EDITORIAL – A ARTE DA RESISTÊNCIA – por Jonuel Gonçalves

 

Fotografia de Paulo Burnay

 

Hipótese de trabalho sobre a guerra na Ucrânia *

O conflito armado na Ucrânia é um daqueles que tem várias datas de começo e não se sabe quando será a data de encerramento. Para o mundo, começou há um ano com a invasão russa, mas para os ucranianos vem pelo menos de 2014 com mudanças de poder em Kiev que desagradaram ao vizinho e às forças internas defensoras de relações especiais com ele.

Ao fim deste ano com intervenção estrangeira direta, nenhum dos beligerantes alcançou os seus objetivos, as linhas de combate alteram-se e vão alterar-se ainda mais, a guerra das narrativas entra pelo ridículo, os meios tecnológicos são os mais avançados em relação a qualquer guerra precedente, dando uma primeira impressão de poderem reduzir as velhas definições de assimetria.

Todos, beligerantes ou aliados, sabem algumas coisas que podem ser feitas e vão fazê-las. No que isso vai dar sabem tanto quanto nós, quer dizer, nada.

Se alguém perde nesta guerra, é a Europa e, por extensão, a economia mundial. Importante sublinhar a fragilidade da Europa e como seus dirigentes mais influentes deixaram o velho continente numa dependência cujos riscos eles deviam conhecer, pois têm imposto várias formas de dependência a outros países e até continentes.

A Ucrânia é um Estado recente mas é comunidade e território muito antigos. Igual a alguns Estados leste-europeus, à quase totalidade do continente africano ou países da Ásia-Pacifico. Suas ligações à Rússia vêm de longa data e em vários momentos desempenharam papel importante na História russa, daí a perplexidade seguida de agressividade do Kremlin perante as manifestações contra a influência russa pós independência e com a eleição de Zelensky, protesto simultâneo contra essa influência e contra políticos locais. A adoção da lei anti-oligarcas estendeu a agressividade do Kremlin, dos visados na Ucrânia e seus homólogos russos.

A construção do identitarismo

Em 2015 foi assinado um protocolo em Minsk, reforçado por iniciativas mais a oeste, no sentido de normalizar o relacionamento entre ucranianos, ou seja, entre os dois grandes grupos linguísticos, superando identitarismos em favor de cidadania comum. Ninguém cumpriu e a guerra no leste do país prosseguiu em moldes que, se fosse África, seria chamada de tribalismo, com cada lado sublinhando “especificidades”, simpatias internacionais, radicalizando a linguagem panfletária e fazendo ameaças.

Como sucede múltiplas vezes, esta guerra interna resvalou para o nível internacional. A Rússia podia ter anulado com pressões políticas e económicas sobre a Europa as ameaças de adesão da Ucrânia à OTAN ou esta podia ter aconselhado Kiev a não fazer tal proposta nem mesmo sendo chantagem para negociar. Mas ambos os lados já estavam em prova de força há algum tempo e nenhum deles quis fazer o que consideravam como “concessão”.

Agora está anda pior.

A Ucrânia está largamente arrasada e, como punição, Putin foi bem sucedido. Porém, ele está muito mal posicionado política e militarmente. A sua esperada guerra relâmpago virou recuo para o leste geográfico e russofono da Ucrânia e o isolamento internacional aumentou. Com seis apoiantes declarados – todos ditaduras ferozes – o melhor que consegue são umas trinta abstenções na ONU, de países que pretendem desempenhar papel de mediação ou tirar alguma vantagem económica e diplomática da rivalidade mundial. Nesta situação, no entanto, há um caso de significado diferente. Cuba que sempre foi apoiante incondicional passou por duas vezes ao campo abstencionista.

O governo russo tem também apoio em alguns pequenos círculos intelectuais ocidentais, africanos, asiáticos ou latino-americanos motivados por anti-imperialismo, confundido com anti-americanismo ou com xenofobia. Aliás, a própria expressão “imperialismo” tem dois significados: olhando a História universal é a ideologia dos impérios, olhando o leninismo é fase superior do capitalismo ao internacionalizar-se.

