EDITORIAL – VITOR VITÓRIA – por Danyel Guerra

            “Ele é o mestre completo”
       Maria Helena da Rocha Pereira

             VÍTOR VITÓRIA

Vitor Aguiar Silva

Decorria o ano de 1976, quando o escritor sueco Artur Lundkvist declarou que Jorge Luis Borges jamais ganharia o Prêmio Nobel de Literatura, “devido a razões políticas”.  Categórico, sem dar chance a dúvidas, este membro da Academia Sueca desvirtuava com este anátema o caráter literário da distinção. Continuar a ler “EDITORIAL – VITOR VITÓRIA – por Danyel Guerra”

RESSOAR- por Ana Patrícia Gonzalez

 

Desenho de João Francisco Baptista

Pegarei emprestadas as forças contigo até conseguir reencontra-las em mim.

Enquanto isso a transição da terra faz a travessia em águas profundas da universalidade, imersa pela “natureza” e pela natureza humana… na terceira margem introspectivo, extraída no processo civilizatório invencionático, tangencial aos sentidos sistémicos “naturais”, mergulho. Continuar a ler “RESSOAR- por Ana Patrícia Gonzalez”

O PROFESSOR – por Cecília Barreira

Série “La Casa de Papel”

Era para além do desejo e da vastidão de sentimentos inúteis. Ia às aulas daquele professor  porque, sem sequer o escutar, conseguia chegar a um êxtase.

Nas aulas, as hastes de um pendor lúbrico  toldavam-lhe  a mente. Continuar a ler “O PROFESSOR – por Cecília Barreira”

MULHERES NAS RUAS DO PORTO – XIV – por César Santos Silva

Cardosas (Passeio das)
Corre no lado sul da Praça da Liberdade
Liga o Largo dos Lóios à Praça de Almeida Garrett
Freguesia da Sé.

 

De facto, um nome que já não existe na toponímia portuense, dado o passeio ter sido adstrito à Praça da Liberdade. Mas dada a im­portância histórica e de se tratar de um topónimo feminino… Continuar a ler “MULHERES NAS RUAS DO PORTO – XIV – por César Santos Silva”

DE AÇUCAR – por Cláudio B. Carlos

femme nuage, imagem livre de neurozinzin.com

Salivar, diante da imagem, até não mais aguentar. E lambê-la. Toda. Continuar a ler “DE AÇUCAR – por Cláudio B. Carlos”

PRESS RELEASE DE “MARAVALHA”, de Claudio B. Carlos

Maravalha – uma novela grunge gaudéria
154 páginas - 12 x 18 cm
R$ 38,00
Saraquá Edições (2020)
Cachoeira do Sul, RS Continuar a ler "PRESS RELEASE DE “MARAVALHA”, de Claudio B. Carlos"

El rol del niño dentro del cine – por Claudia Vila Molina

El rol del niño dentro del cine: un producto de las condiciones sociales y políticas del contexto.

Charlie Chaplin e Jacquie Coogan no filme “The Boy”,

Las películas seleccionadas tienen como eje fundamental la figura del niño y  se desea demostrar cómo este arquetipo se desarrolla de diferentes maneras en los films The Kid de Charles Chaplin, El acorazado del Potemkin de Serguei M. Eisenstein y Alemania año cero de Roberto Rossellini. Continuar a ler “El rol del niño dentro del cine – por Claudia Vila Molina”

TEXTOSTERONA-PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – III Série- por Danyel Guerra

TEXTOSTERONA

        PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS

     CORTESÃS E MERETRIZES

 

As cortesãs com boa reputação são cumuladas com as rosas de Piéria, poetadas por Safo.

As de má reputação têm de se contentar com as rosas de pilhéria. Continuar a ler “TEXTOSTERONA-PRENSAMENTOS & DESAFORISMOS – III Série- por Danyel Guerra”

AMAR ANICÉE ALVINA – por Danyel Guerra

“Havia um jardim de Vênus, de roseiras rodeado,

 o grato campo da senhora, que quem tivesse visto amava”

      Floro

AMAR ANICÉE ALVINA

Que deslumbrante sinestesia. Uma noite destas, escutei no rádio, Carminho e Seu Francisco cantando a maviosa Carolina, numa interpretação timbrada pela depuração do sublimado. Inadvertida, a audição me sugeriu uma vertiginosa associação de ideias e de sentidos. Na tela da minha memória tremularam sequências de  Le Jeu avec le Feu (1975), de Alain Robbe-Grillet, reavivando algumas boas lembranças cinéfilas. Continuar a ler “AMAR ANICÉE ALVINA – por Danyel Guerra”

MODA INTEMPORAL – sobre o erótico – por Eric Ponty

Jardim das Delícias Terrenas by Hieronymus Bosch

Este artigo se dá por meio duma reflexão, como a forma erótica se perfez ao longo dos séculos, por uma forma velada que beira a pornografia quando ouvimos, por exemplo esse versos que refiz por serem tão chulos não merecem reprodução que ouvi por acaso na minha morada, não sei quem são seus autores de péssimo gosto baixo nível cuja decadência ressoa nos rádios do Brasil demostrando quanto pertinente se faz a reflexão Adorniana, quando esse reflete, aqui o parafraseamos em que “quando mais totalitária for sociedade em que vivemos tanto mais reificado será também o nosso espírito, e tanto mais paradoxal será nosso intento de escaparmos dessa reificação. Mesmo a mais extremada consciência do perigo corre o risco de degenerar em reflexão vazia; contudo vamos aos dois versos chulos que ressoam na rádio do Brasil. Continuar a ler “MODA INTEMPORAL – sobre o erótico – por Eric Ponty”

ERROS, ENGANOS E MENTIRAS – por Fernando Martinho Guimarães

 

O Espelho Falso, de René Magritte, 1928

Não sei se é uma memória real ou se é uma memória construída. Tenho a ideia de ter visto um documentário há já algum tempo em que Umberto Eco, filósofo e romancista, fazia uma visita guiada à sua biblioteca. A jornalista perguntou-lhe, se bem me lembro, de que falava aquela imensidão de livros. O autor de O Nome da Rosa respondeu-lhe que falavam de erros, enganos e mentiras. Continuar a ler “ERROS, ENGANOS E MENTIRAS – por Fernando Martinho Guimarães”

