O QUE SOMOS – por Joana Rebelo

 

Entre processos e percursos.
Da modernidade à atualidade

Da modernidade desde Descartes (1596-1650) conhece-se uma filosofia do sujeito, “penso, logo existo”, o “homem medida”, que tem a sua origem no racionalismo grego, nos sofistas, pois Protágoras, um dos seus elementos mais proeminentes, fixou na mudança de paradigma da natureza para o homem que este “é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” Seguiu-se também a famosa máxima atribuída a Sócrates (mesmo que não lhe pertença): “conhece-te a ti mesmo”, desígnio que a longa Idade Média interrompeu com a submissão do poder da razão para os dogmas de deus. O entendimento da natureza e do homem no seu seio é, por isso, de novo, modificado. Antes dos sofistas, era a physis, a substância física da qual todas as coisas eram feitas, que se impunha como princípio organizador da estrutura das coisas, percurso iniciado por Tales de Mileto, que caracteriza o designado pensamento pré-socrático. Continuar a ler “O QUE SOMOS – por Joana Rebelo”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (7) – por Lucio Valium

 

RUA

Saí da hospedaria para a cidade. Sufocante e doida na ânsia de tempos dóceis. Mimos e negócios sempre de mãos dadas. Ia com a cabeça a latejar por via de álcoois nocturnos. Deram-me o dia na instituição e não sabiam que ele já era meu. Para não adoecer rasgo as receitas. Encontrei folhas escritas sobre uma certa rixa entre o senhor Pacheco e o senhor Mário. Delicados safados com lábio de ponta e mola. Depois falei com uma menina de olhos pintados a forte traço negro. Aprendiz de joalheira. Fará um dia ornamentos para viperinos figurantes.

O rapaz que me vendeu os cadernos de crítica musical disse que vão fazer uma instalação sonora no Grande Mercado. Sons e sardinhas. Ritmos e malaguetas. Electrónica e azeitonas. Sónicas broas e alfaces psicadélicas.

Andei pelas ruas com desinteresse. Sem linhas prévias. Não tinha onde ir. Não vi nada. Só ir. Por terrenos inabituais.

Mais tarde detive-me olhando grandes telhados de veludo e línguas de deserto ferrugento. Vidros partidos de janelas da história. Arquivos de pó fantasma. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (7) – por Lucio Valium”

DE VINHO E DO VINHO – por Manuel Igreja Cardoso

                                                                 Mural de V. N. Gaia/foto by JuliaML

DE VINHO E DO VINHO

Numa primeira impressão, pode parecer quase são a mesma coisa o que se refere no título, mas não. Nem de perto. Duas simples letras alteram em absoluto o que se quer dizer ou identificar. O diabo está nos pormenores como se costuma dizer.   Continuar a ler “DE VINHO E DO VINHO – por Manuel Igreja Cardoso”

TRÊS POEMAS – de Marcelo Torres

ser

pode o ser nas tradições orais ir além das estruturas
feito um pássaro cortês da diversidade,
              ser um animal aqui perto do coração,
não podemos ir adiante enquanto os gigantes mamíferos
             são destruídos em alto mar
                          como conchas pisoteadas por estátuas,
continuar a mimese é o que chamo de obsceno,
os homens predadores sorriem junto com a morte
sem vontade para o debate ecológico,
seguem a lógica de conquistar territórios, de touros de ouro
na Faria Lima sem sonhos,
à medida que ando, o urbano me fere na vesícula
               que reproduz em 3d a fome sem enfeite
ontem encontrei uma garota/totem,
procurava um guia com jipe, para ir na direção das cavernas

(Poema do livro: Infernos Fluviais e por que nunca conversamos sobre Nick Cave?. Editora Clóe, 2023) Continuar a ler “TRÊS POEMAS – de Marcelo Torres”

A MADRUGADA A DOER – de Maria Gomes

Art © Roberto de Mitri

 

A madrugada a doer, a doer-me muito.
Na memória que guarda o teu nome
este cantar lúcido das águas.
Tu és belo como esse canto, esse perfeito tiro ao alvo
ao fundo da noite
perfurando as fogueiras adormecidas.
Que segredo se oculta, em esplendor, onde teu corpo habita?
Quem te nomeia nesse mar tão branco?
O que amas?
A orla do rio, ou a raiz deserta?
A madrugada a doer, a doer-me muito.

♦♦♦

Maria Gomes nasceu em Benguela, República de Angola, em 1958. Foi professora de artes visuais e trabalhou em contabilidade após a independência daquele país. Vive em Coimbra. Tem poemas publicados no Jornal de Angola, nas antologias de Poesia 1 e 2 ” Escritas” sob a edição do poeta José Félix, em outras revistas de literatura na web, e na revista de Poesia de Tradução Di Versos nº 8 de Edições Sempre-em-Pé. Participou no poema ” O Estado do Mundo”, poema criado no ciber espaço, no âmbito de Coimbra, Capital Nacional da Cultura 2003, a editar brevemente em livro, e participou na II e III Bienal de Poesia em Silves, em Abril de 2005 e de 2008.

