensamento!

Ó Sonho só inda em alma, e por isso inda sem nome,
de homens cidadãos do mundo, mundo livre mas sem fome!

Vamos dar um nome ao Sonho que na nossa alma vive:
a Liberdade no mundo, mundo sem fome mas livre!…

Por altas horas da noite, assim, assim cantei eu
a canção das sete cores, sete bandeiras no céu!

E a minha canção heróica, lívida, linda, suave,
saíu-me louca da boca e voou como uma ave!

Todos põem-se a cantá-la, aonde quer que ela fôr!
Essa canção do meu Sonho! Sonho do mundo melhor!

Já não há sombras que fogem, não há sombras que se escondem.
Mas homens que dão-se as mãos, corações que se respondem!

Batem à porta, alta noite, ouço bater sem parar…
Era a polícia que vinha, vinha para me matar!

Mas já tarde me matou, tarde me matou agora,
que já a minha canção ia pelo mundo fora…

Paris, 1969.

[i] Publicado em Amorim de Carvalho, Angolana. Cântico ao meu Filho. Balada heróica da liberdade. (Três poemas inéditos), Prometeu, Porto, 1990. – [Este poema fôra entregue, no mês de fevereiro de 1977, para publicação, na redacção do jornal «O Diabo», de Lisboa, mas não foi publicado nesse periódico. – J. A. de C.].

♣♣♣

A ÚLTIMA CARTA

…………………………I
Paris, 2 de Novembro.
Meu Amor,
Hoje é o dia dos mortos. Qual seria
a razão de escrever-te neste dia
que é o dia mais triste e de mais dor?

Que sortilégio o além da morte cria
nos que amaram? Todos têm uma flor
de saudade, para a irem depor
junto ao nome duma lápide fria…

Minha saudade é eu estar aqui
a escrever esta carta e a desfolhar
recordações, lembrando-me de ti…

Recordo-me de em horas irreais
me dizeres que havias de voltar
– mas sei, mas sei que já não voltas mais…

…………………………II
Lembras-te, quando nós nos conhecemos?
Eu descobri então a alma tua
formosa como a barca que flutua
ao acaso das ondas e sem remos…

Porque o que nós sonhamos, nós o temos.
E eu descobri teu corpo, como rua
encantada e alumiada pela lua
do amor em que nós ambos nos quisemos…

Cinzas mortas que em tuas mãos deponho,
mortas quando tu chamaste pecado
ao segrêdo de amor do nosso sonho.

Nunca mais, nunca mais eu findaria
de remexer no pó desse passado
que o teu medo de amar desfez um dia!…

…………………………III
Soam na Notre-Dame as horas: sete
badaladas. A noite cai dos céus
como um frio que n’alma se nos mete
– ou é o frio de eu dizer-te adeus?

Guarda esta carta entre os segredos teus,
pra que um dia, sem que ela te inquiete,
possas relê-la frente à vida e a Deus,
porque o mais puro amor ela reflecte.

Verdade ontem, tua mentira de hoje,
como a nudez buscando o véu que a vele,
como a espuma ocultando-se entre as ondas…

Não me podes negar como a que foge
ao próprio olhar de Deus, pois como a ele
me verás onde quer que tu te escondas!…

…………………………IV
Eu estou a escrever sentado à mesa
dum pequenino e recolhido bar
como aqueles de poética tristeza
adonde íamos dantes conversar.

Passam, lá fora, os que foram levar
flores aos cemitérios, na beleza
desta electricidade já acesa
que enche de luz-de-cinza o boulevard.

Quase apeteço esta melancolia
de morte e fim, do quer que eu não alcance
porque talvez eu não o merecia…

Mas tu irás (penso, nos sonhos meus)
chorar, um dia, à campa onde eu descanse
– por esta carta em que eu te digo adeus…

(Em Obra poética escolhida vol II.  Erotíada e outros poemas, pp. 83-85)

♦♦♦

Amorim de Carvalho (1904-1976), poeta, esteta e filósofo, é a maior compleição crítica portuguesa. Meticuloso na análise, a sua inteligência apresenta-se igualmente preparada para as largas sínteses.