DUETOS – por Fernando Naxcimento

Tim e Descartes
Daminhão e Rita Lee

Continuar a ler “DUETOS – por Fernando Naxcimento”

A CULTURA COMO PRODUÇÃO DE SI E DO OUTRO (conclusão)- por Francisco Traverso Fuchs

Keith Jarrett – The Köln Concert (foto: Wolfgang Frankenstein)

(Clique AQUI para ler a 1ª Parte)

  1. Cultura como resolução de problemas

Embora possua aspectos sombrios, a cultura é muito mais do que uma fonte permanente de conflitos. Uma cultura pode ser descrita como uma maneira peculiar de propor e solucionar problemas. Desse ponto de vista, a riqueza da chamada diversidade cultural nada mais seria do que a expressão da variedade de soluções propostas pelas diversas culturas. Por exemplo, diferentes estratégias de caça e de coleta e, posteriormente, diferentes técnicas de plantio e de pastoreio fornecem soluções distintas ao problema da alimentação; técnicas de combate propõem soluções para o problema da guerra, e técnicas de cura propõem soluções para os problemas de saúde.

A diversidade de problemas a resolver conduz a uma crescente especialização. Sejam quais forem as técnicas de cura, elas serão praticadas, a depender da cultura, por um xamã, um sacerdote, um médico e assim por diante; mas será pouco provável que um guerreiro se ocupe dessas mesmas técnicas. Em muitas culturas primitivas, diferentes problemas são resolvidos exclusivamente por homens ou por mulheres: por exemplo, a caça e a coleta, a fabricação de armas e de utensílios domésticos.[1] A mitologia dos povos indo-europeus descreve a divisão dos membros dessas sociedades em três funções bem demarcadas: soberania, força e fecundidade.[2] Quanto mais complexo for um campo social, maior será a diversidade de problemas e a especialização de seus membros.

  1. Os problemas recorrentes

Um problema que jamais recebe uma solução definitiva é um problema recorrente. Todo ser vivo, sendo um sistema relativamente fechado, precisa repor periodicamente os nutrientes que possibilitam a manutenção de seu metabolismo; assim, a nutrição é, para o vivo, o problema recorrente por excelência. Outro problema recorrente comum a muitas espécies animais é a preparação dos filhotes para a vida adulta. Esse problema reveste-se de especial importância na espécie humana, cujos filhotes requerem um longuíssimo tempo de maturação e aprendizado.[3] Esse problema acabou dando origem a uma nova função especializada, a de professor. O problema do aprendizado é recorrente porque se repete a cada geração, mas também porque, tal como o problema da nutrição, sua resolução depende da continuidade de uma série de esforços intermitentes, geralmente diários, que podem se estender por vários anos e mesmo durante toda a vida.

O conceito de problema recorrente implica, portanto, um paradoxo. É incomum que alguém almoce duas vezes, ou estude novamente uma lição já aprendida. Cada solução particular dada a um problema recorrente faz parte do passado e nem sempre poderá ser revertida; ao mesmo tempo, nenhuma solução particular irá jamais abolir o problema. Sempre será possível mudar os hábitos alimentares, solucionando o problema da nutrição de maneira diversa. Uma lição já aprendida poderá ser examinada novamente a partir do surgimento de novos dados ou novas perspectivas. Assim, ainda que cada cultura descreva a si mesma como a cultura por excelência, ou seja, como aquela que forneceu as melhores soluções possíveis a todos os problemas do universo, estes estarão sempre abertos a novas estruturações e a novas soluções.

  1. Cultura e aprendizado

A competência cultural – a compreensão da língua e dos valores que caracterizam uma cultura – é adquirida durante a infância e a adolescência. Pode-se dizer, de maneira simplificada porém rigorosa, que é dando ouvidos aos outros que a criança aprende a falar e a comportar-se como um membro de sua cultura.

Ao aprender uma língua, entretanto, a criança faz muito mais do que assimilar os valores de uma determinada cultura: ela passa a pertencer à espécie humana.[4] A aquisição de uma linguagem produz as conexões cerebrais que permitirão o desenvolvimento cognitivo e a interação social.

Os limites do aprendizado e da interação social não estão predeterminados. A aquisição de linguagem e a socialização geralmente dão-se no seio de uma cultura particular, mas nada impede, ao menos em teoria, que os horizontes da  criança se ampliem com o passar do tempo. Além de escutar seus pais, irmãos, parentes, amigos, vizinhos, professores e assim por diante, ela poderá aprender a ler e a dar ouvidos a homens de outras épocas e de outras culturas. Ela poderá inclusive aprender outras línguas e aprofundar, tanto quanto possível, sua compreensão de outros modos de sentir e de pensar. Uma cultura não é, ou não é necessariamente, uma clausura.

  1. Cultura e aprendizado escolar

Nem os melhores professores do planeta conseguirão ensinar a um aluno aquilo que ele se recusa a aprender. Para aprender seja lá o que for, é preciso, em primeiro lugar, que o aluno dê ouvidos a seu professor. Se os alunos ficam a conversar durante a aula, levarão para casa, como “conteúdo”, apenas o que foi dito entre eles durante a conversa; e tudo permanecerá na mesma se, uma vez em casa, eles não derem ouvidos aos livros escolares.

