COISAS DO (I)MUNDO. UM GRITO UM CLARÃO ESTA ESTRIDÊNCIA – Por Adelina Andrês

O Grito, by E. Munch (detalhe)

Grito!!! Declaro!!: eu quero um clarão nestas tenebruras do imundo mundo
Para limpar
Para ser um mundo não imundo
de Viver!!
VIVER quer dizer que é preciso clarear!
Clarear é dizer do coração
do umbigo não – por pouco ser para não ser!
Falar falarziiinho
desse umbigoziiinho para viverziiinho de certo errado jeitinho
pequeno
muito pequeno
pequenininho – que não é de criança pequena
Que É
Grande!
é outra coisa coisiiinha bajular bajulandiiinho.
Não! Não!! Não quero digo zangada. Não!! de zanga forte muito escuro
escuríssimo
e noite densa pesada sem estrelas a iluminar – não é a linda noite estrelada
que Van Gogh viu no escuro a brilhar intensamente a sentiu a existir
e a eternizar a pintou.
Tolos! Tolos!: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte…” é fala de tolos umbigos.
Umbigos de verdade não são esses
São aqueles centros lindos de corpos de dar trocar alimentar e bem partilhar
de mães terras crianças mundos limpos
a nunca precisar de limpar!
Em terra de cegos quem tem um olho é rei” – e vai cegar todos. Pode?! Ter poder de gostar de mandar o que é isso??!! Tolos tolos!!!
Jesus zangou-se no templo
com as vendas todas
vendas de vender negócios raseiros rasteiros negocioziiinhos
Levantou arrancou do chão as bancas de vender
das vendas
para tentar arrancar as vendas dos cegos
dos tolos
gente imunda
para limpar limpar esses imundos para serem!
Para serem mundos que é o que são!!
As pessoas são mundos
não são imundos
estão imundos!
É preciso limpar transparecer limpar corpos limpar tudo limpar olhos
Ver mundos!!…
Jesus zangou-se
ou quis mostrar zanga!? linguagem imunda
para os imundos do mundo olharem ouvirem entenderem
porque só se entende a mesma linguagem mostrada falada
E é preciso às vezes falar outra aquela língua imunda suja
com crostas de sangue seco parado peganhento que cola que se pega
do que se matou que se derramou
e a seguir secou.
Pena. Pena! Não leve, mas muita pesada pena
que sangue é vida limpa corrente a sempre correr a vivificar fazer viver
Sangue limpo a percorrer os íntimos lindos livres corpos mundos
de Viver.
Imundos para limpar não sabem não lembram?… Não entendem?!…
É a língua do imundo
imunda língua a gritar estrondar para parecer.
Tantos (i)mundos corpos parados presos a gritar para parecer!!
Triste triste coisa que só parece viver.
Tanto tanto escondido apertado parado vendado
a querer vendar só para não ver.
Para impedir para não deixar outros limpar.
Para não deixar mundos aparecer.
Para impedir a vida de ser!!
É preciso gritar para não deixar para se fazer entender?!!…
Gandhi calou calou
e depois gritou para viver.
Para viver calou calou e gritou e sacrificou se sacrificou…
Eu não quero mais menos precisar gritar calar e sacrificar.
Quero vassouras detergentes carpex para limpar.
Limpar sem aspirar
aspiradores de inalar o sujo não!! Para não deixar o sujo entrar a conspurcar.
Quero arrancar crostas sujas paradas velhas! Velhas!
Velhas não são antigas…
As antigas de verdade são lindas
São as antigas de tempos idos que vieram antes
e invisíveis agora e sempre estão estarão sempre aqui.
Venham tempos da não história
Venham apareçam se desvendem se revelem se mostrem mundos
os mundos limpos
corpos mundos não maculados da não história
Venham todos os mundos deste mundo não contado não gritado não ouvido
Venham contar essas essa história
Venham todos ou alguns desde que sejam mundos contar!
Contem as histórias a história que não ensinam nesta escola
Venham outras escolas sem escola contar estas outras histórias da árvore das coisas da vida antes de arrancar a maçã para guardar para si para não dar aos outros “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não tem arte”?!!…
Um burro é uma coisa mundo vida linda
e por estar neste aqu(i)mundo
se contagia imundo
porque está sujo porque é animal domesticado não livre.
É bom ser burro não imundo ser mundo!!
E arte é coisa linda porque é criar ser criador é criação
por isso é bom ter arte Arte
não arte daquela que não é Arte
mas é artifício manha perfídia
sem ser de serpente
Porque serpente é ser mundo!!
Quando a Eva ou quem quer que a quis colheu a maçã
começou aí a história contada
porque roubou retirou privou de todos a maçã.
A maçã fruto proibido é o mundo roubado colhido depravado
Privado
só para poucos muito poucochinhos
só para um e dois e três…
Os outros mundos todos ficaram proibidos ficaram sem maçã