 

 

TRÊS POEMAS COM ALGUNS ANOS – de Maria Toscano

 

deste cubículo precário
(a A.M.O.)
.
neste cubículo precário que é o mundo
às vezes falta a brisa. e o ar de tuas mãos.
faltam os olhos de água como sorris
a polpa e a saliva que és, na voz,
a fala feita à passagem dos teus gestos
— de ti: a falta. o encanto e a maravilha.
.
neste precário cubículo que é o mundo
deixas ficar-te em perfume. permaneces.
e é pelos densos poros dos sentidos
que, se não estás, sei o instante
sei o instante em que adormeces.
.
neste precário cubículo que é o mundo
nem tudo falta:
ao viveres-me
és também tu que aconteces.
.
maria toscano.
Coimbra, Café-Pastelaria Tosta Rica. 25 Novembro/ 2003. Continuar a ler “TRÊS POEMAS COM ALGUNS ANOS – de Maria Toscano”

POEMAS DEL LIBRO “POEMAS A LA INTEMPÉRIE” – de Moisés Cardenas

Sin título

El silencio de la lluvia
abrazó los ojos de este león que soy.
Ocultándome en un libro,
sentí el sol sobre las palabras.
De pronto salieron gritos,
la visualización
de la orquídea esperando nacer,
recuerdos,
viejas historias,
miré mis zapatos desgastados,
la botella de whisky vacía,
un poema de Walt Whitman.
Supe el sabor de la lluvia. Continuar a ler “POEMAS DEL LIBRO “POEMAS A LA INTEMPÉRIE” – de Moisés Cardenas”

 SANTO UDALRICH – por Rosa Sampaio Torres

   Santo Udalrich

(c. 893 – 4 Jul 973)

       seu contexto genealógico e histórico

A capela de St. Udalrich ainda hoje existente em Avolsheim, Alsácia. Informam fontes locais é “o mais antigo santuário sobrevivente do período carolíngio, pois as investigações arqueológicas realizadas em 1967 permitiram situar a construção desta capela tetra-cônica no século IX”. Continuar a ler ” SANTO UDALRICH – por Rosa Sampaio Torres”

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (CAP II, III) – por Wander Lourenço

II

UNA CUENTA POR PAGAR

Naquela mesma noite, o negruzim Deolindo acordou-me com o repuxão de ansiedade, para cobrar-me pela promessa de entrega corpórea, em troca do arranjo da união conjugal com o comerciante Assir Lubbos, o Turco, que me propositara sobrenome árabe e situação familiar. Como palavra empenhada há de ser cumprida à risca, eu permiti que o escravo ladino se esbaldasse da carne fresca daquela ciganita Juana, até desmaiar feito animal feroz capturado em armadilha de mandíbula.

Continuar a ler “A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (CAP II, III) – por Wander Lourenço”

EDITORIAL – A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E (….) – por Ricardo Amorim Pereira

A Inteligência Artificial e suas repercussões no mercado de trabalho

Um horário laboral para o século XXI

 

O ano de 2022 ficará para a História como tendo sido aquele em que, pela primeira vez, um sistema de inteligência artificial entra na vida quotidiana do cidadão comum. Em novembro desse ano, a empresa OpenAI lança o já famoso ChatGPT, facto acompanhado por outros serviços semelhantes, entretanto, lançados. Assim, e num ápice, a Humanidade apercebe-se do seu real estádio de desenvolvimento, provavelmente bem superior ao que se conjeturava. Continuar a ler “EDITORIAL – A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E (….) – por Ricardo Amorim Pereira”

NO CENTENÁRIO DE NATÁLIA CORREIA – por A. Sarmento Manso

PORQUE APRENDO E ENSINO, PORQUE ENSINO E APRENDO… NO CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE NATÁLIA CORREIA

 

Natália Correia (1923-2023) deixou uma obra poético-literária de qualidade acima da média, ramo da criatividade a que juntou outros como seja a procura dos marcos e das marcas que estão na origem deste retângulo que dá por nome Portugal. Para além de ir lendo a sua obra poética e literária, interessei-me pelo seu pensamento em torno dos arquétipos, das raízes da Nação, e estive por uma ou duas vezes na sua presença, pelos anos de 1980, observando o seu peculiar modo de estar e a rebeldia que os seus atos e palavras encarnavam e como incendiavam os auditórios. Continuar a ler “NO CENTENÁRIO DE NATÁLIA CORREIA – por A. Sarmento Manso”

LITERATURA, A FORÇA HUMANA – por Celso Gomes

 

No fim do século passado, houve lançamento de vários livros contendo listas das cem melhores obras de arte do século que terminava.

