POESIA, PULSÃO E VIVA VOZ EM ANDERSON BRAGA HORTA – por José Pérez

 

Poeta Anderson Braga Horta

Podemos buscar a chuva na poesia maior de Anderson Braga Horta, o vento, as estrelas, a noite constelada ou o abismo; e ainda nos faltariam os fogos e o barro que fizeram o homem, a Humanidade, e o fumo, o húmus, as espadas, as facas, os milênios perdidos, o incerto parto do ano 2000 ―no advento do novo milênio―, o crematístico, as marcas dos animais, o ardor das brasa no sonho, a desesperada esperança de seu profundo olhar sobre a vida; mas sem coroas de reis e sem louros, pois sua poesia nos diz que “O homem que tem um sonho/ é maior do que o rei,/ é mais forte que o herói,/ é mais belo que o poeta”¹estendendo-nos um convite tão sublime e tão rico em seus signos de revelações da língua portuguesa que fica não apena descortês e destemperado, senão imperdoável e pecaminoso, perder-se o descobrimento e o gozo da obra poética deste grande autor da literatura brasileira contemporânea.

 Nasceu nosso poeta Braga Horta em Carangola, Minas Gerais, em 17 de novembro de 1934, mas a poesia e seus mistérios o chamam desde a infância, porque seus pais, Anderson de Araújo Horta e Maria Braga Horta, foram aedos, trovadores, bardos, homem e mulher de poesia, escritores líricos do universo; e esse tesouro o assaltou desde a adolescência. Mais tarde, radicado na cidade capital de Brasília, dedicou-se aos estudos de sua paixão ―as Letras―, paixão esta que nos revela em sua vasta e reconhecida obra de criação poética, entre cujos títulos figuram Altiplano e Outros Poemas (1971), Marvário (1976), Incomunicação (1977), Exercícios de Homem (1978), Cronoscópio (1983), O Cordeiro e a Nuvem (1984), O Pássaro no Aquário (1994), Dos Sonetos na Corda de Sol (1999), Pulso (2000), Fragmentos da Paixão (2000), 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (2003), Soneto Antigo (2009) e De viva voz (2012), entre outros.

Como tradutor, ensaísta e homem de leis, de lutas e de poesia, logo que deixa a Universidade do Brasil, pela qual se formou em 1959, o abrigam os grandes centros de encontros de poetas, estudiosos, críticos y acadêmicos de seu país, no Rio de Janeiro e em Brasília, para forjar uma atividade humanística tão intensa como séria, e exemplar, que o mantém hoje, nos seus 86 anos, em plena faculdade criativa; dono de uma voz, de uma pulsão lírica, em que o soneto o subjuga, e ele o converte em peixe brincalhão, retirando-o de entre as águas dos clássicos, soltando-o entre os enigmas mais profundos de seu idioma nativo, para o deixar no ar como um colibri floreiro; ilumina-o aos raios de velas coloridas, e o soneto se senta em suas pernas como um menino que brinca em nos iluminando, que nos canta se o lemos, que nos acalenta ao senti-lo.

  Em seu livro Altiplano e outros poemas (1971), escrito há já 50 anos, faz também do canto à vida, uma metáfora de ternura e bendição, quando o pai-poeta escreve para o filho Anderson e para a filha Marília seu testamento de esperança, seu desejo de amplo mundo, de terra de esperança.

CRIANÇA CHORANDO

                                               Para meu filho Anderson

Teu pranto abala as raízes da noite.
Tuas lágrimas reanimam a velha metáfora
e molham consteladamente o lençol.
Da obscuridade da tua fome
e do teu desamparo
clamas pelo dia, o teu dia,
quando fraldas e cueiros serão retratos esquecidos no álbum
e mamadeiras e chupetas te farão sorrir sobre outros berços.
Da noite do ventre materno saíste para a penumbra
e choras.
Tão pequeno e já franzes a testa.
Porventura sabes quanto pranto é preciso para fazer-se um homem
e te constróis impacientemente.

