EDITORIAL – IDEIAS SOBRE A POBREZA – por Maria Toscano

Urgem ideias-comuns menos pobres
sobre a pobreza

Reflectir sobre a pobreza nesta época de Natal – desafio da Direcção da Revista Athena a que me cumpre corresponder como estudiosa dos processos de saída — ou requalificação social — de quem é reconhecido como tendo sido pobre.

Começo por recordar noção sólida e transversal aos diversos estudos sociais sobre o fenómeno: a pobreza é um problema multidimensional.

Quem não sabe disto? Quem pode afirmar que nunca ouviu o enunciado das diversas carências que se acumulam num modo de vida dito pobre? Ou, trocando por miúdos: nem a condição social para se ser pobre é linear, nem é gerada -decorrente-causada apenas por um factor.

Quem nunca contactou — numa notícia radiofónica, num debate televisivo, num documentário, mesmo num filme ou numa canção — com o relato da acumulação de carências ou da passagem da ‘falta’ de um recurso à centrifugação da vida pela reprodução da escassez ou ausência de recursos?

Enfim: quem nunca se apercebeu da dor múltipla em que o quotidiano se transforma quando se empobrece por desemprego, ou por um divórcio/separação, ou por maus tratos de cônjuge, ou por dificuldade ou desorganização entre os gastos feitos e os possíveis?

Acrescento: sendo a pobreza vivida por pessoas singulares e únicas, estas vivências integram, sempre e simultaneamente, sectores e meios onde essa condição é transversal e/ou partilhada — outra noção chave para a sociologia e os estudos dos sociais em torno da pobreza e da exclusão social.

Isto é: constatar a multiplicidade das carências vividas por quem vive em condição de pobreza de todo significa que tenham uma causa singular ou individual; é, sim, conseguir perceber que a multiplicidade dos factores é acentuada ou cruzada pela dimensão colectiva e social do que são modos de vida construídos como pobres e como não pobres. Modos de vida que se reproduzem pelos comportamentos, como pelas atitudes e pelas mentalidades, modos de pensar, de falar e de sentir.

Somos todos testemunhas.

Até talvez já tenhamos uma noção dos conceitos ou das teorias sobre a pobreza.

O problema parece-me estar justamente aqui: no facto de acreditarmos que temos uma ideia do assunto, pelo que, todos formulamos uma análise, ou várias, discordantes; e, claro, em consequência, acabarmos por concordar que “como sempre houve pobreza, continua a haver e sempre haverá pobreza”.

O problema é que, ainda que seja mais fácil-cómodo alinhar na frase comum de que “sempre houve pobreza” não temos evidências disso. Aliás, temos evidências de que as desigualdades entre os mais e os menos poderosos foi uma construção, crescentemente elaborada e justificada-legitimada para alimentar o conformismo e a desistência de contribuir para outra maneira de organizar recursos e vida social. A história humana ensina que foi a ‘descoberta’ da terra privada, das ferramentas, instrumentos e alfaias privadas, e a invenção dos alojamentos, dos parceiros e das crias gradualmente exclusivos e ‘privados’ que acelerou a emergência e gradual desigualdade de sectores sociais poderosos, menos poderosos e não poderosos. Desigualdades e poderes são determinantes na emergência e manutenção de realidades pobres.

De todo se pretende defender um – impossível – regresso ao passado ou o saudosismo das puras origens. O tema é: atenção a preconceitos, ideias-feitas disparatadas e sem qualquer suporte empírico-real-fundamentado.

A ciência tem o dever de se tornar clara e acessível – o cada vez tem conseguido mais, como cada vez mais integrar de forma explícita as noções com que governamos e conduzimos as nossas vidas globalizadas.

Sendo a pobreza uma condição multidimensional, colectiva e relacionalmente construída e legitimada e mantida-reproduzida, não bastam à sua mutação e superação  acções singulares, particulares e isolada no tempo e dos vários sistemas-contextos-sectores sociais.

