MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (II)– por Adelina Andrês

VIVER NESTE CHÃO ou NASCER NATURAL(MENTE) CRESCER

Na noite e à luz acesa do interior de um quarto. No chão num tapete ao lado das botas do pai que não estava de momento. A trabalhar lá fora e o trabalho de parir cá de dentro. Que iria demorar pensava a mãe pela experiência passada e penosa da outra vez. O irmão tio não estava que tinha fugido de medo. De medo e de susto daquelas coisas que não conhecia nem queria. De medo e de fuga. Não demorou não demorou e nasceu logo. Só a espanhola vizinha apareceu e já estava tudo acontecido: a criança, a mãe, as botas e o tapete. No tapete. Foi só a ajuda de chamar a parteira para cortar o último cordão umbilical. Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (II)– por Adelina Andrês”

ATHENA REVISITADA- III – Cecilia Barreira

 

…Na Edição Nº 16, em Maio de 2021, Cecília Barreira escreveu para Athena “ALGUMAS PALAVRAS SOBRE Jean Paul Sartre”.

Foi assim, aqui:

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE JEAN PAUL SARTRE

As palavras já não residem nas historicidades em desalinho, mas procuram-se em mitos refundadores e alheios ao sagrado, maré ontológica de um nada em emergência, um caos de transitoriedades em abstinência, Sartre cruza-se com Simone de Beauvoir em 1929 através de René Maheu, persistências anódinas em cerejas sem Verão,

Inúteis as cadências, Continuar a ler “ATHENA REVISITADA- III – Cecilia Barreira”

FALA QUE NEM HOMEM – por Alexandre Malvestio

Não fosse a sua constante ausência a principal lembrança que eu tenho do meu pai na minha infância, eu poderia dizer que minhas maiores recordações são dele deitado sobre um banco de madeira entalhada no fundo de nossa sala de estar. Se eu estivesse entrando em casa, ou cruzando a copa em direção à cozinha, ou mesmo passando ali pelo hall onde uma reprodução barata da Monalisa nos contemplava da parede, eu o via. Na sala, com todas as luzes acesas, a janela escancarada, sem camisa, segurando o controle remoto em uma das mãos e mudando de canal freneticamente. Continuar a ler “FALA QUE NEM HOMEM – por Alexandre Malvestio”

“CIRCO POBRE” de Emilio Barraza Durán – reseña de Claudia Vila Molina

La neblina como un elemento “no humano” que expone múltiples interpretaciones del hablante lírico de “Café” en Circo Pobre de Emilio Barraza Durán

El tercer libro de poemas Circo pobre (2024) del poeta chileno y profesor de lenguaje Emilio Barraza Durán está pleno de imágenes ancladas en la crítica social y en la ironía, ello es parte de la antipoesía, como uno de los principales temas y recursos. En este amplio contexto, yo quiero analizar un punto literario que me parece muy relevante y es la forma en que el hablante lírico se expresa en el texto “Café” (102 ) el que está antecedido por “Lamentos míticos” (101 ) y en la página que continúa (103) “Ancianos jugando ajedrez”. Tomo el conjunto de estos tres textos, porque me parece interesante la ubicación y la interrelación de cada uno de ellos, dentro del esquema general del libro. En esta línea, el diálogo de estos tres poemas insinúa una especie de melancolía y resignación en torno a la suerte de un sujeto (a) chileno (a) que habita un lugar vulnerable y reiterativo (en relación con la impotencia imperante frente a un sistema socio político que lo atropella). En este conjunto, yo me detendré en “Café” como un texto caracterizado por un hablante lírico peculiar, cabizbajo, insomne y dubitativo que se expresa desde el lugar de la resignación y la melancolía: “Este café/ lleno de niebla/ que me toca tomar ahora”. Continuar a ler ““CIRCO POBRE” de Emilio Barraza Durán – reseña de Claudia Vila Molina”