ficaram imundos
e a Eva e o Adão também ficaram.
Porque partiram e repartiram e acreditaram que ficaram com tudo com a melhor parte
mas ficaram como os outros a quem privaram
Ficaram igual.
Todos mal mal.
Todos rotos corrompidos sujos por dentro e por fora!…
Mas um bocado um bocadinho muito lá dentro
limpos
porque muito muito lá dentro
bem guardado lá nos fundos fundos fundos
continua a haver há sempre mundos mundos mundos.
E a serpente nua enrolada
com a cabeça para cima
para o alto
com dois olhos de brilhar
de olhar
mais alto
muito muito muitíssimo mais mais alto
que a altura da árvore da vida do mundo da maçã,
e que estava lá,
não sabemos bem como disse como falou como fez
– se disse gritou imundo, ou se calou apenas mundo.
E isso porque a história contada gritada por todos
para todos os (i)mundos
é a história única escrita legitimada ouvida reproduzida ensinada.
E todos quase todos dizem pensam creem não duvidam
até matam queimam esfacelam e esfolam quem duvide
e portanto por tanto por tão pouco mesquinho de medo incessante miudinho
ninguém duvida ninguém diz.
Mas esta é só a história depois do mundo,
do (i)mundo sujo por isso condenado
condenados os mundos depois imundos Eva e Adão
“parirás os teus filhos com dor” e
“comerás o pão com o suor do teu rosto”.
Passaram então estes antes plenos mundos
a depois tristes imundos
condenados a sofrer a fazer sofrer e a sofrer mais por isso.
Porque ficaram todos com crostas de sujo imundo
que cobriram taparam vedaram e vendaram um olho. A todos.
E como quem tem um olho só pode ser rei ter esse poder de mandar
se os outros todos forem todos cegos todos todos
logo alguns poucos se gastaram se esgotaram e desonrosamente se finaram
a tentar cegar os outros muitos.
E a história escrita nos livros contada e ensinada em tudo e na escola
mostra como tem sido sempre assim neste (i)mundo, até hoje:
uns poucos que têm um olho que querem ser reis de mandar
lutam lutam com muitas todas as armas todas as forças
para cegar o olho dos outros muitos todos.
E incessantemente se batem em angustiante sempre vigilante desespero
tanto afã tanta infatigável incansável ingloriosa canseira
para os outros muitos todos não lhes cegarem o olho único deles
se não não poderão estar reis de mandar.
Neste (i)mundo a história conta ensina estes e outros falsos feitos heróicos
e até o alimento (im)porta para a vida
se for duro duro sofrido muito penosamente conseguido “com o suor do rosto”
E o humano corpo quase todo (i)mundo
que devia todo todo ser mundo
se elogia se venera e se enaltece porque é “muito tão trabalhador”
que quer dizer
sofrido sofrido pesado pisado sacrificado mortificado dorido.
Quando outra porta se abre
para outra vida humana munda um mundo entrar neste (i)mundo,
logo se inicia o sofrimento enganado acreditado venerado “parirás com dor”
A mulher grita dor! Dor!! Dor!!!…
contorcida alto forte insuportável insuperável demorado demorado lancinante
e fica dias dias longos longos a sofrer a suportar a padecer.
A criança munda entra a não reconhecer a (des)conhecer o mundo
a conhecer o (i)mundo
e a (des)aprender a vida de verdade de fruir usufruir se deleitar e criar.
Quando for grande
só até ao umbigo de medir contar contabilizar contabilizarziiinho
aquele umbiguinho de viverziiinho de certo errado jeitinho
que não é o umbigo de Vida de verdadeiramente Viver
este de unir ligar alimentar e creScER.
Quando for assim grande tão anã tão pequenina
irá final(mente) em verdade (i)merecidamente descansar
a enterrar a incinerar a sair partir pessoa inteira ir embora
E outros a assistir a ficar
a chorar porque ainda imundos porque ainda a penar
E todos a dizer a esforçar e a acreditar louvar:
foi um bom trabalhador de suar suar suar!!
Tão certa tão pouco acertada certeza tão errada erradíssima neste (i)mundo
e tanto tanto muito muito
a lamentar
no caminho meta da Vida
cegamente a acreditar a fazer acreditar numa outra enganada poderosa
meta pequenina
possuir toda a maçã
que é a melhor parte
e com lutas manhas artifícios
proibir aos outros
nunca partilhar
porque é o fruto proibido legitimamente anunciado
e tão reconhecidamente acreditada nunca duvidada a inevitabilidade de parirás os teus filhos com dor e trabalharás com o suor do teu rosto o pão que o diabo amassou.
Isso é o que a história conta. Diz que é o início.
E é o início do (i)mundo…
Antes não seria assim…!!?…
E quem conhece a história do antes toda, porque a-final estava lá, é a serpente!!…
Qualquer dia, um destes dias, ela vai contar…

