EDITORIAL – A ENERGIA NUCLEAR VOLTOU – E COM RAZÃO – por Ricardo Amorim Pereira

A recente decisão do governo nipónico de reativar a central de Kashiwazaki-Kariwa, a maior central nuclear do mundo em capacidade instalada, representa muito mais do que um simples reinício técnico. É um sinal político e estratégico claro de que, perante a urgência climática e a instabilidade energética global, a energia nuclear voltou a assumir um papel central na discussão sobre descarbonização. Num contexto em que o mundo precisa reduzir emissões de forma rápida, consistente e em larga escala, o nuclear apresenta-se como uma das poucas tecnologias capazes de responder simultaneamente à segurança energética, à estabilidade do sistema elétrico e à neutralidade carbónica.

Depois do acidente na central nuclear de Fukushima Daiichi, em 2011, o Japão praticamente suspendeu o seu parque nuclear, substituindo essa produção por gás natural e carvão. O resultado foi imediato – aumento das importações energéticas, maior vulnerabilidade geopolítica e crescimento das emissões de gases causadores do efeito de estufa. A reativação da central de Central nuclear de Kashiwazaki-Kariwa, operada pela Tokyo Electric Power Company (TEPCO), representa assim um reconhecimento pragmático de que a transição energética exige fontes firmes, de baixa emissão e capazes de operar de forma contínua.

Em oposição às fontes fósseis, a energia nuclear praticamente não emite CO₂ durante a produção de eletricidade. Além disso, ao contrário da maior parte das renováveis, não depende das condições meteorológicas. Esta característica é decisiva. Um sistema elétrico moderno precisa de garantir fornecimento constante, independentemente de variações no vento ou na radiação solar. O nuclear fornece essa base estável, funcionando como pilar estrutural do sistema, sobre o qual outras fontes podem operar.

Isto não diminui a importância das energias renováveis. Pelo contrário. A descarbonização sustentável depende da combinação inteligente de tecnologias. A energia solar e a eólica são fundamentais para reduzir rapidamente emissões, especialmente em regiões com elevado potencial natural. O custo destas tecnologias caiu drasticamente, tornando-as competitivas e amplamente implementáveis. No entanto, a sua natureza intermitente exige reforços em armazenamento, redes inteligentes e fontes de produção firme. É precisamente aqui que o nuclear assume um papel estratégico complementar.

A experiência de países como França ou Suécia demonstra que a combinação de nuclear com renováveis permite alcançar sistemas elétricos com baixíssimas emissões. Onde o nuclear foi abruptamente reduzido sem alternativas firmes suficientes, como aconteceu temporariamente na Alemanha, verificou-se um aumento do recurso a carvão e gás. Isto evidencia que a transição energética não pode ser orientada apenas por preferências ideológicas, mas por critérios técnicos e climáticos.

Outro argumento frequentemente apontado contra o nuclear é o custo inicial elevado e o tempo de construção. De facto, novos projetos podem exigir investimentos significativos. Contudo, quando analisados ao longo do ciclo de vida, os reatores nucleares produzem grandes volumes de energia durante décadas, com custos operacionais relativamente estáveis. Além disso, novas tecnologias, como pequenos reatores modulares, prometem reduzir prazos e aumentar flexibilidade.

A reativação da maior central nuclear do mundo não significa um abandono das renováveis, mas sim o reconhecimento de que a transição energética exige realismo. Com o objetivo imperativo de se reduzirem as emissões de forma rápida e consistente, todas as tecnologias de baixa emissão devem ser consideradas. Entre elas, a energia nuclear destaca-se, provavelmente, como a mais poderosa ferramenta disponível.

A descarbonização da economia não será alcançada com soluções simples ou exclusivas. Exigirá integração, complementaridade e pragmatismo. As energias renováveis são fundamentais para expandir rapidamente a produção limpa. Mas é a energia nuclear que garante a estabilidade, a escala e a continuidade necessárias para sustentar essa transformação profunda. O futuro energético sustentável, muito provavelmente, não será exclusivamente renovável nem exclusivamente nuclear — será híbrido.

Importa de igual modo referir que o setor nuclear evoluiu em segurança, regulação e gestão de risco, e que a energia nuclear de hoje não é a mesma dos anos 70 ou 80. Os grandes acidentes do passado marcaram profundamente a indústria e a opinião pública, mas também provocaram uma transformação estrutural. As centrais modernas incorporam sistemas de segurança redundantes e, sobretudo, sistemas passivos que conseguem arrefecer o reator mesmo sem energia externa ou intervenção humana. Este tipo de engenharia reduz drasticamente a probabilidade de falhas catastróficas em cenários extremos. Além disso, as autoridades reguladoras tornaram-se muito mais exigentes, impondo testes de stress, revisões periódicas e padrões internacionais mais rigorosos.

Isto não significa que o risco seja zero. Nenhuma tecnologia energética está isenta de risco. O nível de segurança atual, contudo, é incomparavelmente superior ao de há décadas. O setor nuclear é hoje uma das indústrias mais reguladas do mundo, com protocolos de monitorização contínua e cultura de segurança profundamente enraizada. O próprio Japão, após Fukushima, criou uma autoridade reguladora independente e impôs requisitos técnicos entre os mais severos a nível global antes de autorizar qualquer reativação.

