EDITORIAL – OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos

Imagem do filme Blade Runner

Há épocas em que a técnica lidera e a cultura segue. E há outras — as decisivas — em que a técnica corre tão depressa que só a cultura a consegue deter para lhe perguntar: “para onde?” A Inteligência Artificial (IA) instalou‑se como mito e como motor. Mas é precisamente por isso que o nosso presente — e o futuro que já se escreve à nossa frente — precisa mais de filósofos, escritores, poetas, professores e artistas do que de mais linhas de código. Porque a técnica, deixada a si mesma, não sabe o que fazer com o humano; limita‑se a fazê‑lo funcionar. Shoshana Zuboff, professora emérita da cátedra Charles Edward Wilson da Harvard Business School e professora associada do Berkman Klein Center for Internet & Society da Harvard Law School, autora do livro “A Era do Capitalismo da Vigilância”, avisa: a lógica que alimenta a IA “não se contenta em automatizar fluxos de informação sobre nós; o objetivo agora é automatizar‑nos”, deslocando o poder do conhecimento para a modelação do comportamento.

A pergunta, por isso, não é “o que a IA pode fazer?”, mas “o que a IA está a fazer-nos?” Yuval Noah Harari, professor israelita de História, autor do livro História Breve da Humanidade, chama‑lhe uma “inteligência alienígena” que pode capturar a linguagem — e com a linguagem a lei, a política e, portanto, o poder. Desde 2023 que alerta para o risco de a IA dominar o ecossistema simbólico humano sem precisar de consciência nem de braços, bastando‑lhe a captura da nossa comunicação. Se o terreno da disputa é a linguagem, então os guardiões da linguagem — escritores e poetas — tornam‑se, de súbito, a linha da frente.

Nick Cave, de dentro da oficina de músico, traduziu esse sobressalto: chamar “canções” aos artefactos gerados por IA é “uma grotesca paródia do que é ser humano”. Não é purismo romântico; é diagnóstico existencial. Cave teme a “humilhação” da espécie quando deixarmos de valorizar a luta criativa e aceitarmos o que a máquina nos despeja porque é rápido, convincente e “utterly banal”. O que está em causa não é a substituição do artista, mas o rebaixamento do nosso padrão de sentido — e com ele, a nossa ideia de pessoa.

Contra este empobrecimento, a filosofia recorda que pensar não é apenas calcular. Byung‑Chul Han, o ensaísta que pôs nomes ao nosso mal‑estar digital, insiste: a IA “é incapaz de pensar” porque lhe falta o estremecimento anímico, aquela Síndrome de Stendhal, a negatividade, a demora — aquilo que antecede o conceito e funda a experiência. A sociedade de desempenho que mede tudo transforma o sujeito em dados; a arte, ao contrário, é o lugar do que resiste à medida. E é nesse espaço irrepetível que o poeta continua insubstituível.

O jornalismo pede provas e a cultura pode dá‑las. A UNESCO soou o alarme: sem políticas robustas, a difusão de conteúdos gerados por IA empurrará milhares de criadores para quebras de rendimento significativas já até 2028, ao mesmo tempo que intensifica violações de direitos e agrava a opacidade algorítmica. Não é apenas um problema social; é também político: a própria UNESCO acentua que precisamos de enquadramentos éticos no setor cultural e criativo para que a inovação não se converta em predação do simbólico comum. Continuar a ler “EDITORIAL – OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos”

MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) I – por Alexandre Teixeira Mendes

Jesué Pinharanda Gomes no Centro de Estudos com o seu nome, em Sabugal (Foto CMS)

– trajectória mística carmelitana e aristotélica-tomista

“(…) não será esta a experiência essencial do pensamento como da escrita, a da meditação escutante (…) do seu dito e do seu não-dito (…)”

Fernando Belo, Heidegger pensador da terra, APF, Coimbra,1992, 32.

 «O Novo (Testamento) está oculto no Antigo, e no Novo o Antigo se torna patente»

Sto Agostinho, Quaestiones in Heptateucum, 2, 73, PL 34, 623.

1. Duas tendências se evidenciam muito cedo no percurso especulativo de J. Pinharanda Gomes (1939-2019) – a mística carmelitana e o aristotelismo-tomista – que (re) colocamos em discussão. Ora, a obra do nosso autor é, definitivamente, o exemplo maior da meditação “escutante”. Mas desde já devemos interrogar-nos sobre o exprimir teológico (“theologikos”) ou perguntar-nos acerca do “silogismo” teológico. Apraz-nos sublinhar – sumariamente – que a tradição metafísica portuguesa, como tantas vezes já foi dito, desenrolou-se fundamentalmente à sombra do “magistério” aristotélico-tomista. Torna-se claro, a partir dos primeiros enfoques literários-filosóficos de J. Pinharanda Gomes, numa espécie de criação isolada e testemunhal, a interpelação por uma muda vox Dei, sendo evidente a sintonia com o depositum fidei  – na reverência romano-católica –  sobre o pano de fundo da kenosis –  morte da cruz e encarnação. Já no relevo da mensagem e da tradição cristã –  e, por sua vez, do vínculo à filosofia moderna portuguesa – decididamente – na assimilação dos exemplos significativos da tradição da  “Escola Portuense” (a aliança de Bruno (José Pereira de Sampaio)  e da geração do 57 achar-se-á através do “mestrado” dos discípulos de Leonardo Coimbra. Também com um empenhamento público –  frutuoso – com o carmelitismo laico (V. Manual da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços, Edições Carmelo, 1983).  Mas como interpolar num curto excurso o escritor eclesial, o filósofo e o hermeuta, na sua generalidade, aqui subentendido, o teólogo sob o signo da metanóia centrada no homem do VIII dia? E quem ignora esse seu pendor de doutrinário e de historiador-sistemático da filosofia portuguesa e entre essas duas vertentes primaciais: a consideração de um filosofar metafísico ou situado e o confluir ou desembocar numa teologia do mysterium crucis e de busca da “presença divina”? Apoiando-se, no sentido mais restrito e gradual, na filosofia bergsoniana – da apreensão do “vir-a-ser” de “Pensée et le Mouvant” – e mais sistematicamente ou persistentemente da influência da “Razão Animada” de Álvaro Ribeiro  – é muito significativo a este respeito o livro “Pensamento e Movimento (Prolegómenos a uma Filosofia Ascética)” (Lello & Irmão- Editores, Porto,1974) que trouxe à superfície a  problemática da principialidade da filosofia. A preocupação básica foi a de mostrar o nexo entre culto e cultura e do circuncrever, necessariamente, a “visio compreensionis” e a “visio cognitionis”? Um mês antes de falecer,  a 27 de Julho de 2019, J. Pinharanda Gomes lançou, na cidade do Porto,  o livro “Leonardina – Estudos acerca de Leonardino Coimbra” (Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 2019) onde reuniu os seus escritos em torno do filósofo de “A Alegria, a Dor e a Graça”, com quem estava intimamente familiarizado. A filosofia do autor de Notas sobre a abstracção científica e o silogismo surge-nos caracterizada – como foi parcialmente sugerido, validamente, – por uma polaridade essencial ou duplicidade de dons –  coincide com o acráta  e o metafísico  –  o precursor do “existencialismo” cristão ou o formulador (no sentido distintivo do termo) do  “nocionismo”. Ainda mais apreciada é a centralidade da crítica e denúncia do positivismo que se abstrai sistemáticamente das consequências da cousificação e através da assunção do conceito de “vício cousista”. Relevo também e sobretudo para a vertente da “filosofia religiosa” assente fortemente – no entender de Sant`Anna Dionísio – num optismo levitante (Leonardo Coimbra, Pensamento e Drama, Lello & Irmão- Editores, Porto, 1983, pág.39). “A filosofia ciacionista – escreveu ainda Delfim Santos – não é só teoria e crítica do conhecimento, mas exigência de promoção valorativa do concreto, cujo mais alto nível é a pessoa” (Prefácio XII in O Criacionismo (Síntese Filosófica), Livraria Tavares Martins/Porto, 1958). Continuar a ler “MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) I – por Alexandre Teixeira Mendes”

O ESTADO NÃO É MEU DONO – por Artur Manso

O objetivo dos Governos é sempre o mesmo: limitar o indivíduo, domesticá-lo, subordiná-lo, subjugá-lo.

Max Stirner

Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.

Agostinho da Silva

Não há dúvida que o indivíduo, por si só, não tem qualquer hipótese de sobreviver, morrerá poucas horas após ter olhado o lugar que passa a ser seu. Não há qualquer dúvida, também, que com a massificação das democracias de tipo ocidental, o Estado passou a ser, em nome de um bem maior que tarda a perceber-se qual seja, o “pai omnipotente” de todos e todas. Não podemos escolher como nascer nem como queremos ser educados. Não podemos escolher o que fazer com o nosso único bem, o nosso corpo. Não podemos escolher como morrer. Para tudo o Estado impõe uma maneira própria, universal, de nos entendermos e nos resolvermos, individual e coletivamente. O Estado em prol da liberdade que não nos consente, obriga-nos a ser submissos a um conjunto de normas e valores que decreta, diz, em nome do bem comum. Continuar a ler “O ESTADO NÃO É MEU DONO – por Artur Manso”

“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes

“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO)PITAGÓRICAS

 – Trans (e) figuração e geometria secreta em António Telmo e Lima de Freitas

Pergunta – O que é a Ilha dos Bem-Aventurados?
Resposta – É o sol e é a lua.
P – O que é o Oráculo de Delfos?
R –  É a Tetractys.
P – O que é a Harmonia?
R – É o canto das Sereias.

