VIAGEM – por Lionilda Pereira

Jama Masjid, a maior mesquita da India

A palavra viagem cria em mim o sonho qual Peter Pan em busca da Terra do Nunca.

Interiormente agita-se a ideia de organizar, de selecionar o importante de uma nação, lugares, próximos ou longínquos. O mapa, o atlas, livros informativos instalam-se na mesa de cabeceira em busca desse conhecimento de hábitos, tradições, gastronomia, língua; escritores ou artistas famosos. Enfim, proponho-me beber de todas as fontes, esbugalhar o olhar para ver para além do que todos os turistas vêm. Continuar a ler “VIAGEM – por Lionilda Pereira”

POEMAS DEL LIBRO EN EL ESTUDIO – por MANUEL PARRA AGUILAR

Sur un ciel sombre se détachait un cône noir à dentelures. Nous tournions Morea pour découvrir Tahiti.

Paul Gauguin

 I

¿Qué decir de la víspera del color,
esa duda,
forma casi,
(ya en silencio su trascendencia),
línea que no termina por empezar?
¿Qué decir de la sensación de extravío,
la que da la mano a la otra línea en el color,
la que es idea solo,
la que es pensamiento solo? Continuar a ler “POEMAS DEL LIBRO EN EL ESTUDIO – por MANUEL PARRA AGUILAR”

HISTÓRIA TRÁGICA DA CRIATURA QUE(….) – por Maria Toscano

(…) TINHA 6 NAMORADOS FALECIDOS E MAIZUM.

(Paródia)

[ A Criatura — no caso, uma rapariga do género feminino, de orientação sexual hétero, e não praticando vampirismo nem nenhuma outra modalidade olímpica, pois nem frequentava o ginásio, nem tinha experiência de caminhadas, quanto mais de corrida… — vinha de perder seis dos seus namorados, o que, coexistindo com outra ocorrência, configurou uma situação trágica que A Criatura desabafou com A Amiga… ] Continuar a ler “HISTÓRIA TRÁGICA DA CRIATURA QUE(….) – por Maria Toscano”

POEMAS DE OLINDA GIL

 Catarina Eufémia

Eufémia.
Fala bem. Diz demais. Às vezes não se pode falar.
Eufémia, reza, preza, por um melhor dia.
Oração é uma palavra, há deuses que não ouvem.
Não há palavras mansas, eufemismos, que nos salvem.
Reza em silêncio, Eufémia. Por um dia melhor.
Não digas muito, não vale a pena.
Deus se ouvir nem precisa que fales.
Mas Deus ensurdeceu.
Eu, fêmea. Sabes quem és. Sabes o que queres.
És mulher.
Mulher é criadora.
És cuidadora, és carregadora das dores, todas as dores.
Ninguém sabe quem és.
Tornaste-te apenas nas tuas palavras.
Depois destas foi só o teu olhar,
a ver o gesto que te matou.
Foste traída pelo teu próprio nome.
Depois vieram os eufemismos:
digam o que disserem, o que quiserem.
Endeusem-te, iconizem-te, coloquem-te em t-shirts,
bonés, camisolas.
Em livros e poemas.
Em todos os sítios que quiserem.
Estás morta, não sabes.
Deixaste de ser dona, até da tua própria morte.
O mundo vê a tua face.
Mas tu não viste os teus filhos crescerem. Continuar a ler “POEMAS DE OLINDA GIL”

POEMAS EXTRAÍDOS DO LIVRO “AMOR E OUTROS DESENCONTROS”- por Olívia Clara Pena

AMIGOS

há amigos que são barco que são asa e viagem
há amigos que são néctar seiva bruta acetinada
há amigos que são casa que são colo e mansidão
há amigos que são brisa são calor de vento leste esvoaçam-nos a alma
aquecem-nos as entranhas
há amigos que são semente trazida de oriente
sêmola rija perfume
vertigem de especiaria amor
doçura e pão
há amigos que são pétalas de chuva labirintos de ternura
florescem-nos viçosos em cada redondo poro
e há aqueles que são cura
de dias de desventura
e aqueles que são trilhos vibrantes desconhecidos
e há aqueles que são trova que são bailado e são canção
e há os amigos que ficam
que resistem e persistem
que nos arejam por dentro como se fossem feitos apenas de ar puro.

