O MITO DA POLUIÇÃO DOS AUTOMÓVEIS ELÉTRICOS- por Ricardo Amorim Pereira

 

A desmistificação do mito da poluição dos automóveis elétricos

Nesta prestigiada Revista tenho vindo a discorrer sobre vários assuntos relacionados com a matéria ambiental. Hoje, irei abordar a questão dos automóveis elétricos, debruçando-me sobre a confusão que por aí paira a respeito da poluição gerada por esse tipo de veículos. Motivadas pelo preconceito, simples ignorância, ou, quem sabe, pelo lóbi do petróleo, persistentemente, com efeito, vão surgindo notícias referindo que esse tipo de automóveis polui mais do que aqueles a combustão. Como em todas as lendas, há um fundo de verdade nestas afirmações.

Evitando entrar em demasiados pormenores técnicos que, honestamente, também me falham, importa explicitar que a atual tecnologia associada aos automóveis elétricos se encontra assente na produção de baterias de lítio que, como o nome indica, necessita – e em grandes quantidades – de lítio. O busílis da questão é que, quer na extração desse mineral quer no seu processamento para posterior montagem das referidas baterias, o consumo de energias fósseis, é, em muitos casos, ainda elevado. Deste modo, não está a dizer-se mentira alguma quando se afirma que a produção de um automóvel elétrico, comparativamente com um não elétrico, gera níveis superiores de poluição.

Explicitado este ponto, importa desmontar a teoria de que, por este motivo e comparativamente com os convencionais, os carros elétricos são mais nefastos para o ambiente. Em primeiro lugar, devemos entender que o mundo funciona como uma enorme máquina em que, cada empresa, cada fábrica e até cada um de nós assume o papel de peça individual. Se considerássemos que a totalidade da energia elétrica produzida nos diferentes países era já energia limpa – algo que infelizmente está ainda longe de ser uma realidade – e que as máquinas que operam nas referidas minas de lítio estavam já livres dos combustíveis fósseis, a poluição gerada pelo automóvel elétrico seria, literalmente, igual a zero.

Infelizmente, este ainda não é o mundo em que vivemos e, portanto, a poluição gerada por esse tipo de veículos é uma derivada da intensidade de energia fóssil empregue, quer na produção das referidas baterias quer na geração de eletricidade não renovável que esse automóvel, no seu uso quotidiano, vai consumir.

Estudos que, tanto quanto possível, procuraram estimar estas dimensões referem que, tendo em consideração os níveis médios de penetração das energias renováveis nas redes elétricas mundiais, atualmente, em termos médios, só ao fim de sete anos de utilização é que o ambiente “ganha” por se ter decidido comprar um automóvel elétrico em detrimento de um outro, convencional.

Ou seja, quer isto dizer que, devido ao referido acréscimo de poluição associado à produção de um automóvel elétrico, quem, em detrimento de um convencional, adquire um carro desse tipo, está a causar um dano ambiental imediato muito superior. Isto é verdade e deve ser dito com clareza.

Mas tal significa que essa decisão é prejudicial para o ambiente? A resposta é: depende mas, quase sempre, não. Reflitamos novamente nos supramencionados estudos, referindo estes que, em termos médios, só ao fim de sete anos o ambiente começa a ganhar com a decisão de se ter adquirido um veículo elétrico. Ora, se, muito antes de se perfazerem esses sete anos, o proprietário do veículo elétrico – desculpem a expressão – mandar o mesmo para a sucata, nesse cenário, de um modo provável, teria sido preferível que este tivesse adquirido um carro convencional.

A questão é que raramente o tempo de vida do automóvel é assim tão curto – em Portugal, em média, esse tempo ultrapassa as duas décadas. Deste modo, sim, quase sempre o ambiente ganha com o automóvel elétrico.

Importa, por fim, ter a noção de que os sete anos referidos são um número em evolução. Com o aumento da penetração das energias limpas e renováveis nas redes elétricas mundiais – um movimento que não está a acontecer com a rapidez que se desejaria mas que é ininterrupto –, seguramente ele será cada vez menor.

Concluindo, se o tempo de vida útil do automóvel elétrico for muito curto, o ambiente não ganha com a aquisição dessa máquina mas ganha na generalidade dos casos e, na hora de adquirir um veículo, em nome do ambiente – já agora, da saúde própria e dos terceiros também –, todos os que possam fazê-lo devem optar por essa solução.

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Ricardo Amorim Pereira, Doutorando em Ciência Política, com interesse na área da ecologia política.

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