A INCRÍVEL HISTÓRIA DE MARÍA JUANA PILLAR DE LA CRUZ – (CAP. IV, V, VI )- por Wander Lourenço

IV

SOLAR DE MADAME SOPHIE

DIGO-VOS QUE DE NADA ADIANTOU ajuizá-lo sobre a preocupação que me ocorrera diante da temeridade de se denunciar a figura mais respeitável da Corte de São Sebastião do Rio de Janeiro, pois que, entre o juramento de inocência de uma reles ciganita Juana, mal parida por uma marafona de alcoice, a desaparecida Maria Egípcia, mais validade houvera de ter a acusação de adultério descabida, forjada pela maledicente Dona Carlota Joaquina. Logo, humilhada pela acusação de deslealdade conjugal, o senhor meu esposo Assir Lubbos me devolveu ao escravagista Manolo Negreiro, que me comerciou, a bom preço, ao conselheiro Manoel Vieira da Silva; e, por fim, o Fidalgo da Casa Real de D. João VI me entregou aos cuidados da cafetina francesa de nomeada Sofia Beaurepaire-Rohan, a Madame Sophie.

Ao atirar-me em má vida de meretrício, como exigência de recuperação pelo prejuízo de aquisição da mercadoria, a alcoviteira de fina estirpe explicou-me que a primeira providência a ser tomada seria a mudança de denominação de nascituro, María Juana, porque, por experiência de berço – assegurou-me Madame Sophie, que se dizia ter nascido para o ofício bíblico de Maria Madalena –, toda cortesã que se prezasse precisava passar por uma espécie de batismo de prostíbulo, a fim de que se inventasse uma alcunha de guerra, forte e pomposa. Daí, Pillar; e, posteriormente, Madame Pillar.

Após sacralização do ritual de identidade, a proprietária do Solar de Madame Sophie obrigou-me que eu me prostituisse com quem me abordasse em expediente de bordel. Não obstante, até que eu me tornasse apta ao exercício da profissão mais antiga do mundo, fora necessário que me adornasse de joias e seda, o que acresceu ainda mais a dívida com a gananciosa cafetina de origem francófona. A má sina de Tamar transcorria com certa normalidade de companhia de alcova, até que o meu ventre dera sinal de gravidez. No entretanto, ainda assim continuei a me prostituir até o oitavo mês e meio de gestação, porque parte da freguesia se excitava em possuir fêmea emprenhada por outro homem desconhecido. Quando estava prestes a dar à luz ao legítimo herdeiro do comerciante libanês Assir Lubbos ou ao legatário bastardo de Sua Alteza D. João VI, a proprietária do bordel afastou-me da prostituição, sob a condição de que eu lhe confiasse a minha cria pós-parto, pois que não iria sustentar, “a troco de nada, rebento não parido por ela, Madame Sophie.”

Quando o meu bandulho expeliu o fruto do matrimônio ou adultério, a cafetina ordenou que eu registrasse o infante Amâncio de La Cruz com o sobrenome Lubbos, apesar da resistência do hipotético responsável pela paternidade. Decerto, a Madame Sophie já preparava o bote de serpente para se obter alguma vantagem pecuniária mais adinate com o progenitor enricado da criança. Como eu não tinha convicção de quem fosse o gerador do infante Amâncio de La Cruz seria o comerciante libanês Assir Lubbos ou o D. João VI, eu expliquei a dona do lupanar que não havia como se providenciar o registro de cartório com menção ao progenitor, justamente porque havia a dúvida de autoria de paternidade.

A malévola Madame Sophie ameaçou-me de expulsão do prostíbulo, dado que não lhe seria conveniente a adoção de um rebento sem referência familiar. Sem ter onde escorar o desamparo do destino, eu fui bater às portas do meu ex-esposo Assir Turco, com a expectativa de que o negociante árabe se sensibilizasse diante do estado de indigência de sua Juanita de outrora. No entretanto, o indolente libanês coagiu-me a procurar o D. João VI, haja vista que fora o licencioso consorte de Dona Carlota Joaquina quem ejaculara o esperma do nascituro dentro do meu ventre sujo de cigana prostituída. Sem fôlego moral para retornar ao Paço do Largo do Carmo, não me restou outra opção que não fosse me humilhar diante da cafetina francesa, a fim de que se resignasse às súplicas de acedência do rebento pagão no Solar de Madame SophieDecerto, a alcoviteira de fino trato me escravizaria até o último instante de vida; mas não me seria capaz de negar pão e abrigo ao infante Amâncio de La Cruz, naquela situação de agônica sobrevivência.