In “Amor e outros desencontros” Continuar a ler “POEMAS EXTRAÍDOS DO LIVRO “AMOR E OUTROS DESENCONTROS”- por Olívia Clara Pena”

O REAPROVEITAMENTO DAS ÁGUAS RESIDUAIS TRATADAS – por Ricardo Amorim Pereira

 

O reaproveitamento das águas residuais tratadas

Recentemente, foi sentido um dos maiores sismos verificados, neste século, em Portugal. No dia seguinte, muito se falou sobre a preparação necessária para enfrentarmos estes eventos. Como sempre acontece, o assunto caiu logo de seguida, estando agora no maior dos esquecimentos. Esta característica de se conferir importância a um determinado problema, quando o mesmo invade as nossas rotineiras vidas, para, logo de seguida e assim que deixa de se colocar de um modo incontornável, o esquecermos, está presente nas nossas sociedades. Continuar a ler “O REAPROVEITAMENTO DAS ÁGUAS RESIDUAIS TRATADAS – por Ricardo Amorim Pereira”

FICHA TÉCNICA DA EDIÇÃO 29 – SETEMBRO/2024

 EDIÇÃO Nº 29-  DE SETEMBRO /  2024 

-HOMENAGEM PAULO LÚCIO/ LÚCIO VALIUM-

DIRECÇÃO:  Júlia Moura Lopes ⌉ Artur Manso

 CAPA: Fotografia de PAULO BURNAY

COLABORAM AINDA:

Alda Fontes, Alvaro Acevedo, Artur Manso, Claudia Vila Molina, Danyel Guerra, Dercio Brauna, Fernando Martinho Guimaraes, Francisco Fuchs, Idalina Correia Da Silva, Jaime Vaz Brasil, Jardel Dias Cavalcanti, Lionilda Pereira, Lúcio Valium/Paulo Lúcio, Luiz Renato Oliveira Perico, Manuel Parra Aguiar, Maria Toscano, Olinda Pina Gil, Olívia Clara Pena, Ricardo Pereira, Wendrell Elias Dos Santos Gomes.

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FICHA TECNICA EDIÇÃO Nº 28- JUNHO 2024

EDIÇÃO E PROPRIEDADE: Pencil Box – Multimédia, Ldª- 

ISSN 2184-0709 

DIRECÇÃO: Júlia Moura Lopes

Logótipo e SEO : David Fernandes

Email: revista.athena2017@athena

Paginação Web: Júlia Moura Lopes

Apoio Web: David Fernandes e Luís Guerra e Paz

COLABORARAM NA EDIÇÃO Nº 28

CAPA DE: Mário Cesariny, 1972
ARTIGO EM DESTAQUE: “Giovanni Papini, O Homem Infinito”, por José António Barreiros
DIRECÇÃO: Julia Moura Lopes
COLABORARAM, POR ORDEM DECRESCENTE:
Tito Leite, Thauan Pastrello,Rosa Sampaio Torres, Riz De Ferelas, Ricardo Amorim Pereira, Manuel Igreja, M. H. Restivo, Lucio Valium, José Antonio Barreiros, Jorge Etcheverry Arcaya, Januário Esteves, Isi De Paula, Idalina Correia Da Silva, Francisco Fuchs, Fernando Martinho Guimarães, Danyel Guerra, Cruzeiro Seixas, Claudia Vila Molina, Clarissa Macedo, Artur Manso, Antonio Camilo Cunha, Alejandro Méndez Casariego.

GIOVANNI PAPINI, 0 HOMEM INFINITO – por José António Barreiros

Giovanni Papini

O Homem Infinito

São algumas notas de leitura do que me foi dado reflectir sobre um extraordinário escritor italiano, omnívoro como já o qualificaram, torrencial na sua estilística, possuído por uma intranquilidade fazedora, incessante, mesmo na mais rude adversidade: Giovanni Papini [1881-1956].

Trago-as aqui, aos leitores da revista Athena, num súbito impulso de regressar onde com gentileza a Júlia Moura Lopes acolheu um meu primeiro escrito sobre a pintora ucraniana Sonia Delaunay.

E trago-as quando estou a ler, no tempo possível que invento, o seu monumental Diário, na versão original, publicada pelo seu amigo e editor Attilio Valecchi [1880-1946].

Se os dedicasse, estes dispersos apontamentos, seria a João Bigotte Chorão, autor de magníficas páginas de análise da sua obra e de compreensão humana da sua pessoa.

