EDITORIAL – VITOR VITÓRIA – por Danyel Guerra

            “Ele é o mestre completo”
       Maria Helena da Rocha Pereira

             VÍTOR VITÓRIA

Vitor Aguiar Silva

Decorria o ano de 1976, quando o escritor sueco Artur Lundkvist declarou que Jorge Luis Borges jamais ganharia o Prêmio Nobel de Literatura, “devido a razões políticas”.  Categórico, sem dar chance a dúvidas, este membro da Academia Sueca desvirtuava com este anátema o caráter literário da distinção. Continuar a ler “EDITORIAL – VITOR VITÓRIA – por Danyel Guerra”

TEXTOSTERONA-PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – III Série- por Danyel Guerra

TEXTOSTERONA

        PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS

     CORTESÃS E MERETRIZES

 

As cortesãs com boa reputação são cumuladas com as rosas de Piéria, poetadas por Safo.

As de má reputação têm de se contentar com as rosas de pilhéria. Continuar a ler “TEXTOSTERONA-PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – III Série- por Danyel Guerra”

AMAR ANICÉE ALVINA – por Danyel Guerra

“Havia um jardim de Vênus, de roseiras rodeado,

 o grato campo da senhora, que quem tivesse visto amava”

      Floro

AMAR ANICÉE ALVINA

Que deslumbrante sinestesia. Uma noite destas, escutei no rádio, Carminho e Seu Francisco cantando a maviosa Carolina, numa interpretação timbrada pela depuração do sublimado. Inadvertida, a audição me sugeriu uma vertiginosa associação de ideias e de sentidos. Na tela da minha memória tremularam sequências de  Le Jeu avec le Feu (1975), de Alain Robbe-Grillet, reavivando algumas boas lembranças cinéfilas. Continuar a ler “AMAR ANICÉE ALVINA – por Danyel Guerra”

TEXTOSTERONA – PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS- por Danyel Guerra

MULHERES VS HOMENS     

“Na vida eu fui vítima de dois graves acidentesO primeiro foi o choque de um tranvia com o autobus em que eu viajava. O outro foi o Diego….”

Frida Kahlo

Qual dos dois acidentes foi pior, querida Magdalena Carmen? Não precisa responder. Nós já estamos adivinhando.

o-o-o-o-o

De la femme vient la lumière

Louis Aragon

Merci beaucouo, Aragon. Finalmente, fico elucidado do motivo porque a conta, a fatura da luz é sempre tão elevada. Continuar a ler “TEXTOSTERONA – PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS- por Danyel Guerra”

UM BRAVO GUERREIRO – por Danyel Guerra

“Os doze tiros partiram como um só. O Sr. Sauvage caiu, como um cepo,  para a frente. Morissot, mais alto, oscilou, girou e desabou sobre seu  camarada, com o rosto para o céu, enquanto da sua túnica, crivada no  peito, se escapavam borbotões de sangue.”  Guy de Maupassant                   

            Buon Compleanno, tanti auguri, Monicelli                               

                         UM BRAVO GUERREIRO

“C’era una volta il Italia”, 1982. No Cine Eliseo de Avellino, na Irpinia, entranhas do mezzogiorno da Campania, mais uma edição do festival (também) fundado por Pier Paolo Pasolini se desdobrava. Na plateia agitava-se um público inquieto, irrequieto, participativo. Continuar a ler “UM BRAVO GUERREIRO – por Danyel Guerra”

PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – I Série – por Danyel Guerra

La femme dans la nuit, by Joan Miro

PRENSAMENTOS  & DESAFORISMOS

COM TEXTOSTERONA DO AMOR

 Como a vida, o amor é eterno enquanto dura.
Mas em boa verdade, ele só será mesmo eterno enquanto for terno.

 o-o-o-o-o

“O amor é cura, mas também é loucura”

 Sigmund Freud

Sendo verdadeira esta contradição, ela explicará porque de médico e de louco, o amor também tem um pouco.

o-o-o-o-o

No amor, um é pouco, dois é bom, três é demais. Três só não é demais num ménage à trois. Contudo, nessa triangulação, por norma, isóscélica e e até escalena, o amor, enquanto ideal, pode ter cabidela, mas, em geral, não tem cabimento.