Na noite de Natal do último ano do século XX, ganhei de um amigo o livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizado por Ítalo Moriconi, ed. Objetiva. Imediatamente após recebê-lo, fui para um canto da casa e comecei a leitura. Dei cabo da tarefa em poucos dias. O livro é ótimo, os contos escolhidos convivem bem, apesar das discrepâncias de estilos, épocas, gerações. Com certeza, o livro contém o que de melhor se publicou no Brasil no Século XX, bem como deixou de fora alguns contos que gosto muito, por exemplo, o conto Venha ver o pôr do sol, da Ligia Fagundes Telles. Mas listas são assim mesmo, sempre há reclamações e injustiças. No entanto, de todos os contos reunidos, apenas um não sai da minha memória, apesar dos anos passados: A Força Humana, do livro A Coleira do Cão, de Rubem Fonseca. Continuar a ler “LITERATURA, A FORÇA HUMANA – por Celso Gomes”

O TRIUNFO DA (BOA) VONTADE – por Danyel Guerra

Jacques Demy

“Il m’a marquée plus definitivement qui aucun autre réalisateur.  L’image qu’a imposée de moi ‘Les Parapluies…correspond quelque parte à une verité de moi-même

Catherine Deneuve   

Joyeux anniversaire, Jacquot !                                  

Era notte a Avellino, num dia de novembro de 1982. Mal entro no Cine Eliseo, ouço a Chiara me chamando, um tanto frenética. Daniele, vienni qui… Eu ainda não cheguei junto dela e já está me indagando. Conhece aquele cavalheiro? Um minuto só…conheço, ele é o Jacques… Continuar a ler “O TRIUNFO DA (BOA) VONTADE – por Danyel Guerra”

ORTOGRAFIA DE TU CUERPO – por Francisco Álvarez Koki

Jane Graverol (1905-1984), Le Sacre de Printemps, 1960

ORTOGRAFÍA DE TU CUERPO

Desde aquí pienso…
en los puntos suspensivos y las comas
que sólo conocemos yo y tu cuerpo.
Ahora me invade no sólo la tristeza
sino la geografía del silencio.

YOUR BODY’S PUNCTUATION

From this point I wonder. . .
About the ellipsis and the commas
Only familiar to your body and me.
I’m now filled not only with sadness
but also with the geography of silence. Continuar a ler “ORTOGRAFIA DE TU CUERPO – por Francisco Álvarez Koki”

21 DE JUNHO 1970 – por Francisco Fuchs

 

Pelé e Bobby Moore trocam camisas ao término de Brasil x Inglaterra (1970)

 

Para Giuseppina Traverso

Quando eu nasci, o Brasil era o país do futebol: donde se conclui que já não sou nenhum garoto. Há coisas que não podemos revelar sem denunciar nossa idade; porém, por uma dessas leis de compensação que gostaríamos de imaginar arranjadas por um ser superior, quanto mais se avoluma a soma de nossos anos, menor é a importância que damos à divulgação do resultado. Continuar a ler “21 DE JUNHO 1970 – por Francisco Fuchs”

DEZ POEMAS INDIGESTOS – de Henrique Duarte Neto

 

O ÓPIO DO POVO

No passado, o ópio do povo
era a igreja.
Agora, em tempos mais etílicos,
é a cerveja.

No passado, o ópio do povo
era o capital minimamente disseminado.
Agora, em tempos mais lúgubres,
é o capital exclusivo, privado.

No passado, o ópio do povo
era o bom futebol.
Agora, em tempos mais frívolos,
é reality show, besteirol.

No passado, o ópio do povo
era a ideia do paraíso.
Agora, em tempos mais mercadológicos,
é lucrar, desdenhando o último juízo. Continuar a ler “DEZ POEMAS INDIGESTOS – de Henrique Duarte Neto”

RECENSÃO DE “POR LUGARES INCRÍVEIS” DE JENNIFER NIVEN – por Luis Henrique Costa Santana

A POESIA NA OBRA “ POR LUGARES INCRÍVEIS”, DE JENNIFER NIVEN

RECENSÂO DE LUIZ HENRIQUE COTA DE SANTANA*

Em algumas circunstâncias não é o leitor que escolhe a obra, mas sim o inverso. Ultimamente alguns textos estão surgindo para mim, me sinto na responsabilidade de expor sobre eles, acredito que seja um ultraje não fazê-lo.  Já tinha ouvido falar a cerca na obra “Por lugares incríveis” da escritora americana Jennifer Niven, mas eu não liguei muito, parecia ser apenas mais um romance jovem-adulto (young adult – YA). Até um amigo da faculdade pegou emprestado de uma colega dele, nem falou sobre o livro, mas quando uma obra te escolhe não tem jeito. Continuar a ler “RECENSÃO DE “POR LUGARES INCRÍVEIS” DE JENNIFER NIVEN – por Luis Henrique Costa Santana”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (6) – por Lúcio Valium

MERCADO

Copio para o caderno: petúnia significa “flor vermelha” na língua dos Índios Tupi.

