
Lá tão longe e tão perto que até pode ser aqui, num sítio lindo lugar que não era não é só um sítio sítio lugar porque é onde quando e como todas as coisas dos mundos todos e de todas as coisas que não são mundos se anunciam e fazem acontecer e acontecem já está, e que são lindos lindos sempre porque nunca há feios sequer para comparar, há esferas bolinhas lindas de todos os tamanhos grandes e pequenas, pequeninas e tão minúsculas que servem todos os seres – pigmeus e gigantes, fadas e duendes… – que os habitam e visitam e que vão para lá, aqui, passear. Passear vadiar andar percorrer a pé e com asas e sem asas a voar, conforme o que de momento mais aprouver e deliciar!…
As esferas bolinhas todas rolam rolam como as bolas da árvore de Natal se tivessem corda de música linda rolariam… e rolam sempre sempre, andam voam sempre sempre a rolar. Umas à volta das outras num movimento circular, e cada uma e outra e outra noutro movimento de rodopiar: é tudo tudo um carrossel grande grande das esferas de gigante maior que o mundo todo – maior que os mundos todos!… porque são os mundos todos e ainda mais outros mundos todos ainda…!
E há lá aqui gente grande grande grande que por isso parece aparece pequenita gentita bonita… a olhar… a olhar de uma esfera bola bolinha maior, a apreciar… A apreciar a escolher a bolinha seguinte para visitar. Para morar um bocadinho um tempinho para depois regressar. À sua bolinha daquele carrossel…
A pequenita gentita bonita vai escolhendo a conversar:
– Vejam!… Ali aqui aquela bolinha azul é boa para morar… tem terra tem água tem vida para crescer, aprender e gostar!…
- Sim! Mas… vejam mais de perto!
E todos aqueles daquele grupinho fazem zoom para mais perto e para muito mais perto… e ficam para lá para aqui a olhar… para muitos sítios países cidades ruas casas da bolinha azul de habitar…
A olhar… a olhar…!! – Oh!!… Não desprevenidos mas ainda assim surpresos de uma surpresa triste, veem… veem…!!…
E uma das pequenitas gentitas bonitas que são grandes e por isso parecem aparecem pequenitas, e que já esteve lá aqui na bolinha azul e se chama Menino Jesus de Lá Tão Longe e Tão Perto Que Até Pode Ser Aqui, vai contando aos demais não de-menos…
As pessoas… quase todas as pessoas-não-criança da bolinha azul pensam acreditam estão convictas que importa viver não viver a mourejar…!!… Dão muita exagerada importância ao dinheiro que são bocadinhos pequeninos de papel pintado de cores tristes com uns carateres lá postos, e que deviam servir só para trocar por outras coisas que por serem grandes não cabem nas mãos para transportar… e também dão muita exagerada importância às propriedades que eles chamam assim porque entendem que têm dono e que são, afinal, pedacinhos da bolinha azul que, como nós entendemos, pertencem a todos por não pertencerem a alguém por pertencerem a ninguém para uso de todos por serem do mundo todo dos mundos todos e de tudo aquilo que nem mundo é nem mundos são, porque são ainda mais mais e mais e maiores do que isso!…
E acreditam tanto tanto tão completamente nestas verdades mentiras, que constroem muros à volta dos pedacinhos que recortaram cortaram despedaçaram na bolinha azul, e os fecham com portões de fechar-quase-sempre e de abrir-quase-nunca com chaves de fechar-quase-sempre e de abrir-quase-nunca que são objetinhos abjetinhos que inventaram para impossibilitar o acesso aos não donos aos estranhos possíveis intrusos a esse pedacinho, e consideram convidados seus aos que permitem a entrada e o uso – uso com regras que também inventaram e a que chamam boa educação, a qual consiste sobretudo subtudo em se ter sido conduzido numa certa direção que quase nunca é a direção certa, já que cada indivíduo – que é individual! – tem as suas próprias direções, e também os saudáveis desvios que convêm à sua própria e única natureza!… Aquelas regras obrigam a certas atitudes erradas dos convidados que, porque entendem que não são os donos, pedem licença direito torto por tudo por nada para nada por fazerem uso daquilo daqueloutro daquele outro deles de todos os outros de ninguém.