♦♦♦

Adelina Maria Granado Andrês nasceu no norte do país e aí vive,  em vizinhança próxima com o mar de Gaia e pelo interior transmontano. É docente do ISCAP-P.Porto. Os seus interesses focam-se no pensamento e na obra de Agostinho da Silva e para além do ensaio, dedica-se a outros tipos de escrita, sendo autora de livros infantojuvenis, poesia e prosa poética.

OUTROS DESTINOS – por Monique Lima

Outros destinos

i

— Mostra as mãos! O menino mostra as palmas, levanta os braços, vira de costas contra o muro para a averiguação “de rotina”. No caminho de volta da escola parou para jogar bola, relata. A mochila vai ao chão, a tela do aparelho quebra, os cadernos são vasculhados e gritam com ele. Com as mãos para o alto, escala o muro em um segundo. Ao chegar no topo, abre as suas asas e voa sobre as casas da cidade entardecida. Voa alto até encontrar outros iguais e passa a ir em bando, como as aves. Os pontos de luz, já distantes, são fábricas de dores de mães.

ii

A parede rabiscada leva o homem ao extremo. A criança assustada recua no canto da parede. Cabisbaixa, sussurra com lágrimas nos olhos e sorrindo: — giz de cera, papai. — arte!, aponta. Ele suspende a menina pelos braços e sacode o seu corpo frágil. Com uma das mãos, ela toca a sua face e, com a massinha colorida na outra, cria para o homem um novo coração.

iii

Vira os olhos para cima, o suor pinga na pálpebra. O tapa faz voar o boné, a enxada cai no chão. No saco, uma casca de árvore, um papel com um endereço anotado, farinha de mandioca amarela grossa, um pedaço de cana e um lápis.

O homem armado pergunta:

— O que você tem aí, velho?

Ele mostra as mãos com os olhos cerrados pelo reflexo do sol no chão da estrada de terra.

— Responde! Insiste com um grito.

Ele levanta as mãos com as palmas para cima e diz: — Isto é tudo o que tenho.

♦♦♦

Monique Lima de Oliveira é escritora, letrista de música, educadora, pesquisadora, artista de rua, de cinema e de rádio. Nasceu na Baixada Fluminense (RJ) e foi criada na periferia carioca. É autora de alguns livros e de algumas letras de canções. Vende seus livros na rua e anda por aí “em rotação universal”.

Ig: @outrotempo_moniquelima

NA TAL BOLINHA AZUL… – por Adelina Andrês

 

Lá tão longe e tão perto que até pode ser aqui, num sítio lindo lugar que não era não é só um sítio sítio lugar porque é onde quando e como todas as coisas dos mundos todos e de todas as coisas que não são mundos se anunciam e fazem acontecer e acontecem já está, e que são lindos lindos sempre porque nunca há feios sequer para comparar, há esferas bolinhas lindas de todos os tamanhos grandes e pequenas, pequeninas e tão minúsculas que servem todos os seres – pigmeus e gigantes, fadas e duendes… – que os habitam e visitam e que vão para lá, aqui, passear. Passear vadiar andar percorrer a pé e com asas e sem asas a voar, conforme o que de momento mais aprouver e deliciar!… Continuar a ler “NA TAL BOLINHA AZUL… – por Adelina Andrês”

