
COMBATE DE DOMINGO À NOITE
vesti-me a rigor
calcei os sapatos mais elegantes para os meus pés
algum pó-de-arroz – no convite dizia ser necessário disfarçar
a escorregadia humanidade – e finalizei com o
batom vermelho e impostor
a horas quase no ponto e
a sala de combate cheia
um assento bastante enfeitado
para meu lugar – há sempre um tolo que desconhece o fingimento humano –
e no ringue dois lutadores
meus conhecidos
corei assim que os vi – bendito pó-de-arroz a encobrir o meu próprio desleixo –
no canto direito
a montanha de mil toneladas
com o seu cume irrompendo geometricamente o céu
centímetros e mais centímetros de ascensão lógica
o topo brilhando de ideias e reminiscências
atacava com interrogações da existência e
defendia-se com lanças carregadas de verdade
num golpe mais ousado gritou – Sein und Zeit – mas
imediatamente se desfez num deserto longínquo e inanimado
– fosse a cena diferente e diria: Heraclito, estavas coberto de razão –
e o árbitro apitou o final do primeiro round
a sala de combate cheia
silenciosa
à espera
gotas de suor resvalavam pelas faces sérias
iniciou-se o segundo round
o lutador dos mil tentáculos manteve-se
firme à esquerda
pediu ao adversário que se levantasse – não contava ganhar tão facilmente –
mas já eu aplaudia o vencedor
perguntei ao homem sentado ao meu lado – porquê tanto espanto?
e digo-te mais Wittgenstein: o meu mundo não tem limites –
ou não vês como são infinitas as minhas palavras? –
a sala de combate vazia
somente eu aguardava o vencedor
limpei dos lábios o batom vermelho
e mostrei todas as minhas imperfeições
saio esplendorosa na fotografia
tirada ao combate do último domingo à noite.
♣♣♣

CARTA AO MEU IRMÃO
Antes que o último gelo venha
quero fazer-te lembrar dos dias
já antigos e muito brandos
das casas imaginadas e
das vacas pastando.
Desses dias em que procurávamos
nos salpicos a calma da sede e
nas silvas o alimento das tardes.
Eram de sol esses dias
que nem mesmo a lama nos atrasava
a tua mão levando a minha
somente vida em ti repousava.
Tão gentis esses dias
de árvores de tanques de perguntas
dias de palavras simples belas e imortais.
Levou-nos os dias o tempo
e quero saber que mais nos levou
será porventura engano
ilusão destes dias frios
ou desconcerto da terra
esquecida de calor fraternal?

♦♦♦
Carla Pereira nasceu em Braga em 1983. Encantou-se cedo pelas possibilidades guardadas nos espaços do mundo, pelo que lhe é impossível existir entregando-se em definitivo. Arrebatam-na as composições de Verdi, os versos de Cesariny, as ideias de Aristóteles e os movimentos aperfeiçoados nos corpos que se esforçam por resistir ao tempo.


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