EXCERTO DE “BREVE É TODA A VIDA”- por Artur Manso

Para uma pedagogia da morte e do morrer.

A questão

Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.

Séneca 

As décadas finais do século XX introduziram a sociedade ocidental em uma nova relação com a morte, atitude que se veio a extremar ao longo do primeiro quartel do seculo XXI onde a máxima de Confúcio “aprende a viver como deves, e saberás morrer bem” parece ter sido compreendida de forma defeituosa. O que se passou para

os seres humanos deixarem de se integrar no todo da existência que implica despedidas e recomeços, encontros e desencontros que nos enlaçam e nos dão ânimo, deixando cada individuo de consentir como referia Victor Hugo que a “vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace”. O tema da morte sempre foi de relação difícil nas sociedades originando reações contraditórias entre aqueles que com ela se deparam, os sobreviventes à morte dos outros. Na verdade, mesmo que nunca se tenha apresentado como uma questão suficientemente resolvida, havia uma relação, ainda que silenciosa, de proximidade com ela. As mortes e os funerais eram partilhados pelos mais próximos e pela comunidade, onde os membros de todas as idades participavam. Com o sucesso da sociedade da abundância e do multiplicar dos traumas artificiais que as ciências sociais ajudaram a instalar na vida quotidiana, com o triunfo das neuroses entre a comunidade dos humanos, começou a atribuir-se à morte um lugar central nessas perturbações e portanto em vez de ser partilhada como vinha sendo, passou a ser escondida, dizendo-nos os terapeutas, que para beneficio da saúde mental de cada um. A consequência mais direta foi o progressivo afastamento dos mais novos, crianças e adolescentes, dos funerais com medo dos nefastos efeitos psíquicos que no futuro se haverão de manifestar e o recurso aos clínicos que a escola vai formando para enquadrar estes acontecimentos não parou de aumentar. Como refere Byung-Chul H.

A mera vida saudável, que hoje assume a forma de uma sobrevivência histérica, converte-se no morto, naquilo que, à falta de vida, também não pode morrer. É assim que hoje estamos demasiado mortos para viver e demasiado vivos para morrer (Han, 2016: 58).

No tempo que é o nosso onde o Estado tomou por completo conta da organização da vida civil naquilo que lhe é mais intimo, os equívocos acerca da morte e do morrer também são devedores da falta do tratamento da mesma nos sistemas educativos que, no mundo ocidental, obrigam as crianças e os jovens a uma exposição diária obrigatória durante muitos anos. Para quase todos os aspetos da vida o Estado de inspiração democrática tem vindo a providenciar um manual com as regras de uso, não permitindo que a abordagem aí exposta seja contraditada, pois se o for irá acarretar sérias consequências para os infratores. Por outro lado, como as famílias não têm tempo para dedicar aos filhos, pouca atenção dispensa às diretrizes emanadas pelas autoridades e postas em prática nos estabelecimentos educativos que controlam na totalidade. Os Estados enquanto pagadores, atribuem-se o direito de decretar o que deve ser uma atitude correta e um comportamento censurável, mesmo que ao arrepio do bom senso e do progresso da ciência, em total dissonância com os ensinamentos da sabedoria antiga que não raro refere que “quanto maior o saber, maior o sofrimento; e quanto maior o entendimento maior o desgosto” (Ecl. 1, 18). Temos hoje uma realidade impar ao olhar a morte uma vez que os mais jovens são afastados dela, mesmo que também estejam sujeitos a ela a todo o momento e os mais velhos não sabem como os integrar nesta vivência, pois também eles deixaram de assistir os mais próximos no morrer. Nos tempos que correm a morte é ocultada em consequência de as sociedades ocidentais terem extremado um racionalismo ateu que nega as metáforas do lugar às crianças e aos adultos, como acontece com o simbolismo que passou a merecer censura mesmo na recorrente analogia que cada morto brilha no firmamento, em uma qualquer estrela. A narrativa aceite é apenas que o ser humano sendo matéria, haverá de se tornar pó e nada mais. O espírito, que espírito? Quimera que o medo alimenta! Afinal como refere Fernando Pessoa “A morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto”. Não ser visto, mas podendo ser olhado.  Há exceções como a que presenciei recentemente num velório onde entrou uma jovem mãe de mão dada com a sua filha que rondaria os 10 anos. Enquanto a progenitora conversava com familiares do defunto, a menina ia acariciando o corpo frio que jazia no esquife. Logo esse comportamento causou estranheza a alguns dos presentes e sendo a sua mãe advertida para o comportamento impróprio da criança, serenamente lembrou aos presentes que essa era a prática habitual e natural da menina em situações semelhantes. Na verdade, durante séculos as crianças puderam participar em diversas etapas da morte, tanto mais que os indivíduos morriam e os velórios ocorriam nas habitações onde também residiam as crianças da família. Como poderá, então, quem é educado num afastamento consentido da morte, pronunciar-se com tanta certeza sobre ela? Vale a pena realçar a visão de Freud (1856-1939) sobre o assunto, ele que foi o fundador da psicanálise, um dos saberes que a contemporaneidade mais destaca na análise dos interditos com que temos que lidar. O psicanalista de Viena nas primeiras décadas do século XX já constatava que os povos ocidentais se sentiam desorientados e perturbados ante a atitude, que até então costumava ser de alguma tranquilidade, perante a morte:

Temos uma tendência patente para prescindir da morte, para eliminá-la da vida. Tentámos silenciá-la; temos até o provérbio: pensamos em algo como na morte. Como na própria, claro está! A morte própria é, pois, inimaginável, e todas as vezes que tentamos [fazer dela uma ideia] podemos observar que, em rigor, permanecemos sempre como espectadores. Assim, foi possível arriscar na escola psicanalítica esta asserção: no fundo, ninguém acredita na sua própria morte ou, o que é a mesma coisa, no inconsciente, cada qual está convencido da sua imortalidade (Freud, 2009: 19)

No século XX o termo inconsciente surge em substituição da palavra espírito em Freud, Adler, Jung e outros, mas essa associação começou a aparecer séculos antes em autores como Leibniz (1646-1716), o médico Carl Gustav Carus (1789-1869) e Karl Eduard von  Hartmann (1842-1906). No que diz respeito à morte dos outros o homem educado falará com todo o cuidado se aquele que está para morrer o puder ouvir, comportamento que as crianças não conseguem manter por terem da morte uma imagem diferente da do adulto, falando dela com naturalidade, programando comportamentos para o facto de isso acontecer em claro desconhecimento daquilo que ela realmente representa. Falar da morte com aquele que está a morrer é desagradável exceto em relação aos que lidam com alguns dos seus aspetos como sejam os cuidadores e o pessoal de saúde. E a situação agrava-se ainda mais quando nos deparamos com a morte de um dos nossos próximos: pais, filhos, familiares, amigos, acontecimentos capazes de arruinar o mais intimo de nós mesmos. Aqueles que nos abandonam, levam uma parte de nós e deixam por cá um vazio labiríntico de que por vezes é difícil sair, pois uma parte dos nossos desejos são com eles enterrados e os seus lugares não voltarão a ser preenchidos:

Resta então apenas procurar no mundo da ficção, na literatura, no teatro, a compensação do que na vida minguou. Aí encontramos homens que sabem morrer, mais ainda, que conseguem também matar os outros. Só aí se realiza também a condição sob a qual poderíamos reconciliar-nos com a morte, a saber, a de que por detrás de todas as vicissitudes da vida nos ficou ainda uma vida intangível […]. No campo da ficção, deparamos com a pluralidade de vidas de que necessitamos […]. Morremos na identificação com um herói, mas sobrevivemos-lhe e estamos dispostos a morrer outra vez, igualmente indemnes, com outro herói (ib.: 21).

Freud já alertava para que o homem contemporâneo procurasse uma nova forma de se relacionar com a morte de maneira a integrá-la, como inevitável que é, no todo da sua existência. O sentimento da morte impregna o sentido da vida e por isso não pode ser ignorado nem sequer sublimado, devendo ser experimentado como um todo e assumido no seu dramatismo em que acaba por se desenrolar. A aceitação da morte torna mais tolerável o desenrolar da vida que é o primeiro dever de cada um, mas contraditoriamente mesmo aqueles que  são educados em uma dada religião que desde cedo os deveria ensinar a desprezar o mundano e a aspirar pelo dia da glória que a morte representa, a que se associa ainda o vigor de um dos mandamentos mais firmes nas sociedades, o não matarás, mesmo que a história da humanidade se confunda com a história da guerra e carnificina desenfreadas a ausência de uma reflexão séria e alargada sobre a morte e o morrer continua a ser um facto no tempo atual, sem se vislumbrar qualquer tendência em sentido oposto. Na opinião de Freud:

o nosso inconsciente não crê na própria morte, comporta-se como se fosse imortal. O que denominamos ‘inconsciente’ – os estratos mais profundos da nossa alma, constituídos por noções pulsionais – não conhece, em geral, nada de negativo, nenhuma negação – as contradições fundem-se nele – e, portanto, também não conhece a própria morte, à qual só podemos dar um conteúdo negativo. Por conseguinte, nada de pulsional favorece em nós a crença na morte (ib.: 28)

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Artur Manso nasceu no Outono de 1964, na aldeia transmontana de Izeda. É licenciado em Filosofia, Ramo Educacional, pela Faculdade de Letras da UPorto; Mestre e Doutor em Educação, especialidade de Filosofia da Educação, pela UMinho, onde, actualmente é professor no Instituto de Educação.

Investiga no campo da Filosofia da Educação, nas áreas da Ética e da Estética da Educação, bem como do pensamento pedagógico-filosófico português do século XX.

Livros Publicados:

Agostinho da Silva – Aspectos da sua vida, obra e pensamento (2000); Filosofia educacional na obra de Agostinho da Silva (2007); Para uma educação estética (2008); Contributo para o estudo da axiologia educacional de Manuel Ferreira Patrício (em colaboração) (2011); Manuel Laranjeira. 1877-1912 (2013); Amorim de Carvalho. Antropologia – Ética – Estética (2013); Para uma Nova História da Cultura em Portugal. O contributo da obra de José Eduardo Franco (2014); Ensino da filosofia em Portugal. Tradição e actualidade da formação (em colaboração) (2016); Escolas para quê? Ensaio sobre a pedagogia indolente (2017); A Revista de Educação e Ensino (1886-1900) no Contexto da Educação Nacional, (2015).

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