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (IV). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (II) – por Adelina Andrês

 

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (IV). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (II)
Conclusão

Naquela noite muito estrelada, a Lua acendera-se redonda toda…

Maria pressentia conhecia já sabia… José tentou esconder o desespero que o invadia demasiado todo, e logo logo depressa apressou o passo do burrito. Ao mesmo tempo fugaz e lancinantemente, aos seus olhos ofereciam-se num ápice dois ápices três ápices e num só e mesmo ápice todas as possibilidades de abrigo e aconchego que já não podiam esperar!! Nem um curtinho segundo!! Não podiam esperar nem um curtinho segundo!!… Nem sequer as reticências que nem deviam nem podiam aqui estar!! Mas ficam!

Naquele ápice que incluiu os outros todos, mas todos ao mesmo tempo que foi tão curto que nem interessa contar contabilizar, José vislumbrou um abrigozito de animais… Que bom que bom é mesmo bom!!!… Tem até uma manjedoura com palhinha que será berço do Menino! E animais burro vaca para acompanhar aconchegar – cabem cabemos todos aqui neste lugar… Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (IV). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (II) – por Adelina Andrês”

O MOSTEIRO. TESTEMUNHO – por Maria Toscano

 

Convento Corpus Chisti, V. N. Gaia

o Mosteiro. testemunho.

1.

de dentro de mim falo.

 

de dentro desta catacumba, outrora moira e afonsina, erguem-se os vapores de história mal catalogada.

reviram-se-me ainda as inscrições de guerreiros mortos que repousam, fundo, no íntimo de mim. no fundo do dentro do meu íntimo lembrar, o meu mais íntimo dentro.

ecos das batalhas de metais chispam-me as frestas, intacta ferida, no dentro de mim.

talvez mesmo ferrugens em excelentes arpões antropóides, em insolentes confrontos desde os medievais séculos de maturação. Continuar a ler “O MOSTEIRO. TESTEMUNHO – por Maria Toscano”

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (III). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO – por Adelina Andrês

 

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (III). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (I)

O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO

(Primeira Parte)

Às vezes a Lua, lá no céu, não se vê logo porque é nova. É Lua nova não se vê. Mas está lá na sua límpida invisível transparência. Veem-se as estrelas tantas tantas longe tão longe e algumas tão mais longe e tão mais longe ainda que são só pequenos pontinhos pequeninos de luz que se sabe forte a luzir a tremeluzir a brilhar. E algumas outras são de tão mais longe ainda que só sabemos que lá estão, e pronto. Porque estão tão mais longe e mais longe ainda e ainda e ainda que só se pode é acreditar. E pronto! São como a Lua nova. Não se vê, e está lá, e acredita-se! E pronto. Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (III). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO – por Adelina Andrês”

FALA QUE NEM HOMEM – por Alexandre Malvestio

Não fosse a sua constante ausência a principal lembrança que eu tenho do meu pai na minha infância, eu poderia dizer que minhas maiores recordações são dele deitado sobre um banco de madeira entalhada no fundo de nossa sala de estar. Se eu estivesse entrando em casa, ou cruzando a copa em direção à cozinha, ou mesmo passando ali pelo hall onde uma reprodução barata da Monalisa nos contemplava da parede, eu o via. Na sala, com todas as luzes acesas, a janela escancarada, sem camisa, segurando o controle remoto em uma das mãos e mudando de canal freneticamente. Continuar a ler “FALA QUE NEM HOMEM – por Alexandre Malvestio”

O ATEU TEIMOSO – por Francisco Fuchs

 

Fragmento do Bailly encontrado no século XIV em Aparecida*

O ATEU TEIMOSO

Oswaldo era tão hiperbolicamente ateu que, além de não crer em Deus Pai, não acreditava em deuses nenhuns, fossem eles mães, entidades, pedras ou animais. Ao deparar-se com um lugar de culto, atravessava a rua; e ao dar uma esmola, coisa que acontecia com certa frequência, fazia questão de deixar claro que Ele nada tinha a ver com aquele pequeno gesto de generosidade. Continuar a ler “O ATEU TEIMOSO – por Francisco Fuchs”

