SINEMA, SEU DESTINO É PECAR – por Danyel Guerra

Serge Daney

“É preciso uma revolução estetyka e cultural no
Cinema. É necessário que o próprio conceito de
autor cinematográfico seja revolucionado”    
                                  Glauber Rocha   

 

‘La Mort de Glauber Rocha’. Assim titulava Serge Daney, o célebre epicédio dado a estampa na edição de 24 de agosto de 1981, do diário francês ‘Libération’. Nesse tributo, o sinecrítico confessava que nele “ainda não se tinha dissipado a estupefação” provocada, em 1979, pelo visionamento da obra testamento do sinemanovista brasileiro. “‘A Idade da Terra’ não se parece a nada de conhecido. É um filme torrencial e alucinado. Um OVNI fílmico, sem mais nem menos”.

Não fora o desencarne prematuro do “cabeça falante” do Sinema Novo, daquele que viveu “a fase da luz e depois morreu” e talvez eu demorasse mais algum tempo a conhecer Daney. Esse conhecimento precipitou-se nos meses seguintes, através da leitura de editoriais e de outros textos publicados, nomeadamente, nos ‘Cahiers du Cinéma’, enquanto redator  e diretor de Redação. Destaco, em especial, a primeira crítica, abordando o western ‘Rio Bravo’ (1959), de Howard Hawks. Também não escapou ao meu olhar, na sua ‘Traffic’, a reflexão ‘Le Travelling de Kapò’, um instigante texto a propósito de ‘Kapò’ (1959), de Gillo Pontecorvo, filme que ele apenas “viu” através do irado artigo ’De l’abjection’, de Jacques  Rivette, publicado nos ‘Cahiers’, em junho de 1961. 

Uma arte venturosamente impura.

Clarividente e desassombrado, asfaltando a estrada desbravada por André Bazin e epígonos cahierianos, ele enfatizou na sua opera,  a natureza impura do Sinemarte. E preocupou-se com seu ocaso, alertando para os artifícios da turbulência instalada pela proliferação imagética. Vertigem que, a médio prazo, tenderia degenerar numa erupção diarrética de lavas corrosivas. Avisadamente, Wim Wenders  demonstrou argúcia quando observou que “somente Serge poderia ter sido um guia nesse labirinto de imagens”.

Diagnosticando essa crise finissecular, juncada de impasses sob o espectro de aporias, Daney colocou a tônica na sinefilia, definida como um conjunto de práticas sociais “legitimamente socráticas.

No tributo a Rocha, o designado profeta do  pós-Cinema alentava. “De todos os grandes perturbadores do cinema moderno , ele era, sem dúvida, aquele que estava mais longe de nós”. Até que ponto o passamento do buliçoso diretor tupiniquim  prenunciou o esgotamento, a saturação do paradigma sinemartístico concebido, parido, criado pelos pais fundadores? A propósito, que fundamento real e concreto teve o SOS lançado por alguns, escassos sinéfilos em pânico, anunciando que o Sinema estaria sendo ameaçado de teomicídio. Felizmente que essa notícia era/é exagerada. Ao lermos Daney, verificamos que tal ideia não passa(va) de uma precipitação.

Em 1981, o pensador parisiense teria apenas mais uma década para amadurecer e depurar a massa crítica empreendida a partir dos gloriosos anos 60. Porém, esse tempo seria suficiente.

O beau Serge (aqui aludo, no bom sentido, ao nouvelle vaguiano filme de Claude Chabrol) morreria em 1992, com 48 anos,vitimado pela AIDS/SIDA. À este presciente estudioso seriam negadas, ao vivo as vivências sinéfilas das primeiras décadas do século XXI.

Tal como vaticinara, esses anos ficariam assinalados pelo paulatino abandono da película celuloide/poliéster, pelo esvaziamento/degradação das amplas salas de projeção, pela subalternização do canônico sineclubismo, pela subestimação da opinião crítica, pela interpenetração transversal das artes audiovisuais (Cinema, Vídeo e TV & afins), numa caleidoscópica nebulosa, pela banalização provocada por equívocas práxis sine martísticas, pelo endurecimento da supremacia do cinema “made in USA” (não confundir com o homônimo filme de JL Godard) nos circuitos de distribuição, em detrimento de cinematografias compelidas a um estatuto periférico. O fosso aprofundou-se.

O embaratecimento da parafernália técnica e dos processos de fixação/reprodução da imagem, ao serem uma conquista alvissareira, consumaram a democratização do acesso ao universo audiovisual. Porém, esse estado democrático degenerou, regra geral, em contramão, na ditadura da vulgarização “artística”.

Esse mundo novo, assolado ab initio por sintomas de uma precoce contradição, tem acarretado, segundo algumas sensibilidades mais puristas, a decadência do Sinemarte em favor do cinema arrtifício. Eis a designação eufemística do avassalador travestimento  do Sin ema num mero produto de uma massificada “indústria cultural”.

De acordo com essas avaliações, das quais realço a de um autorizado Julio Bressane, a sétima arte estará se submetendo aos cânones línguísticos  e estéticos do medium televisivo e da publicidade, formatando-se em subserviência aos códigos redutores da ditadura dos simulacros imagéticos, pela via de um excessivo  recurso a procedimentos eletrônicos/informáticos.

Sem pretender estabelecer parâmetros comparativos e valorativos constata-se que, em regra, o Cinema coetâneo é concebido para ser, de modo preferencial, veiculado/difundido em multiplataformas, impressionado em suportes digitais, com um crescente aporte de agilidades proporcionadas pelos equipamentos informáticos. Avanços tecnológicos que sendo bem-vindos, convém que sejam aplicados com uma racional temperança, quando não parcimônia.

