EDITORIAL por Hilton Fortuna Daniel

Em 1918, terminada a I Guerra Mundial, iniciava-se a Gripe Espanhola.

Esse ciclo pandémico, tendo matado milhões de pessoas, terminava em 1920. Em cada fim de história, há sempre um início de história. Nesse ano, para a música e para a literatura, nasciam Amália Rodrigues e Clarice Lispector. A primeira solfejava poemas dentro de notas bem pautadas. A segunda, com a portentosa pena por que é hoje conhecida, empreendia A Descoberta do Mundo, título de uma das suas obras-primas. Continuar a ler “EDITORIAL por Hilton Fortuna Daniel”

Editorial por David Paiva Fernandes

Na viragem do séc. XIX, o grande polímato francês Henri Poincaré inventou a topologia algébrica. Este ramo da matemática adiciona aos, à época estabelecidos, conceitos de compacidade, conexidade e separabilidade da topologia geral os de homotopia e homologia, matéria que apresentou no seu livro de 1895 “Analysis Situs” [1] que se pode traduzir como análise do sítio, do lugar, condizente com a etimologia grega da palavra topologia, λόγος τόπος, estudo do lugar.

São os estudos realizados neste ramo da matemática que permitem conhecer características únicas da forma de um objeto e que, por exemplo, nos demonstram que uma esfera é um objeto essencialmente distinto de um toro (um donut) e ambos de um pretzel (um doce de origem alemã com a forma aproximada de um 8).

São também da topologia as ferramentas que permitem conhecer características de “espaços” em forma de rede, como a de estradas que ligam aldeias, vilas e cidades do mundo, e também das propriedades das redes de relacionamento, as tão modernas e em voga redes sociais.

É ainda da topologia a capacidade absolutamente libertadora de abstração dimensional, a qual permite conceptualizar objetos de 4, 5, 29 ou quantas dimensões se queiram. Sem os conceitos da topologia estaríamos condenados a ser uma formiga que caminha sobre a superfície de uma esfera (um objeto tridimensional) ao qual não pode senão ser alheia e para quem o mundo é apenas um plano (um objeto bidimensional).

Em talvez poucos períodos como o deste trimestre, o conhecimento do lugar onde vivemos confinados, as redes de relações que nos vimos obrigados a interromper, os horizontes repentinamente cerrados, em suma, a compacidade, ligação e separabilidade que Poincaré ajudou a cimentar há 120 anos, estiveram tão no centro da nossa atenção e no cerne da nossa vida.

Se a topologia ajuda a conhecer e a melhor caracterizar, não apenas o que existe e se vê, mas também a conceber o que, por deficiência fundamental, estamos impossibilitados de representar, como um cubo de 4 dimensões ou um pretzel hepta-dimensional, a arte, só a arte, consegue esse portento de nos fazer levantar os olhos de formiga, furar confinamentos, ultrapassar barreiras tantas vezes auto-impostas e tomar contacto com uma superior dimensão da nossa existência.

Nascidas neste período de hipersensibilidade topológica, as mais de 18000 células e 111000 moléculas do corpo desta 12ª edição da Athena não poderiam senão refletir essa condição.

