EDITORIAL – No Tempo do Faz de Conta – por Júlia Moura Lopes

“Dans le monde réellement renversé, le vrai est un moment du faux” Guy Debord.

Estamos no Carnaval e o leitor de Athena perguntará onde fica e onde cabe a cultura, durante esta época?

Pois direi que é no reino e no tempo do faz de conta, que se cruzam todas as alegorias. Desde a sátira política e social, aos rituais que culminam na inversão dos papéis sociais, com origens na época em que o escravo se transformava em rei, e por sua vez, o rei se transformava em escravo, oferecendo esse sacrifício aos deuses.

Hoje, no Carnaval, os homens e as mulheres “trocam de sexo”, alguns por simples brincadeira, outros para cumprir algum secreto sonho. Na busca contínua da felicidade, nunca o lugar-comum mudou algo.

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EÇA DE QUEIRÓS E LEOPOLD SZONDI (PARTE I) – por Marilene Cahon (PARTE I)

PARTE I

Leopold Szondi

A Psicologia szondiana está marcada pelo convencimento, intuitivamente adquirido, de que, em cada par de contrários (polaridades), os pólos são atraídos um ao outro e formam uma unidade. Segundo seu criador, não vale pender unilateralmente ao bom e desprezar o mau, mas é melhor perceber o bom e o mau como dois extremos da mesma totalidade e mantê-los em um equilíbrio dinâmico. Quando um pólo cresce, o outro decresce, quando um diminui, o outro desabrocha.  A partir daí, desenvolveu a teoria da Análise do destino.

A Análise do Destino completa os conhecimentos da Psicologia Profunda, com o acréscimo do Terceiro Inconsciente, o Familiar, depois do Pessoal de Freud (Viena) e do Coletivo de Jung (Zurique).

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MIGUEL DE UNAMUNO: ALGUMAS IDEIAS por Cecília Barreira

“Oliveira Martins era un pesimista, es decir, era un português. EI português es constitucionalmente pesimista; él mismo nos lo repite. No es acaso la flor amarga de este espírito la poesia desesperada y dura de Antero de Quental? Encontró acaso alguna vez lá desesperación acentos más trágicos, más hondamente poéticos en su rígida armazon meta física, menos artísticos? “

Miguel de Unamuno, Por Tierras de Portugal y Espana, 1930, pp. 49-50.

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REI E RAINHA DE UM CARNAVAL MICARETA por Danyel Guerra

Alain desenlaça, decidido, o amasso da frenética Romy. O que se passa, querido? Darling, o que passa daqui a uns segundos é o bus dos 33 minutos, não posso perdê-lo…! Ele ajusta, no orifício certo, a fivela prateada do cinto, selando a separação com um beijo fugaz nos lábios carmesins da garota. E sai disparado rua afora…senão vou tomar um chá de cadeira de meia-hora, completa aconchegando o cachecol black  & white ao pescoço e estugando a passada. E com apenas 33 segundos de atraso, um 33 se detém perante o solitário e ansioso passageiro.

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A “Europa” ou a minha “Nação”? por Diogo Pacheco de Amorim

Contra ou a favor da Europa? Contra ou a favor das nações? A “Europa” ou a minha “Nação” ?

Questão que hoje vivamente se coloca, desdobrando-se em infindáveis discussões. Juízos rápidos e fulminantes disparados contra quem duvida da bondade da escolha politicamente correcta, a da “Europa”. E contudo…

… Contudo são discussões sem sentido, caso antes se não defina, clara e inequivocamente, qual a Europa de que se fala. Porque há duas europas em tudo diferentes. Dois conceitos distintos instalados dentro de um mesmo termo: “europa”. Assim, se me perguntarem se quero manter-me na, ou “sair” da “europa” começarei por perguntar “qual Europa?”. Clarifiquemos, pois há uma Europa que nasceu na Grécia há 2.700 anos, entre oliveiras, penedos sagrados e o azul do mar. E aí, entre deuses demasiado humanos e homens quase divinos, nasce, cresce e agiganta-se toda uma Cultura. Ésquilo, Sófocles, Píndaro, Heraclito, Fídeas, Anaximandro, Sólon, e tantos outros, deram ao mundo o espírito de uma civilização ímpar.

O Espírito. O primeiro pilar.

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ENRIQUE ROSENBLATT, LA POESÍA OCULTA – por Enrique Santiago

 

Enrique Rosenblatt Berdichevsky, 17 de febrero de 1922, 6 de septiembre de 2009. Fue un poeta muy cercano al grupo Mandrágora. Uno de los colectivos surrealistas más influyentes de la literatura chilena y latinoamericana. Su primer acercamiento con estos poetas, se da primeramente bajo ciertas circunstancias del azar objetivo, cuando tenía 20 años y había comenzado sus estudios de medicina, le fue diagnosticada una tuberculosis, lo que le obligó a guardar reposo en su hogar durante un tiempo prolongado. En ese entonces uno de sus vecinos era Juan Sánchez Peláez, con quien estaba iniciando una amistad debido a que compartían el gusto por la poesía. Continuar a ler “ENRIQUE ROSENBLATT, LA POESÍA OCULTA – por Enrique Santiago”

ASSIM FALOU O POETA MALDITO – por Ester Fridman

 

Se Nietzsche já é um filósofo controverso, interpretado de forma tão completamente diferente por cada leitor, seu livro Assim Falou Zaratustra é, sem dúvida, o mais controverso de toda a sua obra. Seria um dos motivos de tamanha controvérsia a linguagem tão peculiar e não familiar na qual foi escrito? Uma leitura atenta à obra de Nietzsche como um todo nos revela um autor cujo procedimento de pensamento é diferente do procedimento de pensamento do homem ocidental em geral. Mas, se seu modo de pensar não é ocidental, tampouco o é puramente oriental. O que o diferencia é que ele não está preso às amarras do gregarismo, e nem à metafísica da linguagem. Ele diz que “…entramos em um grosseiro fetichismo, quando trazemos à consciência as pressuposições fundamentais da metafísica da linguagem, ou, dito em alemão, da razão. Esse vê por toda parte agente e ato: esse acredita em vontade como causa em geral; esse acredita no ‘eu’, no eu como ser, no eu como substância, e projeta a crença na substância-eu sobre todas as coisas (…)E nas Índias como na Grécia se fez o igual equívoco: ‘É preciso que já alguma vez tenhamos habitado um mundo superior (…), é preciso que tenhamos sido divinos, pois temos a razão!’(…) A ‘razão’ na linguagem: oh, que velha, enganadora personagem feminina! Temo que não nos desvencilharemos de Deus, porque ainda acreditamos na gramática…”1