François Millepierres, Pythagore, Fills D`Appollon, Gallimard, 1959, 119.

1.1. O pitagorismo de António Telmo (1927-2010) e Lima de Freitas (1927-1998) merecem bem uma meditação prolongada. Ora, precisamente o que surpreende – à luz da doutrina pitagórica – é a nobilíssima clarividência hermética de ambos e a (in) excedível valoração da mística e ocultismo do número e a proporção áurea. Supõe a liturgia algorítmica e a “golden ratio”. O nosso próprio interesse – proeminente – pela ciência «acroamática» ou esotérica provém, afinal, aparentemente ou rigorosamente falando, das reflexões-tipo sobre os conceitos-chave de transcendência e de realidade absoluta (que chamamos “o divino”). Quando comparamos, no conjunto, as reflexões pitagóricas de António Telmo e de Lima de Freitas, verificamos que ambos se referem à descoberta da estética da sectio aurea e que comentaram pormenorizadamente a década que é a natureza essencial de todo número – uma mónada de no mínimo 10. É interessante notar que Teofrasto – filósofo grego da escola peripatética que escreveu no século IV a.C. as “Doutrinas dos Filósofos da Natureza” (Phusikon Doxai) –  apresenta-nos uma ideia pitagórica bastante interessante – que o número ideal não está necessariamente sujeito a uma progressão sequencial ou causal de um a dez, mas é, antes, uma unidade com dez qualidades essenciais e potenciais, simultaneamente presentes na Década ou Tetraktys (eis porque pode representar, porventura, tanto uma unidade mínima quanto uma maximalidade em dez). Após ter posto em relevo, no início, as minúcias do hermetismo –  de que um dos aspectos primordiais é a kabbalah –  não é irrelevante a atenção –  (des) concertante  – sem alarde – destes nossos autores às “vias” de iluminação e realização espiritual do ser humano. Tratou-se, nos casos, ainda de um aprofundar dos estudos sobre a  kabbalah teórica (maasé bereshit) cujo alcance se estende desde a concepção do infinito até o mundo físico de coisas e acontecimentos que experimentamos como independentes e separados, passando pelas diferentes configurações da “divindade”, a “Árvore da Vida”, os mundos e seus habitantes, as almas humanas e seu destino, a semântica do alfabeto hebraico, e um longo etecetera. De facto, esse é o significado profundo da palavra kabbalah, que provêm da raiz hebraica, QBL, da qual deriva o verbo “lecabel”, receber. Kabbalah significa recepção. Não é assim surpreendente que, do acervo das ideias dos autores de “História Secreta de Portugal” (Vega, Lisboa, 1977) e de “Pintar o sete – Ensaios sobre Almada Negreiros, o pitagorismo e a gemetria sagrada” (INCM, Lisboa, 1990)  façam parte acentuada – desde o início –  os escritos da kabbalah (adcionando a quota-parte do conjunto das doutrinas esotéricas e místicas judaicas). É lícito, entretanto, mencionar o método de técnica oculta da kabbalah que professa a revelação central do sentido oculto do divino? Continuar a ler ““EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes”

O QUE É A VERDADE? – por Artur Manso

 

 

“O que é a verdade?”Pilatos no julgamento de Jesus.

O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete
Aristóteles

                                                Não há factos eternos, como não há verdades absolutas
F. Nietzsche

O físico John Wheeler (1911-2008) referiu que “vivemos numa ilha rodeada por um mar de ignorância. À medida que cresce a ilha do nosso conhecimento, também cresce a costa da nossa ignorância”. Nada melhor do que as palavras de um físico, preocupado com a universalidade das leis científicas para procurar o que significa e como se encara aqui e ali, a demanda pela Verdade. Se a resposta fosse fácil, não haveria tanto silêncio, incompletude e dissimulação acerca do assunto. Conjeturemos, então, um pouco sobre o tema em torno do legado da tradição ocidental marcada pelo conhecimento greco-latino: as origens, porque sei que o assunto é complexo e tem muitas e diversas abordagens ao longo dos tempos e das diversas culturas.

O Evangelho do discípulo filósofo, João 18: 39 traz enunciado a dificuldade sobre a matéria quando relata o interrogatório de Pôncio Pilatos, governador romano da província da Judeia, ao jovem intransigente Jesus que afirmava ter vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos sabedor disso, pergunta-lhe: “O que é a verdade?”. E a resposta surpreende porque é um tranquilo abaixamento do olhar de Jesus, mergulhado em silêncio profundo. Parte da questão, a mais especulativa, talvez possa ter correspondência na afirmação de Jesus relatada em uma passagem anterior a esta:  “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8: 32), porque daqui depreende-se que a verdade é o compromisso de cada um com a vida toda num caminho de autenticidade e partilha. A verdade é o encontro com o pleno da existência, no reconhecimento da sua incompletude e no desejo de querer ser mais, não de uma maneira egoísta, mas de ser mais uns com os outros, mover-se em conjunto na causa do amor ao próximo, porque o meu próximo não é aquele me rodeia e me ocupa, desviando a minha atenção no quotidiano, mas sim aquele de quem, livremente e por escolha própria, me aproximo. A sabedoria antiga no rigorismo da lei mosaica tinha estabelecido dez princípios para a vida. Não eram muitos, mas o transgressor Jesus sabiamente resumiu-os a um apenas: “amar Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo”. Para satisfazer agora os emergentes espirituais laicos, guiados pelo olhar estético e cultural, e não tanto pelos livros das religiões, os simples deste mundo podem rasurar a primeira parte e grafar apenas: “ama o próximo como a ti mesmo” porque a essência do mandamento permanecerá intacta. Continuar a ler “O QUE É A VERDADE? – por Artur Manso”

EDITORIAL – ONDE ESTÁ A SABEDORIA? – por Artur Manso

                                         

Escuta e serás sábio. O começo da sabedoria é o silêncio.
Pitágoras

Eu não procuro saber as respostas,
procuro compreender as perguntas.

Confúcio 

Na tradição judaico-cristã os Livros Sapienciais são sete: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico. Uns são de maior extensão, outros de menor. Uns são mais introspetivos e centrados no sujeito, outros abertos à comunidade. São livros de ajuda a si mesmo, melhor dito pertencem ao grupo de leituras e meditações que os gurus atuais da autoajuda, os poucos que realmente conhecem a tradição, com milhões de likes e seguidores, reproduzem nos seus catecismos de forma ardilosa, sem citar as fontes. Não as ignoram é certo, e as suas obras seriam bem mais pobres no seu desconhecimento. Os livros sapienciais, não se encontram apenas nas religiões, eles percorrem todas as tradições e culturas, e a mentalidade ocidental, desde sempre relativizou os seus conteúdos e respetivos ensinamentos, porque na verdade poucos eram os que sabiam ler e a mensagem chegava sempre deturpada de acordo com os interesses de quem exercia o poder: as Igrejas e os Estados. Assim, de acesso a muito poucos, iam repousando sem serem abertos não só os livros sagrados, mas os de toda a tradição: Bhagavad-Guitá, Vedas, Sócrates/Platão, Séneca, Marco Aurélio, Confúcio, Buda, Jesus, Agostinho de Hipona, Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Ramakrishna, Ghandi e alguns outros, não muitos, que a verdadeira Sabedoria é um privilégio de raros. Continuar a ler “EDITORIAL – ONDE ESTÁ A SABEDORIA? – por Artur Manso”

ANTÓNIO TELMO OU RAFAEL SANZIO E A PINTURA DO (IN) EXPLÍCITO – por Alexandre Teixeira Mendes

A filosofia e os seus nexos latentes e não – ditos

Rafael Sanzio

Hesitar-se-á em admitir a amplitude alusiva-metafórica, simbólico-mística ou supra-histórica de “A Escola de Atenas” de Rafael Sanzio (1483 – 1520)? Já que o afresco, tal como nós o conhecemos, não cessa de interdizer (nos) ou apresentar (nos) visual e pictoricamente uma actividade intelectual – sintomaticamente –  a filosofia. Como, pois, intérprete da alegoria – ou seja emerso nas “projecções” das práticas vivas dos filósofos reais – livres – persistindo em se conformar ao delineado significado – secular –  da “visio comprehensionis”?   Este fresco – de 440 x 770 cm – que ocupa uma das paredes do que foi a biblioteca e escritório do Papa Júlio II – actualmente a Câmara da Assinatura do Palácio do Vaticano – projecta (aparentemente) –  com a complexidade de uma geometria prevalente e (precisemo-lo também) de um simbolismo –  na confluência mitológica, histórica e alegórica. E sempre se há-de avaliar os correlativos da representação, é à sua maneira a doutrina definida – segundo Edgar Wind de Art and Anarchy – por Pico de la Mirandola como Concordantia Platonis et Aristotelis – ressoa – segundo as aparências e as maneiras de ver renascentistas  –  com registros distantes, mas convergentes: a imaginação matemática e a história da circulação de livros e a instrução em mesmidade (co-formação), a magia naturalis, as controvérsias literárias e a teoria dos intervalos musicais, a epigrafia e o fascínio (transcendente) pelos hieróglifos e emblemas, a doxografia antiga e a análise da ética aristotélica, as biografias de estudiosos humanistas e as concepções cosmológicas (juízos-prévios) no alvorecer coperniciano. Continuar a ler “ANTÓNIO TELMO OU RAFAEL SANZIO E A PINTURA DO (IN) EXPLÍCITO – por Alexandre Teixeira Mendes”

A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO – por César Afonso

 

A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO, FERRAMENTA COGNITIVA E VIA DE AUTOTRANSFORMAÇÃO HUMANA

  1. Introdução – O equívoco moderno sobre a poesia

A modernidade tardia herdou uma conceção empobrecida da poesia. No imaginário dominante, ela surge frequentemente associada ao lazer improdutivo, à emotividade juvenil ou a uma arte menor, ornamental, destituída de função cognitiva. Esta marginalização não é acidental: resulta diretamente da hegemonia da racionalidade instrumental, da lógica tecnocrática e da cultura utilitarista. Como analisado por Guy Debord, a sociedade contemporânea transforma a experiência em espetáculo e consumo, reduzindo a atenção profunda a um resíduo cultural [1].