Mas o aprendizado escolar não se confunde com uma simples transferência de “conteúdos”. Bons professores não apenas ensinam os “conteúdos” de suas respectivas disciplinas, mas ensinam, sobretudo, a estabelecer e resolver problemas. E o bom aluno não é aquele que apenas reproduz a resposta correta, tal qual está registrada no caderno do professor ou no livro escolar, mas aquele que consegue desenvolver, por sua própria conta, o raciocínio que conduz a ela. “É evidente no caso de uma operação matemática. Podemos acompanhar um cálculo sem refazê-lo por nossa conta? Compreendemos a solução de um problema a não ser resolvendo-o nós mesmos?”[5]

Dar ouvidos, portanto, é muito mais do que escutar o mestre e memorizar o que ele diz. Esse modelo pode funcionar com crianças pequenas que estão a decorar a tabuada ou as conjugações verbais. Mas é somente em níveis superiores de complexidade que o dar ouvidos revela todo o seu potencial: por exemplo, quando arqueólogos e paleontólogos atentam aos vestígios que a terra oculta, quando o bioquímico investiga as vias metabólicas, quando o historiador interroga suas fontes e assim por diante. Nesse sentido, toda ciência é um dar ouvidos e uma variante dessa atenção à vida de que falava Bergson.

  1. Cultura e esforço

A palavra latina cultura remete ao cultivo: em primeiro lugar, ao cultivo da terra, à agricultura; ao cultivo do espírito (cultura animi philosophia est), mas também do corpo; e, por fim, ao culto (veneração). Culto é o homem que cultiva, inclusive a si mesmo, mas também o homem que cultua (que cultiva uma religião) e o solo cultivado. Não há cultivo sem esforço. Plantas crescem muito bem por sua própria conta, e já sabiam fazê-lo muito antes que surgisse algo semelhante a um homem; mas cultivo não é coleta, e antes de trabalhar na colheita o agricultor terá de preparar e adubar a terra, plantar as sementes, irrigar a plantação e impedir que pragas a devorem. Do mesmo modo, o pensador que cultiva problemas, bem como o atleta que cultiva músculos, só realizam seus objetivos por meio de esforços sempre renovados.

Um aluno não pode estudar no lugar de outro, e um atleta não pode exercitar-se no lugar de outro. Nesse sentido, todo esforço é individual. Ao mesmo tempo, a cultura é uma continuidade de esforços individuais encadeados ou coordenados entre si. Há coordenação quando esforços individuais se coadunam e se prolongam em esforço coletivo; numa cirurgia, numa linha de produção fabril ou num time de futebol profissional, há esforço coordenado e trabalho de equipe. Mas mesmo onde não existe, a rigor, um esforço coordenado ou um trabalho em equipe, há um encadeamento de esforços. Só existem atletas e estudantes capazes de esforçar-se individualmente porque a geração anterior dedicou-se a educá-los, e a geração anterior só pôde educá-los porque também foi cuidada e educada, por sua vez, pela geração precedente.

  1. Cultura como produção de si e do outro

Raras são as circunstâncias nas quais é possível dizer que um homem produz diretamente o outro. Por exemplo, pode-se dizer que o cirurgião que realiza um transplante de coração produz, efetivamente, seu paciente. É verdade que, mesmo nesse caso, a cirurgia não será bem sucedida se o corpo do operado não reagir ativamente ao procedimento; mas o paciente jamais poderia operar a si mesmo, e é impossível atribuir-lhe mérito pelo sucesso do transplante. O coração doente, contudo, jamais teria sido substituído por um saudável se o médico que realizou a operação não houvesse, em primeiro lugar, produzido a si mesmo como cirurgião. Muitos anos de estudo e de treinamento foram necessários para que ele se tornasse capaz de entrar numa sala de operações e realizar uma cirurgia. Sem esse esforço de autoprodução, não existiria cirurgião, transplante ou cura. Se chegou a haver produção do outro, é porque houve, antes de mais nada, produção de si.

É essencial notar, entretanto, que a produção de si ocorrerá mesmo na ausência de esforço, ou seja, mesmo na ausência de uma atividade finalista, consciente e deliberada. Assim como o atleta se produz como atleta por meio de exercícios, o sedentário se produz como sedentário sem realizar nenhuma atividade em especial. O conceito de cultura como produção de si não exclui a atividade consciente e finalista, mas também não faz dela uma condição imprescindível ao processo de autoprodução. Querendo ou não, tentando ou não dirigir o processo de autoprodução, o homem não faz outra coisa senão produzir a si mesmo.

A produção do outro é igualmente inelutável. Minha autoprodução afeta a produção do outro. Se eu me formo em medicina, estarei produzindo para o outro um mundo no qual ele terá, ao menos em teoria, uma chance a mais de receber cuidados médicos. Se eu me produzo como explorador e derrubo uma floresta, estarei produzindo, para o outro, um mundo mais pobre em poesia e em recursos biológicos. Por outro lado, ao me produzir como alguém que produz um bem ou mercadoria, não estou produzindo uma simples “coisa”, um “objeto”; estou, na verdade, produzindo uma ação virtual sobre outro homem. Ao produzir a mim mesmo, e também ao produzir mercadorias ou serviços, estarei produzindo o mundo no qual o outro produz a si mesmo.

  1. O que é cultura?

Em seu livro sobre Nietzsche, Deleuze diz que a cultura é a “atividade genérica” do homem, ou seja, uma “atividade do homem sobre o homem”.[6] Deleuze refere-se a um tema que Nietzsche abordou em sua Genealogia da Moral: a atividade genérica da cultura como adestramento, e seu objetivo mais geral, a produção do homem capaz de prometer. A visão nietzscheana da cultura mescla antropologia (os rituais de iniciação como rituais de crueldade, isto é, adestramento violento das forças reativas) e um propósito elitista (a finalidade mais alta da cultura é a produção do artista e do filósofo).[7]

A fórmula ou definição que estou propondo é, sem dúvida, bastante semelhante a essa: cultura é a ação do homem sobre o homem para produzir o homem. As diferenças, no entanto, são bem grandes. Em primeiro lugar, a “ação do homem sobre o homem”, nessa concepção, é também (e principalmente) ação de si sobre si mesmo. Em segundo lugar, ela também inclui a ação virtual do homem sobre o homem. Em terceiro lugar, ela não constitui, a despeito das aparências, uma antropologia. A rigor, a cultura humana não passa de um caso particular dessa produção de si e do outro que define a cultura.