Ao prestar-me atenção de mercador, a arguta Madame Sophie me propôs que registrasse a cria bastarda em seu nome próprio, como solução para aliviar-me do fardo infantil, uma vez que o rebento do árabe desnaturado Assir Turco ou do incauto D. João VI houvera de ser criado por uma família de cortesãs; porém, honesta, que seria responsável pela educação da cria enjeitada da prostituta Pillar. Entre comerciar-me em catre de cortiço a mendigar parca freguesia de alcova e ampará-lo em aposento de castelo de luxo, eu não pestanejei em aceitar a proposta de adoção da cafetina. Com o registro em cartório sacramentado, eu pude sentar-me à mesa de uma pensão da Rua Direita e cear placidamente, com a consciência aliviada por ter tomado a melhor decisão de maternidade.

V

A VIDA É UM CIRCO

 

AO REGRESSAR AO SOLAR DE MADAME SOPHIE, em razão do período de resguardo, a alcoviteira francesa rebaixou-me à condição de serviçal de limpeza, enquanto eu não pudesse me deitar com a freguesia de bordel. Enfim, quando fiquei apta ao batente da prostituição, por pura sorte, o primeiro homem que me carregou para a alcova havia me confessado que, há tempos, se engraçara por aquela cigana, frágil e espantada, que respondia por Pillar; mas, por eu me encontrar emprenhada de outro cliente, ele disse-me que não tivera audácia de se aproximar da encantadora criatura de alcoice. Este gentil-homem, que se chamava Miguel Angel Diaz García, era proprietário do Circo Orpheu; e, naquela mesma noite, após usufrutuar da ciganita Pillar, o empresário itinerante resgatou-me, a peso d’ouro em pó, das mãos da cafetina Madame Sophie, que me alforriou do fardo do meretrício, com a condição que o infante Amâncio continuasse sob sua custódia de família. Com a perspectiva de reabilitação, eu acedi à chantagem da alcoviteira de prostíbulo, que, inclusive, me confidenciou que a minha dívida de bordel havia sido quitada pelo cordato Miguel García, que ainda deixou fazenda de um conto ao infante Amâncio de La Cruz.

O Circo Orpheu estava de partida da Corte e o cortês Miguel García convidou-me a acompanhá-lo, visto que não pude recusar o chamado do solícito benfeitor, mais até por sentimento de gratidão. De uma feita, transformei-me em artista circense, de maneira a andejar por esse mundéu de meu Deus, iniciando-me pelas Minas Gerais, mais precisamente São João Del-Rey, até a Província de São Luís do Maranhão, onde se findou a relação de concubinato entre mim e o espartano Miguel Angel Diaz García, que fora assassinado pelos saltimbancos de estrada. Não obstante, tornar-se-á imprescindível a menção de que, no intervalo entre a “noite de núpcias”, consoante Miguel García, e a fatídica tragédia do homicídio, o proprietário do Circo Orpheu, sob alegação de graves dificuldades financeiras, leiloava-me após o espetáculo de palhaçada, mágica e acrobacia.

Em certa ocasião, porém, após a retirada do público, três bandoleiros atacaram o Miguel García, com o intuito de se apoderarem do cofre do Circo Orpheu. Como a vítima reagiu às investidas dos malfeitores, o líder do bando apunhalou-o cinco vezes, matando-o. Naquele momento, eu fui salva porque me refugiei na caleche em que dormíamos, de sorte que os embusteiros não se deram conta da presença homiziada. Safei-me do extermínio; contudo, perdi o meu benemérito que se esvaiu até a última gota de sangue, deixando-me mais uma vez órfã do seu amparo de homem forte e decidido, que deveras me protegia das intempéries do destino. Diante da patrulha, eu pude descrever a fisionomia macabra dos três cruéis assassinos, que foram aprisionados; e, logo em seguida, enforcados em largo público. Como não havia meios de prosseguir com o negócio da trupe, decidi-me por me desfazer do Circo Orpheu, capitalizando-me para regressar à Corte, para companhia do infante Amâncio que, a esta altura, já havia completado três primaveras e meia de idade. Haja vista que não poderia correr o risco que me abocanhassem quinhão da herança de Miguel García, contratei escolta de dois capangas, Marcílio Albino e Jerônimo Damião, armados até os dentes de mosquete e arcabuze; e retornei a São Sebastião do Rio de Janeiro.