MINHA FILHA

                                   Para a Marília

Minha filha, tudo em ti é pureza,
mesmo o que em nós nos lembra
o charco original.
Merecias um madrigal,
não um poema lírico-triste,
cheio de vã filosofia.
Por ti, devera eu reencontrar a inocência.
Mas como ser inocente e lúcido?
Não, hoje não escrevo o teu poema.
Olho-te, avaro: meu amor é um lago
incomunicativo.
Te pego ao colo.  Choras.
Mudo-te as fraldas e adoro-te em silêncio.

Como sábio criador da palavra sentida, da vida cantada, Braga Horta tece no amoroso-doméstico uma íntima referência do conceito de família-país na qual a vida se dá como testamento de amor, de sacrifício, de verdade e de princípios. Seu norte o assinala o sentimento da totalidade afetiva que imbrica o íntimo do ser com a identidade do pertencer. Sua brasilidade está latente em sua forte voz de poeta. A inocência não lhe é dada como cumplicidade de derrotas ou de avatares, nem a injustiça social lhe chega matéria de vítimas esquecidas. Não.

 Sua visão é a de quem sente na pele o compromisso solidário em face do semelhante que sofre, que gravita nas lutas do trabalho e nas lutas integrais, da dignidade e do patriotismo. Por isso não pode “anestesiar-se” mediante a indiferença ou a canalhice, tão em voga entre políticos e trânsfugas do poder e da dominação imperial globalizada. Seu legado, nesse sentido, é a verdade.

 A só verdade assumida até como futuro e como marca. Por isso Braga Horta é referência moral para muitos poetas do Brasil de menor juventude. Sua obra ensaística, por outra parte, denota essa força moral de sua pessoa e de seu fazer poético porque alinhava marcas de muita significação para a identidade de seu país. De maneira específica, seu livro de ensaios intitulado Proclamações (Brasília, Thesaurus, 2013) nos dá valiosas apreciações sobre o poeta Fernando Mendes Vianna, e contém muitas notas analíticas, em que a amizade e o olho crítico se fundem em ameno tratamento sobre o trabalho criador do grande poeta Mendes Vianna. Do mesmo modo, suas obras de crítica, reflexão e estudos literários  A Aventura Espiritual de Álvares de Azevedo (2002), Erotismo e Poesia  (2004), Testemunho & Participação  (2005), Criadores de Mantras (2007) e Sob o Signo da Poesia (2003) conformam um corpus representativo de sua dedicação e entrega ao derroteiro da melhor literatura brasileira contemporânea.

 O livro, como o filho, merece um legado. O poeta é a herança do sentir nacional. Em seu sangue e em sua pele está presente a mesma antecipação de entrega. Ouvi-lo nos fortalece no humano. Na poesia. Por isto sua voz indica os caminhos morais do bem, da dignidade e do país amado, ao qual se consagra cada sacrifício e cada batalha de amor, porque o país se constrói sobre a base de famílias, de comunidades, de povos e de sociedades. O homem nunca será una solidão absoluta. Uma voz ambulante do deserto.

 Admirável é a mestria de Anderson Braga Horta como sonetista. Seu domínio na arte dos quatorze versos lhe vem como exercício permanente para provar a forma lírica clássica, para pôr na corda bamba sua estilizada figura ante o beatus ille e a Natura, para desafiar filosóficas indagações e rebeldias do espírito, e ganhar assim o respeito e o domínio relativamente a um subgênero (para dizer o menos) que não só desafia os criadores, senão que os submete a ginástica prova com a metáfora e a métrica. Talvez toda pandemia, por severa que seja, corra a mesma sorte.

Em sua liberdade criativa, porém, Anderson Braga Horta alcança domínio e novidade, em equilibrada pulsão. Desde 1971 no-lo vem mostrando, precisamente na parte terceira de Altiplano e outros poemas, intitulada “Quatro sonetos em lá”, cujos sonetos “Raízes,” “Esterco”, “Luta” e “Suave” têm os pontos cardeais de uma mirada profunda do ser, da terrealidade, da insondável senda da morte como raiz de todo germe vital e do adubo que dá a esperança a quanto sublima a poesia.