HELENA SÁ E COSTA: AS TECLAS DA COERÊNCIA – por Danyel Guerra

Helena Sá e Costa tem um teatro com seu insigne nome no Porto natal.  Mas quem é Helena Sá e Costa?, indagará, curiosa, a esmagadora maioria dos portuenses. Que boas razões justificam que ela tivesse amadrinhado essa sala de espetáculos?, perguntarão os mais renitentes. A essas (im)pertinentes questões eu procuro responder nos acordes que se seguem, num recital a duas vozes. Continuar a ler “HELENA SÁ E COSTA: AS TECLAS DA COERÊNCIA – por Danyel Guerra”

“TEMPO DE TIGRE” E OUTROS POEMAS – por Felipe Duarte de Paula

Tempo de tigre

No início da manhã, um tigre espreita meu quintal.
Ignoro sua intenção, embora o olhar carente
insinue que está à caça de amizade.
Acontece que não converso com animais selvagens.
Atrás da janela cerrada, contemplo o balé do felino
que, andando de lá pra cá, pisoteia meu gramado.

No meio da tarde, insiste em passear por ali o animal.
Imagino que já devorou tudo que encontrou pela frente.
Não posso assegurar que essa seja a verdade,
mas, sem dúvida, antes minhas crenças do que miragens.
Todos sabem: não se brinca com bicho de instinto assassino.
Entregar-se à toa à morte seria pecado.

No fim da noite, além de um vulto, nenhum outro sinal
da fera que ao meu redor se fez presente.
Não tive medo, posso afirmar despido de vaidade.
E, apesar do tigre, despontam intactas as paisagens
que adornam a província. Chegou a hora de entoar o hino,
fortificar o muro, reforçar a porta e o cadeado.

♦♦♦ Continuar a ler ““TEMPO DE TIGRE” E OUTROS POEMAS – por Felipe Duarte de Paula”

O ATEU TEIMOSO – por Francisco Fuchs

 

Fragmento do Bailly encontrado no século XIV em Aparecida*

O ATEU TEIMOSO

Oswaldo era tão hiperbolicamente ateu que, além de não crer em Deus Pai, não acreditava em deuses nenhuns, fossem eles mães, entidades, pedras ou animais. Ao deparar-se com um lugar de culto, atravessava a rua; e ao dar uma esmola, coisa que acontecia com certa frequência, fazia questão de deixar claro que Ele nada tinha a ver com aquele pequeno gesto de generosidade. Continuar a ler “O ATEU TEIMOSO – por Francisco Fuchs”

MAIS TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho

COMÉDIA

e tudo ser
……………uma piada
 para quê?
…………..se apenas
para provar
…………..a sobranceria
…………..ao mundo

assim
……………ocultando,
mãos
…………..sobre a face,
o quão acima,
…………..quão alto
…………..à visão

da circunferência,
…………..se pensa ser,
e enganando,
…………..fútil
engraçado,
………….o próprio engano
………….enganador

que engana,
…………..num estúpido
movimento
…………..de lábios
…………..curvos para cima

 gáudio
…………..ou sofro,
o choro
…………..é a verdade
………….travessa

ao corpo,
…………..e a lembrança,
na carne,
…………..das águas
…………..da Criação

 mas o riso,
…………..demência
frívola,
…………..é Caos
…………..premeditado

ou a diminuição
…………..ontológica
de tudo,
………….. por ocultação
…………..imparcial

de um medo,
…………..de cuja sorte
só Deus
…………..é o imperturbável
…………..detentor

 candidez
…………..alva,
o choro
não ilude
…………..ou trai apenas
…………..confessa

apenas
…………..diz   eis-te,
sem palavras
…………..que vasculhem
…………..o sentido

quando rir,
…………..prazer banal,
troça
…………..ou faz-pouco,
movendo-se
…………..inveja, irmão
…………..da jovem

crueldade,
…………..como pranto
dito
ao contrário,
…………..por súbita
…………..repressão facial

 pois demora-se
…………..o riso?
na beleza
…………..de uma só face,
…………..ou apenas

a medindo
…………..por ostentação
e vaidade,
…………..para depois
…………..lhe esborratar

a pintura
…………..eis o segredo
de qualquer
palhaço,
…………..e o porquê
…………..da sua máscara

e não
…………..louvar a bravura,
o enfrentar
…………..elegante
do touro,
…………..sem cobrar
…………..bilhetes

à entrada
…………..para assistir
ao espectáculo
…………..final,
despindo
…………..o vulto
…………..à razão

♣♣♣

Continuar a ler “MAIS TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho”

PERTENCIMENTO de Jaime Vaz Brasil

Pertencimento*

 

Pertenço a minha memória
e ela me escreve, em conflito.