Na verdade, já desde os anos 1920 é lembrado que os impérios são muito anteriores ao capitalismo e Lenine nem considerou que uma das mais intensas fases da internacionalização do capital abrangeu três séculos de escravatura transatlântica. É só ler, entre outros, Eric Willims, historiador de Trinidad e Tobago que chegou a primeiro-ministro.

A expressão mais significativa sobre potências dominantes é, no presente estado da pesquisa, hegemonia.  Nesta matéria, alguns países buscam hegemonia mundial e parece inútil optar por um ou outro. Seria mais interessante envolver-se nos movimentos de multipolaridade, não de alinhamento atrás de dois ou três “guias” mundiais, mas de criação de verdadeiros blocos capazes de novos equilíbrios e não limitados às hoje consideradas potências maiores, nem mesmo a pequenos grupos selecionados com presença de algumas dessas potências.

Seria – será – uma mudança histórica das maiores no percurso humano. Na verdade, Estados Unidos, China e Rússia, têm componentes históricos semelhantes. Os três foram fundados a partir de pequenos territórios iniciais de onde irradiaram pela violência; o trabalho escravo desempenhou em todos uma função decisiva no enriquecimento e o racismo marca suas histórias, seja com discriminação de negros, massacre de povos originais, pogroms, etc.

  Gestão logística, de previsões e projetos

A guerra da Ucrânia apresenta um quadro de gestão económica com muitos sinais de estarmos perante a tecnicamente mais sofisticada da História, mas dando lugar a falhas monumentais. As poderosas forças armadas da Federação Russa revelam uma logística lenta que impede rapidez e expõe vários contingentes a contra-ofensivas mortais. As vastas medidas de sanções ocidentais previam derrubar rapidamente a economia russa, porém, em pontos cruciais contribuíram para a alta dos preços da energia, compensando a Rússia pelo congelamento de bens e redução das exportações.

A Rússia previa guerra relâmpago no domínio militar e o ocidente o mesmo tipo de cenário em economia. Afinal está guerra prolongada com a fatura mais importante sendo paga pela população ucraniana e poderosas chances de piorar. Aqui vem-nos à cabeça o romance “A Estrada” de Cormac McCarthy. Leitores e críticos interrogaram-se sobre que ambiente Cormac pretende situar nesse livro e a maioria pensou em pós catástrofe nuclear. Não precisam ir até aí, na Ucrânia há cerca de seis milhões de deslocados internos. Com total um pouco menor já vivi isso numa outra guerra, mas os quadros são os mesmos: pessoas de rumo incerto, sobrevivência por um fio, alerta para todo e qualquer ruido, pontos de descanso ou esconderijos  onde, quem sabe, até haja comida e água. Nem que sejam aqueles abrigos que abrigam pouco mas permitem estar juntos. Perante os demônios da guerra só há duas vias: enfrentá-los seja como for ou não parar até chegar o mais longe possível.

Os romances completam bastante bem a pesquisa em ciências sociais ao criarem personagens com perfil idêntico ao de gente que vemos todos os dias, a comportamentos facilmente reconhecíveis. Nesse sentido, o romance “Limonov” de Emmanuel Carrière, retrata o clima da extrema direita russa, com passagens pela Ucrânia, anterior a esta guerra. Nessa altura, as extremas direitas da Rússia e da Ucrânia articulavam-se e moviam-se no mesmo sentido. Agora ambas aproveitam a guerra para mobilizar ou influir uma contra a outra. O Kremlin, após ter apontado a OTAN como causa principal da invasão, passou a declarar que o objetivo é a desnazificação do invadido. Na guerra de narrativas vale tudo, porém, neste caso, os perigos de renovação do totalitarismo são reais, mundiais, incluindo Rússia e Ucrânia. Obviamente, a presença da extrema direita não se limita a estes dois países, ainda que um dos seus grandes teóricos, senão o maior, seja russo, Aleksander Dugin, lido e ouvido no partido governamental Rússia Unida, traduzido em várias línguas, entre as quais o português, inspirador de ideólogos do ultra nacionalismo ou totalitarismo da França aos Estados Unidos, da Índia ao Brasil e inspirado por conhecidas personalidades ocidentais dessas tendências, adaptadas ao seu país.