  • Cecília Barreira faz uma retrospectiva sobre as várias pandemias na história da humanidade, reflectindo sobre a origem, causas e consequências.
  • Um diálogo entre colagens de Sergio Bozon e poemas de Carlos Barbarito.
  • Jaime Vaz Brasil serve-nos a saudade em populares e amadas redondilhas, insinuando uma melodia, dois passos.
  • Claudio B. Carlos traz-nos uma trilogia que cabe num só Homem que é Sapo e é também Comum.
  • Paulo Ferreira da Cunha, alheado do mundo, regressa-nos à salvação dos livros e, à conta de uma autobiografia potencialmente inventada, entre várias reencarnações, lembra que a prudência nunca foi demasiada, quando enfrentamos o desconhecido.
  • Teresa Escoval parte de epígrafe de Fernando Pessoa acerca do que se sente e não se expressa e percorre palavras como isolamento, partilha, memória, comunicação, compromisso.
  • A poesia de Alda Fontes traz-nos caminhos e caminhadas na procura do que somos: nesta edição  o ADN ilustrado porAldina Santos.
  • A propósito do aniversário de nascimento a 16 de Maio de Mario Monicelli (Viareggio, 16 de Maio de 1915 — Roma, 29 de Novembro de 2010), Danyel Guerra disserta sobre a vida e obra do grande argumentista e director de cinema italiano.
  • No momento da despedida, o fotojornalista Venezuelano Nelson González Leal homenageia São Paulo, dedicando este texto, poema e sobretudo as IMAGENS a esta cidade que o acolheu .
  • Em três poemas de Correia Machado a mulher, a noite, o ficar e o ir.
  • Na comemoração dos vinte anos da “Nona Geração” no Brasil, contamos com o prefácio e tradução de Floriano Martins, com textos dos surrealistas Fernando Cuertas e Carlos Barbarito.
  • A poesia de Hilton Daniel Fortuna a surpreender de originalidade e inovação ente “um dia macabro” e outros poemas
  • Na poesia da Ana Oliveira a desolação lá fora, o tempo em redor que distorce o norte e o que se é no que se carrega.
  • Paulo Puciarelli dedica um poema, no qual afugenta o medo da morte, resolvido no silêncio, na certeza das pequenas coisas e na memória.
  • De Luiz Henrique Santana, uma reflexão metaliterária inspirada em inquietações levantadas pela obra “Ideias para adiar o fim do mundo” de Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro.
  • César Santos Silva dá continuidade à série MULHERES NAS RUAS DO PORTO, sendo que este número XII cabe à cantora Cidália Meireles.
  • No Noroeste do Paquistão, Ana Tomás funde-se com a natureza, numa tentativa de traduzir e dar voz ao invisível.
  • Rosa Sampaio Torres chama a atenção do leitor para a precursora actuação republicana do intelectual e conspirador florentino Bartolomeo di Mainardo Cavalcanti, tendo como pano de fundo o Chateau du Grand Perron.
  • O surrealismo da poeta chilena Claudia Isabel Vila Molina.
  • E as fotografias de Luiz Guerra e Paz a unir todas estas moléculas, como pontes que ligam margens que se fazem próximas.

DAVID PAIVA FERNANDES

 

[1] http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k4337198/f7.image

EDITORIAL EDIÇÃO 11 por Júlia Moura Lopes

Quando Albrecht Dürer acordou, sobressaltado por um pesadelo, todo o seu corpo tremia, só conseguindo recuperar passado algum tempo. – escreve ele no texto do desenho a aguarela sobre papel, que adoptamos como capa para esta Edição nº11 de Athena – Dürer também deixou escrito no próprio quadro, que pela manhã, mal se levantou, se apressou a plasmar o pesadelo tal qual o tinha vivido. Continuar a ler “EDITORIAL EDIÇÃO 11 por Júlia Moura Lopes”

NEM SÓ OS CAVALOS SE ABATEM – EDITORIAL por Danyel Guerra

 “In Berlin, by the wall, you were five foot ten inches tall”

                                             Lou Reed

1 – Me lembro como se tivesse sido ontem. Ou hoje. Ou amanhã. Na noite novembrina em que o Berliner Mauer  começou  a ser derrubado,  a martelo e à picareta, botei a rodar no som o disco ‘Berlin’, aquele álbum conceitual que Lou Reed publicou em 1973. Uma “trágica ópera rock”, que a crítica especializada acolheu com um olhar de soslaio. Continuar a ler “NEM SÓ OS CAVALOS SE ABATEM – EDITORIAL por Danyel Guerra”

EDITORIAL POR JÚLIA MOURA LOPES – “Afastem de mim esse cálice”

“Com toda a lama, com
toda a trama, afinal, a gente vai levando essa chama”.

Chico Buarque

Neste Maio único e tardio, Francisco Buarque de Hollanda, poeta-músico tão nosso, cronista dramaturgo da “Ópera do Malandro”,  romancista e ainda actor, homem lindo, que tão bem exterioriza o eu feminino, foi distinguido com o Prémio Camões”, o maior troféu literário da nossa língua.

Está reacendida a questão iniciada com o Nobel a Bob Dylan, sobre o conceito canónico de Poesia. Como se pode pretender que a poesia escrita seja superior à cantada, quando sabemos que a mesma teve  inicio exactamente na tradição trovadoresca?

*Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno

Além desta polémica, o Prémio Camões 2019 vê-se no epicentro de outra polémica bem mais feia. Os simpatizantes de Bolsonaro  acusam a escolha de Chico Buarque, denunciando ver nela uma mensagem implícita de  conotação política. Continuar a ler “EDITORIAL POR JÚLIA MOURA LOPES – “Afastem de mim esse cálice””

DA CRISE DAS LIVRARIAS AO APOGEU DA LIVRALÂNDIA – EDITORIAL por Danyel Guerra

James Joyce? É um escritor novo? Aposto que um tremor de terra, de média intensidade, não me teria abalado tanto, como esta, na aparente, inocente e ingênua indagação. Caprichando numa amena ironia, ripostei. Joyce nasceu em 1882. É novo sim, se comparado com um Homero, um Ovídeo, um Petrarca, um Bocage.

