SAUDADES DE MÊNFIS – por Francisco Fuchs

Vida longa para ti, meu irmão distante. Que os deuses vivos e mortos te prodigalizem o pão, mas sobretudo a luz perene que irradia a toda parte. Temo pela minha sorte, irmão, bem o sabes, desde minha transferência para este miserável vilarejo do delta oriental. Meu coração partiu em segredo, ele viaja, sobe o rio para rever Mênfis, mas permaneço atado a esta terra estranha, neste solo pantanoso onde chafurdam rebanhos e crocodilos. Minhas petições foram sorrateiramente bloqueadas por Kaper, o mesquinho chefe de polícia de Kenken-taue, e todas as nossas cartas lidas por ele antes de chegarem ao seu destino — todas, menos esta, que irá ter contigo levando o meu humilde selo ainda intacto. Conto com o discreto auxílio de um mensageiro fiel, veloz como uma sombra, por cujos serviços providenciei (para que lhe sejam entregues depois da execução de sua tarefa) incontáveis cântaros de cerveja, uma vez que essa desobediência às ordens de Kaper poderá custar-lhe as orelhas ou o nariz. Escrevo para dizer-te adeus, pois o mais certo, irmão, é que não nos vejamos novamente senão do outro lado do horizonte; mas como poderia deixar de contar-te tudo quanto omiti nas demais cartas, e portanto subtraí à devassa de Kaper, se devo minha vida a essa prudente omissão? Desenrolai cuidadosamente este papiro, irmão meu, pois é teu irmão distante que estarás explicando.

Kenken-taue é um antro de funcionários astutos, mancomunados entre si para tirar proveito destes pobres camponeses e roubar o faraó. Descobri seus saques por acaso, e já não tenho paz, pois desconfiam que eu seja um agente de confiança do vizir, enviado para investigar e denunciar seus crimes, e tramam deitar-me no meu horizonte; desse modo, irmão, sou eu, que trago o coração leve qual pena de avestruz, quem deve fugir sem demora, fugir para bem longe. Estão nisso quase todos os funcionários graduados do lugar : o diretor, o diretor-adjunto e o guia dos escribas, o guardião dos celeiros, o tesoureiro-chefe, o diretor de chifres, cascos e plumas, sem falar no infame Kaper. Essa gente exige que falemos diante deles, mas não nos escuta, fala sobre nós mas não fala conosco; não há um deles que não se proclame sábio e justo e conhecedor dos segredos do céu. Seus subordinados disputam vantagens e promoções, e cultivam ciosamente o preceito que entre escribas é tido como o ápice da sabedoria : “Curva-te perante teu superior e cheira-lhe os pés”. Meu coração se cansa de estar entre os homens; quer me volte para cima ou para baixo, acho-me recluso na mais perfeita solidão, e nem mesmo a paciência pode me ajudar. Malfeitores a soldo de Kaper espreitam dia e noite; meu coração pula como um cabritinho, pois sei que eles só precisam de um pretexto para guardar-me no poente. Sendo seguido em meus passos e tendo minha correspondência violada, não posso alçar a voz para fazer-me ouvir, e nem mesmo Ele, que tem milhões de orelhas, poderá atender ao meu surdo clamor. Além do mais, não tenho provas do que ocorre em Kenken-taue, a menos que como prova aceite-se considerar o estado lastimável de seu povo. Aqui já não existem moldadores de tijolos, pois não há palha, e mesmo um escriba pode ver-se obrigado a morar embaixo de uma árvore; mas os templos são de pedra. Podes imaginar, irmão, o que é deitar ao relento sem a proteção do terebinto, entregue à sanha de mosquitos muitos como estrelas, ou despertar pela manhã bafejado por chacais e cães, ainda mais numerosos do que as mulheres do Deus bom, que me seguiriam, se os deixasse, até o recinto onde me sento para fazer e refazer listas enfadonhas? Atolei neste lugar há quase quatro cheias, e esta tamareira, cujos frutos jamais vi, me acolheu sob suas verdes folhas; mas até quando deverei permanecer à sua sombra? Até que decidam mandar ao meu encontro o bandido que, sem forçar portas ou pular janelas, invadirá meu sono e me enterrará sua adaga em meu peito?