E muitas destas pessoas-não-criança proprietárias prendem cães soltos presos dentro dos muros, e que educaram para parecerem aparecerem ameaçadores ferozes caninos de fora aos de fora dos muros… Estes animais cães vivem artificialmente naturalmente infelizes, porque estão presos dos muros que podem ser de pedra e de comida e até de carícias-festas que obtêm dos respetivos proprietários desde que se portem bem… desde que rosnem e mostrem ameaçadoramente os tais caninos que prometem rasgar despedaçar as carnes dos de fora dos muros de pedra… como as pessoas-não-criança rasgaram quase despedaçaram em pedaços pedacinhos a linda – que devia ser inteira de todos – bolinha azul…!!…
Ora, como os pedacinhos rasgados murados da bolinha azul não chegaram para todos – até porque pessoas-não-criança mais sagazes que se creem mais capazes se apoderaram de um pedacinho mais e de outro e de outro para murar aprisionar!…, houve quem ficasse sem qualquer pedacinho para morar abrigar…! – muito poucos por vontade própria; e muitos muitos por vontade imprópria alheia…
Mas todos estes saltam avançam muros!!… Os que saltam assaltam muros de pedra para recolher comer o que o corpo exige, conseguem isso quase sempre: cão rosna e rasga despedaça, gente grita e apagada chama chama, polícia vem vai e leva, e o saltante assaltante inicia entrada e fica estadia noutros muros literalmente prisão só aqueles!?… Mas, aí, há que comer…
Tantos pesados males por causa dos muros tantos… E as pessoas-não-criança da bolinha azul chamam a isso bens: dizem “os meus bens”; “os bens deste”; “os bens daquele”!… Mesmo quando duas pessoas se unem escrevem isso num importante determinado papel e também registam: “comunhão de bens adquiridos”; ou outras versões várias sobre bens males… Quando têm filhos, tratam desde logo de educá-los devidamente normalmente, o que consiste num certo número de operações sequenciadas segundo as idades cronológicas que as crianças vão atravessando – as mães e os pais pessoas-não-criança perseguem a meta que é transformar os filhos pessoas-criança imaginativas criadoras porque criam livremente , em outras pessoas-não-criança presas nos muros que rasgam despedaçam a tal bolinha azul, e que é a casa de todos eles… Quase sempre são bem mal sucedidos, e assim se reproduzem continuamente aqueles muros prisões naquela tal bolinha azul…
Depois desta dura descrição dura, o Menino Jesus de Lá Tão Longe e Tão Perto Que Até Pode Ser Aqui soltou um suspiro longo não de alívio mas de pena de pesar de pesares. As demais pequenitas gentitas bonitas – que são grandes por isso aparecem pequenitas! – da sua esfera bolinha viam com pesar de verificar e leveza de vontade de curar aliviar os muros prisões na bolinha azul que as pessoas-não-criança rasgaram despedaçaram e continuam a rasgar despedaçar, e foram ouvindo silenciosas aquele contar… Sabiam que o Menino Jesus, quando vivera na bolinha azul, sentira sofrera duro tão duro duríssimo pesado pesados pesados aqueles muros prisões de fechar…!!
Ainda dirigindo-se para aquele grupinho – e para si próprio e também para todos! – concluiu:
Assim, em verdade tristemente em verdade, posso declarar que a vinda e estadia desta pessoa-criança Jesus Menino – que eu sou – para esta nesta bolinha azul não acabou com todos os muros prisões, afinal!
E, agora com um ar mais leve de brisa que o vento amigo às vezes sopra e faz as penas se elevarem e voarem levemente pelo ar, acrescentou:
– Mas também posso constatar que quase todas as pessoas-criança e as pessoas-não-criança deste mundo festejam este nascimento Natal nas suas casas num clima num ar de amor a habituar, em especial atenção carinho às crianças!…
E, em verdade alegremente em verdade, toda aquela pequenita gentita bonita sabe que o Natal é a recordação presente passada futura deste Menino de todas as esferas dos mundos não mundos que nasceu na esfera bolinha azul a mostrar e para mostrar que não há que haver muros prisões de seja o que for a aprisionar. E todos todos ficaram com menos pesar até mais felizes a aliviar. Com maior leveza maior vontade de ajudar a curar aquelas feridas rasgões prisões dos muros de despedaçar… na linda bolinha azul!!