(Na fresta, sou quem espia
entre a verdade e o mito).

Dentro de mim há um palco
onde tropeço na dança.

(Minha história – em seu novelo –
me enreda em fato ou lembrança?).

Pertenço a minha memória,
mas só ao que ela me dita:

versão, ato ou livro em branco
onde sequer foi escrita

Dentro de mim, um duelo
entre o exato e o talvez.

(Como se assim, me lembrasse
o que a vida ainda não fez…)

Pertenço a minha memória
entre algoz e prisioneiro.

(Em sangue, tantas metades
já não me fazem inteiro).

Dentro de mim, outra coisa,
sentindo além do que sente.

Existo além dos sentidos:
eu existo alheiamente.

—–

*O poema “Pertencimento” foi musicado por Pedro Guerra, e participou de uma Califórnia da Canção.

♦♦♦

Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

A MULHER AVARIADA – por Idalina Correia da Silva


© Maria Correia

Começou por lhe cair o chapéu,
Depois o botão do casaco marron,
Mas logo ficou órfã de pai, mãe, irmão e um punhado de namorados
Emagreceu bastante só até acabar por engordar muito
Perdeu paixões, missas, comícios e ficou sentada à espera do fim do mundo
Como um marco miliar à beira do asfalto, só a fumar.

Estilhaçou tudo o que construiu
Até o disco hernial L5-S1
Mas logo se despediu do rumo que era um homem de carne e osso
Culpou infamemente a literatura, os jornais e o cinema
Abandonou ideias, encantamentos, histórias e ficou sentada à espera do seu fim.

Como o pó de uma corrida todo-o-terreno, só a beber cerveja. Continuar a ler “A MULHER AVARIADA – por Idalina Correia da Silva”

AMORES PERDIDOS – por Jefferson de Oliveira

© Laura Makabrescu

AMORES PERDIDOS. ENTRE O DESEJO E O DESTINO

Recordo-me como se fosse ontem, na década de 50, quando eu era motorista de caminhão e realizava viagens diárias do Rio Grande do Sul ao Acre. Partia de Rio Pardo às 8h e, chegava em Rio Branco às 14h do mesmo dia, A minha velocidade era tão absurda que, se Newton me visse, inventaria outra lei para tentar explicar a dinâmica de tal movimento – Eu corria mais do que avião, era uma rotina extenuante, mas cumprida com dedicação. Continuar a ler “AMORES PERDIDOS – por Jefferson de Oliveira”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS VII – por Lúcio Valium

VIDROS

Há vozes. Ao fundo do corredor surgem linhas humanas. E o cambalear é interrompido. Descalço as botas e as meias estão gastas. Onde andaste. Pergunta imaginária. Respondo em silêncio à não-pergunta. Mas ninguém. É tudo cá dentro. Viroses assaltam os armários. Farpas encefálicas aparecem a meio da noite. Tento lavar o terraço mas nascem ervas incógnitas. E os envelopes recebidos exigem lentes felinas. Tudo é decifrado à base do cifrão.

Pobres das palavras que desaparecem diria o do 24. Os pobres não as escondem. Agora há teclados e superfícies deslizantes. Material moderno para infetar as mentes. Há muito que estou ultrapassado apontam os entendidos. Procuro engendrar a auto-exclusão. Portanto brindemos ao simples. Ao que ainda não se deixou esventrar. Honra aos seres que sabem acariciar. Que deixam assim, sem estragar. O mesmo se faça com o que chamam natureza já que os figurantes se acham fora dela. E com este uivo sinto-me tão feliz por sermos dois animais. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS VII – por Lúcio Valium”