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CAATINGA DREAMS por Floriano Martins

A experiência é meu único dever  
Ingmar Bergman
◊◊◊
A perda de um pouco de memória costuma ser gentil com a alma.
Walter Bishop

2043- O que passar por aqui será escrito. Este é um acordo secreto feito entre muitas vidas, muitas delas jamais compreenderam o motivo. 31 anos se passaram sem a mínima suspeita de que eu devesse retomar essas anotações.

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BRINCAR À POLÍTICA NO CARNAVAL por Francisco Castelo Branco

O Carnaval é uma das mais belas tradições que enche de cor e alegria as cidades e vilas portuguesas. O nível de euforia e qualidade não atinge os desfiles no Brasil, mas a maneira nacional de celebração da data contagia todos, mesmo os que não gostam de se mascarar.

Os preparativos para os eventos do ano seguinte começam pouco depois do último cortejo, embora sem a mesma dose de exagero que se verifica após as festividades no país irmão. Isto é, vivendo intensamente uma paragem de 365 dias, que decorre entre cada Carnaval.

Carnaval em Torres Vedras

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O DUELO FINAL – por Jaime Vaz Brasil

Basil Rathbone and Tyrone Power , no filme “The Mark of Zorro”, dirigido por Rouben Mamoulian

No porão, esperávamos o Águia. Atrasado, como sempre. Mas viria, cedo ou tarde. Viria com o nariz erguido, a roupa surrada e a tatuagem no braço que lhe valera o apelido. Iniciamos sem ele. Raimundo Sanchez estava com aquele casaco que o deixava ainda mais gordo, e foi desenrolando devagar a planta, desenhada em papel de embrulho. Olhamos em direção à porta: ninguém nos observava. O esquema todo abriu-se ali, clareira em mato de silêncio. Domingues, o manco, questionava os riscos de cada etapa. Quando mostrávamos a ele a fronte encurvada do seu medo, tentava se defender:

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QUANDO A MADRUGADA JÁ NÃO EXISTE: SOBRE A PÓS-VERDADE por João Esteves

Ruído incomodativo às 3h30 da manhã: um vizinho põe a música num volume acima do permitido. Por enquanto, eu sei! Nas assembleias das democracias, sobre as quais me dizem ser o lugar cada vez mais antiquado, face aos desígnios do mundo de hoje – afinal as leis provêm de maiorias que nem sempre defendem o interesse da maior parte dos cidadãos – tem-se vindo a discutir, face ao aumento do turismo, a possibilidade de se alterarem as horas a partir das quais não se pode fazer ruído excessivo. Por outras palavras, tem-se vindo a discutir a possibilidade de “não haver horas para dormir”, favorecendo a ideia do mundo globalizado: a noite é todo o dia, faz Sol todo o ano. Continuar a ler “QUANDO A MADRUGADA JÁ NÃO EXISTE: SOBRE A PÓS-VERDADE por João Esteves”

O POEMA E O POETA – por João Rasteiro






Nossa memória sempre foi 
a memória dos monstros 
nosso enigmático testamento

Casimiro de Brito



I

O poema nunca estará morto,
não é sequer poema,
a ilícita quimera desejada, o ouro
imperceptível e consumado,
“o problema não é meter o mundo
no poema”; vislumbrá-lo inteiro,
desinquieto em auroras claras,
em giestas de espera, e só assim
na breve treva a veracidade
que emana do canto dos pássaros
em disperso azul, em alforria,
lhe permitirá agarrar o seu trémulo
verso, a singular oblação da rosa. Continuar a ler “O POEMA E O POETA – por João Rasteiro”

… E NEM SEQUER ME VISTE – por Joaquim Maria Botelho

Imagem de Florian Gerbaud

(inspirado em um poema de Olavo Bilac)

Viu-a só uma vez. De relance. Loura, luminosa, clara. Cabelos cacheados emoldurando o rosto de menina, um olhar perdido, que num primeiro momento parecia estar focado sobre ele. Mas foram segundos. Passou pela frente da casa, retardando um tanto a caminhada – quem sabe ela voltava para mais um ligeiro estar abandonada sobre os cotovelos, na janela da casa bonita, bangalô florido, da Rua dos Ingleses. Não veio. E ele não teve mais como se demorar pela vizinhança. Podia ser tido como um malfeitor que espreita as casas para de noite roubar. Preferiu ir embora. Continuar a ler “… E NEM SEQUER ME VISTE – por Joaquim Maria Botelho”

A ARTE E A ARTE DA PSICANÁLISE (PARTE I) – por Jorge Antônio da Silva

PARTE I

Os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais o nosso saber escolar ainda não nos deixou sonhar. No conhecimento da alma eles se acham muito a frente de nós, homens cotidianos já que se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência .

Sigmund Freud

A thing of beauty is a joy forever.