  1. O vivo como lance de dados

“Cada indivíduo histórico”, afirmou Gabriel Tarde, “foi um projeto de uma nova humanidade”.[8] Não se poderia igualmente dizer que cada ser vivo foi um projeto de uma nova espécie? Ao produzir a si mesmo, cada ser vivo (e não apenas cada ser humano) atualiza, à sua maneira, o problema recorrente da vida. É como se cada um dos seres vivos retomasse e relançasse, a partir de seu ponto de vista único, singularíssimo, toda a história da vida.

Do mesmo modo, a criação de um conceito filosófico sempre acaba retomando e relançando os dados da própria filosofia. É o que ocorre com o conceito filosófico de cultura, que acaba reencontrando e reeditando um dos mais antigos problemas filosóficos. Afinal, qual seria o sentido da vida senão a produção de si mesmo?

A potência e o caráter inelutável desse pensamento chamam a atenção. Aqueles que pensam a si mesmos como membros de uma determinada cultura não poderão ignorar que sua cultura só irá perpetuar-se caso seus membros se produzam como membros daquela cultura. Aqueles que acreditam num Deus como sentido último da existência não poderão ignorar que o homem religioso e obediente aos mandamentos divinos não nasce pronto, mas precisa, bem ao contrário, produzir-se como tal. E mesmo aqueles que não crêem que a vida possa ter um sentido qualquer continuarão, a despeito disso, produzindo a si mesmos até o fim de suas vidas. O conceito de cultura como produção de si e do outro é verdadeiramente universal e exprime um aspecto irredutível da própria realidade: “esta criação de si mesmo que parece ser o próprio objeto da vida humana”.[9] E não só da vida humana; até marcianos, caso existam, produzem a si mesmos.

  1. Cultura e ética

Pensar a cultura como produção de si e do outro equivale a penetrar, de chofre, na dimensão ética. Quando compreendo que sou responsável pela produção de mim mesmo; que a produção de mim mesmo afeta não apenas a mim, mas a todos os outros; que existe solidariedade entre as gerações atuais e passadas; que a autoprodução põe em pé de igualdade todos os homens e todos os seres vivos, ou seja, todas as diferenças, todas as vozes, todas as tonalidades da alma, não há mais como recuar da vida ética. Ao que tudo indica, o pensamento da cultura como produção de si e do outro constitui um caminho indireto, porém efetivo, para solucionar o difícil problema ético.

O conceito de bárbaro é correlato às concepções antropológica e elitista de cultura; e sua pertinência é, nos dias de hoje, amplamente contestada. Qualificar como “bárbaro” o culturalmente “outro” e o “ignorante” fere a sensibilidade moderna. Por outro lado, o conceito de cultura como produção de si e do outro traz consigo uma possibilidade de ultrapassar os conflitos entre culturas, ao indicar a existência de uma tarefa comum a todos os seres humanos de todas as culturas. Assim, não seria natural esperar que, nessa perspectiva, o conceito de barbárie se torne caduco e simplesmente desapareça?

Na verdade, é exatamente o contrário. Porque os dois conceitos são correlatos, uma renovação do conceito de cultura implica uma renovação do conceito de barbárie. Na concepção filosófica de cultura, no entanto, o bárbaro apenas deixa de ser o barbarófono, aquele que mal fala ou não fala a língua culta, o outro, o estrangeiro, o ignorante, e torna-se aquele que não ouve, aquele que não dá ouvidos.

NOTAS

[1] CLASTRES, Pierre. L’Arc et le Panier, IN La société contre l’État, op. cit., pp. 88-111.
[2] DUMÉZIL, Georges. Heur et malheur du guerrier. Paris, PUF, 1969, p. 12. Os códigos de cores das vestimentas, vigentes durante milênios e que, de um modo ou de outro, ainda perduram (le rouge et le noir, blue collars/white collars…), devem-se inteiramente a essas divisões sociais. “Segundo as tradições indo-iranianas, a sociedade organiza-se em três classes de atividade: sacerdotes, guerreiros, agricultores. Na Índia védica essas classes chamavam-se “cores”, varna. No Irã, elas têm o nome pistra, “ocupação”, cujo sentido etimológico também é “cor”. É preciso tomar a palavra em sua acepção literal: são, efetivamente, cores. É pela cor de suas roupas que, no Irã, as três classes se distinguiam — o branco para os sacerdotes, o vermelho para os guerreiros, o azul para os agricultores, em virtude de um simbolismo proveniente de antigas classificações conhecidas em muitas cosmologias, associando o exercício de uma atividade fundamental com uma determinada cor, que está ligada, por sua vez, a um ponto cardeal.” BENVENISTE, Émile. Op. cit., Vol. 1, p. 279.
[3] MORIN, Edgar. Le paradigme perdu: la nature humaine. Paris, Éditions du Seuil, 1973, p. 95.
[4] “Privé de culture, sapiens serait un débile mental, incapable de survivre sinon comme un primate de plus bas rang; il ne pourrait même pas reconstituer une société de complexité égale à celle des babouins e des chimpanzés.” MORIN, Edgar. Op. cit., p. 100.
[5] BERGSON, Henri. L’Energie Spirituelle, IN Oeuvres, Paris, PUF, 1984, p. 943/169. Joseph L. Mankiewicz, diretor e roteirista do filme All about Eve, ilustra brilhantemente esse ponto num diálogo entre Lloyd Richards, autor teatral, e Margo Channing, a atriz que trabalha em sua peça:
LLOYD: I shall never understand the weird process by which a body with a voice suddenly fancies itself as a mind! Just when exactly does an actress decide they’re her words she’s saying and her thoughts she’s expressing?
MARGO: Usually at the point when she’s got to rewrite and re-think them to keep the audience from leaving the theater!
[6] DELEUZE, Gilles. Nietzsche et la Philosophie. Paris, PUF, 1983, p. 154.
[7] DELEUZE, Gilles. Op. Cit., p. 125.
[8] TARDE, Gabriel. Les Lois Sociales. Paris, Félix Alcan, 1898, p. 148.
[9] BERGSON, Henri. Op. Cit., p. 837/31.

