APONTAMENTO EM TORNO DA FÉ – por A. Sarmento Manso

Um dos textos mais impressivos sobre Jesus e os seus ensinamentos é assinado pelo cristão oriental Shusaku Endo (1923-1996), autor do aclamado Silencio (1966) narrativa em torno de um padre jesuíta que acaba por renunciar ao cristianismo evitando assim que um grupo de pessoas que tinham abraçado a religião cristã viesse a ter uma morte violenta, mostrando o valor da fé em ambientes adversos, revelador da solidão em que se dá e da mundanidade em que se partilha, quer do ponto de vista da ideologia religiosa quer da análise em torno da organização social e política a que os povos estão sujeitos por leis, decretos e regulamentos. Martin Scorsese em 2016, baseado nesta obra, concluiu o filme com o mesmo título, que como admite, demorou várias décadas a terminar, por força, também, da fé que move os crentes mais exigentes no seguimento da máxima de Tertuliano: “creio porque é absurdo”.

O escrito que aqui quero mencionar de Endo, não é tão conhecido nem aclamado como Silêncio e foi editado alguns anos depois, em 1973, com o título na tradução portuguesa da Asa, há muito esgotada, de Uma vida de Jesus. O que esta espécie de biografia traça já na segunda metade do século XX da vida de Jesus e seus ensinamentos, é uma representação terrena dos relatos evangélicos. Os textos base da sua interpretação são os quatro evangelhos canónicos, destacando a narração de João que considera mais fiável, em relação aos outros três que acha muito semelhantes e, reconhece que possam ter sido adulteradas pela crença popular na expressão vulgarizada de que “quem conta um conto, acrescenta um ponto”. Ao contrário, o relato de João mantém a tónica no plausível e na descrição do cru decurso dos acontecimentos, evitando explicações fantasiosas, destacando e sublinhando apenas aquilo que a mensagem cristã trouxe de novo, o Amor, começando, por isso, a relativizar datas e acontecimentos a começar pela idade da vida pública de Jesus, descrita entre os 30 e os 33 anos. Seguindo os documentos históricos da época, esclarece ser costume nesses lugares referirem-se a indivíduos de idade adulta como tendo mais de 30 anos e a ser assim, Jesus tanto poderia ter os tais 30 anos como 40, ou mais no início da pregação.

A análise de Endo em torno da relação de Jesus com os apóstolos, onde reconheço alguma simpatia com o anti Cristo (1895) do filósofo niilista alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) é central neste relato. Endo, ao princípio, também não percebe a ligação de doze indivíduos banais e néscios, ao ideário pregado por Jesus. Como é notório, Nietzsche, reconhece a superioridade intelectual de Jesus e não lhe perdoa ter sido seguido e aclamado por simplórios, deixando-se conduzir à morte quando a sua superioridade lhe permitia, se assim quisesse, subjugar aqueles que o condenaram. Facilmente o autor de A gaia ciência subscreveria o engenhoso diálogo de Caifás e Jesus, para saber se ele era de facto o Messias: “se vo-lo digo, não me acreditareis. Se vos pergunto, não me respondereis, nem me deixareis em liberdade”, episódio que leva Shusaku a pronunciar:

com efeito o que Jesus queria dizer era que aquele processo não passava de uma charada encaminhada a assegurar a sua condenação. Fosse qual fosse a resposta eles não estariam dispostos a aceitá-la. Assim afirmou ele implicitamente ser na verdade o Salvador

Endo concorda que os discípulos quase nada percebiam do que Jesus pregava, revelando-se durante a sua vida vulgares e, não raras vezes, cobardes, mas a morte do Mestre transformou-os em seres superiores, de igual jaez àquele que negaram e do qual se afastaram com medo das consequências. O mistério para Endo, o valor da fé, a sua admiração e deslumbramento, é não ser racionalmente capaz de compreender o que se terá passado depois da morte de Jesus que transformou, agora onze sujeitos, em verdadeiros apóstolos, aptos a transmitir fielmente os ensinamentos do Mestre que nunca tinham compreendido, sujeitando-se, voluntariamente, à perseguição, tortura e morte! Como simples humano, não tem explicação para tão significativa modificação.