John Keats

A Psicanálise é fruto do entrecruzamento entre a literatura e a medicina, embaladas pela mitopoética grega em seu processo criativo multidisciplinar, a serviço da plural elucidação da interioridade humana. Esse singular saber que redimensionou a visão do sujeito em sua essência plurifacetada, também se valeu das escoras invetigativas de outros cientistas, cujas buscas metódicas e conscientes caminharam na mesma direção de Sigmund Freud (1856/1939). Instrumentalizada na arte da palavra, a Psicanálise percorreu seu resoluto caminho sob a crítica de detratores ao seu inventor que, dela subtraiu os próprios equívocos em constante processo de revisão nos anos em que viveu. Releitores e comentaristas formam um continuum de recriações teóricas mas as estruturas de sua edificação na história do pensamento remanescerá como verdade, enquanto existir o homem, tal a justeza em sua constituição argumentativa. A arte lhe vem como ossatura estruturante, como esteios colaterais. O segmento seminal da Psicanálise se estatui por uma tríade de personagens do tragediógrafo Sófocles (?/406 a. C).

Figuradamente, o mito trágico forneceu a chave interpretativa mestra da Psicanálise, o Édipo, em seu caráter simbólico matricial dos desejos amorosos e hostis do menino em relação à mãe. Na narrativa poética o herói de Tebas cometeu os dois mais hediondos crimes para a cultura clássiga grega; o parricídio e o incesto, temas básicos na constituição psíquica do homem. Essa singularidade dramatúrgica ilustrou e universalizou as estruturas basilares da Psicanálise. Diferentemente dos limites de outras mitologias que apenas justificam eventos inexplicáveis na natureza, a grega explicita com a beleza trágica do herói, deuses e titãs o espectro fundante da estrutura sutil regente do psiquismo. A arte está na raíz da arquitetura freudiana com temática mitológica de surpreendente capacidade elucidativa para a idiossincrasia humana.

A tragédia de Hamlet (1599/1601), o nobre dinamarquês permitiu a Freud diagnóstico assemelhado. Desta feita pela hesitação do personagem de William Shakespeare (1564/1616) em vingar o pai, morto por envenenamento pelo irmão Cláudio que, na sequência casa-se com a rainha. Entre a corrupção palaciana, a vingança, a traição e a moralidade, estão a loucura e o incesto.

De outro complexo homônimo da lenda, vem mais uma disposição analítica e estruturante de Freud; Narciso, a lenda do infeliz e belo jovem egóico que retrata a criança onipoente a tomar-se como objeto de amor. Incapaz de investir libidinalmente nos objetos do mundo, de si faz sua maior escolha objetal. Trágicas outras consequências podem advir desse desinvestimento, como atestam J. Laplanche e J. B. Pontalis.

Tal processo de desinvestimento do objeto e de retração da libido sobre o sujeito tinha sido já posto em relevo por K. Abraham em 1908 a partir do exemplo da demência precoce. “A característica psicossexual da demência precoce é o regresso do paciente ao auto erotismo […]. o doente mental transfere para si só, como seu exclusivo objeto sexual, a totalidade da libido que a pessoa normal orienta para todos os objetos animados ou inanimados que a rodeiam. (1986)

Michelangelo Merisi, o Caravaggio (1571/1610) realizou em imagem o mito apropriado por Freud, propondo a nova ténica de eliminação do fundo para realçar a luz e adensar volume ao motiv. Com isso criou a técnica do chiaroscuro ou tenebrismo. Seus focos intensos de luz produziram um lirismo transfigurado. Retratista do mundano impactou seus acerbos críticos, ao usar marinheiros, prostitutas e gente comum das ruas como modelos para santos. Modelava com os excluídos de seu tempo contrapondo sua prática pictórica dramática e lírica, ao caráter superficial dos modelos da nobreza.  Tornou-se o primeiro pintor reconhecido como barroco, antes mesmo da oficialização do estilo pela igreja.

A arte serviu-lhe de substrato por razões que Sigmund Freud explicaria ao longo de sua multifacetada produção textual. Embora não tenha deixado uma obra específica sobre a estética e suas relações com a psique, escreveu dois ensaios analíticos que indicaram uma diferente modelagem analítica enriquecendo a crítica estética. “O Moisés de Michelângelo” consagrou um inédito ordenamento valorativo às artes da visualidade (pintura e escultura) trazendo ao signo artístico mais que a potência reconstitutiva da obra em bases históricas e biográficas, sem a parcialidade de Giorgio Vassari (1511/1574), com “Le vite de’ più eccellenti pittori, scultori e architettori(1550), seguramente o criador da crítica e da historiografia da arte. Se, errou favorecendo os artistas florentinos se, inicialmente deixou de lado outros como Tiziano (c. 1473/1490//1576) o fez seguindo o figurino político da época e em defesa de interesses privados. Contudo, sua pesquisa é rigorosa e o livro o maior documento a serviço da história da arte de seu tempo.

Com imparcial agudeza, Freud sobrepôs conexões analíticas inaugurais à leitura da arte. Da escultura de Michelangelo Buonarrotti (1475/1564), exposta na Igreja de San Pietro in Vincoli (Roma) extraiu do personagem bíblico um dúbio átomo de segundo. Contrariamente ao consagrado entendimento de que Moisés prepara-se para a quebra das Tábuas da Lei por um impulso de ira, Freud o entende como já apaziguado, arrefecida a raiva após haver se dirigido ao seu povo. Sem sentimento de indignação ou rancor, preserva o estado de descanso dos que, já explodidos em imprecações, relaxaram-se apaziguados.

O problema que fascinou Freud foi o momento que Michelangelo escolheu para retratar Moisés. A tensão nas pernas sugere uma ação: o pé direito se apoia no chão e a perna esquerda está levantada de modo que apenas os artelhos tocam o chão. Freud se propõe uma questão: a ação estaria para se iniciar ou acabara de ser concluída; Moisés estava se levantando ou se sentando? Michelangelo representava Moisés em um momento de cólera pronto para quebrar as tabulas da lei, ou Moisés estaria contemplando o povo como um legislador divino que acabou de ver a Deus?