Neste contexto, a poesia — que exige silêncio, interioridade, lentidão, ambiguidade e escuta simbólica — torna-se dissonante. Contudo, esta perceção ignora um dado estrutural da condição humana: a poesia não é um luxo tardio da civilização, mas um modo originário de organização da consciência. Antes da ciência, da filosofia sistemática e da historiografia, o humano já pensava poeticamente a sua relação com o mundo, com o sagrado, com a morte e consigo mesmo. Como demonstra Ernst Cassirer, o homem vive num universo simbólico antes mesmo de viver num universo factual [2]. Continuar a ler “A POESIA COMO ARQUITETURA DO PENSAMENTO SIMBÓLICO – por César Afonso”

A BBC ERROU? – por Francisco Traverso Fuchs

 

A BBC errou?

Nos primeiros dias de novembro de 2025 o jornal britânico The Telegraph revelou uma série de malfeitos jornalísticos praticados pela BBC (British Broadcasting Corporation). Um deles teve repercussão imediata. Em duas ocasiões diferentes, a BBC apresentou um discurso de Donald Trump de forma deliberadamente distorcida, fazendo-o dizer algo que não dissera. Pouca gente simpatiza com Donald Trump, sobretudo fora dos Estados Unidos, mas não é disso que se trata; simpatias ou preferências políticas devem ser esquecidas, ou ao menos postas entre parênteses, no momento em que se começa a discutir algo tão decisivo quanto a transformação de um gigantesco veículo de comunicação, supostamente imparcial, numa agência de propaganda.

A BBC errou? A pergunta pode causar um certo estranhamento, uma vez que a própria emissora britânica admitiu oficialmente o que ela mesma chamou de erro. Devemos, entretanto, tomar essa admissão de culpa pelo seu valor de face? Ou seriam as coisas um tanto mais complexas do que a BBC gostaria de nos fazer acreditar? Continuar a ler “A BBC ERROU? – por Francisco Traverso Fuchs”

DA VIDA QUE A MORTE OCULTA – por Artur Manso

Em memória de Eduardo Alves Ribeiro (1956-2025)

                             O justo, ainda que morra cedo, terá repouso. Velhice venerável não é longevidade, nem é medida pelo número de anos.

Liv. Sabedoria, 4: 7-8

                            Talvez um indivíduo deva considerar que a sua própria morte é o último fenómeno da natureza.

                         Stephen Crane

É comum no espaço onde me movo discutir a minha crença/fé a partir da religião judaico-cristã, onde fui educado, assumindo me mais cristão que católico, à maneira do tolerante e liberal J. J. Rousseau. Assim sendo, para que não restem dúvidas sobre o assunto que irei tratar, a vida e a morte que já desenvolvi no ensaio Breve é toda a vida. Para uma pedagogia da morte e do morrer (2021), começo com as belas palavras de Paulo, ainda em vida, mas com a morte no horizonte: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda”. 2 Timóteo, 4:7-8. Na Apologia de Sócrates, quando o mestre ateniense procura refutar as acusações de que é alvo, na sua demanda pela verdade e justiça já tinha afirmado, também, que tal compromisso resultava das ordens que tinha recebido do Deus. Portanto na excecionalidade de muitas personalidades, a evocação de um Deus, ou deuses, como supremo ordenador daquilo que é dado à existência, é algo que se repete com frequência. A troca de ideias mais viva surge sempre em torno das questões-limite, nomeadamente a morte e como o Criador, se for esse o termo adequado, parece ser cruel ao consentir que as crianças sofram e morram e que uma boa parte das mortes precoces, caso isso seja termo adequado, envolvam seres humanos realmente bons, daqueles que acrescentam luz à luz, que têm o dom de iluminar a escuridão. Continuar a ler “DA VIDA QUE A MORTE OCULTA – por Artur Manso”

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO

– Sobre a edição de Joaquim Domingues de Escritos Espirituais

JUNQUEIRO, GUERRA (2025) ENSAIOS ESPIRITUAIS.

Muitas são as razões que tornam compreensível a organização e edição por Joaquim Domingues de Guerra Junqueiro Ensaios Espirituais – Notas à margem de uma filosofia, 2025. Graças à compilação de escritos inéditos do autor da Velhice do Padre Eterno – que datam de 1890-1904 – e textos afins – mas congeminações esboçadas que são simultaneamente anotações provisórias ou imperfeitas – embrionárias – de significação (in) consistente – permitem-nos hoje apreender melhor o seu percurso metafísico-espiritual e em que o sagrado (“tremendum”) e o divino ou a mística – a ágape – afiguram-se como temas centrais – subjacentes – da sua doutrina. Será possível compreender a sua obra – especulativa a ajuntar à poesia e até ao fim da vida – como o corolário “plenificante” de um processo intelectual e interior (autocontraditório) – do tipo subjectivo-existencial ou procedimental heterodoxo? Parece-nos, portanto, que o seu ultravoltaireanismo ou o vítor-hugismo na sua juventude não é menos importante que o franciscanismo final vazada numa cosmovisão “orante”. Não pretendemos discutir aqui as influências culturais – como ponto de passagem – o ser-em ou estar-em – que se revestiram de carácter episódico ou ocasional e que lhe serviram de modelo para o pensamento e para a acção. A ideologia do progressismo modernizante ou conservador – republicano – liberal-democrático – não pode ser dissociado do panfletarismo discursivo-poético – arbitrário – benéfico ou maléfico – muito corrente no seu tempo – à altura da história e da imediatidade revolucionária – plásticamente presente nos seus versos – sendo necessário ou desejável questionar nessa conexão os leitmotiv – mas, antes, chamar a atenção para o discurso filosófico – em seus próprios termos – na convicção da centralidade de uma fé religiosa ou filosófica – da ética ou de um universalismo moral judaico-cristão – insistindo, por exemplo, no amor do próximo e da natureza e, portanto, na continuidade de uma atenção ao amor divino e gravitação em torno de Emanuel (que traduzido significa “Deus connosco” Mt. 1:23). Como quer que se descreva o vértice da síntese junqueiriana privilegiada – poetizada – une-se, outrossim, a um pendor religioso e espiritual – até aos seus últimos redutos – converte-se estruturalmente num hino querigmático (categórico-soteriológico) ou num dizer ou numa escrita paraclética (ver a introdução de J. Pinharanda Gomes “A Oração Cristo-Cósmica de Guerra Junqueiro”, in Guerra Junqueiro, Oração ao Pão. Oração à Luz (Lello ed., 1997). Mas na poética de Guerra Junqueiro – tão digna de substância metafísica – convivem (explicitamente) as retóricas radicais e as ideias contrárias e contraditórias. Na predileção das compulsões estético-literárias fundacionais ou consubstanciais ao anti-clericalismo – temático-epocal – cristalizadas em alguns dos seus poemas maiores – e inerente às definições doutrinais e outras fórmulas conceptuais ao modo de Renan e de toda a literatura francesa do século XIX – na paternidade das revoluções e da propaganda – mostra-se curiosamente – e se fortalece – na sua fase final – enquanto auto-exibição do absoluto – a cristologia. Continuar a ler “O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes”

ALGUMAS NOTAS SOBRE POESIA – por Celso Gomes

Certa feita, tomando um café no Odeon na Cinelândia, comprei um opúsculo de um poeta que passou vendendo seus livros artesanais. Em casa, li o pequeno caderno de poemas: um amontoado de versos malfeitos e sem sentido, mas bastante sinceros.

Aliás, é preciso acrescentar que todo poema medíocre é extremamente sincero e que toda grande poesia possui um fundo irredutível de falsificação, de mentiras, de astúcia. Faltava ao autor saber que poesia não é ornamentar a palavra, mas subtrair dela, de espremer dela, o seu maior silêncio. Ao final do livro, perguntei-me: porque falar tanto de si mesmo se nada foi perguntado? Depois, fiquei pensando acerca dos motivos que levam um sujeito a escrever versos, publicá-los e sair pelas ruas a vendê-los. Obviamente, não cheguei a nenhuma conclusão, apenas a algumas reflexões: Continuar a ler “ALGUMAS NOTAS SOBRE POESIA – por Celso Gomes”

A SÍNDROME DE MNEMOSINE (…….) NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – por José Paulo Santos

Mnemosine, a deusa da memória

A SÍNDROME DE MNEMOSINE — UMA NOVA ENTIDADE PSICOLÓGICA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Introdução

O homem é um ser que esquece.
— Paul Ricoeur

Na mitologia grega, Mnemosine, mãe das Musas, era a personificação da memória, uma força criadora e ordenadora do saber humano. Hoje, assistimos ao seu desdobramento tecnológico: a Inteligência Artificial (IA) tornou-se o novo repositório coletivo da memória humana. Mas essa exteriorização não é neutra. Ela está a transformar profundamente a forma como pensamos, sentimos, aprendemos e nos relacionamos connosco mesmos. Surge assim um novo fenómeno social emergente: a Síndrome de Mnemosine.