Não obstante, antes que façam associação do homicídio do escravagista Manolo Negreiro, com o assassínio do espanhol Miguel García, de antemão afianço que jamais seria capaz de tramar a morte de um homem que me tratara com dignidade auferida às nhanhãs e sinhás da mais alta estirpe da sociedade fluminense. Tão-semente por esta razão eu poderia jurar que dava a própria vida para salvá-lo das garras dos saltimbancos de estrada, ainda que no átimo da ação homicida eu não tenha arredado pé do esconderijo.

Porém, até hoje não me conformo com a pusilanimidade do gesto, embora qualquer movimento de heroísmo pudesse me atirar à catacumba, em que jaz o fundador do Circo Orfheu.

VI

CABARET IBÉRICO

NO SOLAR DE MADAME SOPHIE, com o espólio adquirido pelo negócio do Circo Orpheu, propus-lhe aposentadoria à cafetina francesa, de vez que, doravante, eu assumiria da administração do bordel, de maneira que, se assim o quisesse, poderia até regressar à sua terra natal. Quando a acintosa alcoviteira mirou a quantidade de dinheiro que eu lhe expunha, não hesitou em acolher a oferta de transação; não obstante, mal sabia a Madame Sophie que eu havia combinado com os cacundeiros que lha envenenassem e a assaltassem, assim que se registrasse em cartório o contrato de compra e venda do prostíbulo. Com o auxílio jurídico do rábula Epaminondas Sobrinho, solicitei a guarda definitiva do infante Amâncio, de acordo com validação do reconhecimento de maternidade. No trato com os quatro-paus maranhenses, ficou acertado que um terço do valor roubado se reteria em poder de Marcílio Albino e Gerônimo Damião.

Na inauguração, as celebridades da Corte foram recebidas por mim, Madame Pillar, que estava trajada com a fina flor da moda parisiense da Rua do Ouvidor. Ao me aproximar do comerciante Assir Lubbos, no entretanto, fiz questão de sugerir que, caso houvesse interesse de sua parte, poderíamos conversar sobre os negócios referentes ao compromisso de sociedade do Cabaret Ibérico. De supetão, sussurrei-lhe que aceitaria de bom grado um capitalista, que estivesse disposto a se encarregar das melhorias do imóvel, sob garantia de total sigilo de descrição da identidade do financista.

Após elogiar-me o fino trato da silhueta, o comerciante libanês Assir Turco convidou-me a uma contradança no salão nobre do recinto, para me segredar que, não só via demérito na associação do Cabaret Ibérico; não obstante, cochichou-me que mais ainda lhe agradava reatar os laços de comunhão carnal, se, porventura, eu estivesse disponível para revivenciarmos a convivência de outrora, interrompida pela brutalidade do manganão do D. João VI, que me violentara, estupidamente, no aposento do Paço do Largo do Carmo. Elegantemente, declinei-me da perspectiva de reatamento, de vez que o mais airoso dos capangas oriundos de São Luís do Maranhão, o Marcílio Albino, supria-me as precisões momentâneas de alcova. Obviamente que ocultei a razão da negativa, já que não ensejava ferir suscetibilidades do próspero capitalista, de quem me vingaria na primeira oportunidade pela injustiça cometida contra mim, que era mais uma vítima da sanha de Dona Carlota Joaquina, que soube ter sido a mentora intelectual da violação praticada por seu cônjuge impudico e licencioso.

O astucioso Assir Turco combinou comigo de almoçarmos no dia seguinte numa casa de pasto da Rua da Guarda Velha, a fim de que acertássemos não o acordo de sociedade do Cabaret Ibérico, mas, quiçá, o convívio harmonioso que precedeu a separação matrimonial. No horário combinado, eu adentrei o estabelecimento comercial; e, ao fundo, se homiziava o facundo negociante libanês, que me acenou com a cordialidade dos cafajestes de prostíbulo.