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Francisco Traverso Fuchs descobriu que o tabaco não torna em fumaça as mágoas, e trocou-o pelo chimarrão. No entanto, devido aos muitos anos de tabagismo, sofre de lapsos de memória relativos à mais recente reforma ortográfica. É mestre em filosofia pela UFRJ.

Leia a 1ª parte AQUI

Waldemar Bastos – guitarra, voz, canção! – por Hilton Fortuna Daniel

Não me lembrando exactamente do dia – mas do facto – podendo ter sido numa terça, quarta, sexta-feira – talvez num sábado – à hora do almoço, estava eu a trabalhar. Cerca de uma vintena de restaurantes dos dois lados da mítica Rua Augusta adornavam o percurso dos turistas americanos, britânicos, italianos, franceses, nórdicos, belgas, japoneses, chineses e espanhóis, numa aglomeração à indiana à procura da inigualável sardinha à portuguesa e do melhor daquela culinária. Boa aura.

Trabalhava quase sempre das 11h da manhã às 2 horas da madrugada como maître. A nossa missão era persuadir os turistas – ou não precisamente – a ingressar no restaurante correspondente a cada um de nós. Se o cliente aderisse ao menu, seria um golo marcado de livre, direito a gorjeta. Se o perdêssemos: autogolo. Éramos estimulados até a «vender a banha da cobra» a uns quantos fregueses pitiáticos, aqueles que se deixavam persuadir por qualquer conversa fiada. «Mas a sardinha é fresca, é de hoje?». Digam de vossa justiça, caros leitores, se a vossa resposta seria: «Não, não, não, nem de ontem é. É da semana passada»! Dizer a verdade podia custar-me o emprego, então, era encontrar um meio-termo para que saíssem satisfeitos.

O ‘meu restaurante’ ficava ao lado de outro cujo maître (de uma aparência que denunciava um típico lisboeta de Alfama, do Bairro Alto ou da Mouraria) falava inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, holandês e, se eu duvidasse, desenhava-me tudo em português: era um CR7 com a boca. Antes de os clientes chegarem ao «meu», vindos do sentido «Restauradores», passavam pelo grande Cristiano Ronaldo. Por vezes, atónito, perdia-me a observá-lo a trocar de língua quando descobrisse que o interlocutor, afinal, não falava aquela, mas outra língua.

Nessa terça, quarta, sexta-feira – talvez num sábado – à hora do almoço, estando eu a trabalhar, vi, a vinte metros de mim, um cavalheiro alto como se tivesse vestido de “Preta Luz”. Seria turista? Aproximou-se e zás! Surpreendi-me! Propus-me a um destemido aceno, mas saiu-me uma timidez que me é própria. Temia ser ignorado, confesso. Mas, num ápice, lembrei-me de ter sido bem acolhido pelo grande músico Jorge Aragão, e a minha coragem gravitou neste trunfo. Entre arriscar e arrepender-me, apostei no primeiro verbo. Os meus colegas, portugueses e brasileiros, ignoravam a imponência do nome que me ouviram vozear por duas vezes.

– Waldemar Bastos!? Waldemar Bastos!?

Ainda que, inicialmente, desconfiado, olhou – por milésimos – para a inocência dos meus olhos através dos quais acedeu às minhas mais imaculadas intenções. E como se me tivesse reconhecido de algum lado, como se tivesse voltado aos seus tempos de ingénua travessura na sua cidade natal, Mabanza-Congo, simpaticíssimo, ripostou:

– Oh! Ooolllááá! Está tudo beeeeem? O que fazes aqui?

Foi mesmo assim que se dirigiu a mim. Confirmava: era aquele o autor dos versos «para quê tanta dor, para quê tanto ódio?, se somos irmãos, e temos, e temos e temos que dar as mãos».

– Trabalho neste restaurante, sou anfitrião, tal como todos os de camisa branca e calças pretas nesta rua.

– Mas… E fazes mais o quê?!

– Sou estudante. Vim cá para estudar. As dificuldades fizeram-me sentir a atravessar o inferno descalço, por isso, trabalho aqui e acolá para me manter vivo. Mas queria também lhe dizer que sou seu admirador confesso, ouço as suas músicas sempre, acompanho a sua carreira.

Julgo eu que Waldemar Bastos, até aí, vira que se tratava de um comum admirador. Era-o e sou-o ainda. Quando ia despedir-se de mim, ouviu o que – vos posso fazer crer – não esperava de um rapaz cujo aspecto sugeria um inocente, imberbe, bairrista e nada apreciador de world music ou folk:

– Waldemar Bastos, parabéns, eu sei que Thomas Moon (um reconhecido músico saxofonista, escritor e crítico de música norte-americano) o elegeu para figurar no seu livro “1000 Recordings to Hear Before You Die (mil gravações para ouvir antes de morrer)”, ao lado de lendas como Leonard Cohen, os Beatles e seus membros, Aerosmith, Beethoven, Chopin, Mozart, Bach (o meu músico preferido, entre os clássicos), Ray Charles, Manu Dibango, S. Wonder, Djavan, Bob Dylan, Bob Marley, Missy Elliott, Eminem, Cesária Évora, Fela Kuti, Salif Keita, Nina Simone, Aretha Franklin, Marvin Gaye, M. Jackson, Pavarotti, Queen, Amália, 2 Pac, João Gilberto, Guns N’ Roses, Caetano Veloso, Juan Luis Guerra, centenas de referências do hip-hop, da pop music, do folk e sobretudo do rock e world music, sendo a sua canção “Sofrimento” do álbum Preta Luz eleita um marco. Sei que as suas músicas, tal como a “Balumukeno” de Bonga, constam da banda sonora do filme Sweepers, de 1998.

Orgulhoso, talvez surpreendido, sorrindo, pendeu a cabeça em minha direcção e sentenciou:

– Não vamos fazer uma fotografia para recordação?!

Fizemo-la… E umas três. Despedimo-nos e foi-se embora, foi desaparecendo aos poucos por entre a multidão que se amiudava como um sol poente a pretender descansar por trás das praias da Linha de Cascais.