Suponho que o primeiro livro seu que li foi na Colecção Unibolso e intitulava-se O Diabo, tendo como subtítulo, mais expressivo Apontamentos para uma Futura Diabologia. Continuar a ler “GIOVANNI PAPINI, 0 HOMEM INFINITO – por José António Barreiros”

ALGUM RITMO – por Thauan Pastrello

Os pensamentos se sucedem rapidamente, assim como os vídeos curtos passam na tela com um simples toque do dedo. Ao contrário dos vídeos, os pensamentos não passam. Eles sedimentam-se acima dos olhos quando a secura me obriga a fechá-los. Logo, ao abrir das pálpebras, outro porquê surge incessante, rompendo o sentido da gravidade e pairando como uma suave bigorna içada sob as pálpebras abatidas. Continuar a ler “ALGUM RITMO – por Thauan Pastrello”

EXCERTO DE “JENIPAPO WESTERN” de Tito Leite

1

O sertão é por um fio. Insetos, folhas, raízes e formigas em volta da terra. Tudo tão seco e ao mesmo tempo inteiriço. No sol escaldante, uma flor luta e sobrevive. Mesmo trincada, a vontade de vida insiste. Na cidade de Jenipapo, tudo é quebradiço, a moeda de troca circula nas lavouras de algodão. Plantam, colhem e se submetem aos três compradores. Não há banco na cidade. Roberto, um dos usineiros que começou como intermediário, disponibiliza o dinheiro e as sementes de baixa qualidade. O pagamento vem com as futuras safras do ouro branco. Um santo mártir, no momento de sua morte, certa vez falou: “Serei trigo nos dentes das feras”. Um pouco isso, o que acontece, as pessoas são trituradas e ainda agradecem, sorridentes. Elas vendem o fruto do seu trabalho praticamente de graça e esbanjando contentamento, como se a compra fosse um gesto altruísta. Continuar a ler “EXCERTO DE “JENIPAPO WESTERN” de Tito Leite”

MAQUIAVEL – por Rosa Sampaio Torres

Retrato de Niccolò Machiavelli by Santi di Tito.

 “Para compreender a obra de Maquiavel é necessário penetrar seu tempo histórico, acompanhar os dias de Florença em época já revolucionária”

                             (Rosa Sampaio Torres –  Facebook, agosto de 2023).

 (Foto1) Símbolo das liberdades civis da cidade de Florença. Estátua Inaugurada em 8 de setembro de 1504.

Niccolò di Bernardo dei Machiavelli nascido em Florença em 3 de maio de 1469, falecido também em  Florença em 21 de junho de 1527 –  filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico. Viveu no período do chamado Renascimento.  É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, segundo o filósofo Leo Strauss (1899 — 1973) (1).

“Com o fim da Primeira República inovadora e socialmente radical de Savanarola, quando objetos de luxo foram até mesmo queimados nas praças, voltaram os florentinos à razão em 1513 – e os Medici novamente ao poder” (2). Continuar a ler “MAQUIAVEL – por Rosa Sampaio Torres”

O “POLITICAMENTE CORRETO” NAS QUESTÕES AMBIENTAIS – por Ricardo Amorim Pereira

Terá a ditadura do “politicamente correto” chegado às questões ambientais?

Tenho, com o maior dos gostos, vindo a colaborar com esta prestigiada e eclética Revista Athena, abordando, sob o prisma das ciências sociais, o tema ambiental. Continuarei, hoje, a fazê-lo, aludindo a um aspeto que me parece menos observado mas, de igual forma, merecedor de atenção. Continuar a ler “O “POLITICAMENTE CORRETO” NAS QUESTÕES AMBIENTAIS – por Ricardo Amorim Pereira”

DEUS E O DIABO, IDEAIS E COISAS QUE TAIS – por M. H. Restivo

Não fosse por essência o diabo algo a ser odiado, muito o estimaríamos por tão profícuas parábolas que à sua custa ensinam a moral aos homens. Que não se estranhe o facto de o símbolo do mal ser o veículo da moral e dos bons costumes pois de que valeria o bem se não existisse o seu contrário? E, assim sendo, não concebemos um mundo sem inspiração diabólica que, como é sabido, mora bem fundo no coração dos homens. Não obstante, mais pobre seria o mundo caso a inspiração divina não se manifestasse ocasionalmente nos homens, que estes, às penas que sofrem, bem merecem o deleite de uma agradável ilusão. E assim se dá que deus e o diabo, essas tão dignas personagens que põem ordem no mundo, continuem a fazer mossa nos nossos corações impenitentes e avessos à paz. E acreditando nós, por força dos males e dos bens da vida, que há males que vêm por bem e bens que por mal vêm, não arriscamos afirmações de autoria em matérias tão controversas.  Continuar a ler “DEUS E O DIABO, IDEAIS E COISAS QUE TAIS – por M. H. Restivo”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS (III)- por Lucio Valium