Nunca terá havido um ménage à trois mais inusitado do que o de Alex Delarge com a Sonietta e a Marty em ‘A Clockwork Orange’ do Stanley Kubrick, ao som da abertura de ‘Guglielmo Tell’, de Rossini. Capaz de causar tonturas de tão vertiginoso. Tanto aos parceiros como aos cinespectadores. Continuar a ler “PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – I Série – por Danyel Guerra”

UMA ROTUNDA BOA VISTA… por Danyel Guerra

“Depois da civilização de Atenas e do Renascimento,
 entramos agora na civilização do derrière”

Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard    

(crônica carnevalesca)

Fim de tarde estival, sol quase no poente, na esplanada de um bar, dois clientes tomam, divertidos, um schopen Hauer* estupidamente gelado. O boteco situa-se numa praça em forma de círculo, que encanta sobremaneira um deles, cidadão caRIOca, que pela primeira vez degusta umas Trip’s à moda do Porto. Continuar a ler “UMA ROTUNDA BOA VISTA… por Danyel Guerra”

NEM SÓ OS CAVALOS SE ABATEM – EDITORIAL por Danyel Guerra

 “In Berlin, by the wall, you were five foot ten inches tall”

                                             Lou Reed

1 – Me lembro como se tivesse sido ontem. Ou hoje. Ou amanhã. Na noite novembrina em que o Berliner Mauer  começou  a ser derrubado,  a martelo e à picareta, botei a rodar no som o disco ‘Berlin’, aquele álbum conceitual que Lou Reed publicou em 1973. Uma “trágica ópera rock”, que a crítica especializada acolheu com um olhar de soslaio. Continuar a ler “NEM SÓ OS CAVALOS SE ABATEM – EDITORIAL por Danyel Guerra”

O BERLIN TRABANTÁXI – por Danyel Guerra

Semelhante ao rio que, constrangido pelas margens, anseia pela chegada à foz, um viajante busca, frenético, um táxi, à saída do aeroporto de Berlin Ocidental. O que ele não adivinharia  é que tão volumosa corrente de ansiedade  iria deparar com um dique inesperado, uma barragem imprevista. Continuar a ler “O BERLIN TRABANTÁXI – por Danyel Guerra”

MARÍLIA SEM DIRCEU, MARÍLIA COM DIRCEU** – por Danyel Guerra

 

A juventude é uma doença

que se cura com o tempo”   

George Bernard Shaw

Ao descerrar as cortinas da janela, devassando o olhar para o belo horizonte, Maria Doroteia dissipa num ápice a boa disposição com que saltara da cama. Imaginava que a luz de um sol radiante seria portadora de bons auspícios. A visão de uma manhã brumosa, nebulosa, umedecida por gotículas de orvalho, precipita-lhe súbita ansiedade. O outono impõe sua lei. E uma espessa lubrina* já atapeta, em tons cinzentos, o caminho do agreste inverno.

Como os caRiocas, esta mineira também não gosta de dias nublados. Mas quem gosta?! Além do mais, o nevoeiro tem o impertinente condão de avivar em sua lembrança a imagem, ainda nítida, de um esperado Desejado.

A escassos metros, envolto no drapejado de lençóis e cobertas do leito, repousa um livro, páginas abertas numa das estâncias do canto “mais doce, alegre e deleitoso” da epopeia. As artimanhas do aleatório não poderiam insinuar aconchego mais propício.