– Quem é Ele, Hilton? Os teus olhos brilhavam, mal conseguias falar! Quem é?!

A resposta era óbvia, a que vocês, caros leitores, possam imaginar: comedida, mas endeusada. Parece paradoxal? A vida é feita de paradoxos. O mesmo paradoxo que o impediu de resplandecer no seu berço, mas permitiu-lhe luzir como lua a ressignificar dias tristes como breu pelo mundo fora. Como estrela, cintilou nos EUA, no Canadá, Reino Unido, na Alemanha, em Portugal, França, em qualquer lugar, menos onde mais o desejou, qui-lo porque não se consideraria realizado se os seus não o (ou)vissem.

Volvidas mais ou menos duas horas, lembro-me como se fosse ontem, Waldemar Bastos reapareceu como sol das seis dentre a multidão que vinha do sentido Praça do Comércio, com uma caneta e um disco às mãos. Autografou-mo aí mesmo ao lado dos colegas, falamos um pouco, trocamos contactos e convidou-me a assistir a um concerto seu daí a poucos dias, num dos auditórios da Calouste Gulbenkian, instituição que viria a dar-me uma bolsa de estudo no ano seguinte.

Convidei duas amigas, doutorandas, à época: uma italiana e outra portuguesa. Não declinaram, fomos, às 21 horas. Pelas nacionalidades, parecia uma abertura dos Jogos Olímpicos da Avenida de Berna.

Leitores, silêncio, silêncio…! Iniciava-se o concerto numa sala a rebentar pelas costuras.

GUITARRA, VOZ, CANÇÃO!

Lembro-me de que, embora tivesse começado a dedilhar pela segunda corda da guitarra, de cima para baixo, inaugurava a sua apresentação em “Dó Menor”.

Aquela voz potente, que trespassava as barreiras de um palco a céu aberto, a sua voz e guitarra que embalavam as copas das árvores e inibiam os apartes dos que tagarelavam, aquela voz que ressoava num alcance que evocava Freddie Mercury ou Sinatra, aquela voz era dEle. Quem não dançou, quem não se surpreendeu, quem não, quem não?!

Reza a lenda que WB abusava das “High Notes” que se evadiam de qualquer sala, daquela extensão vocal cujo timbre era invulgar, daquela musicalidade absolutamente sinestésica, daquelas letras à dimensão de Angola, de África e daqueles agudos, apenas para que – tal como reflecte a imagem – um dia pudéssemos olhá-lo de baixo para cima como uma estrela que atingiu a imortalidade. Olhamo-lo como os terráqueos desbravam os anjos entre as estrelas de um céu agora cheio de incertezas.

Todavia, as circunstâncias da vida fazem-nos crer que nos revestimos, quase sempre, de um espírito de «necrofilia», não no sentido insano e morto da palavra, mas por tendermos a adorar, venerar e idolatrar como última gota no oásis os feitos dos nossos a título póstumo. De Angola, não faltaram palavras repletas de boas intenções para o glorificar agora, até verbos ainda não inventados serviram para falsear um sentimento que lembra o «nada». Não se sabe se é por isso que «necrofilia», com o sentido atribuído aqui, rima com «hipocrisia». Não se sabe, vai-se lá saber!

O seu legado vai ser estudado nas universidades, retratado em livros, artigos académicos, será tema de palestras e conferências por várias gerações que, um dia, perceberão que só um anacronismo estonteante explicaria o facto de uma lenda como WB viver num período incompreendido como este. Fomos pequenos para a sua dimensão artística e cultural.

Uma das suas canções icónicas tem como título «Lubango», em homenagem à venerável e rica cidade do interior de Angola, onde vivi, cujo refrão é «lalipo, lalipo; lalipo, Lubango», a qual, em umbundo, significa «durmam bem, fiquem bem, Lubango», também gravada com a participação especial de um vencedor do Prémio Camões de Literatura, o grande Chico Buarque, autor da imortal canção «Apesar de você», concebida em contexto da ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985.

Se fosse realizado um filme em seu tributo, os temas orbitariam na sua genialidade e espiritualidade artística, na paixão pela guitarra, na voz desamordaçada, na saudade, na angolanidade, na resistência, na fraternidade, na verticalidade, na obstinação, mas convergiriam num único título “Waldemar Bastos, o intemporal”.

Enfim, os seus versos terão que se acostumar à orfandade a que estão sujeitos e viver sem a companhia dos acústicos com que sempre nos presenteou. As estrelas não morrem, deixam de brilhar na nossa constelação para habitar noutra talvez melhor. Waldemar Bastos fechava os seus concertos com «GUITARRA, VOZ, CANÇÃO», em «dó menor», e encerrou o seu maior concerto, que é a vida, deixando-nos em “DÓ MAIOR”.

Afinal, «lalipo», não sendo apenas eterno adeus, pode ser um até-já!

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Hilton Fortuna Daniel É docente de Português, linguista e escritor angolano muito desconhecido.

A CASA DO CORAÇÃO – por Jaime Vaz Brasil

A Casa do Coração

Na casa do coração
convivem dois inimigos

presos na árida corda
das horas, por seus umbigos.

Na casa do coração
(quem a visita pressente)

um deles pulando corda
e o outro rangendo os dentes.

Na casa do coração
um deles constrói seu nada

enquanto o outro levita
e põe flores na sacada.

Um deles grita e se arranha
e do que pode, reclama

enquanto o outro se enflora
e troca os lençóis da cama.

Um amarra seus legados
em cordames ressentidos.

O outro planta gerânios
e vai ao livros não lidos.

Um deles em cada porta
impõe trancas e cancelas

enquanto aos poucos o outro
pinta de branco as janelas.

Se o próprio Deus tem três faces
porque o homem haveria

de guardar um só conviva
em seu dentro, a cada dia?

