25 DE ABRIL: HISTÓRIA E CONTEXTO – por Manuel Igreja Cardoso

O tempo. O que fazemos dele, e o que fazemos nele a tempo e a destempo. Perceber a substância do tempo e agir nele adequada e inteligentemente, parecendo fácil, e extremamente difícil. Uns conseguem, outros não.

Em Portugal tem sendo difícil, muito mais desde que os futuros deixaram de ser o que eram. Há coisa de dois séculos, digamos assim. Por exemplo, por razões de vária ordem, entre elas, a ausência da dita Revolução Industrial nos anos certos, o século XIX livrou-se muito tarde do século XVIII, e o aquele entrou Portugal adentro até o meado do século XX.

Grosso modo, e eu posso testemunhar, na década de sessenta deste, eram perfeitamente visíveis, os modos de vida, os hábitos, as crenças, as mentalidades e os anseios dos anos oitocentos. Bruxas nas encruzilhadas, lobisomens nas calçadas pela noite, muito trabalho por pouco dinheiro e quase nula mobilidade social, era a matriz do país cinzento e morrinhento.

Situando-nos agora num ponto. Quando em 5 de outubro de 1910 a República se implantou como novo regime, tudo parecia ir mudar. Os burgueses urbanos idealistas disseram e queriam provocar um vendaval destruidor das velhas estruturas, mas quase nada mudou. Entretiveram-se a guerrear-se fazendo cair governos num rodopio estonteante.

Em 28 de maio de 1926, os militares marcharam de Braga até Lisboa, e instalaram a Ditadura Militar, com a pretensão de pôr ordem nas coisas. Desde logo, acharam por bem chamar de Coimbra um entendido em Finanças. O senhor doutor, António de Oliveira Salazar de seu nome, veio, alinhou as linhas do deve e do haver, mas nada tardou quis acertar tudo o resto.

Em 1932 instaurou o Estado Novo, uma ditadura nos moldes de outras em vigor na Europa. O problema, digamos assim, é que o douto senhor finda a Segunda Grande Guerra, não percebeu que os seus compinchas haviam caído e que os tempos eram de mudança.

Tinha levado de Santa Comba Dão as novidades da horta e mais o galinheiro, e não percebeu que na modernidade que se impunha, os cantos dos galos deixaram de ser o despertador e que os horizontes se iam alargando. Isolou-se e isolou-nos. Não acompanhou os tempos. Os seus sonhos só iam até à ponta do seu nariz e não arejou a cabeça nem o quarto de dormir.

Não viu porque não abriu as janelas, que por exemplo todos os países europeus que tinham colónias em África, lhes permitiam a Independência seguindo os ditames da História. Quis impedir o seu imparável fluir e provocou e alimentou um guerra lá longe que durou 13 anos e exauriu o país.

Morreu de morte matada em julho de 1970, deixou de governar sem saber em 1968 e nunca lhe disseram. Seguiu-se-lhe outro senhor doutor, Marcello Caetano de seu excelso nome que inicialmente tentou abrir um pouquito a janela do quarto bafiento, mas arrependeu-se ou pelo menos fechou-a dois anos depois da ténue tentativa.

Mais urbano e mesmo mais cosmopolita, não quis ou não pode fazer a transição de maneira que Portugal fosse um país com o compasso certo marchando no devido tempo e em linha. Impediu, continuou a mandar prender, não deixou a História devir como deve ser.

Mesmo assim, conseguiu-se um pequeno desenvolvimento económico e social de que resultou o aparecimento de uma pequena franja da classe média que muito anseia e tudo muda. Mas a guerra colonial infeliz e fora de época continuou. Foi preciso uma revolução para lhe dar fim.

                                                                                              Continua….

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Manuel Igreja Cardoso, nasceu em 1960 no concelho de Armamar e reside na cidade do Peso da Régua no Alto Douro Vinhateiro.  Licenciado em História, a par da sua atividade profissional da EDP – Energia de Portugal, desenvolveu nos últimos 25 anos uma profícua atividade na escrita de contos, artigos de opinião e de crónicas que tem vindo a publicar em diversos jornais regionais. Tem publicado um livro de contos, um com a história da Associação Humanitária dos Bombeiros do Peso da Régua, e outro com história da ACIR – Associação Comercial.

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