A pobreza subjaz à degradação ecológica dos recursos do planeta; a pobreza suporta o tráfico de seres humanos; a pobreza alimenta as relações de género degradantes e agressivas (podendo estas desenvolverem-se noutros contextos não ‘pobres’); a pobreza estimula a competição, o individualismo, o insucesso escolar e a ignorância social; a pobreza é o rosto das incapacidades relacionais e de justiça que as nossas sociedades manifestam e, nalguns casos, aprofundam.

Somos todos testemunhas.

Sejamos todos sujeitos de mudança, a começar pela distância entre aquilo que pensamos e fazemos.

Ou, calemo-nos de vez e assumamos que, por sermos tão miseráveis, nem somos capazes de admitir que o fim da pobreza envolve e implica a todos, porque os recursos-mãe e os contextos e modos de legislar e organizar a vida são… colectivos, relacionais e sociais.

Que tal, neste Natal, deixarmos de nos convencer(mos) de que somos muito humanos e, de uma vez por todas, admitirmos que aquela gastíssima frase – “pois, sempre houve pobreza…” – sendo cómoda, é uma falácia, pois é um dos nossos comportamentos miseráveis que reproduzimos e nos faz, também por isso, sermos pobres?

Que tal assumirmos ideias menos pobres sobre a pobreza… e acções…?

 ♦♦♦

Maria (de Fátima C.) Toscano, Doutora em Sociologia. Docente Universitária, Investigadora e Formadora. Coach e Trainer em Programação Neurolinguística.
Figueira da Foz, 3 de Dezembro / 2022

EDITORIAL – EM LOUVOR DO EFÉMERO – por Rodrigo Costa

Em Louvor do Efémero

… Continua a ter-se por sabor a injusto o fim das coisas e dos seres a que nos apegamos. E, tratando-se de coisas e seres que amemos, o desaparecimento provoca, para além do desconforto, a reformulação no modo como passamos a olhar tudo o que nos rodeia, sendo a consciência abalada pelo reconhecimento de que a nossa evolução depende da importância que atribuirmos ao efémero e, consequentemente, ao desprendimento como defesa que ameniza os ímpetos do Instinto de Posse —instala-se a certeza de ser ilusão sentirmo-nos mais do que usufrutuários. Continuar a ler “EDITORIAL – EM LOUVOR DO EFÉMERO – por Rodrigo Costa”

DA ERRÂNCIA DO MAL (…..) – EDITORIAL – por Artur Manso

“A Guerra” by Sara Vasconcelos

…OU DA NATUREZA DA HUMANIDADE

 

Onde está o perigo cresce também o que salva

Holderlin

24 de fevereiro de 2022. Mais uma vez, em plena Europa, a Rússia, Pátria de Gogol, Turguêniev, Tchékhov, Dostoiévski, Tolstoi, Pushkin, Borodin, Stravinsky, Eisenstein, Tarkóvski, por decisão do seu governo presidido por Vladimir Putin, irrompeu pela vizinha Ucrânia, causando destruição, sofrimento e morte inusitadas, sem qualquer propósito para lá do domínio territorial e da desmesurada manifestação brutal da força bélica. Mais uma vez milhões de pessoas que apenas querem ter uma existência tranquila, são expulsas do seu território que a força das armas reduz a escombros. A segunda grande guerra na Europa só findou em 1945, a horrível guerra na ex Jugoslávia teve inicio nos anos de 1990 e arrastou-se até ao inicio do século XXI. A invasão do Iraque aconteceu em 2003. Na Síria decorre uma guerra civil que foi iniciada em março 2011. Se a isto juntarmos diversos conflitos menores e a sangrenta e quase permanente disputa entre israelitas e palestinianos, os confrontos na Irlanda (só em julho de 2005 o IRA anuncia o fim da luta armada) ou no vizinho País Basco (só em janeiro de 2011 a ETA adotou o cessar-fogo permanente), o ataque às torres gémeas nos Estados Unidos da América a 11 setembro 2001, os massacres em França, do Charlie Hebdo a 7 janeiro 2015 e em 14 novembro no teatro Bataclan, ficamos com uma panorâmica recente da peregrinação do mal e da guerra. Como lembra o dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956), seja por questões metafísicas ou por corriqueiros interesses materiais, a civilização que os homens construíram, tal como relatado na Bíblia, em Homero, nos trágicos gregos, Shakespeare, Dante, Cervantes e tantos outros, está a transbordar de guerras cruéis e fratricidas, dos maiores horrores e atrocidades. Também Hanna Arendt ao relatar os testemunhos dos carrascos julgados no pós guerra, conclui que a natureza humana é servil aos maus instintos daqueles que detêm o poder, levando pessoas normais a obedecer cegamente e provocar sofrimento nos seus semelhantes. Continuar a ler “DA ERRÂNCIA DO MAL (…..) – EDITORIAL – por Artur Manso”

