O “POLITICAMENTE CORRETO” NAS QUESTÕES AMBIENTAIS – por Ricardo Amorim Pereira

Terá a ditadura do “politicamente correto” chegado às questões ambientais?

Tenho, com o maior dos gostos, vindo a colaborar com esta prestigiada e eclética Revista Athena, abordando, sob o prisma das ciências sociais, o tema ambiental. Continuarei, hoje, a fazê-lo, aludindo a um aspeto que me parece menos observado mas, de igual forma, merecedor de atenção.

A forma obsessiva e intolerante com que uma parte da sociedade, atualmente, defende uma certa “identidade progressista” tem sido motivo de inúmeros debates. Há quem refira que vivemos numa ditadura do “politicamente correto”. Tal como alude o Padre Manuel Ribeiro, no seu artigo A cultura woke e o wokismo https://www.mdb.pt/opiniao/pe-manuel-ribeiro/cultura-woke-e-o-wokismo, não têm parado de emergir, entre nós, “movimentos de moralizadores que pretendem ‘purgar’ as sociedades modernas e ocidentais.” A defesa das minorias tem-se mostrado a arena primordial de tais correntes, sendo contudo de referir que nela as mesmas não se esgotam.

Cada vez me parece mais evidente, com efeito, que o tema ambiental tem vindo a tornar-se num novo e apetecível palco performativo de tais movimentos. A reboque de preocupações ambientais assentes em factos comprovados e de real importância, estes doutrinadores lançam-se numa campanha com contornos inquisitórios, em que eles são os bons e todos os demais, os maus.

Eles são vegetarianos, só compram roupa em lojas de roupa usada, para irem trabalhar apenas utilizam a bicicleta, na hora de tomar duche exclusivamente usam champôs e géis de banho feitos à base de algas, comem unicamente os vegetais que produzem em hortas caseiras alimentadas por adubos naturais, etc. etc.

Só desconheço o estado depressivo em que ficariam assim que alguém lhes demonstrasse que tais aparentes soluções, quando saídas das bolhas dos nichos e transpostas para o domínio da sociedade massificada, apresentariam inúmeros obstáculos e impossibilidades de implementação.

Tais progressistas do ambiente, às segundas, quartas e sextas, marcam presença em manifestações pelo fim das energias fósseis, para logo às terças, quintas e sábados marcharem em protestos contra as minas de lítio de Trás-os-Montes (e isto quando se sabe que, com a tecnologia atual, o lítio é indispensável para o fabrico de baterias para os carros elétricos, aqueles que, no seu uso, não queimam derivados do petróleo).

São capazes, ainda, aos domingos, de fazer greve de fome pela não construção de uma nova barragem, porque não suportam a ideia de uma determinada espécie de peixe, com a construção da mesma, ver a sua população reduzida em 25%.

Os dias da semana estão esgotados mas, por forma a se manifestarem contra a construção de um parque eólico que ameaça uma determinada espécie de rã saltitona, arranjarão ainda, por certo, forma de invadirem uma Universidade e boicotarem os exames que lá decorram. São também contra os parques de energia solar porque os mesmos desarmonizam as fotografias tiradas para o Instagram, nas férias, em cenários bucólicos. Pena ninguém lhes ter explicado que, quer a energia hídrica quer a eólica quer a solar são indispensáveis, para nos libertamos da dependência do gás, carvão e petróleo.

Esta caricatura que acabo de apresentar expõe tanto a ignorância como a hipocrisia destas correntes performativas de tal dialética, politicamente correta, do ambiente.

A Humanidade tem vindo, desde sempre, a impactar no meio ambiente. Existem, por exemplo, evidências de que, em algumas das suas províncias, o antigo Império Romano tenha praticado uma gestão insustentável das suas florestas, criando um cenário de pesada desflorestação.

Importa aceitar que a atividade humana tende a provocar um efeito nefasto no meio ambiente, cabendo a nós tudo fazer no intuito de diminuirmos esse mesmo efeito. Uma visão ingénua e utópica destes fenómenos, muitas vezes instrumentalizada por agendas político-ideológicas, na medida em que criará entropias na implementação das verdadeiras e realísticas soluções para os graves problemas ambientais com que nos confrontamos, irá atrapalhar mais do que ajudar.

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Ricardo Amorim Pereira, Doutorando em Ciência Política, com interesse na área da ecologia política.

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