Moisés, por Miguel Angelo

Músculos rigorosos, robustos e o um olhar dúbio de ira e placidez, ineditismo sensual e másculo naquele rosto idealizado, retrato do grande ancestral divino de Freud que levou seu povo pelos caminhos miraculosamente abertos nas águas do Mar Vermellho. Dois raios de luz saem da da região frontal da cabeça de Moisés. Em hebraico antigo, chifre e luz tem a mesma grafia. Da mesma forma que Michelangelo tirou da pedra bruta a nova figura do ser do Humanismo, Freud amadureceu uma nova teoria que foi assentando desde seu primeiro hábito intelectual infantil, o de registrar os sonhos pela manhã.

Seu tempo foi de revoluções pensamentais. Albert Einsein (1879/1955) relativizou o cosmos, Karl Marx (1818/1883) produziu sua descomunal Teoria, partindo da prática para chegar à teorização, algo inédito desde o idealismo platônico com sua poética fluidez idealista. Paralelamente, Mihail Bakhunin (1814/1876) propôs o fim das instituições que sustentam a ordem coletiva humana. Família, escola, governo e propriedade não mais. Apenas um novo homem livre de interditos da cultura, da fé e da educação oficial. Mais que impressionar-se com a monumentalidade criativa, Freud impactou-se com o efeito que o grande feito artístico é capaz: causar espanto. A vividez e os sentimentos aparentes que saíram dos cinzéis de Michelangelo levaram-no à produção do texto, em um área para a qual se dizia pouco capaz.

“Em 1913, ao longo de três semanas solitárias de setembro”, escreve, “detive-me diariamente na igreja diante da estátua, estudei-a, medi-a, sondei-a, até que me veio a compreensão que só ousei expressar no papel anonimamente” (Gay, 293). A figura monumental ostenta na fronte os cornos místicos, que representam a luz que veio a Moisés após ver Deus. Michelangelo figurou Moisés como um velho forte, robusto, imponente, com uma barba fluindo como um rio, a qual ele segura com a mão esquerda e o indicador direito. Moisés está sentado, cenho franzido, olhando severamente à sua esquerda, com as tábuas da lei sob o braço direito.

A obra de arte opera o âmbito de descobertas subsidiárias, na forma de jogo entre a sensibilidade e a razão. Jogo, a que Friedrich von Schiller (1759/1805) credita a gratuidade, uma vez que um jogador busca a superação do outro para concluir uma satisfação que dividirão como se as emoções gestadas pela expectativa fossem deslocadas para uma confraternização pessoal dirigida por uma metafísica do prazer. Há imprevisibilidade na ação lúdica (brincar/jogar) a que se pode chamar de acaso. Este surpreende e não responde afirmativamente com o esperável. “A criança, é verdade, brinca sozinha ou estabelece um sistema psíquico fechado com outras crianças, com vistas a um jogo, mas mesmo que não brinque em frente dos adultos, não lhes oculta seu brinquedo.” (2006: 136/137) ).

Para Freud há dois constituintes no jogo estético, expresso na forma de relação entre o fruidor e a obra. Se, pela contemplação chega-se ao gozo estético, um prazer libidinal satisfez a algum desejo inconsciente. Quando a obra de arte opera a fantasia e o enlevo torna-se irreal, atuando como intermediação. Como se algo em si permitisse o vagar impreciso da consciência e a expansão indefinível dos sentidos, sem que o seu interlocutor sinta os limites da censura. Livre dela e da alteridade do mundo experimenta.

”um sentimento imediato e presente das coisas, sem nenhuma relação com outros fenômenos do mundo. […] É o modo de ser daquilo que é tal como é, positivamente e sem referência a outra coisa qualquer (CP, 8.328). É a categoria do sentimento sem reflexão, da mera possibilidade, da liberdade, do imediato, da qualidade ainda não distinguida e da independência”. (CP, 1.302, 1.328, 1.531).

Aplicada essa descrição ao soma artístico, entende-se o reflexo infinitesimal da obra no inconsciente, na medida em que ela é percebida como um “fenômeno”; ou seja, aquilo que afeta os sentidos apresentando-se à consciência em unicidade, indivisa, intangível, plena em seu estado de continuum e liberdade. Para Santaella, comentando a Fenomenologia de Charles Sanders Peirce (1839/1914), a primeira categoria do lógico americano (Primeiridade) guarda íntima relação com as estruturas psíquicas de Freud.

Apesar de não restringir consciência à razão, isto não significa que Peirce menosprezasse a razão. Sua lógica, aliás, se propõe como sendo um método científico para orientar o raciocínio. Sua lógica se estrutura, portanto, como a criação de instrumentos científicos para auxiliar e ampliar o poder da razão. Contudo, sua noção de consciência é ampla, dinâmica, em alguns aspectos próxima dos estudos da estrutura psíquica em Freud e mais próxima ainda da noção de consciência que as atuais pesquisas do cérebro estão nos dando.

Dessa indiferenciação resulta a recepção inconsciente, conjuntiva, dilatada e profunda, tangenciando significantes reprimidos, como os que aparecem nos sonhos para satisfazer desejos incólumes. João Frayze Pereira faz aguda análise do texto freudiano Escritores Criativos e Devaneios naquilo que conjuga o desejo, o prazer libidinal e o jogo.

O objeto plástico, enquanto construção muda e visível, situa-se no espaço de realização imaginária do desejo. E é nisto que reside a função da arte, conforme aparece no ensaio Escritores criativos e devaneio (1908), quando Freud distingue dois componentes do prazer estético: um prazer propriamente libidinal que provém do conteúdo da obra à medida que esta nos permite realizar nosso desejo (o que fazemos por identificação com o personagem ou com algum elemento do assunto tratado na obra) e um prazer proporcionado pela forma ou posição da obra que se oferece à percepção não como um objeto real, mas como uma espécie de brinquedo, de objeto intermediário, a propósito do qual são permitidos pensamentos e com condutas com os quais o espectador pode se deleitar sem auto-acusações nem vergonha.