Foi no Grande Mercado das flores e especiarias que disse esta palavra pela primeira vez. Levámos pimenta negra feijão e alhos.

Escrevo ainda: pertencente à família Solanaceae, a mesma de pimentão, tomate e beringela, a petúnia, apesar de ser perene, deve ser replantada a cada Primavera para manter-se sempre florida.

Quando os mercados eram de ferro e ficavam no centro da cidade tu usavas saia como as petúnias e caminhavas como uma flor por entre peixes e frutas.

Petúnia é um som da cor dos teus lábios.

♣♣♣

“May room has two doors” de Kay Sage

Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (6) – por Lúcio Valium”

A FAMÍLIA – por Manuel Igreja Cardoso

A família é ser e estar. Pertencer e ser pertencido. Amar e ser amado. Vir de antes, dar, receber e seguir. Sem condição, entregar todo com todo o coração e mais a mente, pois é com ela que tudo se sente.  É ser um nós cá dentro e nós em cada um que é nosso e nós dele.

A família é porto de abrigo depois de se encontrar o rumo certo, quando longe dela, nos arde o desejo de estar perto. É um toque a unir agora e nos dias que estão para vir. É um sentir, um contentamento às vezes descontente, no sublime pensamento que nos distingue e nos faz ser gente. Continuar a ler “A FAMÍLIA – por Manuel Igreja Cardoso”

A IMPORTÂNCIA DE HAVER LIVROS EM CASA – por Olinda Gil

 

Como professora de Português há sempre aquele dia (muitos) em que falo de livros com os alunos. Para um projeto de leitura, por exemplo, tento ajudá-los a escolher os livros: sugiro livros, mostro-os, levo os alunos à biblioteca e desarrumo as estantes… Mas, surpresa das surpresas, os alunos tentam sempre ler livros que tenham em casa (“vou ler um livro da minha mãe”), ou que lhes oferecem (“vou ler o livro que a minha madrinha me ofereceu pelo Natal”), e em alguns casos, selecionam um dos livros mostrados, ou mesmo da biblioteca, mas “querem tê-lo na estante”. Continuar a ler “A IMPORTÂNCIA DE HAVER LIVROS EM CASA – por Olinda Gil”

“LA DANZA DE LAS ESFERAS” DE SANDRIUSKA THEREMIN – Reseña de Pablo Fante

Sobre el poemario La danza de las esferas de Sandriuska Theremin (Marciano Ediciones, 2022).

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Al abrir La danza de las esferas de Sandriuska Theremin, descubrimos de inmediato un fragmento del poema «La palabra» de Gabriela Mistral (Lagar, 1954): «Yo tengo una palabra en la garganta / y no la suelto y no me libro de ella / aunque me empuja su empellón de sangre». Esta cita aislada invoca el poder del lenguaje que hierve en nosotros y se nos atraganta. Es una palabra violenta y peligrosa, porque si la soltamos «quema el pasto vivo, / sangra al cordero, hacer caer al pájaro». Justamente, este poemario de Sandriuska Theremin utiliza el poder de la palabra para hacer girar en armonía diversos elementos de la realidad y la naturaleza que, al mismo tiempo, existen en un mundo de violencia latente: así como el átomo engendra la bomba atómica (p. 15), la celebración de las ondas electromagnéticas tampoco pasa por alto su capacidad destructiva: «ondas delirantes / que se incendian / a 300.000 kilómetros por segundo / en el vacío» (p. 16). Esta doble dimensión del mundo aparece plasmada también en un collage (el primero de diez), que representa un planeta rodeado por naturaleza, esferas y átomos (p. 13), y que dialoga con el poema que le da título al libro, «La danza de las esferas»: «Esferas rojas y anaranjadas / Bailan en el cielo / abrasan el jardín / rompen ventanas / invaden la habitación / des / me / nu / zan / mi / cuer / po». Las esferas celestes son como las partículas que componen nuestro propio cuerpo. Ejecutan en armonía el baile que nos permite existir materialmente en la realidad y, al mismo tiempo, albergan la posibilidad latente de la disgregación y el caos a través de una explosión de la materia. Continuar a ler ““LA DANZA DE LAS ESFERAS” DE SANDRIUSKA THEREMIN – Reseña de Pablo Fante”