EDITORIAL- MAMÃE EU QUERO CARNÁ – por Danyel Guerra

‘A Marcha dos Caretos’, de Balbina Mendes

 MAMÃE EU QUERO, MAMÃE EU QUERO CARNÁ

 Mó num pa tropi / Abençoá por Dê/ E boni por naturê/
Mas que  Belê/
Em feverê (em feverê) Tem Carná (tem Carná)

Jorge Ben Jo

1) Tudo Ben, Seu Jorge, mas este feverê não  tem Carná totalmente livre e irrestrito. Pelo segundo ano consecutivo, Momo não está podendo cair na gandaia do jeito que o diabo gosta. Continuar a ler “EDITORIAL- MAMÃE EU QUERO CARNÁ – por Danyel Guerra”

EDITORIAL – OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO – por Francisco Traverso Fuchs

 

Henri Bergson

“I would rather have questions that can’t be answered than answers that can’t be questioned.”

Richard Feynman

O que é pensar? Como responder, sem afetação e sem aduzir enigmas, uma pergunta que gerou e continuará gerando intermináveis questionamentos? Pensar é estabelecer (e resolver) problemas. Porém mesmo esta resposta simples, ou aparentemente simples, oculta um abismo de complexidade. O que diríamos, por exemplo, se descobríssemos que estabelecer e resolver um problema não é uma atividade puramente intelectual, mas envolve toda uma dimensão afetiva? E se chegássemos a descobrir que o problema é uma virtualidade inesgotável que exprime a dimensão ontológica do pensamento? Continuar a ler “EDITORIAL – OS DESCAMINHOS DO PENSAMENTO – por Francisco Traverso Fuchs”

EDITORIAL- BORGES TINHA RAZÃO, MAS ….- por Danyel Guerra

Jorge Luís Borges

    Creio que os jornais fazem-se para o esquecimento,
                        enquanto os livros são para a memória”(1)

Jorge Luís Borges        

BORGES TINHA RAZÃO
MAS NÃO FOI RAZOÁVEL

1- O ano de 1946 decorria politicamente atribulado na República Argentina. Após ser solto da prisão e se ter casado com Eva Duarte, Juan Domingo Perón ganhava nas urnas, a 24 de fevereiro,  o direito a residir, como presidente, na Casa Rosada. Uns meses depois, o funcionário Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo foi remanejado do seu lugar numa biblioteca municipal da Grande Buenos Aires, sendo mandado inspecionar aves e coelhos nos mercados da capital.

Os motivos são notoriamentre políticos. O portenho de 47 anos, festejado inventor de Ficciones, havia assinado pronunciamentos de intelectuais contra o general Perón. Um saneamento em coerência com os novos tempos que sopravam nas margens do rio de la Plata.

Ignoro de todo se, em tão tumultuada época, o proscrito já sustentava a controversa opinião expressa na epígrafe deste texto.  Se já a defendia, será caso para se dizer que o caudillo justicialista “escreveu direito por linhas tortas”. Nessa conformidade, terá sido, outrossim, uma demissão com justa causa. Continuar a ler “EDITORIAL- BORGES TINHA RAZÃO, MAS ….- por Danyel Guerra”

 EDITORIAL – “Pessoa: Singularmente plural” – por Jaime Vaz Brasil

A singular pluralidade de Fernando Pessoa passa, antes de tudo, pela gênese artística de seus heterônimos. Seja como Fernando – o próprio – , Álvaro, Alberto ou Ricardo (ou ainda Bernardo e outros menores), o genial poeta criou personagens que existiram soberanos em estilo, temática, dimensão estética e qualidade. Continuar a ler ” EDITORIAL – “Pessoa: Singularmente plural” – por Jaime Vaz Brasil”