Trata-se de um distúrbio psicológico e cultural caracterizado pela substituição crescente da memória, do pensamento crítico e da criatividade humana por ferramentas de IA, resultando numa perda progressiva de autonomia intelectual e identidade epistémica. Este ensaio propõe a criação dessa nova entidade clínica, apoiada em investigações nas neurociências, psicologia cognitiva, filosofia da tecnologia e estudos educativos. Explora-se ainda o impacto desta síndrome nos jovens, na educação e no desenvolvimento cognitivo-emocional.

I. As Raízes Míticas e Filosóficas: Mnemosine como Fonte de Conhecimento e Identidade

Na tradição helénica, a memória não era apenas a capacidade de recordar eventos passados. Era o fundamento da identidade pessoal, da sabedoria e da cultura. Como escreveu Platão na Mênon, a alma humana teria acesso a verdades imutáveis através da anamnese, ou seja, da recordação. Esta visão sugere que a memória é um ato consciente, dinâmico e constitutivo do Eu. Continuar a ler “A SÍNDROME DE MNEMOSINE (…….) NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – por José Paulo Santos”

O PROBLEMA DAS ILHAS DE CALOR URBANAS – por Ricardo Amorim Pereira

O Aumento do Albedo Urbano como Estratégia de Mitigação das Ilhas de Calor em Portugal

As cidades, enquanto espaços de concentração de população, de atividades económicas e de inovação, enfrentam um dos fenómenos ambientais mais preocupantes da atualidade: as ilhas de calor urbanas (ICU). Este termo designa a diferença térmica registada entre as áreas urbanizadas e as zonas rurais circundantes, geralmente mais frescas. Embora a urbanização traga inúmeros benefícios em termos de desenvolvimento económico e social, a sua forma de expansão e os materiais utilizados no ambiente construído acabam por gerar um desequilíbrio térmico que apresenta implicações profundas no ambiente, na saúde e no consumo energético. Continuar a ler “O PROBLEMA DAS ILHAS DE CALOR URBANAS – por Ricardo Amorim Pereira”

DA ADOLESCÊNCIA E DA JUVENTUDE – EDITORIAL POR ARTUR MANSO

DA ADOLESCÊNCIA E DA JUVENTUDE. EQUIVOCOS E OMISSÕES

Recentemente ocorreram quatro episódios sobre a vida dos adolescentes a iniciar a juventude, que alarmaram os frequentadores das redes sociais e consumidores de séries, o novo entretenimento de quase todos. Falo de Adolescence (2025), Adolescência em português, dos criadores Jack Thorne e  Stephen Graham, e realização de Philip Barantini. O enredo gira em torno de Jamie Miller (Owen Cooper), um estudante inglês de 13 anos que é preso por ter assassinado uma colega da escola. A trama, só por si, não traz nada de novo porque jovens assassinos de seres humanos da mesma idade ou de idades diferentes, são constantes ao longo da história da humanidade: no passado, no presente e no agora. Nos primórdios da internet tal como a conhecemos, e ainda longe das redes socias, mesmo que em contexto diverso, já tinha sido adaptado ao cinema (1990) o romance ficcional de William Golding, O deus das moscas (1954), onde é descrito, o inaudito grau de crueldade entre os jovens em situação limite. Entre outros exercícios cinéfilos, veja-se também o filme de Hector Babenco, Pixote, a lei do mais fraco (1980) onde se pode conferir todo o tipo de violência dos mais jovens, mas essencialmente, um quotidiano dentro dos centros educativos juvenis onde a violência física e verbal entre todos, as crianças e jovens que deveriam ser cuidadas, e os cuidadores descuidados, onde apenas vigora a lei do mais forte, no confronto constante físico e verbal, com mortes à mistura, de uns e outros: os que devem ser educados e aqueles que deveriam educar. Estranhamente este ambiente que era tolerado nos centros de reinserção juvenil, migrou, como se observa na referida série, para o ensino universal e obrigatório, sendo agora quase normal em qualquer escola, de qualquer ciclo, em qualquer lugar. Portanto, a nova realidade sob o signo da internet e redes sociais, e os grupos que por aí pululam para levar os jovens instáveis a abraçar ideários extremistas e anti humanos é só mais um passo na concreção da maldade inerente à comunidade humana. Estes movimentos seguem na linha de outros igualmente perversos e violentos ligados a organizações sociais e religiosas de culturas ocidentais e não ocidentais, que também foram bem sucedidos no recrutamento de fieis às suas causas sem o recurso ao ciberespaço. Para nos situarmos, convém, portanto, referir que a crise da sociedade e da escola que a integra já não é de agora, apenas as circunstâncias mudaram, nada mais. O que se segue é a posição sobre o tema de quem há mais de 50 anos se dedica a aprender e a ensinar.

O que há, de novo, na adolescência e na juventude num mundo global onde a violência está presente no quotidiano de cada um, nas notícias, nos écrans, na família, no bairro e agora na internet com expoente máximo nas redes sociais? A que se deve tanta histeria acerca dos impulsos mais básicos dos seres humanos? Precisou o mundo ocidental de ver uma infeliz trivialidade, que sendo um comportamento limite, se repete em todos os tempos e lugares, para questionar a evolução tecnológica e o pouco sentido que se encontra nas comunidades escolares? Talvez sim, porque se estes comportamentos não são novos, o facto de agora, quando ocorrem, envolverem adolescentes e jovens em idade escolar exageradamente obrigatória até aos 18 anos ou aí perto, é recente.

A ser assim, convém esclarecer alguns equívocos que se prendem com os padrões ocidentais de educação e do conceito que se passou a fazer da adolescência e juventude que nunca foram bem entendidos e agora encontram-se sobrevalorizados. As crianças, os jovens e os adultos são, por natureza, egoístas, interesseiros e egocêntricos. A diferença está que na situação de adultos, cada ser humano pensa naquilo que diz e faz, antecipando as consequências, enquanto as crianças e os jovens agem emotivamente, sem se preocuparem com o desfecho dos seus atos que em idades mais precoces, nem sequer estão em condições de avaliar. Era bom que as crianças fossem os seres puros e simples tal como são apresentadas desde os textos bíblicos “deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino dos céus” (Mateus, 19, 14) ou a criança como protótipo do bom selvagem que Rousseau (1712-1778) elogia. No primeiro caso Novalis esclarece que a criança dos Evangelhos não é a criança mimada dos tempos modernos, os pequenos tiranos, mas que aí se apresenta o espírito indistinto da infância. No segundo caso, Rousseau valorizando as caraterísticas próprias de infância, que não são as de um adulto em potência, também adverte: “Toda a maldade procede da fraqueza; a criança, porque fraca, é má; dai-lhe forças, torná-la-eis boa”. Por sua vez, Jean Cocteau na ficção As crianças terríveis (1929) começa por falar dos “instintos tenebrosos da infância. Instintos animais, vegetais, cujo exercício é difícil de surpreender, porque a memória não os conserva mais que a recordação de certas dores e porque as crianças se calam quando os adultos se aproximam. Calam-se e retomam ares dum outro mundo. Esses grandes comediantes sabem eriçar-se, de repente, de picos como um bicho ou armar-se de humilde doçura como uma planta, sem nunca divulgarem os ritos obscuros da sua religião. Sabemos apenas que ela exige artimanhas, vítimas, julgamentos sumários, terrores, suplícios, sacrifícios humanos.”

Compete, portanto, à sociedade e nela à escola atenuar a maldade das crianças educando-as livremente para a partilha, o respeito, a autonomia responsável, o acolhimento do diferente. Se as sociedades continuarem a forçar a educação escolar das crianças nos moldes pré definidos e facciosos atuais, o cenário descrito na referida série só irá piorar porque a criança sentir-se-á cada vez mais fraca, será mais maliciosa, porque a sociedade e a escola não a ajudam nem a estimulam no caminho da bondade, da compreensão e da partilha que precisa de trilhar. Este poderá ser o melhor dos mundos possíveis como sustentava Leibniz (1646-1716) e parodiava ou contrapunha o enciclopedista Voltaire (1694-1778) no escrito Cândido ou do otimismo (1758), com o terramoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755 à mistura, mas não é, nunca foi, nem será, o mundo ideal, seja porque for. Vejam-se as oportunas e contundentes considerações que o poeta e crítico Charles Baudelaire (1821-1867) teceu ao estado de natureza, onde, entendia só haver abusos e crimes da pior espécie. Fora do mundo construído pela humanidade baseado em valores, normas, regras morais e respeito de uns pelos outros, reina apenas a barbaridade, o terror e a morte, argumentário suficientemente exposto em A invenção da modernidade (Relógio D’Água, 2006). Com o mesmo sentido, mas com uma profundidade mais próxima da essência da poesia, Guerra Junqueiro no volume póstumo Ensaios espirituais (2025), refere: “Só a dor infinita produz o amor absoluto […]. O perfeito vive do imperfeito, como a chama vive do combustível. O mal é a condição do bem, o erro a condição da verdade, o crime a condição da virtude”.