 

♦♦♦

Jaime Vaz Brasil  Poeta gaúcho, com 7 livros públicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

POEMAS de Januário Esteves

 William Turner: The Fighting Temeraire tugged to her Last Berth to be broken up, 1838, 1839 (detail)

Mãos devagar te levam

Mãos devagar te levam
E tu não dás por nada
Como dum cinzel purificador
A sombra é-te retratada
Para os Céus ergueste as crenças
Sem elas eras olvido
Num pranto com luz ao meio
No escuro quarto retido. Continuar a ler “POEMAS de Januário Esteves”

Cacimbo nos pedaços de banana- por Jonuel Gonçalves

© https://images.app.goo.gl/yBPg6vPhMGBeQSje9

Acordei começava a noite  sem dúvida deve ter sido a chuva miúda tipo cacimbo grosso no meu rosto que me acordou e pela hora devo ter ficado ali desacordado umas sete horas, não me lembro a que horas caí mas sei que foi devagar e seriam talvez 11 da manhã com um sol abrasador mas eu tinha que atravessar aquela parte da savana para mais adiante conseguir boleia e continuar. De resto enquanto caía devagar lembro-me que só me lembrava de ti e agora também ao acordar ouvi até a tua respiração aqui do meu lado, demorei para entender onde eu estava e estaria fazendo aqui no chão com a chuvinha sem parar no meu rosto como se fosses tu a murmurar comigo. É. Falas comigo em qualquer lugar mesmo quando pensas que não me lembro de ti, lembro sim e a tua voz aparece como chuvinha na savana quente a salvar-me a vida. É isso de certeza. Devo ter caído por muita falta de água, estava com muita sede mas o risco entre voltar atrás ou ir pra frente era igual e agora estou com a cara e os lábios molhados, abri a boca junto com os olhos louco por água muito mais que por comida, embora dia inteiro sem comer também não facilita caminhada longa. Continuar a ler “Cacimbo nos pedaços de banana- por Jonuel Gonçalves”

FOTOGRAFIA – por Luís Bento

Depois da morte do marido, o amor, resumia-se agora à inevitabilidade da memória de um passado que tinha valido a pena, a espraiar-se pelos filhos nascidos na Bélgica e as saudades que tinha daquele céu de chumbo, que convidava à leitura e reflexão no escritório aquecido, onde passavam largo tempo a olhar pela janela alta, em forma de ogiva com vitrais no canto, o relvado verde húmido onde alguns mais afoitos jogavam à bola de galochas. Continuar a ler “FOTOGRAFIA – por Luís Bento”

POEMAS DE MADALENA MEDEIROS

TUDO OU NADA! AOS “CARVALHOS”…

Pró ” Carvalho” vai tudo!
Tudo!Tudo, ou nada!
Há tamanhos e formas,
curtos, compridos e espessos!…

Pró “Carvalho, não vai nada?
Nada! Que bem lhe fica a gravata!
Por onde passa tudo esgravata,
e dos tombos cai na mocada…

Há quem diga!
Pernas são canelas,
merda pra quem olha pra elas…
Por outro! Há quem diga!
Carvalhos, são caralhos,
merda pra quem tem alhos! Continuar a ler “POEMAS DE MADALENA MEDEIROS”

POEMAS DE MICHELIN DOS ROUSSES – por Ricardo Echávarri

 

http://chezstyve.centerblog.net/rub-Mes-poemes.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PAYASOS TRABAJANDO

Filoso retoca el marfilino brillo de la luna
Es noche y se oye el frufrú lejano

Sombrita, con su serrucho, delinea la silueta del mar
Eso de hacer olas es un buen ejercicio

Tilichito viste de frac un elefante
Pide a su utilero:
“¿podría traerme por favor un espejo más grande?” Continuar a ler “POEMAS DE MICHELIN DOS ROUSSES – por Ricardo Echávarri”

O CASTELO DE SAN GIGLIO – por Rosa Sampaio Torres

As origens da dinastia franco-borgonhesa “wido” (guido) nas proximidades de Colônia

O Castelo de San Giglio a Quinze milhas de Colônia

    Rosa Maria Gusmão de Sampaio Torres

 Marcelo Bezerra Cavalcanti

Depois de vários trabalhos realizados que confirmam as informações registradas por historiador e cronista da família, Giovanni di Nicolo Cavalcanti do sec.XV, mais uma vez  citamos suas palavras tendo em vista ainda confirmá-lo. Afirma Giovanni di Nicolo: Continuar a ler “O CASTELO DE SAN GIGLIO – por Rosa Sampaio Torres”

FÉ, ESPERANÇA E AMOR – OS ESSENCIAIS NA VIDA E NA MISSÃO! – por Teresa Escoval

 “A fé sobe pelas escadas que o amor construiu e olha pelas janelas que a esperança abriu”

(Charles Spurgeon)

Acredito que a fé é o essencial da espiritualidade. Também que só a conseguimos manter se a fé for sadia. O que quero dizer quando utilizo o termo “sadia”, é que é necessário termos um posicionamento claro na vida, acreditarmos profundamente que algo melhor estar por vir e manter a esperança que chega porque merecemos.

Logo, considero que a esperança é necessária no campo da afectividade. Ela permite que continuemos positivos e alimentados no “aqui e agora”, e, sobretudo, impede que as experiências momentâneas menos positivas nos tirem os valores e convicções correctas e assertivas.

A esperança é a fonte de saúde mental. Deixa o coração aberto e doce. Permite que se instale uma medida adicional de força para recuperar de qualquer tipo de perdas e adoptar uma atitude positiva perante o futuro.

Então, dá para perceber que a esperança é uma qualidade intimamente relacionada com a fé. Ter fé é saber esperar e confiar. É atravessar tribulações com um sorriso no rosto; é nunca desistir mesmo quando tudo parece impossível. A fé nos levanta quando caímos, nos empurra quando paramos, e nos eleva acima das nossas capacidades quando julgamos não conseguir mais. Permite-nos recomeçar sempre.

Também que quem caminha com fé e esperança, tem um coração alimentado por muito amor. Um amor que vem da essência da própria pessoa e que é necessário para a sociabilidade.

O amor é perseverança, paciência, confiança, tolerância e fé. O amor é o maior alento para reinventar o tempo, recriar novos dias com esperanças renovadas. Não basta reivindicar “eu mereço ser feliz”, há que merecer isso, sem egocentrismo.