5 POEMAS EM VERSO E PROSA – por Luís Fausto

Explicação

Quando te vi aparecer vinhas já sem qualquer palavra. Arranhavas as pernas nas urzes e espinhos dos cardos, os cães corriam-te loucamente à volta porque em ti conheciam a liberdade e a obediência. Depois, a um teu gesto, improfundável e erudito, os animais prontamente se esticaram numa seta como se soubessem que daquelas serenas urzes se levantaria uma imensa revoada e que um sucessivo trovão abrasaria o ar.
No fim do silêncio, caíram duas aves. Abriste os olhos, tristes, tão claros que para muitos seriam apenas belos. Ninguém saberia descodificar no teu fácil gesto de prender as aves à cinta a consternação de possuir um indissolúvel poder, nem, na tua sóbria execução da virilidade, a indecisa suspeita de uma justiça estragada, embora inominável, nem o desencontro do homem consigo mesmo quando a dúvida o instala em dois estados de permanência.
Mas isto passou-se rápido. Quando te olhei outra vez, já te afastavas com os cães na direção oposta à do vento, sem me dares qualquer explicação. Continuar a ler “5 POEMAS EM VERSO E PROSA – por Luís Fausto”

ABRAÇAR O INACABADO: UMA DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS- por Marianela Tiranti Gattino

© Bodan Zwir

 

Dupla negação
Não é possível
renegar de quem se é.
Não é possível
privar aos outros
de aprender
a ser mais humanos
a partir do que podem
ressoar conosco,
nesta convivência planetária.
Não é possível
renegar de quem se é,
porque isso implica
enfatizar a negação
disso que somos.
Porque temos uma história
e temos transitado um caminho.
Porque somos com outros
e geramos um impacto.
Não é possível
privar aos outros de nos conhecer,
e não é possível
privar-nos de conhecê-los.
Aprender a viver,
de isso se trata,
aceitando nossa luz
e nossa sombra,
em todos. Continuar a ler “ABRAÇAR O INACABADO: UMA DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS- por Marianela Tiranti Gattino”

A NOSSA MÃE – por Manuel Igreja Cardoso

A NOSSA MÃE

A nossa mãe, é a melhor mãe do mundo. Mas é também a mais bonita aqui e em qualquer lugar, agora e sempre pois não há longe nem distância para quem bem se quer quando se habita na substância do tempo. A nossa mãe é água que corre por entre os choupos no sublime rio em que somos as pedras moldadas com o seu fluir. A nossa mãe não tem de estar para se fazer sentir.

Basta-lhe ser completa e imensa como sempre é aos nossos olhos por ela maravilhados. A sua presença é constante em cada instante. A gente sente-a e pressente-a. Ao menor temor corremos por instinto em busca do seu regaço. Continuar a ler “A NOSSA MÃE – por Manuel Igreja Cardoso”

A SOCIEDADE DO ESPELHO INVERTIDO – por José Paulo Santos

A Sociedade do Espelho Invertido: Uma Nova Visão Crítica da Realidade Contemporânea

Já não vivemos num mundo onde as coisas são o que parecem. Ou melhor, já não vivemos num mundo onde as coisas são sequer aquilo que dizem ser. Vivemos numa sociedade em que tudo é apresentado ao contrário — como se olhássemos para um espelho que não apenas reflete, mas distorce, inverte, engana. Chamarei a isto a Teoria do Espelho Invertido.

O conceito é simples: muitas das verdades que aceitamos como naturais na nossa sociedade são, na realidade, versões invertidas daquilo que deveriam ser. O que vemos como progresso pode esconder regressão; o que chamamos liberdade pode ser uma nova forma de aprisionamento; o que celebramos como conexão pode ser, no fundo, isolamento disfarçado. Continuar a ler “A SOCIEDADE DO ESPELHO INVERTIDO – por José Paulo Santos”

“ESCRITO EN LA HABANA”, de Moisés Cárdenas – reseña de Robert Miller

 

LA POESÍA MARINA DE MOISÉS CÁRDENAS DE SU POEMARIO ESCRITO EN LA HABANA

El poemario Escrito en La Habana del poeta Moisés Cárdenas, publicado por el Fondo Editorial Ollé de Edgar Freites e ilustrado por el talentoso artista Leandro Cárdenas, nos sumerge hacia el mar. Quien realizó las palabras de presentación del poemario, Benedicto González Vargas nos dice:

«En estos versos que fluyen del hablante lírico, con la misma escurridiza fuerza de las aguas que tan omnipresentes están en este poemario, pueden encontrarse decenas de imágenes que nos hablan de mares, libros y amores. La mujer hermosa, sensual, húmeda, como objeto de pasión y de deseo cubre las páginas de esta obra con la misma fuerza que el mar, en ocasiones como quieta imagen, pero a menudo imparable en fuerzas y energías», con estas palabras el profesor Benedicto Vargas, resalta además que, Escrito en La Habana, hay muchas cosas que explorar. Así lo expresa: Continuar a ler ““ESCRITO EN LA HABANA”, de Moisés Cárdenas – reseña de Robert Miller”

SERÁ A CHINA O MAIOR POLUIDOR DO MUNDO? por Ricardo Amorim Pereira

Mercado nocturno de Hong Kong

Será mesmo a China o maior poluidor do mundo?

No presente artigo, submetido a esta prestigiada Revista, proponho-me introduzir uma distinção analítica frequentemente negligenciada nos debates acerca do aquecimento global de origem antropogénica: a diferença entre o indicador de emissões totais de gases com efeito de estufa (GEE) e o indicador de emissões per capita, ambos aplicados à avaliação do contributo climático de diferentes países. Esta distinção, de natureza metodológica e normativa, visa contribuir para uma apreciação mais rigorosa e equitativa da responsabilidade climática, com especial incidência no caso da República Popular da China. Continuar a ler “SERÁ A CHINA O MAIOR POLUIDOR DO MUNDO? por Ricardo Amorim Pereira”

BOCA A BOCA – por Vinicius Comoti

To create a little flower is the labour of ages.
William Blake

I
esperma numa cisterna com uma enfezada raposa comemorando a vitória sobre os segredos da língua a fuligem alusiva de estrelas banhadas no magma das representações semeadas pelo absurdo de uma noite inventada pelos juncos & pupilas mascadas no devaneio de ruas caducas onde a amnésia se estreita entre os ventos sobre os escombros do sonho confundido com gerânios acolchoados pela hipnose da catedral mijada pelos mendigos & flores sem lembranças

II
o que me voltava & me deglutia na sangria do açougue dos espíritos o que me indagava sobre o verde dos hospícios o que me afligia com a navalha de uma esperança assassina os dias no espelho da ilusão de um rosto sem aura & calma o caos com bochechas quentes

quem é você?
bebê de bicho

III
os pivetes surfavam no teto do trem
o mais tímido, escorregou-se no vagão & foi moído no trilho como uma moeda sem valor
o outro, arguto ao ritmo da locomotiva, lançando manobras mirabolantes, não percebeu o fio &
morreu como capa de jornal: onda de ferro leva surfista eletrocutado

IV
todas as camas na lama de amor & narcóticos
lampejos mutilados pelo desejo
beijos como travesseiros arrojados na penetração
do céu transformado em véu
amantes com dedos de rinoceronte

V
te encontro na sombra do caos
& lhe desfiro os tentáculos de uma cega sensibilidade
nossas cabeças na correnteza
& a gravidade abruptamente se estende ao contágio
dos pássaros fundidos no aço
camuflagem prolongada na solidão

VI
a mosca na garapa
o pombo no pastel

VII
a insônia da voz pluviosa
na rua que jamais foi rua
besta criada com pantufas

VIII
asas
desesperadas Continuar a ler “BOCA A BOCA – por Vinicius Comoti”

JÁ NÃO HÁ ESPAÇO PARA POEMAS FÁCEIS – por Sandra Guerreiro

© Ryanniel Masucol

 

1
por baixo dos passos
sob a asa
……………desenho
o afinco contorno
……………essa bátega de água a ferver pelas costas
pela vela abaixo
……………devolvendo
como fazem as aranhas

reclamar o posto
mórfico

em desvio e desvario

2
já não há espaço para poemas fáceis
são demasiados leitos que não se conseguem desver

e eis que racha a folha
que nos vai calhar

e a pergunta flutua
no queixo que segura a boca fechada

3
há as peles que toldam o andar
e os pulos dos dias esquecidos no caderno
há o desformar o sangue
e os socalcos prontos a confrontarem o vento

no meio de nós Continuar a ler “JÁ NÃO HÁ ESPAÇO PARA POEMAS FÁCEIS – por Sandra Guerreiro”