Sem devolver o afável e citadino cumprimento, assentei-me à mesa.

–– O que a senhora Madame Pillar enseja degustar nesta extraordinária ocasião de reencontro?

–– Champagne, monseigneur.

Após solicitar a bebida francesa, o solícito Assir Lubbos interpelou-me a respeito das condições de sociedade que eu pleiteava, para que o Cabaret Ibérico obtivesse co-proprietário financista, que auxiliasse na administração do estabelecimento comercial. Aproveitando-me da chegada do rábula Epaminondas Sobrinho, que compareceu ao rendez-vous por minha intimação, depus-lhe trunfo sobre tábula.

–– A presença do dr. Epaminondas Sobrinho se justifica nesta reunião, porque a condição para se perpetuar não apenas a sociedade do Cabaret Ibérico, mas a convivência cordial de outrora, há de ser a reconciliação conjugal entre o sr. Assir Lubbos e esta prezadíssma e  estimada María Juana de La Cruz, por intermédio de petição sobre o pedido de não cancelamento do compromisso de altar-mor de ermida, além do reconhecimento oficial de paternidade do infante Amâncio de La Cruz.

            Diante do silêncio de estupefação, o rábula Epaminondas Sobrinho depositou sobre a mesa a procuração assinada, com as condições mencionadas e o valor do dote matrimonial ofertado por mim, de acordo com o que me restara da apropriação indébita do patrimônio de Madame Sophie. O boquiaberto Assir Turco esbugalhou retinas sobre o documento, com  entusiasmo dos glutões diante do banquete, sem disfarçar a surpresa perante a quantidade de contos disponibilizados por sua antiga esposa escorraçada, mediante acusação de adultério.

O incrédulo negociante libanês Assir Lubbos, após examinar minuciosamente a exorbitância do valor financeiro, quase que beliscando-se diante da oferta de matrimônio, consultou-me sobre o prazo que ele teria para me dar resposta do reatamento conjugal. No que eu lhe repliquei que o tempo de decisão era mui escasso, já que havia outro ilustre pretendente aguardando retorno sobre solicitação matrimonial. Mais por ganância do que por receio da concorrência, o prático Assir Turco autorizou que o rábula Epaminondas Sobrinho revalidasse o contrato de união esponsal. Com a  concessão apalavrada, levantou-se e já ia se retirando sem degustar o champagne francês nem tocar nos acepipes do pré-almoço, quando se lembrou da conta; e, apressadamente, dirigiu-se ao garçon para que anotasse a despesa em seu nome.

À noite, o libanês Assir Turco procurou-me para dizer que estava de acordo com a  cláusula contratual de restituição do matrimônio; porém, havia uma questão que, para ele, não estava mui bem aclarada.

–– Pois diga-me, ora.

–– Quanto ao ofício de meretriz, a Madame Pillar almeja persistir com a  função de alcova?

Não pude abafar a gargalhada burlesca e jocosa, que esfreguei em sua face de patife. Não obstante, o estrondo do escárnio chamou a atenção da plateia do Cabaret Ibérico, que se voltou para o casal como quem anseia pela razão da comicidade. Apaziguando-se a ambiência, disse-lhe que uma mulher honrada não se renderia às imposições esdrúxulas do esposo enciumado, mesmo que a desconfiança seja mais forte do que o sentimento de respeito e consideração.

–– Para que eu não mais me prostituísse no bordel de minha propriedade, o Cabaret Ibérico, o senhor meu esposo Assir Lubbos haveria de coibir-me com bem mais do que um cinto de castidade, a fim de que a clientela de bordel não atingisse o ápice do orgasmo em cuspidela dentro do meu ventre transgredido, assim como o fizera, covardemente, o esposo de Dona Carlota Joaquina, de modo que não se pusesse em suspeição de paternidade, mediante perpetuação da espécie nas entranhas desta Madame Pillar.

♦♦♦

Wander Lourenço – Especialista e Mestre em Literatura Brasileira (UFF); Doutor em Literatura Comparada (UFF); PhD em Estudos Literários da Universidade Clássica de Lisboa & Pesquisador de Pós-Doutorado da PUC-GO. Pós-graduando em Psicanálise – PUC-RS.

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