AMORES PERDIDOS – por Jefferson de Oliveira

© Laura Makabrescu

AMORES PERDIDOS. ENTRE O DESEJO E O DESTINO

Recordo-me como se fosse ontem, na década de 50, quando eu era motorista de caminhão e realizava viagens diárias do Rio Grande do Sul ao Acre. Partia de Rio Pardo às 8h e, chegava em Rio Branco às 14h do mesmo dia, A minha velocidade era tão absurda que, se Newton me visse, inventaria outra lei para tentar explicar a dinâmica de tal movimento – Eu corria mais do que avião, era uma rotina extenuante, mas cumprida com dedicação. Continuar a ler “AMORES PERDIDOS – por Jefferson de Oliveira”

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM – por Adelina Andrês

MARINHO ou O MENINO QUE CRIA MANDAR NO MUNDO

Foi numa manhã cristalina e fresca de chuva. O vento a assobiar e a fustigar os ramos das árvores e as folhas, e a empurrar as gotas grossas de chuva em todas as direções – um rodopio dançante de água aos bocadinhos, de folhas molhadas e de brilhos muito claros.
Ninguém lá fora naquele pedaço de rua que se via. E, no entanto, uma espera que se adivinhava… Lá vem, lá vem…! É o Marinho, o menino senhor dos sítios de ninguém… Sorridente de vida com um balde de lata redondo enfiado no alto da cabeça, a pega debaixo do nariz… Para andar no meio da chuva abrigado da chuva, pois… Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM – por Adelina Andrês”

CENAS PÓS-CRÉDITO – por Ailton Lima

 

A pipoca estalava na panela, e Pedro sentia que também explodia por dentro. Era um estouro atrás do outro, num ritmo que crescia, como a sensação de que sua relação com Mônica tinha chegado ao fim. Ambos sabiam, mas nenhum tomava iniciativa. Então, seguiam ali, na mesma casa, na mesma cama, sem qualquer intimidade. Casados há sete anos, três meses e dois dias, compartilharam risadas, brindes, choros e viagens sonhadas. Mas foi parado, olhando a pipoca na panela, que Pedro entendeu: alguns grãos estouram até mesmo depois que o fogo se apaga. Continuar a ler “CENAS PÓS-CRÉDITO – por Ailton Lima”

NATIMORTO – por Ronaldo Cagiano

foto by George Becker

A morte o esperava como um ventre.

Carlos Nejar

Desceu apressado o último lance da ladeira que liga a favela ao asfalto, tênue a fronteira entre dois mundos.

Embaixo, a agitação feérica em tudo difere da camaradagem do morro, onde a comunidade se (re)conhece nas solidárias demandas de cada dia. Continuar a ler “NATIMORTO – por Ronaldo Cagiano”

A ROSA TATUADA – por Virna Teixeira

 

A ROSA TATUADA

O pedido para avaliar aquele paciente surgiu na reunião multidisciplinar. A nova psiquiatra da equipe insinuou que eu seria a pessoa ideal para vê-lo, pelo fato de eu ter trabalhado como neurologista no Brasil. Certo é que essas qualificações pregressas nunca me ajudaram muito no quartel do NHS com suas hierarquias. Seria apenas uma mãozinha, digamos, ou um teste para avaliar minha experiência prévia, mas topei. Aquela era minha última semana de aviso prévio na prisão, estranho que meu expertise fosse requisitado justamente às vésperas da minha saída. Continuar a ler “A ROSA TATUADA – por Virna Teixeira”

VIAGEM – por Lionilda Pereira

Jama Masjid, a maior mesquita da India

A palavra viagem cria em mim o sonho qual Peter Pan em busca da Terra do Nunca.

Interiormente agita-se a ideia de organizar, de selecionar o importante de uma nação, lugares, próximos ou longínquos. O mapa, o atlas, livros informativos instalam-se na mesa de cabeceira em busca desse conhecimento de hábitos, tradições, gastronomia, língua; escritores ou artistas famosos. Enfim, proponho-me beber de todas as fontes, esbugalhar o olhar para ver para além do que todos os turistas vêm. Continuar a ler “VIAGEM – por Lionilda Pereira”

HISTÓRIA TRÁGICA DA CRIATURA QUE(….) – por Maria Toscano

(…) TINHA 6 NAMORADOS FALECIDOS E MAIZUM.

