AGORA, MORTA É INÊS – por Danyel Guerra

© Luís Guerra e Paz
      “Toldam-se os ares,/Murcham-se as flores;/
  Morrei, Amores,/Que Inês morreu”

 Manuel Maria du Bocage

Na plataforma rochosa de uma praia, algures no Universo, um fotógrafo clicka  closes da agreste,  severa paisagem. De súbito, a objetiva da câmera se vê velada por uma mão lutuosa, sinistra, nem tanto por ser a esquerda. Atrevida e inoportuna, a ponto de malograr o clichê. O visado não demora um átimo a adivinhar quem ousou a desfaçatez. Um ser fantasmático, fumos soturnos na expressão facial, se configura à sua frente. Continuar a ler “AGORA, MORTA É INÊS – por Danyel Guerra”

RoMARIA DE FÁTIMA – por Danyel Guerra

“Nem que eu e a Mercedes Sosa tenhamos de ir a pé em roMaria de Fátima” .

Diogo estaca o passo à porta do cômodo e recua estupefato, a ponto de desviar o olhar. O que se passa, cariño? Parece que viste uma assombração.

Nem uma semana tinha passado  desde o momento em que Lúcia lhe ligara, anunciando promissoras sensações de comprazimento. Olá Diogo, tudo bem? Tenho uma novidade  para te contar. Meus pais vão a Fátima, no 13 de maio com a Jacinta e o Francisco. Quando me disseram fiquei  eufórica. Quase tive um desmaio. E já podes adivinhar o que vai acontecer….. Continuar a ler “RoMARIA DE FÁTIMA – por Danyel Guerra”

REI E RAINHA DE UM CARNAVAL MICARETA por Danyel Guerra

Alain desenlaça, decidido, o amasso da frenética Romy. O que se passa, querido? Darling, o que passa daqui a uns segundos é o bus dos 33 minutos, não posso perdê-lo…! Ele ajusta, no orifício certo, a fivela prateada do cinto, selando a separação com um beijo fugaz nos lábios carmesins da garota. E sai disparado rua afora…senão vou tomar um chá de cadeira de meia-hora, completa aconchegando o cachecol black  & white ao pescoço e estugando a passada. E com apenas 33 segundos de atraso, um 33 se detém perante o solitário e ansioso passageiro.

Continuar a ler “REI E RAINHA DE UM CARNAVAL MICARETA por Danyel Guerra”

EDITORIAL – Como ficar bem athenado – por Danyel Guerra

0- Nos desfiles de samba brasileiros, ápice do Carnaval nos alegres trópicos, manda o figurino, dispõe o ritual, impõe a superstição, aconselha o bom senso, que a escola esquente os tamborins da bateria -e não só!- antes de adentrar na passarela com os dois pés direitos. Para começo de conversa, não encontramos alegoria mais assertiva e adequada a fim de festejar a edição do nº 0 da revista ‘Athena’.

Continuar a ler “EDITORIAL – Como ficar bem athenado – por Danyel Guerra”

QUANDO VELÔ SE AVENTUROU NO “POEMA SÓ” – por Danyel Guerra

“Ver o céu de verão é poesia, ainda que não esteja

num livro. Os verdadeiros poemas escapam-〈nos〉”

Emily Dickinson

Por mais que pese a autoestima e muito custe a presunção da maioria dos vates literários, todo ser vivente é um arauto, um porta-voz de poesia, mesmo que nunca tenha escrito sequer um verso. As hemácias po(i)éticas percorrem, a todo momento, nossos vasos arteriais e venosos. Sangue que sendo alarde de vida, pulsa, freme, regurgita como um ato de poesia automática, a ponto desse “modus faciendi” independer da vontade humana.

Continuar a ler “QUANDO VELÔ SE AVENTUROU NO “POEMA SÓ” – por Danyel Guerra”

LA RAGAZZA DAS CASTANHAS ASSADAS – por Danyel Guerra

“Cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico,

é o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada”

Carlos Drummond de Andrade

A vez primeira que provei castanhas assadas aconteceu na convicta cidade do Porto, numa tarde outonal, céu forrado de tons plúmbleos, um sábado pejado de humor ranzinza, carrancudo, receando chuva iminente e copiosa. Eu descia a Rua de Passos Manuel, saído de “uma matinê no Cinema Olympia, no Cinema Olympia” onde vira um western spaghetti rodado em…Espanha. Mas não era C’era una volta il West, do Sergio Leone. Chegando à Rua de Santa Catarina, em frente do Café Majestic, quase esbarrei num carrinho, parecido com aqueles de algodão doce e de pipocas. Continuar a ler “LA RAGAZZA DAS CASTANHAS ASSADAS – por Danyel Guerra”