Outra questão central no debate é a dos resíduos radioativos. Durante anos, este foi apresentado como um problema insolúvel. A realidade é mais complexa. Tecnicamente, sabemos hoje armazenar resíduos de forma segura. O combustível usado é inicialmente mantido em piscinas de arrefecimento e depois pode ser transferido para contentores secos altamente resistentes. Para o longo prazo, a solução de armazenamento geológico profundo — em formações rochosas estáveis — já está tecnicamente validada e em implementação em alguns países.

No entanto, é importante manter realismo – o desafio dos resíduos não é tanto tecnológico como político e social. Exige planeamento a muito longo prazo, financiamento garantido e aceitação pública. Não é “simples”, mas também não é um problema fora de controlo. Em termos de volume, os resíduos nucleares são relativamente pequenos comparados com os milhões de toneladas de CO₂ libertados diariamente pela queima de combustíveis fósseis. A diferença é que o CO₂ é invisível e disperso, enquanto os resíduos nucleares são concentrados e altamente regulados.

Em suma, países que conseguiram eletricidade com baixas emissões combinaram diferentes fontes de energia de baixo carbono. O nuclear oferece densidade energética, previsibilidade e segurança de abastecimento. As renováveis oferecem rapidez de implementação e descentralização. Juntas, formam um sistema mais robusto do que isoladamente.

A reativação da maior central nuclear do mundo mostra que, apesar das cicatrizes do passado, o nuclear continua a ser uma ferramenta poderosa na luta contra as alterações climáticas. As centrais são hoje mais seguras do que eram há décadas. A gestão de resíduos é tecnicamente controlável, embora exija responsabilidade política de longo prazo. Num mundo que precisa urgentemente de reduzir emissões sem comprometer estabilidade económica, ignorar o potencial do nuclear seria um luxo a que talvez já não nos possamos permitir.

O futuro energético realista não será exclusivamente renovável nem exclusivamente nuclear. Será um sistema híbrido, tecnologicamente avançado e regulado com rigor. Nesse sistema, a energia nuclear — modernizada, supervisionada e integrada com renováveis — tem um papel que vai muito além do que muitos imaginavam há apenas dez anos.

Nos últimos anos, tem-se assistido a uma inversão clara em países que, até há pouco tempo, apontavam para uma redução ou mesmo abandono da energia nuclear. A Bélgica decidiu prolongar a vida útil de dois reatores que estavam destinados ao encerramento, reconhecendo o papel do nuclear na estabilidade do sistema elétrico europeu. A Suécia passou de uma posição hesitante para uma estratégia assumida de expansão da capacidade nuclear, enquadrando-a explicitamente nos seus objetivos climáticos. A França, longe de reduzir o seu parque, anunciou novos investimentos e a construção de reatores de nova geração, reafirmando o nuclear como eixo estruturante da sua política energética. Também o Reino Unido aprovou novos projetos e definiu metas ambiciosas para aumentar significativamente a produção nuclear nas próximas décadas. Mesmo os Países Baixos, que durante anos mantiveram o setor praticamente estagnado, decidiram avançar com novos reatores.

Na Europa Central e de Leste, onde a segurança energética ganhou novo peso estratégico, o movimento é igualmente evidente. A Polónia lançou o seu primeiro programa nuclear civil, procurando reduzir a dependência do carvão e diversificar fontes. A República Checa, a Hungria e a Roménia avançam com planos de expansão ou modernização das suas infraestruturas nucleares. Estes países veem no nuclear não apenas uma ferramenta climática, mas também um instrumento de soberania energética num contexto geopolítico instável.

Fora da Europa, a tendência é igualmente significativa. A Turquia está a concluir a sua primeira central nuclear, entrando formalmente no grupo de produtores de energia atómica. O Egito iniciou igualmente a construção da sua primeira central. Os Emirados Árabes Unidos já inauguraram a sua primeira central nuclear comercial, integrando-a numa estratégia de diversificação energética. Ao mesmo tempo, potências como a China e a Índia continuam a expandir os seus programas de forma acelerada, encarando o nuclear como componente indispensável para conciliar crescimento económico com redução de emissões.

Mesmo onde o abandono foi consumado, como na Alemanha, o debate permanece aberto e politicamente sensível, especialmente após a crise energética de 2022. O que estes movimentos revelam não é um regresso acrítico ao passado, mas uma reavaliação estratégica num contexto em que descarbonizar rapidamente se tornou imperativo. Cada vez mais governos concluem que excluir o nuclear à partida pode significar tornar a transição energética mais lenta e mais onerosa. O que emerge é uma visão pragmática – um sistema energético híbrido, onde nuclear e renováveis não competem ideologicamente, mas cooperam tecnicamente para garantir estabilidade, segurança e neutralidade carbónica.

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Ricardo Amorim Pereira, doutorando em Ciência Política