Das suas cerca de três dezenas de livros, destaque mais recente para “Quarta teoria política”, onde refere três outras – liberalismo, comunismo e fascismo – portanto, esquecendo algumas opções. Defende a prioridade da Rússia manter influência nos seus trajetos históricos e culturais (já ouvimos isto quando o derradeiro império colonial pretendia perpetuar-se), posição que faz da Ucrânia um dos alvos centrais, podendo mesmo funcionar como aviso a outros países desses trajetos. Define a Rússia e sua geopolítica num quadro euroasiano.

A influência de Dugin no desencadear da “operação especial” em curso, é vista em Kiev como enorme, de tal forma que os serviços especiais ucranianos organizaram um atentado contra ele nos subúrbios da capital russa que matou sua filha. O recurso a armas cegas muitas vezes dá resultados tristes e prejudiciais a quem os executa.

Cientistas sociais ucranianos não vêm a História passada como entrave à independência do seu país e cada vez mais sustentam que a relação era de tipo colonial.

A religião também está presente. Nenhuma religião é homogênea nem sequer em princípios espirituais, muito menos político-sociais. Não são meras associações, clubes ou partidos, são grandes massas humanas, de várias classes, nacionalidades e correntes de opinião. As hierarquias não têm o poder de influir nem no comportamento de seus próprios integrantes. Nas lutas anti-coloniais, as grandes religiões dividiram-se em bases sociais e de nacionalidade, quer se trate do império otomano ou dos impérios europeus.

Nesta guerra, as igrejas igualmente ortodoxas da Ucrânia e da Rússia romperam.  

Tanto a Rússia como a Ucrânia possuem uma longa tradição intelectual de muita qualidade e repercussão mundial, não sendo novidade sublinhar a existência, neste momento, de extenso movimento de análise ou literatura nos dois países em torno da guerra. As condições de edição é que estão severamente afetadas.

É uma guerra onde mais uma vez a Rússia, de imperial a comunista a capitalista nacionalista, procura demonstrar pela força das armas que é grande potência, determinante numa área do globo que seus teóricos e dirigentes procuram definir. Vão até onde puderem.  Os limites externos estão bem visíveis na atitude dos aliados de Kiev, principalmente Estados Unidos, que montaram uma altamente eficaz logística de apoio, mas também pode repetir-se a história do fim da guerra fria, ou seja, a ação ocidental ser menos decisiva que fatores internos com capacidade de encaminhar esse desejo de potência na base de acordos e, sobretudo, de democracia. É uma sociedade com dinâmica para tal, de forma que os descontentes com Putin têm um valor estratégico especial, por isso são perseguidos. Aqui é necessário lembrar o recém reeditado “Medo da Liberdade”, de Erich Fromm, escrito em 1940/1941 quando o mundo estava muito pior que hoje, livro que “discorda igualmente das teorias que ignoram o papel do fator humano como um dos elementos dinâmicos do processo social”.

Todas as guerras têm sempre o seu eixo central na questão da liberdade humana. Os que são a favor dela e os que são contra ela. Se a balança pender para os que são a favor, esta guerra encontrará saída; se a vantagem for dos seus inimigos vamos ter outras longas trevas da História. Se persistir impasse, é alto o risco do teatro de operações se estender e, nesse caso, será preferível preparamo-nos para duros anos de nossas vidas, sem excluir o ambiente de “A Estrada”. É que, segundo Michel Goya no seu “Sous le Feu” (não está traduzido), a luta armada é aceitar “a morte como hipótese de trabalho”. Pelo menos é só hipótese, porque rendição conduz de certeza a alguma variante do esmagamento.

Niterói, 03 de março 2023

*Publicação mais recente “E agora quem avança somos nós” (romance)    

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Jonuel (de José Manuel ) Gonçalves Doutor em Ciências pela UFRRJ ( Rio de Janeiro). Livros recentes: “Imposturas Identitárias-África e reflexo Brasil” ( edições em Angola e Portugal ” África no Mundo livre das imposturas identitárias “). “Agora quem avança somos nós” (romance).

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