Como gostaria de remontar o Nilo, novamente olhar a esfinge de garras magníficas, rever as alvas muralhas de Mênfis e contemplá-las sem entraves, e mais que tudo, irmão, ver-te com saúde e estreitar-te em meus braços! Mas pesa sobre mim a vigilância obstinada dos homens de Kaper, pelo que forjei um plano amargo, porém capaz de salvar-me a vida. Como sabes, desde que vim para o delta costumo visitar regularmente a cidade de Busíris, onde fui iniciado nos mistérios do Deus, e também Bubastis, cujas festas em honra a Bastet começarão em breve. Esta noite partirei, devendo chegar em Bubastis no início da grande festa, a tempo de participar das orgias promovidas pela deusa da alegria. Essa viagem rotineira não inspirará nenhuma precaução adicional aos agentes de Kaper, que me seguirão, por certo, mas logo serão distraídos pelas celebrações, enquanto eu estarei atento e diligente. Prestarei com especial fervor meus tributos a Bastet, depois encontrarei aquele que, em silêncio, raspará minha cabeça; calçarei sandálias de papiro, lançarei sobre o corpo imaculada túnica de linho, e sairei da cidade semelhando um sacerdote de Osíris. Demorará muito até que os homens de Kaper percebam minha fuga; eles vigiarão o deserto imenso e deterão os barcos a subir o rio, mas nunca advinharão que eu, sereno como de hábito, terei descido o rio e adentrado o mar, abandonando meu país para escapar a um destino atroz.

Enquanto os capangas de Kaper estiverem levando bastonadas nas mãos e nos pés, apontarei para o norte e irei para a Mesopotâmia, onde murmura-se a invenção de um novo jogo, diferente de quantos jogos conhecidos e jogados. Se a sorte me acompanhar, meu sol renascerá, e viverei uma nova vida, talvez ali, talvez entre os povos do deserto, talvez o bastante para rever-te, irmão; mas pode ser que eu pereça nas mãos de salteadores ou das milícias imperiais, sendo abandonado no deserto sem que nunca se façam os meus funerais, e que, privado de oferendas, tenha de beber minha urina e comer meus excrementos. Seja como for, não te aflijas, irmão, pois mesmo que eu venha a entrar no horizonte, mesmo que as horas incessantes venham a devorar nossa amada Mênfis, e mesmo que termines por te esqueceres de mim, serei contigo, irmão, pois meu coração partiu em segredo para junto de ti.

Saudades de Mênfis trinta anos depois

From: Mário Zambonin

To: Michael Hochreiter

Bem antes de 1994, ano em que escrevi Saudades de Mênfis, eu já havia definido que um dos capítulos de A noção de virtualidade em Bergson teria por objeto o papel do esquema dinâmico na criação artística. Esse tema pareceu-me, desde o início, constituir um desafio à parte, simplesmente porque nada me impedia de aventurar-me a criar alguma coisa, obtendo, desse modo, uma experiência direta do processo de criação. Assim, escrevi este e alguns outros contos (que acabaram ficando pelo caminho) e compus (sem ter, em absoluto, estudado música) uma ou outra coisa num teclado eletrônico. Eu estava realmente disposto a tentar compreender de dentro a máxima bergsoniana que define o espírito como aquilo que, de pouco, tira muito, e que de nada tira alguma coisa.

Não me vejo como um artista, mas como um filósofo que, ocasionalmente, escreve ficção; e embora tenha abandonado o uso de pseudônimos, isso não significa que alimente maiores ilusões a respeito de meu trabalho ficcional. No que diz respeito a Saudade de Mênfis, o enorme esforço empenhado em sua composição e as circunstâncias peculiares de seu surgimento sempre serão, ao menos para mim, mais valiosos do que o resultado que obtive; ao mesmo tempo, porém, e independentemente de seu valor intrínseco, ele permanecerá sendo uma sincera declaração de amor ao irmão que tenho, ao irmão que tive e, porque não, a todos os irmãos distantes que jamais conhecerei.

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Francisco Traverso Fuchs é graduado em História pela UFF e mestre em Filosofia pela UFRJ.

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