Sua inteligência se põe a prova em uma voz lírica que, depois de cinquenta anos, mantém essa capacidade de lograr a vigência, a validez, a permanência e a transparência de uma forma poética que ultrapassa modas, inquietudes imediatas ―perecíveis―, caprichos de épocas y resoluções da imediatidade, para armar um edifício com bases sólidas e suficiente altura, qual árvore milenária, para sobrepor-se a todas as (importantes) tendências da moderna poesia latino-americana, europeia, asiática, norte-americana e talvez africana; com não poucas variantes e câmbios suscitados dentro da linguagem poética universal (incluídas as teorias literárias), desde 1970 até o ano 2020.

Essa consciência do tempo é substancial na Poética de Anderson Braga Horta, tanto como sua observância ante o Homem, o espaço (próprio), a identidade sentida e a realidade cantada. Sua obra é advertida e analisada por muitos críticos literários do mundo (investigadores, tradutores e estudiosos da literatura brasileira), que conhecem a fundo a trajetória de sua poesia e prosa —conferências e ensaios—, como se infere nas seguintes línhas. Do Brasil mencionamos Antônio Olinto, Fritz Teixeira de Salles, Fernando Py, Foed Castro Chamma, Francisco Carvalho, Henriques do Cerro Azul, Hildeberto Barbosa Filho, Joanyr de Oliveira, João Carlos Taveira, José Jeronymo Rivera, Reynaldo Bairão, Reynaldo Domingos Ferreira, Ronaldo Cagiano, Temístocles Linhares, Waldemar Lopes e Wilson Pereira; da Alemanha, Curt Meyer-Clason; da Argentina  Carlos García de la Fuente, Claudio Sesín, C. De Napoli, Cristina Tsernotopulos, Eduardo Dalter, Felipe H. Trímboli, Francisco R. Bello, Mariano Schifman, Martha Schofs de Maggi, Nahuel Santana, Perpétua Flôres e Silvia Long-Ohni; da Bolívia Kori Bolivia; da Bulgária Dimitrina Danailova e Rumen Stoyanov; da Espanha Alicia Silvestre, José Antonio Pérez, Miguel Cabelo e Xosé Lois García; dos Estados Unidos Mark Ridd e Teresinka Pereira; da França François Olègue (Oleg Almeida), Jean-Paul Mestas e Vicente do Rego Monteiro; da  Índia  Abhay Kumar e Ramasamy Davaraj; da Itália Giampaolo Tonini, Mercedes La Valle, Salvador d´Anna (Renzo Mazzone) e Vera Lúcia de Oliveira; do México Francisco Hernández Avilés; do Paraguai Abelardo de Paula Gomes e Aurelio González Canale; do Peru José Guillermo Vargas e Mirian Caloretti Castillo; de Portugal A. Garibaldi, A. G. Dias, G.S., F. Pires Lopes e Tito Iglesias; da Romênia Flavia Cosma; da Venezuela Trina Quiñones e o autor deste ensaio (José Pérez); do Uruguai Artigas Milans Martínez e Marta de Arévalo; entre muitos outros autores.

Aparece o tempo, na poesia de Anderson Braga Horta, como um dos fios que utiliza para deslizar entre os planos reais e suprarreais, e as demais profundidades do instinto em meio ao imponderável, ao inexplicável, ao insustentável. Para o poeta existe uma interrogação muito grande acerca do ser, da vida e do viver, e por isso o tempo é uma das vias válidas para aceder a toda resposta ou a nenhuma. Newtoniana ou empírica, igualmente assimila a lição como matéria em seu declive até o pó dos ossos. Tudo arrasta em sua passagem o deus Cronos. As árvores, os animais, o movível. Qual máquina indestrutível, tritura e calcina. Qual vento de montanha arrasa as sementeiras. Qual rio crescido inunda os sonhos. Mas é também o aliado que move os dias, as semanas, os anos e os milênios até seus mais profundos mistérios. Quiçá por isso tentar apreender todo segundo, toda fração de minuto seja vão intento de agarrar o impossível. Não há pressa que valha. E Braga Horta é mestre nessas manhas.

