DEUS E O DIABO, IDEAIS E COISAS QUE TAIS – por M. H. Restivo

Não fosse por essência o diabo algo a ser odiado, muito o estimaríamos por tão profícuas parábolas que à sua custa ensinam a moral aos homens. Que não se estranhe o facto de o símbolo do mal ser o veículo da moral e dos bons costumes pois de que valeria o bem se não existisse o seu contrário? E, assim sendo, não concebemos um mundo sem inspiração diabólica que, como é sabido, mora bem fundo no coração dos homens. Não obstante, mais pobre seria o mundo caso a inspiração divina não se manifestasse ocasionalmente nos homens, que estes, às penas que sofrem, bem merecem o deleite de uma agradável ilusão. E assim se dá que deus e o diabo, essas tão dignas personagens que põem ordem no mundo, continuem a fazer mossa nos nossos corações impenitentes e avessos à paz. E acreditando nós, por força dos males e dos bens da vida, que há males que vêm por bem e bens que por mal vêm, não arriscamos afirmações de autoria em matérias tão controversas. 

Nos tempos que vivemos, menos afoitos do que outros a grandes males e, por acréscimo, a grandes lutas, deus e o diabo continuam a tecer os fios com os quais a nossa vida se cose, precisando um do outro para que se mantenha o equilíbrio desta criatura que é o homem. Mas convém não esquecer que a roda da fortuna tanto anda como desanda, assim o diz a sabedoria popular que sempre soube dar bons conselhos com admirável habilidade poética, donde se conclui que o que hoje é garantido bem pode vir a ser o que amanhã nos falta. E assim sucede que a paz, por longo tempo dada como coisa adquirida neste lado do mundo, pareça agora ameaçada com tumultos que se julgavam de outras eras. Os ideais de outrora são chamados a proscénio para dar uma orientação aos homens, que se veem agora a braços com um presente bem diferente do que aquele que lhes havia sido prometido pelos tempos áureos da fartura económica. Nas trincheiras que se vão construindo em torno de ideais, tecem-se as inimizades que farão os confrontos que hão de vir, pois se o ideal, enquanto tal, só existe na ideia, é bem capaz de grandes estragos na realidade. Não obstante, sem ideal não há progresso e, se bem não haja consenso quanto ao que constitui progresso, parece inegável que todos o desejam. Cada um crê estar certo da verdade dos ideais que defende e da falsidade dos restantes, agindo como ditam as modas e as vontades, cumprindo, assim, os desígnios insondáveis de deus e do diabo. Nós, simples mortais, somos humanos, demasiado humanos para mal dos nossos pecados, pecados dos quais nos cremos inocentes, como é de regra que assim seja. Porém, com toda a nossa modéstia, fazemos votos de que o diabo se entretenha com outras andanças e não lhe ocorra dar aos homens grandes lutas, que triste é quando estes seres que somos se têm de comprometer com batalhas que custam caro. Mas, se batalhas têm de haver, que se escolham as do espírito, se possível for, que estas trazem consigo dores menos pungentes do que as que vêm com as duras labutas do corpo. 

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M. H. Restivo nasceu em 1984 e vive no Porto. Licenciada em filosofia e em música, dedica-se ao ensino e a projetos de índole artística. 

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