O mesmo gozo tem o artista com a surpresa de seu feito. Michelangelo surpreendeu-se e explodiu “Parla Moise! Parla!”. Esse encantamento expansivo do criador prenuncia um diálogo com sua criatura, que viria a inspirar um arrebatado Freud com seu inexaurível manacial de descobertas no âmbito da criatividade pura, a que ressignificou discursivamente com sua leitura. Ao indicar ao analista renovadas interpretações, o Moisés corrobora Umberto Eco (1932/2016) que, em sua Obra Aberta demonstra que quanto mais questões são postas pela obra de arte com seus mistérios incognoscíveis, tão mais aberta é sua possibilidade de gerar sentidos e ressigificações no discurso fruidor. Las Meninas, de Diego Velazquez (1599/1660) desde quando assinada em 1656 pelo Mestre pintor da corte continua interrogando sobre aquela que poderia ser apenas uma cena corriqueira nos aposentos do Real Alcazar de Madri. Velázquez compôs uma teia significante cujo sentido é a dúvida. Estaria o maior artista do Século das Luzes espanhol retratando Felipe IV e Mariana, conforme vistos no espelho ao fundo? Ou na grande tela a esquerda estaria reproduzindo a figura de um espectador ausente?

A dúvida sistemática aplica-se aos nossos sentidos imperfeitos, incapazignificada pelo sujeito como algo externo, em constante intrusão persecutóriaco com intensos conteúdos sem contornos que desestabilizam seu equilíbrio psíquico.

(continua na próxima Edição…)

♦♦♦

Jorge Antônio Da Silva Jornalista, Psicanalista, Crítico de artes e curador. Mestre e Doutor em artes pela PUC-SP. Membro associado á APCA  Associação Paulista de Críticos de Artes. Autor de Arte e Loucura, Arthur Bispo do Rosário (EDUC/FAPESP), O Fragmento e a Síntese (Editora Perspectiva), Naïve Painters Brazil (Empresa das Artes), Wega Nery (Pantemporâneo), Jornalismo Cultural: Apontamentos, Resenhas e Críticas em Artes Plásticas (Pantemporâneo), Enriquestuardoalvarez (Trama Editorial / Quito / Ecuador). Consultor ad hoc da FAPESP Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo. Docente no curso de Letras, Artes e Mediação Cultual da UNILA – Universidade Federal da Integração Latino Americana. Docente permanente no Programa de Pós Graduação do Instituto de Integração Contemporânea da América Latina – ICAL.

TRIPÚDIO – por Luís Costa

Die Geburt des Dichters

Nunca pensei, sonhei ou desejei ser poeta
durante toda a minha juventude em vez dos livros ou da poesia
sempre preferi brincar aos índios e cowboys
ou assaltar ao meio da noite os laranjais
e os galinheiros dos vizinhos, ou ainda espreitar a vizinha,
quando esta se despia para fazer amor
e masturbar-me, masturbar-me (sim, sempre houve em mim
um gosto nato pela transgressão)

pergunto: poderá a fome de poesia ser explicada
cientificamente, será talvez uma herança genética?

que eu saiba entre os meus antepassados
nunca houve poetas, nem artistas, nem sequer homens cultos
houve, isso sim: assassinos, carrascos, esfoladores,
prostitutas, concubinas, mulheres obscuras e violentas
videntes, hipnotizadores de serpentes
também padres, mártires, santos e, sobretudo…
ah! sobretudo: loucos!

sim, entre os meus antepassados constam-se vários loucos
e confesso que também eu, por vezes, enlouqueço.

já passei alguns anos numa psiquiatria
porém todos os meus psiquiatras (foram muitos.
alguns deles suicidaram-se. outros enlouqueceram.)
dizem que a minha loucura é uma lúcida loucura.

vá lá saber-se o que é uma lúcida loucura,
mas talvez tenham razão, talvez a poesia seja um caso
de lúcida loucura.

English Garden

Aquele cadáver que plantaste o ano passado
no teu jardim já começou a despontar?
dará flor este ano?

                                                      T.S. Eliot

Foto de Paulo Burnay

Morreu no outono, um outono translúcido
como o da poesia de Trakl.

conforme o seu último desejo foi enterrado ao
canto mais belo
– onde crescem a rosas de Shakespeare –
do seu tão amado jardim,
o English Garden
onde costumava ler e escrever,
ler e escrever
até que os olhos lhe doessem de alegria.

enterraram-no com uma mão de fora
para que quando chegasse a primavera desse flor
e as andorinhas lhe cagassem em cima.

Realeza

Foto de Paulo Burnay

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
e chama-me teu filho
  Fernando Pessoa

O corpo (um odre de carne malcheiroso)
Mas ainda bem modelado

A ferida costurada
Os genitais encolhidos
O incenso subindo dos turíbulos
Aos brados

Assim lhe despiram a realeza
Assim regressou à noite antiga e calma.

La beauté

Je suis belle, ô mortels ! comme un rêve de pierre
Charles Baudelaire

Há uma tremenda beleza naquelas mãos grandes e peludas:
porquanto manejam habilmente os bisturis
que são astros cintilantes na podridão das vísceras.

Foto de Paulo Burnay

Elogio da loucura

Ao meu tio José (1940 – 1999)

O meu tio José, o louco. vejo-o
deambulando pelas ruas ao deus dará
sem outro destino que não seja deambular.

um Kentucky ao canto dos lábios.
o chapéu amarrotado…

o tio José, alto e elegante
como muitos dos homens da beira alta.
os olhos tão azuis… tão azuis…
quase germânicos.
lá dentro, o céu. não o céu de deus,
pois um louco não precisa de céu,
nem de deus, pois um louco não precisa
redimir os seus pecados.

mora na noite da luz. isento.
como as aves.

 Ressurreição

Luís Guerra e Paz

Depois do dilúvio
por entre as barcas e as casas submersas
onde agora o hálito de Deus mora
com a perna amputada às costas
regressou da morte

pois dizem que Deus não gostou do seu cheiro.