Seus poemas, contos e crônicas aparecem em cerca de noventa antologias tanto no Brasil como no estrangeiro; algumas delas compiladas pelos seguintes autores: Walmir Ayala, Almeida Fischer, Joanyr de Oliveira, José Santiago Naud, Pedro Lyra, Sílvio Castro, Rumen Stoyanov, Napoleão Valadares, Salomão Sousa, Victor Alegria, Sofía Vivo, Nilto Maciel, Aglaia Souza, Jacinto Guerra, Nilce Coutinho, Ronaldo Cagiano, Vili Santo Andersen, José Lino Grünewald, Assis Brasil, Sergio Faraco, entre outros.

 A obra poética de Anderson Braga Horta merece todos os estudos que possamos dedicar-lhe. Não basta um curto ensaio para analisar e assinalar suas múltiplas visões, suas radicais inquietudes formais e suas buscas mais pessoais; nem sequer de maneira geral, porquanto há uma abundante mostra de inteligente e sustentada criação em cada um de seus livros de poesia e ensaio, de conto e crônica. Desde suas primeiras obras se sentiu essa força, essa pulsão criativa. Por isso, dizer que Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira premiaram em seu momento a Anderson Braga Horta durante a década dos sessenta só pode significar o tom de respeito e justo reconhecimento que mereceu sua voz criativa desde sua juventude, considerado promissor seu lírico talento, de parte desses grandes mestres. Não se trata de uma questão de privilégios. É o caso concreto, preciso, de uma visão inequívoca ante um poeta que tinha já estabelecidas as coordenadas de sua voz para somá-la à poesia brasileira do século vinte com a absoluta certeza de sua validez e merecimento.

É Anderson Braga Horta um poeta para ler e acompanhar em sua seiva arbórea pelas entranhas desse grande país de águas que é o Brasil, levado por sua língua portuguesa, de que é também mestre criador, conhecedor, estudioso y acadêmico; por seu sentir e seu olhar para o ser e a identidade. Compartir sua poesia em nossa língua castelhana é um privilégio. Voz maior, sem dúvida, que convido a seguir, a descobrir, desde esta breve aproximação, para enriquecer nossa percepção da poesia brasileira que percorre o mundo a partir de 1950.

O seguinte poema, de seu livro Quarteto Arcaico (2000), intitulado “Centão de Murilo Mendes”, constitui uma proposta de muito ricas significações, porquanto por “Centão” se entende,  composición poética formada por versos de um ou vários autores, de cuja combinação arbitrária (é o caso de Braga Horta neste texto) surge uma nova forma de mistura, de intertextualidade e de vozes compartidas, que não apenas enriquecem o poema em sua significação múltipla, senão os processos de criação que se compartem entre um autor e outro, desde o exercício da experimentação, da montagem, e a colagem literária, no âmbito dessa modernidade entretecida desde os mistérios da poesia. Hábil e válido jogo de criação que, qual cadáver delicado, advém na clave da modernidade.

CENTÃO DE MURILO MENDES

Não me inscrevo em nenhuma teoria,
chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

Sonho sonhado pela vida vã,
cantando expiro.
O rude ofício da vida!
Sempre o delito pior é ter nascido.

Sentado na varanda do abismo
me encontro agora.
Escrevo para me tornar invisível.
O poema olha para mim, e, fascinado, me compõe.

Este poema não é meu.
É da tinta e do papel.
Nada é teu, nem de ninguém.
A poesia sopra onde quer,
vou para onde a poesia me chama.
Onda que vais, onda que vens,
dá-me notícias de mim mesmo.
Sou poeta irrevogavelmente,
me sinto um fragmento de Deus.

O mundo começou nos seios de Jandira.
Meus olhos pousaram demais
nos seios e nos quadris.
Deram-me um corpo, só um,
para tantas almas desunidas!
Ser ligado ao mártir, ao assassino e ao anarquista,
hesitante entre as ancas da morena
e o mistério do fim do homem,
cultivava um sol vermelho.
Mas agora o meu novo olhar
procura o amor essencial.