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava! (1)

Não, hoje não vou visitar titia. O clima não está nada convidativo. Fico por aqui, lendo, fazendo umas arrumações nas velharias, decide, apertando o cinto do penhoar* azul violetado, enquanto se aproxima de um escrínio de porcelana, que costuma usar como pesa-papéis. Antes de levantar a tampa, pega numa folha e escreve uma solitária frase.

Ao encarregar Chiquinho da entrega da mensagem, lembra ao moleque que deve ser veloz como Mercúrio. Isto, apesar do escravo não trazer calçadas sandálias aladas, nem coisa que se pareça. Lacônico, o recado tem como destinatário o tenente-coronel dos auxiliares Manuel Teixeira de Queiroga, um buliçoso homem de negócios que mora mesmo em frente da casa da tia Ana Cláudia, à Ladeira da Praça, no centro de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto.

Na sede da Capitania das Minas Geraes não é só de manhã que uma névoa, tingida de chumbo, inibe a aparição da luminosidade solar. Nas minas, veios, córregos, riachos e ribeirões, haurido o ouro, a autenticidade cede o passo à contrafação. Do mesmo modo, nas relações humanas, quando a falsidade suplanta a verdade, a hipocrisia e a intriga emudecem a franqueza e a lealdade, a insídia tende a impor sua supremacia.

Espalhados pelos corifeus da maledicência, os boatos escalam as precipitadas ladeiras do Pilar de Ouro Preto. Subindo ágeis as calçadas e descendo sem freio morros e outeiros, boatos ciciam que, há mais de um ano, Maria Doroteia apostara suas fichinhas amorosas num idílio secreto com um reinol*.

Reinol que, sublinhe-se, o ex-noivo de Doroteia, o juiz Tomás “Dirceu” Gonzaga, apelidou de “Roquério” e destratou, com irrisória verve, n’ As Cartas Chilenas. Quando escreveu tão jocosos versos, o lírico vate, tornado cronista satírico, parecia estar adivinhando a proeza que o arguto contratador congeminava, armado dos trejeitos de um D. Juan provinciano.

Se certezas intuísse, o poeta não hesitaria certamente em soltar a furiosa Megera no caminho do mal-ajambrado* rival. Na realidade, enquanto o bardo Dirceu padecia, como um Prometeu, as agruras do cárcere, o lisboeta, encostado ao parapeito da janela de seu sobrado*, vestia a casaca do galante. E insistia, persistia em cortejar a ex-nubente, sempre que a formosa subia ou descia as escadas da casa da tia.

Mas que ninguém o acuse de ser um fauno depravado. Nos seus viçosos vinte e poucos anos, a moça já não se encontra em estado de graça. Afinal, Dorô está na idade em que na mulher, o fulgor da juventude começa a se volatizar, como depurada fragrância exposta ao flagelo da ventania.

Ela tem que aproveitar o dia, a tarde, a noite e a madrugada, enfim, gozar o carpe diem aprendido nos carmes* que o pastor Dirceu lhe dedicara. Todavia, tal como de Nefertiti, dela arriscaria dizer que o mito a dotara de todas as virtudes. Mesmo a de se ter resguardado dos ímpetos da lascívia, se tornando uma casta, fiel até à morte, em tributo e respeito ao primeiro amor. É dessas amenidades que se geram, nutrem, crescem e se agigantam as legendas, em especial as românticas.

Em plantão permanente, as línguas da fofoca não se cansam de cochichar que a senhorita soubera da publicação de Marília de Dirceu ao relançar o olhar para um livrinho, abandonado ao acaso, em cima do criado-mudo* da cama de Queiroga. Ao abri-lo, leu embevecida uma das liras que Tomás António lhe dedicara, em carta prenhe de emocionada afeição, nos tempos desditosos da prisão, onde continuou a tecer, com fios de seda, sua (Doro)teia de sedução…

Mal durmo, Marília, sonho
Que fero leão medonho
Te devora nos meus braços (…) (2)

Pelo visto, o reinol Queiroga não é somente o proprietário dos melhores cavalos da vila. Aparenta também cultivar estimáveis hábitos de leitura, isto se não passar de um mero acumulador de livros, para emoldurar estantes e impressionar as visitas num alarde de postiça erudição.