EDITORIAL – VITOR VITÓRIA – por Danyel Guerra

Vitor Aguiar Silva

“Ele é o mestre completo”
Maria Helena da Rocha Pereira

VÍTOR VITÓRIA

Decorria o ano de 1976, quando o escritor sueco Artur Lundkvist declarou que Jorge Luis Borges jamais ganharia o Prêmio Nobel de Literatura, “devido a razões políticas”.  Categórico, sem dar chance a dúvidas, este membro da Academia Sueca desvirtuava com este anátema o caráter literário da distinção. Continuar a ler “EDITORIAL – VITOR VITÓRIA – por Danyel Guerra”

EDITORIAL por Hilton Fortuna Daniel

Em 1918, terminada a I Guerra Mundial, iniciava-se a Gripe Espanhola.

Esse ciclo pandémico, tendo matado milhões de pessoas, terminava em 1920. Em cada fim de história, há sempre um início de história. Nesse ano, para a música e para a literatura, nasciam Amália Rodrigues e Clarice Lispector. A primeira solfejava poemas dentro de notas bem pautadas. A segunda, com a portentosa pena por que é hoje conhecida, empreendia A Descoberta do Mundo, título de uma das suas obras-primas. Continuar a ler “EDITORIAL por Hilton Fortuna Daniel”

Editorial por David Paiva Fernandes

Na viragem do séc. XIX, o grande polímato francês Henri Poincaré inventou a topologia algébrica. Este ramo da matemática adiciona aos, à época estabelecidos, conceitos de compacidade, conexidade e separabilidade da topologia geral os de homotopia e homologia, matéria que apresentou no seu livro de 1895 “Analysis Situs” [1] que se pode traduzir como análise do sítio, do lugar, condizente com a etimologia grega da palavra topologia, λόγος τόπος, estudo do lugar.

São os estudos realizados neste ramo da matemática que permitem conhecer características únicas da forma de um objeto e que, por exemplo, nos demonstram que uma esfera é um objeto essencialmente distinto de um toro (um donut) e ambos de um pretzel (um doce de origem alemã com a forma aproximada de um 8).

São também da topologia as ferramentas que permitem conhecer características de “espaços” em forma de rede, como a de estradas que ligam aldeias, vilas e cidades do mundo, e também das propriedades das redes de relacionamento, as tão modernas e em voga redes sociais.

É ainda da topologia a capacidade absolutamente libertadora de abstração dimensional, a qual permite conceptualizar objetos de 4, 5, 29 ou quantas dimensões se queiram. Sem os conceitos da topologia estaríamos condenados a ser uma formiga que caminha sobre a superfície de uma esfera (um objeto tridimensional) ao qual não pode senão ser alheia e para quem o mundo é apenas um plano (um objeto bidimensional).

Em talvez poucos períodos como o deste trimestre, o conhecimento do lugar onde vivemos confinados, as redes de relações que nos vimos obrigados a interromper, os horizontes repentinamente cerrados, em suma, a compacidade, ligação e separabilidade que Poincaré ajudou a cimentar há 120 anos, estiveram tão no centro da nossa atenção e no cerne da nossa vida.

Se a topologia ajuda a conhecer e a melhor caracterizar, não apenas o que existe e se vê, mas também a conceber o que, por deficiência fundamental, estamos impossibilitados de representar, como um cubo de 4 dimensões ou um pretzel hepta-dimensional, a arte, só a arte, consegue esse portento de nos fazer levantar os olhos de formiga, furar confinamentos, ultrapassar barreiras tantas vezes auto-impostas e tomar contacto com uma superior dimensão da nossa existência.

Nascidas neste período de hipersensibilidade topológica, as mais de 18000 células e 111000 moléculas do corpo desta 12ª edição da Athena não poderiam senão refletir essa condição.