ARMAÇÕES

manhã negrume gruas pinças
bisturis a rasgar o corpo da cidade.
cabos de aço. sufoco de redes neuronais
doenças no desenho de labirintos.
grades nas ruas ao alto para encantar a vida dos lordes
torturas babadas em majestosos gabinetes.
e nós animais visuais
avançando para evitar o cerco.
desprezando os feridos e a máquina
ávida de obediência e de presas.
e nós animais de memória
cansados de olhar fixo na garra mortuária.
alimentamo-nos de pétalas e vinho no fundo do bosque
onde vemos ao longe o fumo da engrenagem.
lemos em nossos cadernos fórmulas tenebrosas
apontamentos para ser simples na terra.
e nós aqui ainda colhendo flores e imaginando frutas
nós em asco odiando engalanados crápulas.
os que rejubilam com projetos de luxo letal
nós em estratégia sem meios. quase desterrados.
somos meigos em nossos esconderijos e endurecemos
vendo o espetáculo infame quase já sem humanos.
as máscaras tão vazias
uma epidemia irreprimível de cenários de lucro.
o esgoto o nojo o vómito
eu não estou deprimido estou vivo.
leio os personagens em seus artifícios
que querem rapidez e limpeza.
são autores que deixam marca
na crosta terrestre onde espalham carne quente.
e nós viventes em invenção
ainda comemos em mesas limpas.
com suas toalhas humanas
e bebemos para acariciar o coração do tempo. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS (III)- por Lucio Valium”

EL MIEDO A LAS VACAS – por Jorge Etcheverry Arcaya

© Jorge Etcheverry Arcaya

Afuera del supermercado se estaba juntando gente. Al pasar la vi en el medio. Habíamos estado juntos en el mismo hospital la última vez que me internaron. Era obvio que la habían expulsado del Mall. Es que ella cree que tiene derechos, no la culpo, es lo normal en los ciudadanos de este país, tan distinto del que me tuve que venir por obligación. Me reconoció. Me hizo un además con la mano. El policía que hablaba con ella me pareció sólido, consistente, bajo su máscara. Una joven policía mantenía a la gente a distancia. “Es inadmisible” le dije “que los supermercados no tengan una política especial respecto a las personas con problemas emocionales o mentales, especialmente durante esta pandemia”. No me respondió, pero sus ojos inquisitivos y quizás recelosos revelaban todo un contenido tras ellos, un mundo interior. Una ventaja de la pandemia—desde un punto de vista estrictamente personal—es que el evitar la proximidad, el contacto con los demás, se ha convertido en una virtud. La otra es que lo único que vemos de una cara ahora son los ojos. Antes, nuestra atención se iba hacia otros aspectos fisonómicos, para detrimento de nuestra captación de lo esencial, los ojos. La expresión de los ojos revela lo que se llama un alma, que se manifiesta en múltiples facetas, como los estados de ánimo (Stimmung) tan caros al investigador y simple aficionado a la poesía lírica. Pero incluso el hambre del animal salvaje, la fidelidad del humilde can, el auto contentamiento del gato son otras características, no siempre positivas, que indican la existencia de necesidades, afectos, etc., que es lo que nos hace humanos o animales, según sea el caso, y que se muestran a través de ese órgano de la visión. Continuar a ler “EL MIEDO A LAS VACAS – por Jorge Etcheverry Arcaya”

ENTREVISTA IMAGINÁRIA A ALBERT CAMUS – por Idalina Correia da Silva

 

A. Camus

Entrevista imaginária de idalina Correia Silva a

Albert Camus

Em jeito de comemoração dos 111 anos do seu nascimento

(1913-1960)

 Considera-se um artista e não um filósofo.                 Porquê?

A. Camus – “Eu penso de acordo com as palavras e não com as ideias” e, por outro lado, considero que “um romance é sempre uma filosofia feita por imagens”. Mesmo o “Mito de Sísifo” que é, efetivamente, um ensaio sobre o absurdo da nossa existência não traduz um corpo teórico sólido nem corresponde a uma categoria metafísica. Esta série sobre o absurdo (juntamente com “Calígula” e “o Mal Entendido”) resulta do facto de ser essa a minha preocupação antes da Guerra: o absurdo. E diria mais “nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico” Enquanto, “o sentimento do absurdo pode esbofetear qualquer homem à esquina de qualquer rua”. Continuar a ler “ENTREVISTA IMAGINÁRIA A ALBERT CAMUS – por Idalina Correia da Silva”

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – por Fernando Martinho Guimarães

 

A Inteligência Artificial é a ciência ou engenharia de produzir máquinas inteligentes.