É necessário aprendermos que tudo que a vida nos apresenta tem um lado positivo. Entender que todos os desafios têm o objectivo de nos fazer evoluir, retira o peso e a dificuldade.

É importante acreditarmos no nosso potencial para que vejamos com bons olhos o que se passa ao nosso redor e na nossa vida. Há possibilidades de reconstruirmos uma história diferente, se conseguirmos ter uma visão alargada e justa. Também quando há vontade própria para encetar a mudança necessária.

Efectivamente, a fé não brota do nada, é necessário também que haja implicação e vontade na mudança que se quer efectuar.

Quando se consegue alcançar a fé da alma, adquire-se um amor gigante no coração e um brilho no olhar, que transforma qualquer coisa e/ou situação, permitindo ver a possibilidade de grandes melhorias a alcançar.

Mas, é necessário manter a fé a esperança e o amor. Tratar deles como se de plantas se tratassem. É preciso regar, proteger, alimentar.

Gestos simples como o acto de abraçar, significa um encontro entre duas almas. É o momento em que os sentimentos se acentuam, o coração se acalma e o corpo encontra abrigo em outro alguém.

Tratarmos as pessoas com gentileza é emanar amor e recebê-lo de volta. Sermos cuidadosos e amáveis, permite-nos começar uma reacção com o outro de maneira mais humana e delicada.

Que tal pensarmos na forma como construímos as nossas relações?

Confesso que as que prefiro e quero na minha vida, são as construídas no amor mais puro, aquele amor real, simples e doce. Aquele sentimento que nasce da sinceridade, da proximidade, da simplicidade e reciprocidade.

Olhemos, pois, para as pessoas como gostaríamos que elas olhassem para nós. Amá-las como gostaríamos que nos amassem a nós mesmos.

A este propósito, deixo aqui um lindo poema de William Shakespeare:

“Amor quando é amor não definha
E até o final das eras há de aumentar.
Mas se o que eu digo for erro
E o meu engano for provado
Então eu nunca terei escrito
Ou nunca ninguém terá amado.”

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Teresa Escoval é Pós-Graduada em Gestão de Recursos Humanos, Licenciada em Sociologia, Bacharel em Gestão de Empresas. Desempenhou vários lugares de chefia na área Financeira e Gestão de Recursos Humanos. Desde 1994 que gere e desenvolve um negócio próprio na área do emprego,diagnóstico/desenvolvimento organizacional e formação.

Mantém colaboração regular, desde 2007, com várias revistas, onde são publicados artigos sobre diversas temáticas, que é autora.

Jannowitzbrücke – por Viviane Santana Paulo

começo com este nada de hoje vibrando mediocridade 

latente e late

pulsando o sangue gelado e cinza   das coisas cansativas

que me cingem        quase dípteros reverberantes  

as folhas das árvores nas calçadas estão manchadas de fungo

passo indiferente como sempre faço

a indiferença é uma estratégia   escudo e arma  

às vezes asfixia  pode-se matar ou morrer de indiferença   

ela furta a vida e também a usamos para sobreviver   

enquanto vou descobrindo Continuar a ler “Jannowitzbrücke – por Viviane Santana Paulo”

VEJA A EDIÇÃO Nº 13 DE AGOSTO /2020

EDITORIAL por Hilton Fortuna Daniel

Em 1918, terminada a I Guerra Mundial, iniciava-se a Gripe Espanhola.

Esse ciclo pandémico, tendo matado milhões de pessoas, terminava em 1920. Em cada fim de história, há sempre um início de história. Nesse ano, para a música e para a literatura, nasciam Amália Rodrigues e Clarice Lispector. A primeira solfejava poemas dentro de notas bem pautadas. A segunda, com a portentosa pena por que é hoje conhecida, empreendia A Descoberta do Mundo, título de uma das suas obras-primas. Continuar a ler “EDITORIAL por Hilton Fortuna Daniel”

DOIS POEMAS DE Alda Costa Fontes

O meu pátio 

desde pequena entendo as escadas como os sofás da casa de gente solitária

normalmente daqueles que não tiveram coragem ou tempo para fugir de rotinas agrestes Continuar a ler “DOIS POEMAS DE Alda Costa Fontes”

TEXTOS DE “MATÉRIA DESNUDA”, de Carlos Barbarito

  Desenho: Victor Chab

Finalmente tengo más de un rostro.

Georges Bataille, Sobre Nietszche. Voluntad de suerte, V.

África I

No hay viento, ni rumor de agua, y está oscuro. Quien se extraviara allí jamás saldría o saldría desnudo y loco. Es una selva silenciosa, pero no una selva de plantas y frutos, de enormes y pequeños animales. No, nada de eso. Allí, en perfecta metamorfosis con la oscuridad y el silencio, habitan erráticas sombras, inmóviles furores, una angustia sin medida ni centro, un espasmo que arde con llama fría. Nunca estuve en ese lugar, pero con frecuencia lo veo en sueños. Continuar a ler “TEXTOS DE “MATÉRIA DESNUDA”, de Carlos Barbarito”

MULHERES NAS RUAS DO PORTO -XIII – por César Santos Silva

Berta Alves de Sousa(Rua de)
Início: Beneditina (Rua da)
Fim: Cul‑de‑Sac 
Designação desde 2000
Freguesia de Foz do Douro
Berta Alves de Souza e Guilhermina Suggia – Conservatório de Música- (Espólio de Berta Alves de Sousa)

Cândida Berta Alves de Sousa nasceu na Bélgica (Limoges), em 1906. Veio viver para a cidade do Porto e aqui vai desenvolver toda a sua vida ligada à música e à pedagogia. Aluna no Conservatório de Música do Porto, recolheu os ensinamentos de professores como Cláudio Carneiro, Moreira de Sá, Moreira de Sá e Luís Costa genro de Moreira de Sá e pai de Helena Sá Costa e Madalena Sá Costa. Continuar a ler “MULHERES NAS RUAS DO PORTO -XIII – por César Santos Silva”