POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

foto de Matheus Bertelli

 

Quimera para a eternidade

Na tua cidade
ruas se inclinam
pontes se fecham
e o ar não se curva perante mim
Na tua cidade
somente a luz dos candeeiros e
da vontade das tuas mãos

Quem diria? antes tão luminosa
pontos resplandeciam sobre nós

  • por aqui, não tenham medo –
    Os nossos passos alados
    no mesmo destino de Orfeu

Pudesse adornar a tua cidade
abrir-lhe todas as portas
levantar-lhe as pesadas âncoras
despejar-lhe a imensidão do desejo
Como seria bela a tua cidade
Extasiados os jasmins com o nosso amor
as tardes unidas num corpo só
já pensaste? a tua cidade descoberta
e ergueríamos no céu
um país com a forma do mundo Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

 

COMBATE DE DOMINGO À NOITE

vesti-me a rigor
calcei os sapatos mais elegantes para os meus pés
algum pó-de-arroz – no convite dizia ser necessário disfarçar
a escorregadia humanidade – e finalizei com o
batom vermelho e impostor
a horas quase no ponto e
a sala de combate cheia
um assento bastante enfeitado
para meu lugar – há sempre um tolo que desconhece o fingimento humano –
e no ringue dois lutadores
meus conhecidos
corei assim que os vi – bendito pó-de-arroz a encobrir o meu próprio desleixo –
no canto direito
a montanha de mil toneladas
com o seu cume irrompendo geometricamente o céu
centímetros e mais centímetros de ascensão lógica
o topo brilhando de ideias e reminiscências
atacava com interrogações da existência e
defendia-se com lanças carregadas de verdade
num golpe mais ousado gritou – Sein und Zeit – mas
imediatamente se desfez num deserto longínquo e inanimado
– fosse a cena diferente e diria: Heraclito, estavas coberto de razão –
e o árbitro apitou o final do primeiro round

a sala de combate cheia
silenciosa
à espera
gotas de suor resvalavam pelas faces sérias

iniciou-se o segundo round
o lutador dos mil tentáculos manteve-se
firme à esquerda
pediu ao adversário que se levantasse – não contava ganhar tão facilmente –
mas já eu aplaudia o vencedor
perguntei ao homem sentado ao meu lado – porquê tanto espanto?
e digo-te mais Wittgenstein: o meu mundo não tem limites –
ou não vês como são infinitas as minhas palavras? –

a sala de combate vazia
somente eu aguardava o vencedor
limpei dos lábios o batom vermelho
e mostrei todas as minhas imperfeições

saio esplendorosa na fotografia
tirada ao combate do último domingo à noite. Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

Tal qual uma folha

tornou-a de tom castanho o tempo
depois de a deixar viver com a cor das esmeraldas
viçosa, nascida anúncio de força com tamanho de vida
logo se juntou às aves, às flores e às ondas
cá dentro, desejo contido de a fazer minha
finjo de longe que lhe toco
e que a abraço no dia em que foi eleita rainha
agarra-se à cor que ainda lhe resta
sem temer o vazio do pó que a espera
mais fraca sou eu, é certo,
que nada sei da natureza e das suas leis
sou capaz, porém, de morrer de saudade
mesmo sem nunca me ter inteiramente pertencido

vejo-a cair
segue uma linha, destinada à passagem da
tonalidade da vida

cai sem pressa
ainda há beleza nos últimos segundos de vida

somente para ser pela natureza compreendida Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

© mariam sitchinava

 

Conversão

é no escuro deste dia que vens?
tornei o meu quarto no absoluto
pois sei que é assim que te convém
dispostos à tua medida
paredes, tapetes e cama
e os candeeiros também
como queres que te espere?
sentada? ou preferes encontrar-me deitada?
e os braços? cruzados a simular certezas
ou caídos denunciando fragilidades?
seja como for, farás com que estremeça
com que me perca
com que me engula no tempo
por favor, deixa cair uma das tuas lágrimas sobre a minha pele
ou então, se ainda tiveres sangue dentro do teu peito gelado,
faz com que me entre directamente na boca
haverá grandeza maior do que te sentir pulsando nas minhas entranhas?
deram conta no mármore que morreste
tão ignorantes os simples sem desejos nem pensamentos
nada me importa que sejas sombra
a minha reverência basta para te agarrar
ouço-te, mesmo que me fales muito baixinho
e agradeço a companhia da tua mão parada
sem ti, nada mais do que uma pedra
inútil e deformada
pontapeada e esquecida
anda, anda       anda ainda hoje

já te pressinto debaixo da minha cama Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”