♦♦♦

Luís Costa escreve poesia e mais algumas coisas. Nasceu na sexta-feira santa de 1964. Tem alguns dos seus trabalhos publicados em revistas digitais como a Triplov e a Zunái, tendo também colaborado no primeiro número da revista internacional de surrealismo Debout Sur L’oeuf. Para além disso, pouco há a dizer. Ah, diz que a biografia do poeta é a sua poesia, pois, a seu ver, fora do poema o poeta não existe. Escrever poesia é para ele uma questão de ira e amor: uma violência amorosa. E também o contínuo suicídio do eu para que a obra se faça.

ODE FASHION – por Paulo Soares

Há novos desvarios no desalinhado armário da alma do poeta! Na peregrinação inócua de um centro comercial impróprio para consumo, calçou nos pés da mente um par de botas. Sapatos de essência negra, que em passos largos o levarão em sonhos aos caminhos da velhice. Sim, em sonhos e apenas neles! Na realidade, os bolsos que enfiou nas últimas calças, adquiridas na feira da balbúrdia, continuam sem fundos…

Nesse sonho agitado arranca da cama o espírito sisudo e agarra com força uma janela. Pelo vidro escancarado avista os jardins da noite e ouve. Escuta no breu os muitos meninos que ali brincam e espreitam. No queixume breve contam mimos ao escriba/sussurram-lhe ao ouvido beijos quentes trocados na copa das árvores, essas sequóias impenetráveis que já ali não estão, que alguém arrancou num ápice…

Em histeria pela ausência dessas sombras que lhe mentiam e o amedrontavam o poeta canta, salta e gesticula em gritos lancinantes e irreflectidos. Há sem dúvida novíssimos desvarios nesse singular Armário Fashion! Ode inesquecível a um roupeiro ultramoderno no qual se desarrumam em desordem camisas brancas de bolinhas pretas, camisas pretas de bolinhas brancas, casacos de fazenda azulada e cinza, camisolas grossas de uma gola alta impenetrável e muitos pares de botas. Sapatos negros e caros, de um plástico refinado que o fazem sentir mais jovem e cada vez mais belo, afastando-o irreversivelmente dos olhares rugosos e implacáveis da velhice…

Foto de Luís Guerra e Paz

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Paulo Soares nasceu em 1970, em Moçambique, na antiga Lourenço Marques, atual Maputo. “Escriba” desde que se conhece, é formado em jornalismo pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Exerceu funções como jornalista durante dez anos, no Jornal “O Primeiro de Janeiro”, colaborando em suplementos como “Artes e Letras”, publicação dedicada à cultura.

Participou com alguns textos poéticos nas páginas da Revista “Palavra em Mutação”. Escreve textos em prosa poética, não esquecendo o universo da literatura infantil. Tem alguns textos dedicados aos mais pequenos, realizando também workshops de jornalismo pensados para esta faixa etária.

A LUZ EM NÓS – por Rita Vargas

Foto de Luís Guerra e Paz

O relacionamento interpessoal é, talvez, das coisas mais importantes que temos de desenvolver ao longo de toda uma vida. O que muitas vezes não nos apercebemos é que, quando interagimos com alguém, temos uma escolha a fazer: afectar positivamente ou infectar negativamente o seu estado emocional.

Na maioria das pessoas, há uma intenção consciente de motivar, apoiar, entusiasmar, acarinhar, influenciar (…) positivamente cada uma das pessoas com quem se cruzam no caminho. Mas algures nessa jornada essa intenção perde-se.

Nas situações de stress e de conflito, nos cafés, no trânsito, na fila do supermercado, nos telejornais, nos programas de “mal dizer”, e mesmo no seio da família e no círculo mais próximo de amigos, assistimos a verdadeiros campeonatos de desencorajamento, de pessimismo e descrença.

São verdadeiras disputas, onde sistematicamente nos comparamos a outros e onde imperam a crítica, o ataque e a acusação constantes. E neste apontar de dedo, esquecemos muitas vezes de focar, não no problema, mas nas soluções e na disponibilização de recursos para aceder à realidade alternativa que gostaríamos de ver acontecer.

As pessoas queixam-se com frequência. Por tudo. Por nada. E ouvimos a todo o momento “é complicado” e “é melhor não arriscar”. E com isto, deixamo-nos infectar. A vontade mirra e a nossa luz interior vai-se apagando aos poucos.

Afastamo-nos mais e mais do nosso propósito, das coisas que nos dão prazer, do que mais tem significado para nós, dos nossos talentos pessoais e inatos mas, sobretudo, afastamo-nos da nossa essência. E quanto mais afastados da nossa verdadeira essência, maior é a nossa necessidade de aprovação pelo outro e maior é a nossa sensibilidade à crítica.

Aquilo em que nos focamos é, de facto, o que determina a nossa realidade. E, lentamente, fomo-nos focando no outro em vez de em nós, nos erros e nas falhas em vez de nas conquistas, nas áreas de melhoria em vez de nos êxitos e talentos. Passámos a infectar.

Jardel era um excelente goleador. A sua área de melhoria seria a defesa. Mas, por muito que treinasse, Jardel jamais seria tão bom defesa. E neste focar na sua área de melhoria, desperdiçamos todo um talento. Talento esse que, em conjunto com um excelente defesa, daria com certeza a melhor das equipas.

Fazemos isto nas empresas. Fazemos isto também com os que nos são mais próximos. Desaprendemos a procurar o melhor no outro e a impulsionar essa luz que brilha em cada um de nós. E de pirilampos, passamos a noite sem lua.

Mas porque a luz não é só das ruas de Lisboa, nem do sol, nem só das velas ou das frinchas das janelas, convido-o a deixar-se afectar. Deixe-se afectar pelo sorriso, pela boa disposição. Deixe-se afectar por lugares de magia, por filmes emocionantes e músicas cheias de energia. Deixe-se afectar pelo melhor dos outros e por pessoas inspiradoras que acreditam em si quando você duvida.