A civilização e a cultura são o resultado de atos violentos ou da limitação da violência no agregado social, de uma consideração pessimista da condição humana, porque mesmo no registo mais benigno de Rousseau e do Evangelho cristão, a falta está sempre presente. Terão sido de Jesus as seguintes palavras: “Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois eu vim para fazer que o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família”, Mateus 10, 34-36. Sei que a passagem continua com um referente teológico, mas isso não apaga estas primeiras linhas que devem ser lidas e meditadas em contexto social e escolar laico porque efetivamente traduzem as características básicas da organização social. Séculos antes, Hesíodo no Mito das Cinco Idades já referia que a quinta Idade, aquela que era a sua e continua a ser a nossa, a raça de ferro, era uma raça de homens que têm “as fontes grisalhas. O pai não será igual aos filhos. Nem estes a ele. Não haverá amor entre irmãos, como era antigamente. Aos pais logo que envelheçam eles os desonrarão, insultá-los-ão com palavras duras. Honrarão antes o criminoso e o insolente. A justiça será a violência e a vergonha não existirá” (cf. Hesíodo, Trabalhos e dias, 109-200). Desde aí até à realidade atual, onde nas palavras de Jorge Amado, as crianças aprendem no ventre materno onde “se fazem psicanalisar para escolher cada qual o complexo preferido, a angústia, a solidão, a violência”, a condição humana, na sua essência, tem sido uma perda contínua e acentuada, sem naturalmente estar em causa o reconhecimento efetivo dos enormes progressos no mundo ocidental no reconhecimento de uma igualdade social efetiva: das crianças, das mulheres, das raças, das minorias de qualquer proveniência.

Mais perto de nós, olhemos os desenhos animados, momentos lúdicos da educação dos mais novos no ideário de Walt Disney (1901-1966) que promove os contos infantis de todas as tradições. E o que temos aí? Fábulas em torno do bem e do mal passadas às crianças e aos jovens onde impera a violência e o triunfo sobre a mesma, exponenciadas pelas mais recentes sagas dos super heróis dirigidas ao universo juvenil: Super homem, Batman, Mulher maravilha, Homem aranha, Capitão américa, Thor, Volverine… Há de facto por parte das sociedades e das culturas a perceção de que o processo natural da vida é violento, competindo a cada um relativizá-lo e empenhar-se efetivamente para que o bem, a verdade e a paz triunfem, mesmo que a espaços. Tal desiderato não é fácil porque até os hinos nacionais de praticamente todos os países são bélicos, apelos constantes à luta de uns contra os outros, do duro triunfo de cada povo sobre os seus adversários. Nenhum é de inclusão, todos são de fragmentação e se mais não houvesse, num mundo perfeito, não há barreiras entre uns e outros porque no princípio o mundo era uno, habitado pela mesma Humanidade.

E se os gregos antigos já se queixavam que o mundo não tinha salvação porque os indivíduos em idades jovens apenas diziam disparates e agiam despropositadamente, referindo os educadores que cada criança e jovem devia ser tratado como se fosse um pau torto, tendo os mais velhos, com a educação prestada, que os endireitar, a que os modernos acrescentaram, veja-se por exemplo John Locke (1632-1704), a imagem de crianças e jovens como uma espécie de tábua em branco onde os ensinamentos do dia a dia devem ser fixados: ciência e conhecimento, normas e regras de vida, do fazer e do agir. A violência gratuita entre os mais novos sempre foi uma realidade, mesmo a verbal e a de género. Classificar uns e outros e umas e outras de feios e feias, cromos e cromas, anões e escadotes, esqueléticos e anafados, narigudos, orelhudos, etc, infelizmente foi e é uma prática social tolerável. A diferença agora é que as designações locais passaram a globais, o que demorava tempo a saber-se e muitas vezes só quando estava resolvido se tonava público, é, agora, pré anunciado para todos e em todo o mundo sem qualquer pudor e sentido de responsabilidade. A juventude sabe que as consequências pelos atos que anunciam e de facto praticam, serão nulas ou quase: os direitos da infância e da juventude atenuam a quase totalidade das transgressões. Sempre foi consensual que a infância e a juventude são fases complicadas da vida, alheadas, ainda, de um saber, de uma experiência e de uma vivência, que permita distinguir com clareza o bem e o mal. E hoje como ninguém parece distingui-lo, desde os pais, aos professores, passando pelos políticos que nos governam e aqueles que dirigem as igrejas, a situação não melhora, antes pelo contrário: passamos todos a habitar na era dos coitadinhos!

Os jovens hoje passam muito tempo ou quase todo o tempo isolados? Isso não é verdade, porque o convívio dos jovens com os mais velhos sempre foi reduzido. Uns e outros sempre se separaram entre eles, os mais novos, na sua solidão, nos quartos ou outros aposentos, ou em qualquer lado com quem quer que fosse mais próximo das suas idades. E estavam muito mais horas isolados numa espécie de autogestão, porque a escola não era obrigatória e a que havia, por norma, só ocupava uma parte do dia: ou a manhã, ou a tarde. Sim: não tinham computadores nem smartphones ligados a todo o momento a tudo e a todos. Mas esta nova realidade até proporcionou muito mais tempo de convívio e presença de uns com os outros do que nos tempos idos, mesmo que agora haja a particularidade de estarem sentados na mesma sala, na mesma mesa, no mesmo restaurante, todos os membros de uma família, que escolhem entreter-se na proximidade ausente uns dos outros, porque todos permanecem em silêncio a olhar o ecrã que têm à frente: o pai não sabe o que a mãe está a ver, esta não imagina o que o pai está a escutar e os filhos, em atitude mimética veem e ouvem o que querem e lhes apetece, todos eles de headphones nos ouvidos.

Ora se a escola pretende moldar as crianças e os jovens a um certo estilo de vida e a uma determinada interpretação da realidade, como pode a sociedade, as famílias e as pessoas permitir uma internet negra ao serviço das crianças e jovens? São os pais que devem vigiar as crianças? Em parte, sim, em parte, não. E como o podem fazer quando as crianças crescem sem compreender bem a quem pertencem?: se ao pai, se à mãe alternadamente; se contra o pai ou contra a mãe na maior parte dos dias; se como seres em crescimento a que apenas se provê o conforto mínimo e as necessidades básicas? Se seres vagantes entre uns e outros, seres em confusão entre laços de toda a espécie: daqueles que por natureza são os seus; dos que apenas lhe pertencem por afinidade; dos que têm que partilhar sem desejar ou querer. E nesta confusão, vem ainda o Estado decretar no espírito da lei o superior interesse da criança, que devia apenas consistir no bom senso e na obrigação estrita de cada criança ser cuidada e protegida por todos: família, sociedade, Estado. O resto é entretenimento porque se sabe, recorrendo aos dados das ciências, que até uma certa idade a criança toma as decisões de forma egoísta e emocional, sem perceber nem antes nem depois de as tomar, as reais consequências dos seus atos. Este período acontece até à designada, na terminologia antiga, Idade da Razão, que é a idade em que cada membro da espécie humana, de forma livre, consciente e racional está em condições de avaliar as consequências dos seus atos, distinguir o bem e o mal, e assumir a responsabilidade pela sua conduta, qualquer que ela seja. A idade da razão, durante séculos, era apontada próximo dos 7 anos.

Os tempos mudaram, é certo. Mas os seres humanos continuam a nascer e a desenvolver se exatamente da mesma maneira. Na generalidade, nascem ou com um corpo biológico e fisiológico masculino ou feminino que desenvolvem ao longo do tempo. Sob o signo da cultura woke que se tem tornado quase lei de Estado, o que fazem as sociedades e as escolas? Começam desde o inicio a confundir questões de natureza com apropriações de cultura. Não se escolhe ser masculino ou feminino: nasce-se, genericamente, feminino ou masculino. O género nada tem que ver com o preconceito que se instalou de que sendo neutros na infância, então, quando na adolescência as naturais transformações fisiológicas e biológicas trouxerem a cada um o interesse sexual, a vontade, o desejo e o prazer de partilhar o corpo com o corpo de outrem, possam escolher sem preconceitos, para a satisfação dos instintos carnais, seres de um ou outro género. Essa escolha não tem nada a ver com a educação: haverá sempre exceções, mas por norma, como bem narra o mito do andrógeno que Platão expõe em O banquete, 189d-193e, narrativa semelhante à de outras culturas e civilizações sobre o mesmo assunto, inicialmente, os seres humanos encontravam-se unidos por troncos esféricos e ao tentar invadir a residência dos deuses, o Olimpo, Zeus castigou-os cortando-os ao meio, fazendo de um, dois, representando cada um metade de um todo de que se encontra afastado, mas que afincadamente procura a outra parcela. O desejo pela união é aqui representado pelo Amor. Quando se encontravam unidos uns seres eram femininos, originados da terra, outros masculinos, originados do sol, o andrógeno (que participa de ambos) originado da lua, é o único originariamente heterossexual. Os que foram cortados de Andróginos sentem atração por mulheres, os que foram cortados de Andros sentem atração por homens e mulheres e os que são cortes de Gynos sentem atração por outras mulheres. Era apenas isto que se transmitia a uns e outros. Mas a contemporaneidade não tendo que fazer a tantos intelectuais e eruditos que as suas escolas certificam, passou a desprezar as grandes narrativas porque são ilusórias, mesmo que integradoras, e apostou na compartimentação do conhecimento, onde para justificar o investimento feito na formação dos novos fazedores da ciência, passa a alimentar as ideias mais disparatadas e contraditórias sobre tudo e mais alguma coisa.