Em verdade, embora cada vez mais gravado e menos filmado, ele continua sendo Cinema. Ainda que o paradigma da verdade dos 24 fotogramas por segundo de Jean-Luc Godard corra o risco de ser substituído pelo paradigma da fantasia dos 48 fps de Peter Jackson, o Cinema persevera sendo “movimento registrado”. E pur si muove, embora possa ser, com frequência, artisticamente (um) paralítico.

Bem a propósito, recorde-se que a última opus de Ingmar Bergman- Saraband  (2003)- foi “filmada” com  “película” digital de alta-definição. E essa contingência não beliscou a excelência da despedida  do mestre sueco.

Vamos ao Cinet?

Não partilho, assim, da prostração pessimista de alguns dos rarefeitos sinéfilos clássicos, diplomados nos tradicionais clubes de sinema/ sinematecas/ festivais, que diabolizam  a atualidade, ironizando que que “Sinemarte agora só em Marte”. Ou ainda que “o Sinema fenece num sunset sem boulevard”. E que, por fim, alarmam estar o “Sinema duplamente (eletro)domesticado”, ao constatarem que uma crescente parcela da produção  se “autocondena” a ser visionada sob o formato DVD (em notório refluxo) e correlativos suportes, em maxi ou miniaturizadas telas e ciberplataformas.

É uma evidência que hoje, cinco em cada dez cineconsumidores veem filmes nas telinhas, seja através da programação dos canais de TV, seja através de leitores DVD, seja pela via de uma seleção a la carte personalizada, acessando conteúdos na banda larga da net, potenciada pelo streaming  (transmissão contínua/fluxo de media) e turbinada pelo 5G. De tal modo, que começa a fazer sentido aludir a instauração de uma nova nomenclatura, o Cinet..

Evitem-se, porém, tentações inquisitoriais. Vale salvaguardar que cada um deve poder comer do que gosta. O Cinema de hoje não será subjetivamente, nem melhor nem pior que o de ontem ou que o de anteontem. É simplesmente diverso e diferente. Diversa e diferente denota ser, em coerência, a nova plateia, formada em interativos cineclubes caseiros e pessoais, bilaterais ou multilaterais, alocados em leitores de DVD, em PC, laptops, em Iphones e smartphones. Tendo como ecrãs prioritários as telas do ciberespaço, das redes sociais  ou do Youtube.

Reconheça-se, entretanto, que nenhuma dessas plataformas eletrônicas logra instalar o fascínio  que se sente numa ampla sala de cinema. Sortilégio que formatos como o 3D ou o IMAX pretendem  reinstalar nas salas coletivas e nos auditórios.

Um Sinema em que o pecado more dentro…

Creio que o Cinema só terá sentido e razão de existir, se for atilado à ponto de resistir, insistir e persistir, se for audaz ao limite de se tornar um Sinema. Um Sinema em que o pecado  more dentro dele. Um Sinema que tenha o gosto e o sabor do pecado. Ou, por privilégio, o gosto e o sabor da cereja de Abbas Kiarostami.

Um Sinema disponível para viol(ent)ar  todas as regras e todas as exceções. Um Sinema que sobrestime a opacidade e subestime a transparência. Um Sinema que seja formal e substancialmente abrupto, sem ser bruto. Um Sinema que tenha suficiente ductilidade para equilibrar os complexos forma-conteúdo e arte-linguagem.  Um Sinema que não nutra boas intenções, porque delas está o Inferno de saco cheio. Um Sinema que mais que causas (sociais e políticas) defenda  consequências (artísticas). Um Sinema que preserve o autorismo, sem máculas autoritárias. Um Sinema que mais que abordar temas fraturantes, provoque  fraturas expostas até ao tutano. Um Sinema que chovendo no molhado, faça cair chuva de ouro. Um Sinema em que até os defeitos sejam especiais. Um Sinema  que arrisque a heresia de pecar contra o canon hollywoodiano. Que seja solerte e persevere no desempenho dessa ímpia e impiedosa iconoclastia. Enfim, que cometa os sete pecados capitais, com excecão do mais hediondo, a acedia (preguiça).

Sendo embora imortal, o Sinema morre um pouco, sempre que, deste mundo se aparta um sinemartista, da estirpe de um Rocha ou um sinecrítico da cepa de um Daney . E insiste em continuar vivo quando é apunhalado, à falsa fé, por sicários de olho no vil metal. Sem demora, ergue-se pletórico, revigorado, remoçado pelas vibrações da imposição de mãos de um taumaturgo pecador e perturbador. Sineasta, lembre-se, seu destino é pecar e perturbar.

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Danyel Guerra nasceu na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Brasil,  num novembrino dia de Vênus, sob o signo de Escorpião. No ano em que Lygia Fagundes Telles publicava ‘Ciranda de Pedra’, seu romance inaugural.
Editou e/ou publicou os livros ‘Em Busca da Musa Clio’ (2004), ‘Amor Città Aperta’ (2008), ‘O Céu sobre Berlin’ (2009), ‘Excitações Klimtorianas’ (2012), ‘O Apojo das Ninfas’ (2014), ‘Oito e demy’ (2015), ‘O Português do Cinemoda’ (2015), ‘Os Homens da Minha Vida’ (2017) e ‘Corpo Estranho’ (2021).

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