LEIA A EDIÇÃO Nº 31 – FICHA TÉCNICA

EDIÇÃO E PROPRIEDADE: Pencil Box – Multimédia, Ldª-

 ISSN 2184-0709

DIRECÇÃO: Júlia Moura Lopes + DIRECTOR ADJUNTO – Artur Manso

Logótipo e SEO : David Fernandes

Email: revista.athena2017@athena

Paginação Web: Júlia Moura Lopes

Apoio Web: David Fernandes e Luís Guerra e Paz

♦♦♦♦

COLABORARAM NA EDIÇÃO Nº 31

MARÇO DE 2025

CAPA  – ‘Camões e as Tagides’ (1874) – Columbano Bordalo Pinheiro, óleo sobre tela, Museu Grão Vasco,Viseu, Portugal.
EDITORIAL :  “UM CONTENTAMENTO DESCONTENTE”,                                   POR DANYEL GUERRA
COLABORARAM:

Adelina Andrès,  A. Sarmento Manso, Paulo Ferreira da Cunha, Claudia Vila Molina, Danyel Guerra, Fernando Martinho Guimarães, Francisco Coutinho, Francisco Fuchs, Jaime Vaz Brasil, Januário Esteves, Joaqum Cesário Mello, José Carlos Sanchez Lara, Lucio Valium, M. H. Restivo,  Manuel Igreja Cardoso, Maria Toscano,  Ponti Pontedura, Ricardo Amorim Pereira.

♦♦♦

UM CONTENTAMENTO DESCONTENTE – EDITORIAL por Danyel Guerra

 

Diogo, a criança que calou a arma com a flor. Da autoria do fotógrafo Sérgio Guimarães.

UM CONTENTAMENTO DESCONTENTE

“Há uma justa medida em todas as coisas; E existem certos limites” Horácio

 

I– Às 24 horas do próximo dia 24 de abril terminam as celebrações populares e institucionais do cinquentenário do levante cívico-militar que, sem efusão de sangue, vibrou o golpe de misericórdia na ditadura estadonovista de Salazar e Caetano, O vermelho, vibrante, só era visível nos cravos que floriram no cano das  metralhadoras.

Ao longo desses 365 dias de comemorações, nem sequer o mais otimista aos Drs. Pangloss da classe política dominante  se extenuará na entoação de hosanas às virtudes, conquistas e realizações  do regime abrilista,  como se Portugal estivesse vivendo num mundo leibniziano, como se os portugueses  estivessem próximos de atingir o zênite da prosperidade econômica, da justiça social, tributária e eleitoral,  das liberdades individuais, da isonomia e da equidade jurídicas, do bem-estar coletivo a que têm direito enquanto cidadãos de um país democrático, onde o estado de direito se alça como firme e bem fundada trave-mestra.

Julgo que só um paladino inebriado por etílicas bebemorações ousará afirmar que está sendo alcançada a harmonia da desejada triangulação dos três “D” inscritos no programa do Movimento das Forças Armadas (MFA). Continuar a ler “UM CONTENTAMENTO DESCONTENTE – EDITORIAL por Danyel Guerra”

ATHENA REVISITADA- II- Paulo Ferreira da Cunha

Na Edição O, de Maio de 2017, Paulo Ferreira da Cunha escreveu  ” Athena – Mito & Cultura”.

Revisite-nos aqui:

O Mito é o nada que é tudo

Fernando Pessoa, Mensagem

Athena, por Paulo Ferreira da Cunha

1.Um Projeto Cultural

Não haverá certamente melhor nome para uma revista de cultura que o de Athena. Para mais uma revista eletrónica, em que o pensamento e a arte se associam naturalmente, indissoluvelmente, à ciência e à técnica. Assim como Athena simboliza a aliança perfeita das mãos e do espírito[i]. Continuar a ler “ATHENA REVISITADA- II- Paulo Ferreira da Cunha”