Também não me parece feliz a associação que a série e aqueles que a seguiram fazem do conceito incel no que diz respeito à teoria dos celibatários involuntários, associando o crime cometido à ideia de rejeição amorosa, neste caso, da figura masculina. Tentar convencer um jovem de 13 anos a alimentar comportamentos de rebaixamento e discriminação sobre o universo feminino, é algo que ao que parece abunda pela internet. Coisa diferente é associar um crime de um adolescente em transição, com a ideia de que as mulheres não gostam dele e dificilmente conseguirá uma relação física com elas, restando-lhe o celibato, a ausência de relações sexuais, que não deseja nem quer. Ora isto é um disparate porque os jovens, mesmo com a liberalidade sexual atual, iniciam, por norma, a sua vida sexual algum tempo depois dos 13 anos, e, na verdade, para ter sexo, hoje como sempre, é só preciso ter algum dinheiro e comprar momentos de prazer com alguém que livremente lhos disponibilize.

Se as mesmas constatações se repetem ao longo dos tempos por gente diversa e atenta, com a maciez dos adultos face àqueles que têm por obrigação educar, com a assunção de direitos sem lhes associar os deveres intrínsecos, com receio do principio da legalidade que prevalece sobre tudo e sobre todos, que sobrepõe o autoritarismo à autoridade, o que esperam das crianças e dos jovens que cedo se apercebem que dificilmente os seus atos lhes irão acarretar consequências graves? Veja-se o exemplo da frequência escolar: sob o princípio da autoridade e do respeito devido a uns e a outros, alunos e alunas que não acatassem os seus deveres básicos, como o respeito aos professores, aos colegas, ao restante pessoal escolar, bem como a frequência de aulas, eram rapidamente excluídos da escola e da frequência escolar. Agora, com a escolaridade obrigatória até aos 18 anos e com a liberalidade legalmente instalada na relação pedagógica, os meninos e as meninas sabem que podem ser mal educados e desrespeitosos com os professores e professoras, como sabem que ter mais ou menos faltas às aulas para nada interessa. Num caso e noutro, a legalidade exige que a escola os retenha por lá até aos 18 anos. Assim sendo, é natural que os professores e as professoras que para nada contam nestes procedimentos se ausentem por completo do processo educativo. Estão ali como uma espécie de guardadores de meninos e meninas que se revezam várias vezes por dia cumprido as diretivas de quem lhes paga, porque precisam de ganhar dinheiro para suprir às despesas. Nem os políticos e muito menos quem dirige as escolas, que na generalidade são mais intransigentes que os políticos de quem dependem, fazem o que quer que seja para lá de satisfazer os caprichos dos meninos e das meninas: sejam quais forem, eles e elas terão sempre razão. Os professores e as professoras tornaram-se os tiranos que a atualidade já não consente e as crianças e jovens, neste entretanto, fazem o que querem e como querem, porque sabem que os seus atos poucas ou nenhumas consequências adversas lhes irão acarretar. Shakespeare pronunciava-se assim, ou fazia dizer a uma das suas múltiplas personagens: “a desgraça destes tempos é que os loucos guiam os cegos” e Dostoievski (1821-1881) mais perto de nós e já inserido nas mudanças da modernidade relevava que “a tolerância chegará a tal ponto que as pessoas inteligentes serão proibidas de fazer qualquer reflexão para não ofender os imbecis”.

Não resta qualquer dúvida que as correções feitas, e bem, em assuntos de impacto universal que têm que ver como a sociedade se organiza e se estrutura, foram e continuam a ser da maior urgência e utilidade e devem obedecer ao respeito absoluto por todos os seres humanos independentemente do sexo, raça, religião, condição social, formação, etc: “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um”, refere-se em Gálatas, 3, 28.  Devemos ter presente que este é apenas um ideário a perseguir e que jamais será conseguido. Basta lembrar que no tempo da escravatura pelas novas terras da América os escravos e escravas quando eram alforriados, tornados cidadãos livres de pleno direito, esmagadoramente iam comprar outros cidadãos e cidadãs seus iguais, que submetiam à mesma escravatura de que tinham padecido, na ignorância de que permitir os mesmos direitos e exigir idênticos deveres a todos e a todas, é condição fundamental para uma sociedade mais justa. Mas confundir assuntos essenciais com opiniões e formas de vida particulares que acabam por se impor unilateralmente à imensa maioria que se torna silenciosa e compactua com o que não conhece e que os ignorantes certificados lhe transmitem, a coisa já é outra. A mudança, qualquer que ela seja, requer apenas simplicidade e bom senso, nada mais, pois como refere o matemático e filósofo Bertrand Russel: “A boa vida é aquela que é inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento”.

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Artur Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.

ATHENA REVISITADA- III – Cecilia Barreira

 

…Na Edição Nº 16, em Maio de 2021, Cecília Barreira escreveu para Athena “ALGUMAS PALAVRAS SOBRE Jean Paul Sartre”.

Foi assim, aqui:

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE JEAN PAUL SARTRE

As palavras já não residem nas historicidades em desalinho, mas procuram-se em mitos refundadores e alheios ao sagrado, maré ontológica de um nada em emergência, um caos de transitoriedades em abstinência, Sartre cruza-se com Simone de Beauvoir em 1929 através de René Maheu, persistências anódinas em cerejas sem Verão,

Inúteis as cadências, Continuar a ler “ATHENA REVISITADA- III – Cecilia Barreira”

A SOCIEDADE DO ESPELHO INVERTIDO – por José Paulo Santos

A Sociedade do Espelho Invertido: Uma Nova Visão Crítica da Realidade Contemporânea

Já não vivemos num mundo onde as coisas são o que parecem. Ou melhor, já não vivemos num mundo onde as coisas são sequer aquilo que dizem ser. Vivemos numa sociedade em que tudo é apresentado ao contrário — como se olhássemos para um espelho que não apenas reflete, mas distorce, inverte, engana. Chamarei a isto a Teoria do Espelho Invertido.

O conceito é simples: muitas das verdades que aceitamos como naturais na nossa sociedade são, na realidade, versões invertidas daquilo que deveriam ser. O que vemos como progresso pode esconder regressão; o que chamamos liberdade pode ser uma nova forma de aprisionamento; o que celebramos como conexão pode ser, no fundo, isolamento disfarçado. Continuar a ler “A SOCIEDADE DO ESPELHO INVERTIDO – por José Paulo Santos”

ATHENA REVISITADA- II- Paulo Ferreira da Cunha

Na Edição O, de Maio de 2017, Paulo Ferreira da Cunha escreveu  ” Athena – Mito & Cultura”.

Revisite-nos aqui:

O Mito é o nada que é tudo

Fernando Pessoa, Mensagem

Athena, por Paulo Ferreira da Cunha

1.Um Projeto Cultural

Não haverá certamente melhor nome para uma revista de cultura que o de Athena. Para mais uma revista eletrónica, em que o pensamento e a arte se associam naturalmente, indissoluvelmente, à ciência e à técnica. Assim como Athena simboliza a aliança perfeita das mãos e do espírito[i]. Continuar a ler “ATHENA REVISITADA- II- Paulo Ferreira da Cunha”

CEM ANOS DEPOIS DE ATHENA – por Rui Lopo

CEM ANOS DEPOIS

Por motivOs que não interessa agora referir, em 2017, fui impelida a criar uma Revista que queria de literatura, poesia, cultura e artes. Um projecto aberto às novas gerações que não tendo possibilidade de publicar tanto quanto gostariam, pudessem aqui ser acolhidas. Como refere Fernando Pessoa, na Mensagem, no poema dedicado ao português mais empreendedor de todos os tempos, o Infante D. Henrique, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, neste caso já pôde sonhar uma mulher, que com o apoio de outras mulheres e também de alguns homens, originou este projecto que intitulou, acompanhando o fio do tempo, Athena.pt, porque agora outros empreendedores de vários continentes, ditaram não ser o papel o único meio de publicação e difusão, disponível, a todo o tempo, a toda a hora, no mundo inteiro. A revista Athena surgiu em Outubro de 1924 em Lisboa sob a direcção de Fernando Pessoa, contou com cinco números, e esta nossa, bem mais modesta, já vai nos trinta números, na altura em que a Athena original faz cem anos.
Agora no final de 2024, ano de comemoração do centenário, este jovem projecto, conta e situa o historial da publicação original, pela pena de Rui Lopo, a quem agradeço a generosidade do ensaio em torno da sua fundação e vida breve. Sabemos ser quase impossível, sejam quantos forem os anos da nossa publicação, igualar o rasgo criativo de Fernando Pessoa, mas também não aspiramos a isso: apenas a fazer pequenas coisas na senda do sonho pessoano. O resto, a Deus graças.                                                                              Júlia Moura Lopes                                                                                                                                                        http://athena.pt


CEM ANOS DEPOIS DE ATHENA

I

O Modernismo como Vontade e Representação

Uma revisitação lúcida suscitada pelo centenário do modernismo que a partir de 2015 se assinalou, tomando como ponto simbólico de referência a publicação de Orpheu em 1915, assume que as revistas marcam a constituição de grupos e movimentos de ruptura histórica de ampla repercussão. Isto é, mais que assinalar uma obra ou um autor, são os encontros de autores entre si incoincidentes que nos fazem repensar a operatividade de considerar a história cultural a partir da ideia de geração e da quase contingência da afirmação grupal em projectos como o Eh Real! (1915), Centauro (1916), o Exílio (1916), o Portugal Futurista (1917), Sphynx (1917); Contemporânea (1922-26) e Athena 1924-1925). Nos últimos anos organizaram-se colóquios e publicações evocativas destas revistas. É hoje mais fácil aceder ao enorme acervo documental necessário ao estudo pelo facto de estarem em constante aperfeiçoamento importantes sítios em linha como o modernismo.pt e Revistas de Ideias e Cultura – Portugal e o Arquivo Pessoa: Obra Édita e o Edição Digital de Fernando Pessoa.