Aquele Menino, antes de aparecer na tal linda bolinha azul, vivia tranquilo feliz e livre livre na sua bolinha do carrossel grande grande das esferas, na sua esfera maior, naquele não sítio lugar lindo só lindo sem feios sequer para comparar incomodar, onde-não-onde quando-não-quando e como-não-como todas as coisas dos mundos todos e de todas as coisas se anunciam e fazem acontecer e acontecem já está!…
Ora uma vez um dia um momento um instante num tempo sem tempo estava ele na sua esfera bola maior a conhecer a saber o que fazer, a apreciar as esferas bolinhas todas a circular a rodopiar para escolher a esfera bolinha azul para visitar – para morar um bocadinho um tempinho num tempo com tempo curtinho para depois regressar! – escolheu, e logo logo já estava ele a criança nascida: confortável humilde deitada nas palhinhas de uma manjedoura com a mãe Maria e o pai José, num estábulo que usaram sem muros de aprisionar, com animais vaca burro naturalmente não educados para isso e por isso a não ameaçar, apenas sem penas tranquilos a soprar para aquecer acariciar… Só depois chegaram os três reis magos três sábios com ouro incenso e mirra presentes passados e futuros, a estrela a guia a mostrar que aquela criança pessoa pequena que apareceu nasceu é de lá tão longe e tão perto que até pode ser e é aqui daqui, da tal bolinha azul!…
E cresceu cresceu cresceu cá aqui até estar ser pessoa-criança sempre sempre a mostrar a tratar a curar os rasgões dos muros prisões das pessoas não-criança desta esfera bolinha azul.
E agora está aqui continua aqui de lá tão longe e tão perto que até pode ser e é aqui, com aquela gente grande grande que por isso parece aparece pequenita gentita bonita que são serão todos sempre sempre pessoas-criança: é por isso que agora e tantas vezes crianças resistem não se deixam prender e soltas crescem crescem crescem… e depois e sempre são pessoas-criança que contam inventam descobrem criam vidas poemas, desfazem muros prisões olham as bolas coloridas brilhantes e encantam e se encantam, e sabem que moram nesta tal linda bolinha azul… E que há muitas tantas outras bolinhas para morar… E vão vêm voam para lá tão longe e tão perto que até pode ser e é aqui, onde encontram seres pigmeus e gigantes, fadas e duendes… para voar crescer e conversar… E que se deliciam maravilham extasiam nesta bolinha azul, especialmente no Natal…
É que, no Natal, muitas pessoas-criança e pessoas-não-criança têm um hábito bonito de lembrar a enfeitar: penduram numa árvore – a árvore de Natal! – bolas coloridas brilhantes grandes e pequenas que são aquelas esferas bolinhas lindas de todos os tamanhos que servem todos os seres – pigmeus e gigantes, fadas e duendes – que os habitam e visitam a passear a vadiar a pé e com asas e sem asas a voar… E, sempre no Natal, sempre todos esses seres nos obsequiam com a sua visita àquelas esferas bolas da árvore e, por isso, muita gente diz que anda por aí o espírito de Natal, pelo ar…!!…
Por isso, quando uma gentita pequenita bonita olha lá de uma esfera bolinha aqui para a bolinha azul, cada vez mais vê menos pedacinhos menos muros prisões a despedaçar. Em qualquer dia em qualquer momento em qualquer instante todos os pedacinhos muros prisões irão desaparecer… por causa das pessoas-criança que andam voam por aqui por ali pelo ar… Se calhar vai calhar no Natal…!!
Agora, só falta descobrir como dar corda de música linda às bolas da árvore de Natal para as ver a rolar umas à volta das outras no tal movimento circular, e cada uma e outra e outra no tal outro movimento de rodopiar… Especialmente, a uma bolinha azul, que deve estar sempre sempre pendurada na árvore de Natal. Para vermos em cada casa aqui lá no Natal o carrossel grande grande de esferas, aquele tão intenso e imenso conteúdo contido sempre a soltar dos diversos universos, numa festa a manifestar a expandir a festejar…
E, juntando as casas todas sem muros, haverá uma grande redonda brilhante animada dançante festa de Natal de bolas em movimento circular e a rodopiar na nossa de ninguém por isso de todos – nesta pequena grande casa!… Na tal bolinha azul…
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Adelina Maria Granado Andrês nasceu no norte do país e aí vive, em vizinhança próxima com o mar de Gaia e pelo interior transmontano. É docente do ISCAP-P.Porto. Os seus interesses focam-se no pensamento e na obra de Agostinho da Silva e para além do ensaio, dedica-se a outros tipos de escrita, sendo autora de livros infantojuvenis, poesia e prosa poética.


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