Tenho pena dos que vão nascer.
O Planeta não está maduro para a alegria.
Ah! o silêncio existente no mundo
antes da invenção das radiolas!

Minha mão direita virou árvore.
Preciso eliminar
o céu, o inferno, o purgatório,
talhar-me à imagem e semelhança da pedra.
Não me mato.  Estou cansado demais.

Aparece no céu inesperada mulher,
talvez a musa,
a filha do Caos:

— Quem mesmo sou eu?

— Teu nome é liberdade, por isso
não te inscrevi em nenhuma teoria.
Nasci outra vez com o teu nascimento.
A poesia
nasceu outra vez com o teu nascimento.

Vim para anunciar que a voz dos homens
abafará a voz da sirene e da máquina.

Homens,
não abençoeis a espada.
Formamos juntos um vasto Corpo.
É a nós que compete transformar as espadas em arados.
A terra terá que ser retalhada entre todos
e restituída em tempo à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita:
a aurora é coletiva.

Formosa e bem concebida metáfora-poema em hora a Murilo Mendes (Juiz de Fora, 13 de maio de 1901 – Lisboa, 13 de agosto de 1975), em cujo sentido profundo palpita uma canção a vozes ao Brasil nativo; país que, entre seus mais apreciados poetas, é corpo e terra que se abraça ao sonho do porvir quando as forças da alma vacilam à beira dos abismos. Como outros poetas de Minas Gerais (Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Joanyr de Oliveira, entre outros), Murilo Mendes conhece o germe da esperança desde a janela do canto poético, e Anderson Braga Horta leva pela mão esse signo e estandarte. Por isso a poesia é entrega e protesto, encontro e salvação; enigma e busca.

 Entre um e outro autor, o “Centão” é jogo e gesto para dialogar com o ontológico e o filosófico, do mesmo modo que a reflexão cantada e o encontro de vozes estabaelece um fio pendulante entre duas gerações de valiosos criadores brasileiros. Por isso, ainda que nascer seja o pior delito e o sonho sonhado seja vão, o tremor invisível do poema é sua revelação. “A poesia sopra onde quer. Vou para onde a poesia me chama”. Nesse caminho comum, Murilo Mendes e Anderson Braga Horta juntam suas mãos de terra, de ervas, de ar e de árvores. O Brasil vegetal e barro.

De Murilo Mendes podemos mencionar algumas obras chaves, como Restauração da poesia em Cristo  (1934),  A poesia em pânico  (1937),  O visionário (1941), Liberdade (1947) e Convergências (1970); criadas em tempos e espaços que no-lo mostram como um passageiro íntimo, como um irmão maior que o vento trouxe a casa desde a distante Roma, ou desde a rua solitária e úmida de Lisboa; numa noite de inverno, enquanto Deus lhe sovava as mãos, não para fragmentá-lo, para estraçalhá-lo e seccioná-lo, senão para convertê-lo em seu espelho ante os mil demônios da anarquia, da injustiça, da maldade. Acaso, em algum lugar distante, um sol vermelho deu-lhe adeus ou boas-vindas, ou a palavra pecado sacudiu suas bochechas.

Se o planeta não está maduro para a alegria e se antes de nascer há que eliminar céu, inferno e purgatório, é porque talvez a pedra tenha a voz secreta do amor ao outro. Se pedra somos e a pedra vamos, assim se fundará a vida outra vez. O pó é simples alegoria. A poesia é liberdade e nela o corpo é sementeira. A terra salva, sua casa. E a amizade selada, sua entrega. E para sempre o sonho sonhado tem um só sentido: el amanhecer coletivo.

♦♦♦

José (del Carmen) Pérez nasceu em El Tigre, estado Anzoátegui, Venezuela, em 1966. Reside em Pariaguán, Planalto de Guanipa. Licenciado em Letras. Doutor em Filologia Hispânica pela Universidade de Oviedo, Espanha (2011). Professor Associado Jubilado da Universidade de Oriente, Núcleo de Nueva Esparta, na área de Linguística. Pertence a Redè Nacional de Escritores da Venezuela. Poeta, narrador, ensaísta, promotor cultural. Obra diversa obra publicada.

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