Do estudo destes projectos editoriais e da sua meditada releitura ressalta a constatação da pluralidade de vozes no seio do que hoje denominamos como modernismo, que nos leva a identificar – em certa medida – uma autoria colectiva das novas propostas literárias e artísticas que se iam apresentando e que fundas consequências tiveram. Na leitura global que propomos, é necessário relativizar a noção de autoria individual valorizando autores até agora menos atendidos, mas afinal determinantes na constituição do espírito do movimento modernista português em seus plurais matizes. Há que estudar sincronicamente o contributo dos participantes nestas revistas em torno de dois eixos principais até aqui obliterados: primeiro importará detectar se nos novos modos de assumir a Arte pictórica ou literária, poética ou ficcional, haveria ou não, subjacente, um programa teórico filosoficamente fundamentado. E de que modo os textos doutrinais e ensaísticos destes autores o revelam e explicitam, numa perspectiva colaborativa, constelada e reticular? Poderá o cultivo da crítica de arte por parte dos próprios artistas ser entendido como uma forma de autoconsciência do seu processo criativo? Por outro lado, importaria aquilatar de que modo é que as novas atitudes filosóficas da passagem do século contribuem para enquadrar, fundamentar ou orientar os novos projectos estéticos para os quais não existiam ainda possibilidades, modos ou categorias de recepção. Haveria, contrapolarmente, que esclarecer como o entendimento até então dominante da categoria filosófica de representação sofre um decisivo abalo a partir das obras de Ângelo de Lima, Amadeo Souza-Cardoso, Raul Leal, Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, Fernando Pessoa ou Mário de Sá-Carneiro. Isto é: opera-se uma redefinição da apresentação artística como nova representação do mundo, em seu triplo aspecto: gnosiológico, desconfiando da representação científica ou naturalista; sócio-existencial, revelando o lado teatral de toda a actividade humana, social e política; e ontológico, mostrando todo o ser como representação prévia inconsciente, mais ou menos volitiva. Colocamos assim a hipótese de que o modernismo português supõe uma revolução filosófica prévia e simultânea, que até agora não foi assumida ou explicitada e, em segundo lugar, que os desenvolvimentos filosóficos do século XX português são impensáveis sem o influxo da revolução estética modernista e futurista.

II

Athena? Que Athena?

Um colóquio para Athena!

Tendo como horizonte o sempre incertamente delimitável conceito de moderno e de modernismo a partir do estudo das suas mais influentes revistas, em que se ensaiaram novas formas de escrever e ler a tradição e novas formas de pensar o fenómeno artístico atendendo com inaudita punção ao modo como a sua actualidade o determina, e sua época constitutivamente o enforma, colocamos a hipótese de que criar o moderno implicou que o criador se assumisse enquanto sujeito futurante de um presente incompleto.  Assinalando-se este Outono o centenário da revista Athena editada por Ruy Vaz e Fernando Pessoa em cinco números mensais saídos entre Outubro de 1924 e Fevereiro de 1925, entendeu o Grupo de Investigação Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto organizar um colóquio que pretende colocar questões e lançar hipóteses de trabalho. O colóquio tem como mote a pessoana injunção: não se aprende a ser artista, aprende-se porém a saber sê-loAthena suscita uma certa estranheza, difícil de circunscrever: porque é que aqueles que se manifestam culturalmente num gesto de fractura e cisão optaram por tal título grego? Que (neo-)helenismo é este dos modernos e em que se distingue do neo-helenismo dos renascentistas ou do dos românticos? Qual a natureza, função e valor deste título? Decoração, mais ou menos irónica? Será ele orago, inspiração ou totem? Figura tutelar ou mito fundador (contraposto a Orpheu?) E nisto tudo não se intui algo de programático?

Em que medida a concretização de Athena cumpre o plano de difusão neopagã? Como é que o neopaganismo inspirador da revista pôde acolher colaborações tidas por (neo)clássicas, românticas e contemporâneas? Em que medida é que este modo multiforme de estar na modernidade prepara ou antecipa a presença? O que fez juntar numa revista de arte, que se apresenta, pela pena do seu director, como um acto de cultura, isto é, um modo directo de aperfeiçoamento subjectivo da vida, autores tão diversos como Fernando Pessoa que aparece como teorizador da revista, como crítico, poeta e tradutor (de Poe, Pater e O. Henry), Ricardo Reis, Álvaro de Campos, que também surge como teorizador e como poeta, Alberto Caeiro, Henrique Rosa, Almada Negreiros, António Botto, Mário Vaz, o Visconde de Meneses, Mário de Sá Carneiro, cuja colaboração póstuma, escolhida e interpretada por Pessoa, como que o canoniza, Raul Leal, Augusto Ferreira Gomes, Francisco Beliz, Gil Vaz, Castello de Moraes, José Pessanha, Emanuel Ribeiro, Luiz Montalvor, Mario Saa, Cardoso Martha, Carlos Lobo de Oliveira, Antonio de Seves, Alves Martins, Francisco Costa e Alberto de Hutra?

Sentimos que falta trazer à luz o contributo propriamente filosófico desta revista para a qual Pessoa planeara convidar Leonardo Coimbra. Em Athena avulta a colaboração poética de Alberto Caeiro que Pessoa integra programaticamente ao serviço de uma nova proposta filosófica, o objectivismo absoluto; de Álvaro de Campos com seus Apontamentos para uma estética não-aristotélica, onde se procura substituir a ideia de beleza pela ideia de força, e em O que é a metafísica?, visa redefinir tal matricial conceito, o que dará azo a uma bem encenada polémica filosofante com Mário Saa que procuraremos explicitar e enquadrar. Daremos conta que Loucura Universal, de Raul Leal, é afinal um excerto de uma extensa autobiografia filosófica do autor lavrada a partir de um criativo exercício hermenêutico a partir da sua peça de teatro autobiográfico-reflexivo O Incompreendido. De relevar ainda como M.V. [desencriptado por Patrícia Esquível como sendo o crítico Mário Vaz] propõe uma reinterpretação de algumas obras plásticas e escultóricas à luz de novos princípios de teoria da arte. Procuraremos refletir sobre os elementos programáticos explícitos e implícitos na revista sob a forma de textos ensaísticos que apresentam objetivos e princípios estéticos, e pelo cultivo de várias expressões e géneros literários por parte dos colaboradores (Almada como dramaturgo, poeta e desenhador, Saa como poeta e crítico, Pessoa como tudo, etc.). Há que colocar a hipótese de haver algo de dramático, teatral, performático, em toda esta encenação editorial, em que cada participante desempenha vários papéis, de forma mais ou menos consciente e voluntária. Apontar-se-á ainda a ocorrência de tópicos simbolistas tardios, orientalistas e decadentistas, que nunca deixam de ocorrer nas revistas hoje classificadas como modernistas. Daremos especial importância ao facto de a revista ter como projeto inicial a difusão neopagã, assumindo-se como parte duma vasta e complexa campanha de repaganização da vida, da sociedade e da cultura, o que pode não a definir no seu resultado global, mas avulta poderosamente nas colaborações de Campos e Reis e, de algum modo, nas ocorrências clássicas, mais ou menos explícitas. Ficará ainda por apurar até que ponto o neopaganismo pode ser encarado mais do que como uma criação literária pessoana, como um mais vasto movimento que tem em alguns destes autores um momento de expressão, mas que nunca será interrompido na cena cultural subsequente. A crítica, tanto de literatura como das artes plásticas, surge na Athena como um lugar intermédio, de conexão, lugar medial, entre a criação artística e literária e a reflexão filosófica em si própria, continuando-as por outro modo. Talvez tudo isto se resuma, sintetize e culmine na possibilidade pioneiramente avançada por Álvaro de Campos de redefinir a metafísica como uma das belas-artes, como que implicitamente replicando à cautelar advertência de Kant a qualquer metafísica que se apresente como ciência.