Nos poemas do desafeto, o sôfrego Roquério talvez procure aprimorar os requintes da conquista. Ancioso por arrebatar, de vez e para sempre, o coração da donzela, o “fero leão medonho” afina sua voz para melhor cantar a formosura de Marília, perscrutar seus “olhos belos”, beijar a “testa formosa”, afagar os “negros cabelos.”

Não foi, de certeza, por esquecimento que o pedante rendeiro ocultou a Doroteia a aquisição de um exemplar do livro. Piorando o quadro, foi devido a uma distração sua que a desejada soube do regresso a Vila Rica das arcádicas e pré-românticas liras. O deslize por pouco não comprometeu seus planos. A moça ficou mais que despeitada. Quase revoltada, não apreciou nada ser  (des)tratada como uma menina suscetível, afeita a crises de volubilidade juvenil.

O que em definitivo a desiludiu foram os receios e a insegurança de Queiroga, como se a visão das pastorais de Dirceu, em letra de impressão, nela reavivasse as recordações do malogrado romance com o desgraçado ouvidor.

De súbito, uma forte pancada de vento sacode as janelas do quarto, arrancando Doroteia destes intrigantes pensamentos, trazendo-a de novo à soturna realidade. Abre por fim a boceta e depara com o anel de ouro e diamante, presente do agora degredado na longínqua Moçambique. Sua atenção se dirige, porém, para uma folha de papel, dobrada em quatro, onde Tomás escrevera um soneto dedicado a ”ilustríssima Condessa de Cavaleiros, D. Maria José de Essa e Bourbon.”(3)

A excelentíssima senhora era a venerada esposa de D. Rodrigo José de Menezes, governador e capitão-general das Minas Geraes, filho do famígero Marquês de Marialva. Encharcado de reverente louvação, o poema celebra a memória da mítica Inês de Castro, a cuja linhagem a condessa se ufanava de pertencer. O soneto(4) terá sido declamado num dos saraus que D. Rodrigo, inchado de prosápia, promovia no palácio. Foi a primeira vez que a então mocinha ouviu comentar os talentos poéticos do garboso ministro, vizinho do lado da tia Ana Cláudia, na Casa do Ouvidor.

Maria Doroteia julga convencer-se de que simplesmente obedecera a um impulso, quando resolveu vasculhar nas obscuras galerias do túnel do tempo, lembranças tão antigas de Dirceu. Não por acaso, durante a noite, ao se recolher, ela buscara encontrar o son(h)o, folheando Os Lusíadas. Ao passar pelo Canto III, sentiu-se de modo inelutável, atraída para a leitura do episódio de Dona Inês de Castro.

É no afã dessas rememorações, que um esbaforido Chiquinho a põe em desassossego, clamando que traz recado urgente do Sinhô Queiroga. Basta a Doroteia se inundar da clarividência de uma Sibila para se tornar sabedora do que Manuel lhe quer revelar com tanta presteza. Um saber em indiferença tornado. Lacrado, o sobrescrito lacrado continuará. Doroteia cerra, ríspida, as cortinas, inundando o quarto de uma recatante penumbra. Embora contrariada, se angustia ao escutar sua intuição garantir que tinha sido formal e oficialmente destronada no coração do trovador. Não tanto por outra mulher mas, o que é bem mais incômodo, por outra musa, virgem e intocada como se fosse uma sacerdotisa de Vesta.

Determinada, recusa cair no precipício de uma depressão sentimental. Afrouxa o cinto do penhoar, afasta, resoluta, as cortinas, abre a janela para confirmar se a névoa se tinha dissipado. O Pico do Itacolomi, imponente e soberano em dias de sol luminoso, envolve-se ainda num manto de nuvens grávidas de chuvisco. Apesar do cenário adequado, o Desejado não voltará nesse dia. Nunca mais voltará.