(Paródia)

[ A Criatura — no caso, uma rapariga do género feminino, de orientação sexual hétero, e não praticando vampirismo nem nenhuma outra modalidade olímpica, pois nem frequentava o ginásio, nem tinha experiência de caminhadas, quanto mais de corrida… — vinha de perder seis dos seus namorados, o que, coexistindo com outra ocorrência, configurou uma situação trágica que A Criatura desabafou com A Amiga… ] Continuar a ler “HISTÓRIA TRÁGICA DA CRIATURA QUE(….) – por Maria Toscano”

EXCERTO DE “JENIPAPO WESTERN” de Tito Leite

1

O sertão é por um fio. Insetos, folhas, raízes e formigas em volta da terra. Tudo tão seco e ao mesmo tempo inteiriço. No sol escaldante, uma flor luta e sobrevive. Mesmo trincada, a vontade de vida insiste. Na cidade de Jenipapo, tudo é quebradiço, a moeda de troca circula nas lavouras de algodão. Plantam, colhem e se submetem aos três compradores. Não há banco na cidade. Roberto, um dos usineiros que começou como intermediário, disponibiliza o dinheiro e as sementes de baixa qualidade. O pagamento vem com as futuras safras do ouro branco. Um santo mártir, no momento de sua morte, certa vez falou: “Serei trigo nos dentes das feras”. Um pouco isso, o que acontece, as pessoas são trituradas e ainda agradecem, sorridentes. Elas vendem o fruto do seu trabalho praticamente de graça e esbanjando contentamento, como se a compra fosse um gesto altruísta. Continuar a ler “EXCERTO DE “JENIPAPO WESTERN” de Tito Leite”

EL MIEDO A LAS VACAS – por Jorge Etcheverry Arcaya

© Jorge Etcheverry Arcaya

Afuera del supermercado se estaba juntando gente. Al pasar la vi en el medio. Habíamos estado juntos en el mismo hospital la última vez que me internaron. Era obvio que la habían expulsado del Mall. Es que ella cree que tiene derechos, no la culpo, es lo normal en los ciudadanos de este país, tan distinto del que me tuve que venir por obligación. Me reconoció. Me hizo un además con la mano. El policía que hablaba con ella me pareció sólido, consistente, bajo su máscara. Una joven policía mantenía a la gente a distancia. “Es inadmisible” le dije “que los supermercados no tengan una política especial respecto a las personas con problemas emocionales o mentales, especialmente durante esta pandemia”. No me respondió, pero sus ojos inquisitivos y quizás recelosos revelaban todo un contenido tras ellos, un mundo interior. Una ventaja de la pandemia—desde un punto de vista estrictamente personal—es que el evitar la proximidad, el contacto con los demás, se ha convertido en una virtud. La otra es que lo único que vemos de una cara ahora son los ojos. Antes, nuestra atención se iba hacia otros aspectos fisonómicos, para detrimento de nuestra captación de lo esencial, los ojos. La expresión de los ojos revela lo que se llama un alma, que se manifiesta en múltiples facetas, como los estados de ánimo (Stimmung) tan caros al investigador y simple aficionado a la poesía lírica. Pero incluso el hambre del animal salvaje, la fidelidad del humilde can, el auto contentamiento del gato son otras características, no siempre positivas, que indican la existencia de necesidades, afectos, etc., que es lo que nos hace humanos o animales, según sea el caso, y que se muestran a través de ese órgano de la visión. Continuar a ler “EL MIEDO A LAS VACAS – por Jorge Etcheverry Arcaya”

VINHO FINO PARA OS REIS MAGOS – por Manuel Igreja Cardoso

Conto de Natal

VINHO FINO PARA OS REIS MAGOS

Acabada a escola primária, com passagem no exame da quarta classe com distinção, havia que sair da aldeia para continuação dos estudos. Não era para todos, aliás era a exceção, mas uns tios residentes no Porto abriram-lhe as portas e acolheram-no como a um filho. Evitou assim a ida para o seminário, ou o continuar nos árduos trabalhos da lavoura. Continuar a ler “VINHO FINO PARA OS REIS MAGOS – por Manuel Igreja Cardoso”