  • Cecília Barreira faz uma retrospectiva sobre as várias pandemias na história da humanidade, reflectindo sobre a origem, causas e consequências.
  • Um diálogo entre colagens de Sergio Bozon e poemas de Carlos Barbarito.
  • Jaime Vaz Brasil serve-nos a saudade em populares e amadas redondilhas, insinuando uma melodia, dois passos.
  • Claudio B. Carlos traz-nos uma trilogia que cabe num só Homem que é Sapo e é também Comum.
  • Paulo Ferreira da Cunha, alheado do mundo, regressa-nos à salvação dos livros e, à conta de uma autobiografia potencialmente inventada, entre várias reencarnações, lembra que a prudência nunca foi demasiada, quando enfrentamos o desconhecido.
  • Teresa Escoval parte de epígrafe de Fernando Pessoa acerca do que se sente e não se expressa e percorre palavras como isolamento, partilha, memória, comunicação, compromisso.
  • A poesia de Alda Fontes traz-nos caminhos e caminhadas na procura do que somos: nesta edição  o ADN ilustrado porAldina Santos.
  • A propósito do aniversário de nascimento a 16 de Maio de Mario Monicelli (Viareggio, 16 de Maio de 1915 — Roma, 29 de Novembro de 2010), Danyel Guerra disserta sobre a vida e obra do grande argumentista e director de cinema italiano.
  • No momento da despedida, o fotojornalista Venezuelano Nelson González Leal homenageia São Paulo, dedicando este texto, poema e sobretudo as IMAGENS a esta cidade que o acolheu .
  • Em três poemas de Correia Machado a mulher, a noite, o ficar e o ir.
  • Na comemoração dos vinte anos da “Nona Geração” no Brasil, contamos com o prefácio e tradução de Floriano Martins, com textos dos surrealistas Fernando Cuertas e Carlos Barbarito.
  • A poesia de Hilton Daniel Fortuna a surpreender de originalidade e inovação ente “um dia macabro” e outros poemas
  • Na poesia da Ana Oliveira a desolação lá fora, o tempo em redor que distorce o norte e o que se é no que se carrega.
  • Paulo Puciarelli dedica um poema, no qual afugenta o medo da morte, resolvido no silêncio, na certeza das pequenas coisas e na memória.
  • De Luiz Henrique Santana, uma reflexão metaliterária inspirada em inquietações levantadas pela obra “Ideias para adiar o fim do mundo” de Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro.
  • César Santos Silva dá continuidade à série MULHERES NAS RUAS DO PORTO, sendo que este número XII cabe à cantora Cidália Meireles.
  • No Noroeste do Paquistão, Ana Tomás funde-se com a natureza, numa tentativa de traduzir e dar voz ao invisível.
  • Rosa Sampaio Torres chama a atenção do leitor para a precursora actuação republicana do intelectual e conspirador florentino Bartolomeo di Mainardo Cavalcanti, tendo como pano de fundo o Chateau du Grand Perron.
  • O surrealismo da poeta chilena Claudia Isabel Vila Molina.
  • E as fotografias de Luiz Guerra e Paz a unir todas estas moléculas, como pontes que ligam margens que se fazem próximas.

DAVID PAIVA FERNANDES

 

[1] http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k4337198/f7.image

EDITORIAL EDIÇÃO 11 por Júlia Moura Lopes

Quando Albrecht Dürer acordou, sobressaltado por um pesadelo, todo o seu corpo tremia, só conseguindo recuperar passado algum tempo. – escreve ele no texto do desenho a aguarela sobre papel, que adoptamos como capa para esta Edição nº11 de Athena – Dürer também deixou escrito no próprio quadro, que pela manhã, mal se levantou, se apressou a plasmar o pesadelo tal qual o tinha vivido. Continuar a ler “EDITORIAL EDIÇÃO 11 por Júlia Moura Lopes”

NEM SÓ OS CAVALOS SE ABATEM – EDITORIAL por Danyel Guerra

 “In Berlin, by the wall, you were five foot ten inches tall”

                                             Lou Reed

1 – Me lembro como se tivesse sido ontem. Ou hoje. Ou amanhã. Na noite novembrina em que o Berliner Mauer  começou  a ser derrubado,  a martelo e à picareta, botei a rodar no som o disco ‘Berlin’, aquele álbum conceitual que Lou Reed publicou em 1973. Uma “trágica ópera rock”, que a crítica especializada acolheu com um olhar de soslaio. Continuar a ler “NEM SÓ OS CAVALOS SE ABATEM – EDITORIAL por Danyel Guerra”

EDITORIAL POR JÚLIA MOURA LOPES – “Afastem de mim esse cálice”

“Com toda a lama, com
toda a trama, afinal, a gente vai levando essa chama”.