Lá fora, o ecoar rumorejante das águas de um riacho é abafado pela alegria da algazarra de uma turma de meninas. Sem se importarem com a cor da pele, a loura Anselma, a morena Joaquina, a mestiça Benedita e a negra Rosário pulam empolgadas numa maré* jogada em frente do Chafariz de Marília, à Ponte dos Suspiros.

Bom dia, D. Maria Doroteia! Como vai?, saúda Joaquina, voz maviosa de patativa, “as tranças pretas pousadas sobre os ombros infantis”. E Dorô corresponde com o claro enigma de um vibrante e sonoro alerta. Bom dia, Marília…. Não se esqueça querida, você tem encontro marcado com Dirceu!

(**Marília é o criptônimo arcádico de Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, noiva e musa de Tomás António Gonzaga, o poeta Dirceu, nascido em Miragaia, Porto (Portugal), a 11 de agosto de 1744.)

♦♦♦

Notas
1 - Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IX, estância 83
2- Tomás Gonzaga, Marília de Dirceu, 1ª parte, lira XXI
3 - Tomás Gonzaga, Marília de Dirceu, 3ª parte, soneto VI
4 - Atualmente, é convicção adquiria que o soneto foi escrito a duas mãos, com o camarada árcade  Cláudio Manuel da Costa, que não seria também nada “coxo”, no que tange à prática da poesia do encômio.

*Glossário

lubrina – neblina
penhoar – robe
reinol – habitante do Brasil colonial, nascido no reino de Portugal
mal-ajambrado – vestido sem elegância
sobrado – moradia de dois ou mais andares, típica do Brasil colonial
carmes-poemas
maré – jogo da macaca, amarelinha

♦♦♦

Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História Universal da Infâmia pela FLUP. É jornalista nas horas (mal) pagas e autor literário nas horas com vagas.

Publicou os livros ‘Tomás Gonzaga-Em Busca da Musa Clio´’, ‘ Amor, Città Aperta’, ‘O Céu sobre Berlin’, ‘Excitações Klimtorianas’, ‘O Apojo das Ninfas’, ‘Oito e demy’, ‘Fernando de Barros-O Português do Cinemoda’ e ‘Os Homens da Minha Vida’.

A BUSCA DO ALEPH BORGEANO – por Danyel Guerra

“Existe no Universo, um ponto, um sítio privilegiado,
de onde todo o Universo se desvenda”

Louis Pauwels /Jacques Bergier

(Work in Progress)

Strategia del Ragno. Devo ao Cinema a boa ventura de, numa morna tarde de primavera, me ter entreaberto a porta da mansão literária de um escritor de sobrenome Borges. E com uma senha codificada em língua italiana.

Atento ao letreiro/genérico do filme supremo de Bernardo Bertolucci, datado de 1970, reparei que o soggetto partira de um conto de um autor, para mim, de todo ignoto. Consultando, curioso, a ficha técnica da fita, verifiquei que a narrativa tem por título Tema del traidor y del héroe, a terceira da seção Artificios do livro Ficciones, editado em 1944.(1) Continuar a ler “A BUSCA DO ALEPH BORGEANO – por Danyel Guerra”

DA CRISE DAS LIVRARIAS AO APOGEU DA LIVRALÂNDIA – EDITORIAL por Danyel Guerra

James Joyce? É um escritor novo? Aposto que um tremor de terra, de média intensidade, não me teria abalado tanto, como esta, na aparente, inocente e ingênua indagação. Caprichando numa amena ironia, ripostei. Joyce nasceu em 1882. É novo sim, se comparado com um Homero, um Ovídeo, um Petrarca, um Bocage.