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM – por Adelina Andrês

MARINHO ou O MENINO QUE CRIA MANDAR NO MUNDO

Foi numa manhã cristalina e fresca de chuva. O vento a assobiar e a fustigar os ramos das árvores e as folhas, e a empurrar as gotas grossas de chuva em todas as direções – um rodopio dançante de água aos bocadinhos, de folhas molhadas e de brilhos muito claros.
Ninguém lá fora naquele pedaço de rua que se via. E, no entanto, uma espera que se adivinhava… Lá vem, lá vem…! É o Marinho, o menino senhor dos sítios de ninguém… Sorridente de vida com um balde de lata redondo enfiado no alto da cabeça, a pega debaixo do nariz… Para andar no meio da chuva abrigado da chuva, pois… Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM – por Adelina Andrês”

CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso

Em frente a Jesus crucificado
nu, só e abandonado
de rosto triste e semblante plasmado
abandono o rancor, sinto-me confortado
olho-o no rosto e seu olhar curvado
afaga-me a tormenta
ampara-me o pecado.
Com outros prometo
em remorso disfarçado
aliviar-lhe o desgosto
da carne rasgada
que embebe as suas chagas.
Volvida a meditação
com a consciência aliviada
pelo perdão que não mereço
dos pecados sucessivos
dou-vos graças e outra vez peço
que me aceiteis como vosso amigo.

♣♣♣

Talvez fosse maio
e junho já estivesse a espreitar.
A chuva não caía
e o vento não queria incomodar.
As jovens moças
passeavam para que as admirassem.
Os sentidos de uns e de outros
cruzavam-se e encantavam-se
demorando-se aqui e ali.
A curiosidade das crianças,
o vigor da juventude
e a astúcia dos mais velhos
iam-se diluindo
nos instantes passados
que o tempo arrebatava. Continuar a ler “CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso”

RESEÑA AL LIBRO DE GABRIEL PALOMO PONCE – por Claudia Vila Molina

 

Reseña crítica literaria al libro de Gabriel Palomo Ponce
A Destiempo, Reminiscencias e Instantáneas (2022)

 

Caminar solo y sin rumbo por las calles, un día desocupado de noche. Había olvidado lo bien que se sentía

La estructura narrativa de A Destiempo, Reminiscencias e Instantáneas (2022) se compone de diversas narraciones, relativas a todo orden de cosas, por ejemplo: relaciones amorosas, amistades, entre otros. El ordenamiento lógico de cada una de las historias no se avizora bajo un eje predominante, más bien se exponen y se van significando cada una en sí misma y un aspecto interesante es que el lector puede interpretarlas libremente o asociar una con otra, para de este modo trazarse un mapa o esquema mental. Quizá algo parecido a lo sucedido en Rayuela (1963) de Julio Cortázar, obviamente en el itinerario que promueve Palomo. Continuar a ler “RESEÑA AL LIBRO DE GABRIEL PALOMO PONCE – por Claudia Vila Molina”

BIOÉTICA – por Fernando Martinho Guimarães

Nos últimos dias de Novembro de 2018, o mundo recebeu uma notícia que não estava preparado para ouvir. Um cientista chinês anunciou o nascimento de duas irmãs gémeas editadas geneticamente.  Através da manipulação genética teria desactivado um gene e assim tornar as crianças imunes à infecção pelo vírus da Sida. Os embriões eram saudáveis, diga-se desde já, o que faz com que a intervenção não seja terapêutica, isto é, para curar uma doença hereditária, mas sim uma tentativa de melhoria genética da espécie humana. Passaríamos a ter, pela primeira vez na história, dois tipos de pessoas, as naturais e as editadas, as melhoradas geneticamente.

As reacções, sociais e na comunidade científica, não se fizeram esperar – tinha-se passado uma linha vermelha e a caixa de Pandora abrira-se para a eugenia, isto é, para os bem-nascidos, com todas as vantagens que a edição genética pode fornecer e os outros, a esmagadora maioria dos outros, os naturais, os que não teriam acesso a essa melhoria que a bio-tecnologia promete dar. O governo chinês reagiu imediatamente e mandou suspender todas as investigações. O cientista, como parece já habitual em algumas sociedades, desapareceu. Continuar a ler “BIOÉTICA – por Fernando Martinho Guimarães”