O critério que nos permite aferir da inteligência da máquina é, pois claro, o confronto com a inteligência humana. Uma máquina inteligente é aquela que executa funções que, caso fosse um ser humano a executar, seriam consideradas inteligentes. Por isso, a Inteligência Artificial aparece sempre associada quer à Cibernética, quer à Robótica. Continuar a ler “A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – por Fernando Martinho Guimarães”

SAUDADES DE MÊNFIS – por Francisco Fuchs

Vida longa para ti, meu irmão distante. Que os deuses vivos e mortos te prodigalizem o pão, mas sobretudo a luz perene que irradia a toda parte. Temo pela minha sorte, irmão, bem o sabes, desde minha transferência para este miserável vilarejo do delta oriental. Meu coração partiu em segredo, ele viaja, sobe o rio para rever Mênfis, mas permaneço atado a esta terra estranha, neste solo pantanoso onde chafurdam rebanhos e crocodilos. Minhas petições foram sorrateiramente bloqueadas por Kaper, o mesquinho chefe de polícia de Kenken-taue, e todas as nossas cartas lidas por ele antes de chegarem ao seu destino — todas, menos esta, que irá ter contigo levando o meu humilde selo ainda intacto. Conto com o discreto auxílio de um mensageiro fiel, veloz como uma sombra, por cujos serviços providenciei (para que lhe sejam entregues depois da execução de sua tarefa) incontáveis cântaros de cerveja, uma vez que essa desobediência às ordens de Kaper poderá custar-lhe as orelhas ou o nariz. Escrevo para dizer-te adeus, pois o mais certo, irmão, é que não nos vejamos novamente senão do outro lado do horizonte; mas como poderia deixar de contar-te tudo quanto omiti nas demais cartas, e portanto subtraí à devassa de Kaper, se devo minha vida a essa prudente omissão? Desenrolai cuidadosamente este papiro, irmão meu, pois é teu irmão distante que estarás explicando. Continuar a ler “SAUDADES DE MÊNFIS – por Francisco Fuchs”

CHEGA DE SAUDADE, NARINHA – por Danyel Guerra

Trinta e cinco anos sem escutar ao vivo a voz de Nara

Já se evolaram quase quatro décadas, mas parece que foi ontem. Nara Leão se apresentando no palco do Teatro Rivoli, num show memorável, dedicado ao camarada Adriano Correia de Oliveira.  Não demoraria que ela começasse a padecer do tumor cerebral inoperável, que acabaria silenciando sua voz tão encantadora quanto interventiva. Apesar desse peso e desse pesar, esta cidadã carioca – embora natural de Vitória, capital do Espírito Santo – não abdicou de continuar manifestando determinação e coerência, atributos apanágio tanto da mulher como da artista. Continuar a ler “CHEGA DE SAUDADE, NARINHA – por Danyel Guerra”

A POESIA DE CLARISSA MACEDO

Olokum

Que estranha forma de vida, essa
onde não te posso tocar
ou
enxugar as lágrimas de teu rosto
com meus cabelos,
meus infinitos cabelos
que tuas mãos aparavam na era da infância
sob a tesoura enferrujada.

Aquela tesoura sou eu, trêmula,
desfeita no espelho da carne.

Ciência

Afastar os monstros do quarto
requer ciência:
esconder-se pelo edredom
acender a lâmpada
tirá-los de sob a cama.

Há formas de afugentar os monstros,
inclusive aqueles do armário
que se mexem ao dormirmos
e nos olham baixinho
como fossem lentos fantasmas,
velhos de tanto limbo e provação.

Para arrancar os monstros é preciso ser capaz:
agarrá-los bem forte,
para que, no tormento do abraço,
rebentem de humanidade
e não voltem nunca mais. Continuar a ler “A POESIA DE CLARISSA MACEDO”

CARTAS DE CRUZEIRO SEIXAS A JONUEL GONÇAVES

Cartas gentilmente cedidas por Jonuel Gonçalves, para publicação na Revista Athena.

Carta de Cruzeiro Seixas a Jonuel Gonçalves, datada de Dezembro de 2018

Carta manuscrita de Cruzeiro Seixas, com duas páginas, dirigida a Jonuel Gonçalves. Tinha 97 anos e talvez fosse das últimas pelo seu próprio punho.
Continuação  de carta manuscrita dirigida a Jonuel Gonçalves, quando Cruzeiro Seixas tinha 97 anos.