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (CAP. IV, V, VI )- por Wander Lourenço

IV

SOLAR DE MADAME SOPHIE

DIGO-VOS QUE DE NADA ADIANTOU ajuizá-lo sobre a preocupação que me ocorrera diante da temeridade de se denunciar a figura mais respeitável da Corte de São Sebastião do Rio de Janeiro, pois que, entre o juramento de inocência de uma reles ciganita Juana, mal parida por uma marafona de alcoice, a desaparecida Maria Egípcia, mais validade houvera de ter a acusação de adultério descabida, forjada pela maledicente Dona Carlota Joaquina. Logo, humilhada pela acusação de deslealdade conjugal, o senhor meu esposo Assir Lubbos me devolveu ao escravagista Manolo Negreiro, que me comerciou, a bom preço, ao conselheiro Manoel Vieira da Silva; e, por fim, o Fidalgo da Casa Real de D. João VI me entregou aos cuidados da cafetina francesa de nomeada Sofia Beaurepaire-Rohan, a Madame Sophie. Continuar a ler “A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (CAP. IV, V, VI )- por Wander Lourenço”

O INAUDITO – por Cecilia Barreira

 

O INAUDITO

(Sonhar

sonhar

sonhar

sonhar)

-Já não respiro

sufoco

não quero falar-

 

-Pões o lenço no decote  e em pano de fundo

fecho as mãos numa epístola

as borboletas nascem episódicas- Continuar a ler “O INAUDITO – por Cecilia Barreira”

POEMINHOS (71-80) – por Jaime Vaz Brasil

71.

Primeiro amor
é um efeito represa:

arrebatador
porque se ama
       o amor. Continuar a ler “POEMINHOS (71-80) – por Jaime Vaz Brasil”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (7) – por Lucio Valium

 

RUA

Saí da hospedaria para a cidade. Sufocante e doida na ânsia de tempos dóceis. Mimos e negócios sempre de mãos dadas. Ia com a cabeça a latejar por via de álcoois nocturnos. Deram-me o dia na instituição e não sabiam que ele já era meu. Para não adoecer rasgo as receitas. Encontrei folhas escritas sobre uma certa rixa entre o senhor Pacheco e o senhor Mário. Delicados safados com lábio de ponta e mola. Depois falei com uma menina de olhos pintados a forte traço negro. Aprendiz de joalheira. Fará um dia ornamentos para viperinos figurantes.

O rapaz que me vendeu os cadernos de crítica musical disse que vão fazer uma instalação sonora no Grande Mercado. Sons e sardinhas. Ritmos e malaguetas. Electrónica e azeitonas. Sónicas broas e alfaces psicadélicas.

Andei pelas ruas com desinteresse. Sem linhas prévias. Não tinha onde ir. Não vi nada. Só ir. Por terrenos inabituais.

Mais tarde detive-me olhando grandes telhados de veludo e línguas de deserto ferrugento. Vidros partidos de janelas da história. Arquivos de pó fantasma. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (7) – por Lucio Valium”

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (CAP II, III) – por Wander Lourenço

II

UNA CUENTA POR PAGAR

Naquela mesma noite, o negruzim Deolindo acordou-me com o repuxão de ansiedade, para cobrar-me pela promessa de entrega corpórea, em troca do arranjo da união conjugal com o comerciante Assir Lubbos, o Turco, que me propositara sobrenome árabe e situação familiar. Como palavra empenhada há de ser cumprida à risca, eu permiti que o escravo ladino se esbaldasse da carne fresca daquela ciganita Juana, até desmaiar feito animal feroz capturado em armadilha de mandíbula.

Continuar a ler “A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (CAP II, III) – por Wander Lourenço”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (6) – por Lúcio Valium

MERCADO

Copio para o caderno: petúnia significa “flor vermelha” na língua dos Índios Tupi.

Foi no Grande Mercado das flores e especiarias que disse esta palavra pela primeira vez. Levámos pimenta negra feijão e alhos.

Escrevo ainda: pertencente à família Solanaceae, a mesma de pimentão, tomate e beringela, a petúnia, apesar de ser perene, deve ser replantada a cada Primavera para manter-se sempre florida.

Quando os mercados eram de ferro e ficavam no centro da cidade tu usavas saia como as petúnias e caminhavas como uma flor por entre peixes e frutas.