Rui Lopo, Porto, Novembro, 2024

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Rui Lopo é formado em Filosofia e membro do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Trabalhou com o espólio de José Marinho, depositado na Biblioteca Nacional de Portugal, e com o arquivo de Agostinho da Silva, sobre quem publicou diversos ensaios e a cuja comissão do centenário pertenceu. Autor. Colabora em Raízes e Horizontes do Pensamento e da Cultura Portuguesa e é investigador do IF-FLUP no projeto Filosofia e Teoria da Arte no Pensamento do Século XX em Portugal. Ocupa-se, ainda, do estudo da receção do budismo na vida intelectual portuguesa (1850-1940).

INTRODUÇÃO AO CONCEITO DE CULTURA – por Francisco Fuchs

(A) O Didinium é um protozoário carnívoro. (B) Ele nada em alta velocidade pelo batimento sincronizado de seus cílios e, quando encontra uma presa, libera vários dardos paralisantes a partir de sua tromba e devora a outra célula por fagocitose.

INTRODUÇÃO AO CONCEITO DE CULTURA

Apresentarei aqui os traços mais essenciais do conceito de Cultura que estive amadurecendo ao longo dos últimos 20 anos, porém desta vez sem fazer maiores referências às concepções tradicionais de cultura que são conhecidas de toda gente. O texto também será aligeirado das habituais referências acadêmicas e da análise de uma noção crucial, a noção de problema, à qual dedicarei um ensaio à parte. Por uma questão de clareza, a palavra cultura será grafada com inicial maiúscula sempre que referir-se ao conceito que estou desenvolvendo, o que não significa, obviamente, que eu esteja sugerindo a existência de uma hierarquia entre ele e os demais conceitos de cultura. Continuar a ler “INTRODUÇÃO AO CONCEITO DE CULTURA – por Francisco Fuchs”

BARRAGENS E MINAS DE LÍTIO (—-) – por Ricardo Amorim Pereira

Barragens e minas de lítio: entre o ambientalismo
radical e o desenvolvimento sustentável

Em artigos passados, escritos para esta prestigiada Revista, fiz já a crítica daquilo que me parece ser um ambientalismo radical, muitas vezes colocado ao serviço de agendas que vão para além da salvaguarda ambiental. Continuarei, hoje, nessa senda, fazendo a crítica dos que criticam a construção de barragens e a exploração de minas de lítio.

Uma das bandeiras de um certo ambientalismo prende-se com a crítica à construção de barragens. Empregam argumentos, verdadeiros, de que tais construções alteram a natureza primitiva dos cursos de água, impactando-se assim na fauna, na flora e nos ecossistemas adjacentes. Continuar a ler “BARRAGENS E MINAS DE LÍTIO (—-) – por Ricardo Amorim Pereira”

O PARADOXO DO MÉRITO – por Francisco Traverso Fuchs

Muito se fala (contra e a favor) da chamada “meritocracia”, mas não é incomum que toda uma discussão sobre esse tema tenha início com definições de “mérito” bastante primárias, o que, a meu ver, acaba prejudicando o debate. Se desejamos avaliar a pertinência (ou impertinência) de uma determinada maneira de organizar a sociedade, faz-se necessário, em primeiro lugar, investigar o conceito que está na base dessa discussão. O propósito deste artigo pode muito bem ser descrito como cirúrgico, pois não pretendo, aqui, examinar a noção de “meritocracia” e nem mesmo definir a noção de mérito, mas apenas explicitar um paradoxo que parece ser inerente a essa noção. Continuar a ler “O PARADOXO DO MÉRITO – por Francisco Traverso Fuchs”

O REAPROVEITAMENTO DAS ÁGUAS RESIDUAIS TRATADAS – por Ricardo Amorim Pereira

 

O reaproveitamento das águas residuais tratadas

Recentemente, foi sentido um dos maiores sismos verificados, neste século, em Portugal. No dia seguinte, muito se falou sobre a preparação necessária para enfrentarmos estes eventos. Como sempre acontece, o assunto caiu logo de seguida, estando agora no maior dos esquecimentos. Esta característica de se conferir importância a um determinado problema, quando o mesmo invade as nossas rotineiras vidas, para, logo de seguida e assim que deixa de se colocar de um modo incontornável, o esquecermos, está presente nas nossas sociedades. Continuar a ler “O REAPROVEITAMENTO DAS ÁGUAS RESIDUAIS TRATADAS – por Ricardo Amorim Pereira”

GIOVANNI PAPINI, 0 HOMEM INFINITO – por José António Barreiros

Giovanni Papini

O Homem Infinito

São algumas notas de leitura do que me foi dado reflectir sobre um extraordinário escritor italiano, omnívoro como já o qualificaram, torrencial na sua estilística, possuído por uma intranquilidade fazedora, incessante, mesmo na mais rude adversidade: Giovanni Papini [1881-1956].

Trago-as aqui, aos leitores da revista Athena, num súbito impulso de regressar onde com gentileza a Júlia Moura Lopes acolheu um meu primeiro escrito sobre a pintora ucraniana Sonia Delaunay.

E trago-as quando estou a ler, no tempo possível que invento, o seu monumental Diário, na versão original, publicada pelo seu amigo e editor Attilio Valecchi [1880-1946].

Se os dedicasse, estes dispersos apontamentos, seria a João Bigotte Chorão, autor de magníficas páginas de análise da sua obra e de compreensão humana da sua pessoa.

Suponho que o primeiro livro seu que li foi na Colecção Unibolso e intitulava-se O Diabo, tendo como subtítulo, mais expressivo Apontamentos para uma Futura Diabologia. Continuar a ler “GIOVANNI PAPINI, 0 HOMEM INFINITO – por José António Barreiros”

MAQUIAVEL – por Rosa Sampaio Torres

Retrato de Niccolò Machiavelli by Santi di Tito.

 “Para compreender a obra de Maquiavel é necessário penetrar seu tempo histórico, acompanhar os dias de Florença em época já revolucionária”

                             (Rosa Sampaio Torres –  Facebook, agosto de 2023).

 (Foto1) Símbolo das liberdades civis da cidade de Florença. Estátua Inaugurada em 8 de setembro de 1504.

Niccolò di Bernardo dei Machiavelli nascido em Florença em 3 de maio de 1469, falecido também em  Florença em 21 de junho de 1527 –  filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico. Viveu no período do chamado Renascimento.  É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, segundo o filósofo Leo Strauss (1899 — 1973) (1).

“Com o fim da Primeira República inovadora e socialmente radical de Savanarola, quando objetos de luxo foram até mesmo queimados nas praças, voltaram os florentinos à razão em 1513 – e os Medici novamente ao poder” (2). Continuar a ler “MAQUIAVEL – por Rosa Sampaio Torres”

DEUS E O DIABO, IDEAIS E COISAS QUE TAIS – por M. H. Restivo

Não fosse por essência o diabo algo a ser odiado, muito o estimaríamos por tão profícuas parábolas que à sua custa ensinam a moral aos homens. Que não se estranhe o facto de o símbolo do mal ser o veículo da moral e dos bons costumes pois de que valeria o bem se não existisse o seu contrário? E, assim sendo, não concebemos um mundo sem inspiração diabólica que, como é sabido, mora bem fundo no coração dos homens. Não obstante, mais pobre seria o mundo caso a inspiração divina não se manifestasse ocasionalmente nos homens, que estes, às penas que sofrem, bem merecem o deleite de uma agradável ilusão. E assim se dá que deus e o diabo, essas tão dignas personagens que põem ordem no mundo, continuem a fazer mossa nos nossos corações impenitentes e avessos à paz. E acreditando nós, por força dos males e dos bens da vida, que há males que vêm por bem e bens que por mal vêm, não arriscamos afirmações de autoria em matérias tão controversas.  Continuar a ler “DEUS E O DIABO, IDEAIS E COISAS QUE TAIS – por M. H. Restivo”

APONTAMENTO EM TORNO DA FÉ – por A. Sarmento Manso

Um dos textos mais impressivos sobre Jesus e os seus ensinamentos é assinado pelo cristão oriental Shusaku Endo (1923-1996), autor do aclamado Silencio (1966) narrativa em torno de um padre jesuíta que acaba por renunciar ao cristianismo evitando assim que um grupo de pessoas que tinham abraçado a religião cristã viesse a ter uma morte violenta, mostrando o valor da fé em ambientes adversos, revelador da solidão em que se dá e da mundanidade em que se partilha, quer do ponto de vista da ideologia religiosa quer da análise em torno da organização social e política a que os povos estão sujeitos por leis, decretos e regulamentos. Martin Scorsese em 2016, baseado nesta obra, concluiu o filme com o mesmo título, que como admite, demorou várias décadas a terminar, por força, também, da fé que move os crentes mais exigentes no seguimento da máxima de Tertuliano: “creio porque é absurdo”. Continuar a ler “APONTAMENTO EM TORNO DA FÉ – por A. Sarmento Manso”

DALI E A “TENTAÇÃO DE SANTO ANTÃO” – por Rosa Sampaio Torres

Dali e seu quadro “Tentação de Santo Antão”

 

Uma experiência de viagem especialmente marcante para mim foram visitas às casas que o pintor Salvador Dali possuiu próximo de Barcelona: seu museu em Figureis, a casa de praia em Port Lligat, e o “castelo” de Pujol do sec. XI comprado para sua mulher. Gala – por ele próprio restaurado e decorado. Continuar a ler “DALI E A “TENTAÇÃO DE SANTO ANTÃO” – por Rosa Sampaio Torres”