Apercebendo-se do deslize, atarantada, a atendente desviou o olhar e fixou-o no ecrã do computador, alheando-se do bulício da loja, onde pipocavam os mais recentes produtos da indústria “cultural”.  O livro chama-se ‘Gente de Dublin’ (‘Dublinenses’), não é? Lamento, mas não consta da nossa base de dados, comunicou, articulando uma voz formal e protocolar. Continuar a ler “DA CRISE DAS LIVRARIAS AO APOGEU DA LIVRALÂNDIA – EDITORIAL por Danyel Guerra”

EDITORIAL- por Floriano Martins

Este é o número 6 de Athena e com ele a revista encerra um ano de conquistas em sua agenda editorial, surgida em maio de 2017 com uma edição zero. Desde então trimestralmente vem cumprindo com valioso propósito, de trazer para a mesa virtual de leitura conhecimento e criatividade. Em seu primeiro editorial lemos que Athena quer ser nave, pronta a descobrir textos e autores inéditos, novas reflexões, quer na investigação científica, quer derivados da criação literária. Sua aventura editorial não propriamente se dá em busca de respostas, mas antes na forma de perseguição da dúvida, que conduza a novas questões e faça duvidar das convicções possíveis. Em duas áreas a revista tem avançado, na revelação de autores e na proposição de novas reflexões, em muitos casos reportando ao passado como leito frondoso da existência humana. Continuar a ler “EDITORIAL- por Floriano Martins”

EDITORIAL – ATHENA & AS ARTES, HOJE (1) – por Paulo Ferreira da Cunha

Athena faz um ano, e já nela se evidencia, como traço muito vincado, a vocação cultural geral, do pensamento, das letras e das artes. Neste aniversário, julgamos que seria importante reflectirmos um pouco sobre estas últimas, que andam, um pouco por toda a parte, em maré não tanto de crise (essa já vem de longe, e nem é muito mau que assim permaneça), mas de incompreensão e até de perseguição.

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EDITORIAL – No Tempo do Faz de Conta – por Júlia Moura Lopes

“Dans le monde réellement renversé, le vrai est un moment du faux” Guy Debord.

Estamos no Carnaval e o leitor de Athena perguntará onde fica e onde cabe a cultura, durante esta época?

Pois direi que é no reino e no tempo do faz de conta, que se cruzam todas as alegorias. Desde a sátira política e social, aos rituais que culminam na inversão dos papéis sociais, com origens na época em que o escravo se transformava em rei, e por sua vez, o rei se transformava em escravo, oferecendo esse sacrifício aos deuses.

Hoje, no Carnaval, os homens e as mulheres “trocam de sexo”, alguns por simples brincadeira, outros para cumprir algum secreto sonho. Na busca contínua da felicidade, nunca o lugar-comum mudou algo.

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EDITORIAL – O Conhecimento Digital – por Angela Pieruccini

Vive-se um novo renascimento. A explosão da consciência, a mudança da cognição, que abre caminho para o fim da gestão piramidal. Tudo explode, e sai-se de um raciocínio linear, que parte de um ponto para chegar a outro, para a rede. Continuar a ler “EDITORIAL – O Conhecimento Digital – por Angela Pieruccini”

EDITORIAL – Como ficar bem athenado – por Danyel Guerra

0- Nos desfiles de samba brasileiros, ápice do Carnaval nos alegres trópicos, manda o figurino, dispõe o ritual, impõe a superstição, aconselha o bom senso, que a escola esquente os tamborins da bateria -e não só!- antes de adentrar na passarela com os dois pés direitos. Para começo de conversa, não encontramos alegoria mais assertiva e adequada a fim de festejar a edição do nº 0 da revista ‘Athena’.

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EDITORIAL ZERO – por Júlia Moura Lopes

Diz o mito, que Zeus convenceu Métis a participar de uma brincadeira, onde Métis acabou por se transformar em mosca, que Zeus engoliu, acabando esta por se alojar na sua cabeça. Assim nasceu Athena, do cérebro de seu pai, poderosa, já adulta, guerreira munida de armadura, elmo e escudo – pronta para o combate. Foi o fim do medo, o início da coragem. O caminho.

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