Somos todos valiosos e únicos. Só temos de redescobrir essa luz que brilha em nós e reaprender a expressá-la. Mostre os seus talentos, exprima os seus desejos, afirme-se como é e sinta-se orgulhoso dos seus erros. Espalhe a melhor versão de si mesmo e afecte.

Afecte todos os contextos onde opera e todas as pessoas com quem interage. Contamine. Faça magia. E de noite sem lua, volte a ser pirilampo, em noite outrora escura.

Rita Vargas é Karateca desde os 4 anos, licenciada em Ciências da Comunicação e especializada em Direito da Comunicação. Profissionalmente, percorreu os caminhos da Indústria Farmacêutica nas vendas e no Marketing.

Certificada internacionalmente como Master Practitioner em Programação Neurolinguística e como Coach International da ICC. Formada em áreas tão diversas como o Reiki, a Cristaloterapia e a Quiromancia. Sob o lema “Coaching The Heart ®”, tornou-se orientadora de desenvolvimento pessoal, especializando-se no “Coaching de Afectos Ò” e nos Relacionamentos.

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COLAGENS DE RODIA IBAVEDA

RODIA IBAVEDA

(Chile, 1985).

Poeta e colagista. Fundador do grupo surrealista chileno Agartha. Atualmente trabalha na publicação de um livro de poesia automática intitulado: “Funda-Mental: Aprenda Rádio em 15 dias”, escrito em parceria com o poeta Braulio Leiva (1979-2014). Além disto trabalha conjuntamente com o poeta mexicano Alejandro Rejón em um livro de escritura experimental, “Suma-Espejismo”. Publicou poesia nl blog do grupo surrealista Derrame e nas revistas “Marcapiel” (da qual é colaborador permanente), “Aquarellen” e “Matérika”, dentre outras. Foi incluído na Antologia Absoluta da Poesia Chilena, organizada pelo poeta Rodrigo Verdugo Pizarro. Juntamente com o poeta Mauricio Chase dirige o blog literário “Manos desde el Estigia”.

Rodia Ibaveda:

(Santiago, Chile, 1985). Poeta y collagista. Fundador del grupo surrealista Agartha de Chile. Actualmente trabaja en la publicación de un libro de poesía automática “FUNDA-MENTAL: Aprenda radio en 15 días”, que escribió en coautoría con el poeta Braulio Leiva: (Viña del Mar, 1979-2014) y trabaja junto con el poeta mexicano Alejandro Rejón en el libro de escritura experimental “SUMA-ESPEJISMO”. Ha publicado poesía en el blog del grupo surrealista “Derrame” y en las revistas Marcapiel (en la cual es colaborador permanente) Aquarellen y Matérika, entre otras. Fue incluido en la Antología Absoluta de la Poesía Chilena por el poeta Rodrigo Verdugo Pizarro. Dirige junto al poeta Mauricio Shade el blog literario “Manos Desde el Estigia”.

DE VOLTA AO CAMPO DE CENTEIO, por Uili Bergammín Oz

Coisa engraçada a terra de nossa infância! Por mais que nos distanciemos, por mais que viajemos o mundo e conheçamos lugares fabulosos, jamais esquecemos dela. É o caso do meu campo de centeio, um cantinho escondido de Cotiporã, bucólica cidadezinha do interior. Sim, é lá que me refugiei durante anos, para recarregar as baterias, como gostava de dizer.

Mas, apesar dessa saudade que entra pela janela, não é sobre minha terra que desejo escrever agora. Ou, pelo menos, não dela propriamente dita, que o problema maior nestas artes de escrever é que lembrança puxa lembrança; e a saudade é um veneno para a folha branca. É sobre sonhos antigos que quero escrever hoje, a maioria deles, creio, mortos e enterrados por aqueles prados.

Quando eu era mais novo, piazote ainda, acreditava que o trovão é que matava e provocava estragos. Sim, eu acreditava em muita coisa. E foi por essa época, de inocência, se é que um dia inocente fui, que brotaram algumas aspirações. A época de Salinger, com seu maravilhoso livro “O Apanhador no Campo de Centeio”, seu estranhamento do mundo e ideais camuflados, que fez nascer em mim uma vontade de mudar o mundo. O mundo não, só o meu cantinho, que o mundo era grande demais para mim.

O fato, porém, é que pouco consegui mudar minha terra. Para ser sincero, pouco consegui mudar à minha volta. Pouco mudei, a não ser a mim mesmo. E foram dias difíceis aqueles, pois fui o que todos fomos na juventude: revoltados, incompreendidos, nos achando melhores do que os adultos, pois ainda não éramos tão ridículos. E eu era mesmo diferente, não sentia entusiasmo onde outros vegetavam cada fibra de seus seres. Entristecia-me a banalidade humana e o fato de estarmos caminhando rumo ao abismo, sem nos darmos conta. O fato de eu estar deixando o território mágico da infância e me lançando na vida adulta, onde dificilmente seria feliz. Essas coisas me preocupavam deveras.

Mas, como tudo que começa um dia acaba, desvaneceu-se também meu mundo utópico. Tudo são fases, dizia o poeta. Hoje, só de vez em quando lembro do antigo refrão: “Por favor, não me obriguem, eu, rapaz quadrado, a passar por buracos redondos”.

 Sim, hoje sou homem e aprendi que o que mata é o raio. Que o trovão nada tem a ver com os estragos e, se tem, é uma relação distante, apenas sensacionalismo. O que eu chamava “pacto de mediocridade” é um mal necessário e chorar pelo sofrimento alheio pode não ser hipocrisia, mas de nada resolve.

Entretanto, às vezes, “ah que saudades eu tenho da aurora de minha vida.” Quem dera nesse mundão que agora finjo ser meu, houvesse ainda um cantinho onde eu pudesse lembrar, onde eu pudesse ser. O velho campo de centeio à beira do precipício, onde eu pudesse outra vez salvar o mundo e as crianças e a mim mesmo.