Apercebendo-se do deslize, atarantada, a atendente desviou o olhar e fixou-o no ecrã do computador, alheando-se do bulício da loja, onde pipocavam os mais recentes produtos da indústria “cultural”.  O livro chama-se ‘Gente de Dublin’ (‘Dublinenses’), não é? Lamento, mas não consta da nossa base de dados, comunicou, articulando uma voz formal e protocolar. Continuar a ler “DA CRISE DAS LIVRARIAS AO APOGEU DA LIVRALÂNDIA – EDITORIAL por Danyel Guerra”

LA SENYORETA D’AVINYÓ – por Danyel Guerra

“Miró sentia a mão direita/demasiado sábia/
           e que de saber tanto/já não podia inventar nada”

 João Cabral de Melo  Neto

Barcelona frui e usufrui de uma ensolarada tarde de primavera  antecipada, em época do reinado de D. Carnestoltes*. Deambulando pelo capitoso Ensanche da cidade condal, Dirceu atravessa a Plaza de España e avista no Parc de Joan Miró, impante nos seus 22 metros de firme ereção, a escultura ‘Dona i Ocelli’. Continuar a ler “LA SENYORETA D’AVINYÓ – por Danyel Guerra”

A LIBERDADE E A RAIVA DO PERRO ARAGONÉS – por Danyel Guerra

     Tenha cuidado. Sinto que há em si tendências surrealistas. Afaste-se dessa gente.

  Jean Epstein

“Posso dizer tudo o que penso?….é a escrita automática!…” (1). Em sua edição de junho de 1954, a revista  Cahiers du Cinéma  inseria uma entrevista com Luís Buñuel. Na época, este cineasta era celebrado na Europa apenas como autor de uma tríade maldita, malgrado seu Los Olvidados (1950) ter emocionado Cannes.

Escrita automática? Será que aos 54 anos, o pai da mexicana ‘Susana’ ainda se afirmava fiel aos conceitos teóricos e aos procedimentos formais da finada guilda, na qual foi iniciado em 1929,  pela mão de Louis Aragon e de Man Ray?  Chegado a meia-idade, o rebelde persistia em menosprezar o paternalista conselho de Epstein? Continuar a ler “A LIBERDADE E A RAIVA DO PERRO ARAGONÉS – por Danyel Guerra”

AGORA, MORTA É INÊS – por Danyel Guerra

© Luís Guerra e Paz
      “Toldam-se os ares,/Murcham-se as flores;/
  Morrei, Amores,/Que Inês morreu”

 Manuel Maria du Bocage

Na plataforma rochosa de uma praia, algures no Universo, um fotógrafo clicka  closes da agreste,  severa paisagem. De súbito, a objetiva da câmera se vê velada por uma mão lutuosa, sinistra, nem tanto por ser a esquerda. Atrevida e inoportuna, a ponto de malograr o clichê. O visado não demora um átimo a adivinhar quem ousou a desfaçatez. Um ser fantasmático, fumos soturnos na expressão facial, se configura à sua frente. Continuar a ler “AGORA, MORTA É INÊS – por Danyel Guerra”

RoMARIA DE FÁTIMA – por Danyel Guerra

“Nem que eu e a Mercedes Sosa tenhamos de ir a pé em roMaria de Fátima” .

Diogo estaca o passo à porta do cômodo e recua estupefato, a ponto de desviar o olhar. O que se passa, cariño? Parece que viste uma assombração.