A interpretação de Endo em torno da última semana da vida de Jesus, a sua paixão e morte, é desconcertante e merece ser conhecida e meditada. Reproduzo apenas os acontecimentos de maior tradição e efeito na cultura universal. Da última ceia, diz ele, que a imagem que a tornou mundial, a célebre pintura de Leonardo da Vinci afresco que fixou em uma das paredes da sala de refeições do antigo convento dominicano, junto à igreja de Santa Maria delle Grazie, Milão, que veio a marcar a iconografia sobre o assunto que lhe sucede, é apenas uma interpretação subjetiva desse raro pintor que não pode corresponder à verdade. Nessa semana em que se celebrava a Páscoa judaica, a probabilidade de haver um lugar em Jerusalém onde se pudesse jantar num ambiente tranquilo como o representado é praticamente impossível. A cidade, em todo o seu perímetro, estaria a transbordar de gente, de ruido e movimento anormal.

A descrição que faz dos últimos momentos da crucificação de Jesus, da sua morte, também choca os mais crédulos porque contraria drasticamente o que a generalidade dos Evangelhos relatam quando afirmam que “o véu do Santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo, tremeu a terra e as rochas se fenderam” e “a escuridão caiu sobre toda a terra ao eclipsar-se o sol”. A esta espetacularidade, Endo certo de que a fé se revela pelas obras e por uma convicção interior impossível de explicar, serve-se da narração de João, onde nada de anormal sobre esse momento é descrito, e enfatiza:

A verdade é que nada aconteceu que se visse. O céu continuou como antes. Os débeis raios de sol que assomavam timidamente por entre as nuvens não tiveram alteração alguma quando Jesus exalou o último suspiro.

Esta biografia de Jesus, um pouco incógnita e ignorada, faz jus à maneira como Jesus se dirige a todos aqueles que dele se aproximam à procura de milagres, isto é, à procura do bem próprio: “não sejais crédulos, mas crentes”.  O biógrafo percebe a romantização de uma vida extraordinária, analisa a sua conduta durante os poucos anos da sua pregação pública, enfatiza o singular e decisivo enfoque no Amor e conclui que crença sem obras é um legado que poucos estão dispostos a aceitar. Consciente desta debilidade, Endo continuará a relevar a mensagem do Amor como único elo de ligação da humanidade e irrepetível desígnio capaz de proporcionar a vida em comum, onde cabem todos os indivíduos: cristãos, não cristãos, pagãos, apostatas, justos, aldrabões, homens, mulheres, crianças, todas as raças e diferentes latitudes, prevalecendo, acima de tudo, o interesse e cuidado pelo outro, pois como virá a referir Paulo em Gál. 3, 28, no cristianismo “não há judeu, nem grego, nem escravo, nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo”.

A pedra de toque desta biografia é de facto o Amor e o lugar cimeiro que ocupa na pregação de Jesus que quando foi posto à prova sobre como se deve cumprir a lei, refere que basta obedecer aos mandamentos ditados a Moisés, acrescentando, contudo, que esses 10 preceitos se resumem aos dois primeiros: Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo. À posteriori Paulo reforça em Cor I, 13, 13 que das três virtudes definidoras da vida em comum, a fé, a esperança e o Amor, a maior e mais importante é o Amor, concluindo em Gál, 5, 6 que a “fé atua pelo Amor”. Endo não esconde a dificuldade ante esta reclamação, por entender que a vida societária e a de cada indivíduo, busca apenas o amor próprio, e satisfeitas as necessidades de cada um, tudo o resto é relativizado, acabando por destacar que o Amor era tão inútil no tempo de Jesus como é agora. Contudo, nunca deixa de especular sobre o lugar cimeiro que continua a ocupar no mundo dos valores terrenos e no imaginário de cada individuo:

Jesus amava os infelizes, mas sabia também que uma vez certificados da inutilidade do amor se voltariam contra ele. No fim de contas, a dura realidade ensina-nos que os humanos o que buscam são resultados práticos e tangíveis. O que os doentes pediam era serem curados, os paralíticos poderem andar, os cegos a capacidade de ver: todos buscavam benefícios palpáveis. O amor é uma realidade que, neste mundo visível, não tem relação direta com os benefícios sensíveis. Aqui, precisamente, começa a paixão de Jesus. Num tom de indubitável tristeza e desilusão queixa-se ele a dada altura: ‘se não virdes sinais e prodígios não acreditais’.

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A. Sarmento Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Ao longo de mais de meio século de existência tem-se dedicado à aprendizagem de pequenas coisas, do lugar que nos pode caber no mundo e de como a beleza nos haverá de tranquilizar.

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