Ora, ora, vejam só as tolices que torno a dizer! Parece que começo a acreditar em trovões novamente. Parece que Holden, o anti-herói do livro, renasce das cinzas, sussurrando em meu ouvido a iminente coisificação do humano, o despencar definitivo. E as pessoas ao meu redor apenas me olham e sorriem, de pena ou coisa parecida.

Coisa engraçada a terra de nossa infância. Por mais que nos distanciemos, nunca esquecemos dela. Nem dos sonhos realmente legítimos.

Uili Bergammín Oz é escritor, poeta e palestrante gaúcho. Já escreveu mais de 20 obras, entre contos, crônicas, poemas, novelas, adaptações e traduções.  Colaborou para jornais e revistas da Serra Gaúcha, além de ter apresentado programas de TV, sempre falando sobre leitura. Atualmente é apresentador do programa LiteraCura, canal do YouTube que estreou em janeiro de 2018. Seus textos já foram adaptados para o cinema, teatro, música, artes visuais, espetáculos de dança, corais e outros suportes artísticos. 

Viagem a Andara oO livro invisível de Vicente Franz Cecim

Viagem a Andara oO livro invisível

Fonte dos que dormem

 

POEMAS

se o Adormecido um dia vem à tona

 

Suspeita de ti
o Outro

que em Ti
ainda é Semente

Lagos serenos te prometem Assombros

Ouve

 

o Silêncio

sob a Estrela de Silêncio

pois tendo Eles vindo,

com Suas Presenças de Ausência em Breve,

 

para a Fenda que não cicatriza entre Pedra e Musgo

para os Gestos humanos na Penumbra,

Foto de Paulo Burnay

eu os chamei Pai e Mãe

Mai e Pãe pudesse ter Chamado,

pois seus Nomes nunca saberei,

na Fenda que não cicatriza,

nos Gestos, na Penumbra

 

Fontes se dando às sedes de Outras Fontes

 

Pois somos os que um dia vêm com dia marcado para voltar em nossas Frontes,

em bandos em bandos nos Musgos nos Musgos

Inclinados pelas Auroras

Indo

 

atender às Sombras nos Crepúsculos

Foto de Paulo Burnay

E tu buscas a Semente, e o Dom de voltar para casa, e por onde passas, por toda parte perguntas

  • Onde moram os Espelhos da Carne¿

 

Rubro sentimento lento

desamparado

fora do Mistério

 

na Catedral rompida

como se fosse um homem, e crendo Nisso

Cálice de Vestígios,

sede do Lábio dos Regressos

Das Auroras ao Crepúsculo do Imerso, na penumbra dos Dias

 

aguarda                     Margem que desperta,

 

oO que de Si adormece

 

parecem homens

 

Cortaram árvores para ter onde sentar

E agora,

da areia olham as Águas até o horizonte

 

Querem ver o que há depois da última estrela

Sentem o roçar de mãos Antigas se desfazendo

Foto de Paulo Burnay

parecem tristes

 

Estão aí

Calados     Cada um ouvindo

em Si

sua Concha de Silêncio,

 

sua Areia dos Rumores

 

Sentem a Falta de alguma coisa,

já não lembram o que é

 

E eu te digo

 

Não se trata

de ir Além do humano

 

oO Caminho cintila no inverso

vir

 

Aquém do humano,

regressar ao umanoh

 

E, assim,

ao Um,

ao Umano

 

se um Vento parte o Vaso da voz

adormecido agora

águas escuras

alguém alvura amizade das coisas

animal anjo Aquilo

areia árvore asas aves

beber

no Bosque das paixões Bosque sem paixões brancas brisas caminho a carne casinha de terra centeio negro o céu

Chamas cílios cinzas de Serdespanto

As coisas pelas coisas os dias Compaixão Corpo crianças

daquele despertar

Diz-se dorsos lisos

escreve Esfera espanto estranho mundo Fábula

Falar sem boca floresta Andara fontes frutos fundo gaiola grão homem de pó homem sem ternura homens imensos

inclina inseto intuição

irmã irmã-ave de Serdespanto canta lábios lágrimas leve livro invisível lua sangrando

madeira mãe de Serdespanto

montanhas murmuram

nascido negro negra nela ninguém ninho nome

osso Pai ossos Ouçam

ouvindo palavras pântano pranto passando
perguntas pousar no leite real saber sangue das estrelas seiva semente serpente silêncio sombra sonho

tinta Invisível

tocam túmulo Vento e passagem vindo viram vivendo
voltassem

Foto de Paulo Burnay

*Poemas selecionados pelo autor, do livro Fonte dos que dormem (Editora Córrego, 2015, São Paulo, Brasil) de Vicente Franz Cecim, escritor brasileiro. Cecim nasceu e vive na Amazônia, e o livro é o mais recente passo publicado de sua obra Viagem a Andara oO livro invisível.

Vicente Franz Cecim é brasileiro, escritor e jornalista. Autor do ciclo literário Viagem a Andara oO livro invisível, no qual há mais de trinta anos transfigura a sua região natal, a Amazônia, em Andara, região verbal metáfora da vida, onde ambienta todos os seus livros. Dos livros visíveis de Andara, os que escreve, emerge o livro invisível, que não escreve, literatura fantasma, segundo o autor, o não-livro, que não é escrito: corpo de um corpo que se sonha. Pela Viagem a Andara recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Apca – Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1988. Já foram publicados também em Portugal os livros de Andara: Ó Serdespanto (Íman, 20012) e K  O escuro da semente (Ver o Verso, 2005). Sobre o primeiro, Eduardo Prado Coelho escreveu no Público: Uma revelação extraordinária! (…) O pensamento liberta-se dos seus lastros terrestres e ganha um estatuto de ave, uma leveza de princípio do mundo, uma sageza do fim dos séculos, uma inocência dos extremos. O que faz de Ó Serdespanto um livro inclassificável é que ele é feito do círculo crepitante das histórias que se contam e recontam, do uso visionário das palavras refeitas letra a letra ou a da lenta respiração da terra. E sobretudo de uma demorada aprendizagem do espanto de ser e de não-ser.