Petúnia é um som da cor dos teus lábios.

♣♣♣

“May room has two doors” de Kay Sage

Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (6) – por Lúcio Valium”

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (I) por Wander Lourenço

Embarque da Família Real portuguesa

 

Rio de Janeiro
2023

 

PRÓLOGO

Confesso eu que houve certa hesitação de minha parte, María Juana Pillar de La Cruz, quando me propus ao desígnio da escritura das inúmeras transformações geográficas, políticas e morais desta Corte de São Sebastião do Rio de Janeiro, a partir da chegada da Família Real, na corrente data de 08 de março de 1808. Isto porque me questionava se, de fato, seriam válidas e importantes as impressões de uma alcoviteira de prostíbulo centenária, com a memória falhosa e mui decadente, que se decidira por discorrer a respeito da biografia (e intimidades) dos habitantes que, por estas paragens tropicais, já assistiam; e também dos ilustríssimos cortesãos europeus que, por acá, aportaram após a chegada da tripulação das naus-caravelas provindas do Reino Unido de Portugal e Algarve. Em verdade, eu me proponho aos registros do que são meras reminiscências de uma marafona tagarela e já meio decrépita que, sem qualquer intento literário, se debruçou sobre o longínquo passado para discorrer sobre ações dos assíduos frequentadores dos cafés, tabernas e joalherias da Rua do Ouvidor e do Theatro São Pedro de Alcântara, no período das reinações d’El-Rey d. João VI. Em razão da longevidade desta Madame Pillar, eu reportar-me-ei à época posterior ao período de governância do esposo de Dona Carlota Joaquina, denominado Primeiro Império, liderado pelo magnânimo d. Pedro I do Brasil; e ao tempo longevo do Segundo Império, sob a égide do seu sucessor d. Pedro II de Orleans e Bragança. Continuar a ler “A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (I) por Wander Lourenço”

ANTÓNIO – Cassiano Russo

Às vezes acontecia de Antônio Moura ter bloqueios criativos. Olhava para o papel e não conseguia escrever uma única palavra. Ele se sentava em frente à máquina de escrever, pensava em vários acontecimentos, porém nenhum deles lhe parecia digno de ser registrado. Nessas horas, era como se Antônio não soubesse mais transpor para o texto a vida que ele tanto admirava, o que lhe deixava à deriva de seus pensamentos a vagar pelo mundo. Era outro nessas situações de crise. Não, ele não encontrava inspiração nos momentos em que mais precisava escrever. Tinha crônicas a entregar para três jornais, sabia do que pretendia tratar, mas quando era chegada a hora do trabalho da escrita, então ele não era mais do que uma criança que ainda não conhecia as primeiras letras. Ficava horas se contorcendo em cima de uma frase, que ele reescrevia e apagava, por não encontrar a fórmula perfeita, pois não sabia que não há perfeição nesta vida, muito menos na escrita, algo tão pessoal e único, com todas as imperfeições de cada autor em sua labuta com as letras. Não, Antônio almejava a perfeição, queria ser um deus na arte de escrever. Jamais aceitaria um texto feito de uma tacada só. Como escritor, ele buscava filigranas. Por isso passava um dia inteiro para terminar um parágrafo, que para ele estava sempre incompleto e que ia para a redação assim mesmo, porque precisava do emprego. Continuar a ler “ANTÓNIO – Cassiano Russo”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (5) – por Lúcio Valium

COMPASSOS

Somos os dois irmã. Passos lentos nos dias roubados em terra de além Tejo.

Tapas ao cair do escaldante sol. Nas bandas do azul sorvem nossas narinas ávidas. Há vidas, logo embelezem-se. Os olhos com planícies sem fim. Queijo muito fino. Aterrar lentamente. Uma folha na brisa. Nada de utopias nem psicanálise. Esquecidos exames institucionais e ignoradas recomendações. Só apalpar o instante. Inspirar as manhãs e seguir de mansinho. Sem pressa. Em trilhos vazios. Onde árvores antigas repousam. Foram arrumadas ali pequenas casas. E histórias de dor. Que a pintura oficial vai apagando. Com suas escrituras vampiras. Olhamos e sentimos a vida. O que ali sangrou. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (5) – por Lúcio Valium”