Nem uma semana tinha passado  desde o momento em que Lúcia lhe ligara, anunciando promissoras sensações de comprazimento. Olá Diogo, tudo bem? Tenho uma novidade  para te contar. Meus pais vão a Fátima, no 13 de maio com a Jacinta e o Francisco. Quando me disseram fiquei  eufórica. Quase tive um desmaio. E já podes adivinhar o que vai acontecer….. Continuar a ler “RoMARIA DE FÁTIMA – por Danyel Guerra”

REI E RAINHA DE UM CARNAVAL MICARETA por Danyel Guerra

Alain desenlaça, decidido, o amasso da frenética Romy. O que se passa, querido? Darling, o que passa daqui a uns segundos é o bus dos 33 minutos, não posso perdê-lo…! Ele ajusta, no orifício certo, a fivela prateada do cinto, selando a separação com um beijo fugaz nos lábios carmesins da garota. E sai disparado rua afora…senão vou tomar um chá de cadeira de meia-hora, completa aconchegando o cachecol black  & white ao pescoço e estugando a passada. E com apenas 33 segundos de atraso, um 33 se detém perante o solitário e ansioso passageiro.

Continuar a ler “REI E RAINHA DE UM CARNAVAL MICARETA por Danyel Guerra”

‘EXCITAÇÕES KLIMTORIANAS’, EM TRIBUTO A KLIMT

Fevereiro tem Carnaval e, este ano, vai ter ‘Excitações Klimtorianas’ no Fantasporto – 2018.  É esse o titulo do livro da autoria de Danyel Guerra, que será apresentado no dia 25, às 17 H, no Teatro Municipal Rivoli.

Continuar a ler “‘EXCITAÇÕES KLIMTORIANAS’, EM TRIBUTO A KLIMT”

DA VINCI ENGAIOLADO NUM MUSEU DO PORTO por Danyel Guerra

“Há coisas encerradas dentro dos muros que, se saíssem de repente para a rua e gritassem, encheriam o mundo”

                                                Federico Garcia Lorca

Continuar a ler “DA VINCI ENGAIOLADO NUM MUSEU DO PORTO por Danyel Guerra”

EDITORIAL – Como ficar bem athenado – por Danyel Guerra

0- Nos desfiles de samba brasileiros, ápice do Carnaval nos alegres trópicos, manda o figurino, dispõe o ritual, impõe a superstição, aconselha o bom senso, que a escola esquente os tamborins da bateria -e não só!- antes de adentrar na passarela com os dois pés direitos. Para começo de conversa, não encontramos alegoria mais assertiva e adequada a fim de festejar a edição do nº 0 da revista ‘Athena’.

Continuar a ler “EDITORIAL – Como ficar bem athenado – por Danyel Guerra”

QUANDO VELÔ SE AVENTUROU NO “POEMA SÓ” – por Danyel Guerra

“Ver o céu de verão é poesia, ainda que não esteja

num livro. Os verdadeiros poemas escapam-〈nos〉”

Emily Dickinson

Por mais que pese a autoestima e muito custe a presunção da maioria dos vates literários, todo ser vivente é um arauto, um porta-voz de poesia, mesmo que nunca tenha escrito sequer um verso. As hemácias po(i)éticas percorrem, a todo momento, nossos vasos arteriais e venosos. Sangue que sendo alarde de vida, pulsa, freme, regurgita como um ato de poesia automática, a ponto desse “modus faciendi” independer da vontade humana.

Continuar a ler “QUANDO VELÔ SE AVENTUROU NO “POEMA SÓ” – por Danyel Guerra”

LA RAGAZZA DAS CASTANHAS ASSADAS – por Danyel Guerra

“Cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico,

é o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada”

Carlos Drummond de Andrade

A vez primeira que provei castanhas assadas aconteceu na convicta cidade do Porto, numa tarde outonal, céu forrado de tons plúmbleos, um sábado pejado de humor ranzinza, carrancudo, receando chuva iminente e copiosa. Eu descia a Rua de Passos Manuel, saído de “uma matinê no Cinema Olympia, no Cinema Olympia” onde vira um western spaghetti rodado em…Espanha. Mas não era C’era una volta il West, do Sergio Leone. Chegando à Rua de Santa Catarina, em frente do Café Majestic, quase esbarrei num carrinho, parecido com aqueles de algodão doce e de pipocas. Continuar a ler “LA RAGAZZA DAS CASTANHAS ASSADAS – por Danyel Guerra”