Chico Buarque

Neste Maio único e tardio, Francisco Buarque de Hollanda, poeta-músico tão nosso, cronista dramaturgo da “Ópera do Malandro”,  romancista e ainda actor, homem lindo, que tão bem exterioriza o eu feminino, foi distinguido com o Prémio Camões”, o maior troféu literário da nossa língua.

Está reacendida a questão iniciada com o Nobel a Bob Dylan, sobre o conceito canónico de Poesia. Como se pode pretender que a poesia escrita seja superior à cantada, quando sabemos que a mesma teve  inicio exactamente na tradição trovadoresca?

*Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno

Além desta polémica, o Prémio Camões 2019 vê-se no epicentro de outra polémica bem mais feia. Os simpatizantes de Bolsonaro  acusam a escolha de Chico Buarque, denunciando ver nela uma mensagem implícita de  conotação política. Continuar a ler “EDITORIAL POR JÚLIA MOURA LOPES – “Afastem de mim esse cálice””

DA CRISE DAS LIVRARIAS AO APOGEU DA LIVRALÂNDIA – EDITORIAL por Danyel Guerra

James Joyce? É um escritor novo? Aposto que um tremor de terra, de média intensidade, não me teria abalado tanto, como esta, na aparente, inocente e ingênua indagação. Caprichando numa amena ironia, ripostei. Joyce nasceu em 1882. É novo sim, se comparado com um Homero, um Ovídeo, um Petrarca, um Bocage.

Apercebendo-se do deslize, atarantada, a atendente desviou o olhar e fixou-o no ecrã do computador, alheando-se do bulício da loja, onde pipocavam os mais recentes produtos da indústria “cultural”.  O livro chama-se ‘Gente de Dublin’ (‘Dublinenses’), não é? Lamento, mas não consta da nossa base de dados, comunicou, articulando uma voz formal e protocolar. Continuar a ler “DA CRISE DAS LIVRARIAS AO APOGEU DA LIVRALÂNDIA – EDITORIAL por Danyel Guerra”

EDITORIAL- por Floriano Martins

Este é o número 6 de Athena e com ele a revista encerra um ano de conquistas em sua agenda editorial, surgida em maio de 2017 com uma edição zero. Desde então trimestralmente vem cumprindo com valioso propósito, de trazer para a mesa virtual de leitura conhecimento e criatividade. Em seu primeiro editorial lemos que Athena quer ser nave, pronta a descobrir textos e autores inéditos, novas reflexões, quer na investigação científica, quer derivados da criação literária. Sua aventura editorial não propriamente se dá em busca de respostas, mas antes na forma de perseguição da dúvida, que conduza a novas questões e faça duvidar das convicções possíveis. Em duas áreas a revista tem avançado, na revelação de autores e na proposição de novas reflexões, em muitos casos reportando ao passado como leito frondoso da existência humana. Continuar a ler “EDITORIAL- por Floriano Martins”

EDITORIAL – ATHENA & AS ARTES, HOJE (1) – por Paulo Ferreira da Cunha

Athena faz um ano, e já nela se evidencia, como traço muito vincado, a vocação cultural geral, do pensamento, das letras e das artes. Neste aniversário, julgamos que seria importante reflectirmos um pouco sobre estas últimas, que andam, um pouco por toda a parte, em maré não tanto de crise (essa já vem de longe, e nem é muito mau que assim permaneça), mas de incompreensão e até de perseguição.

Continuar a ler “EDITORIAL – ATHENA & AS ARTES, HOJE (1) – por Paulo Ferreira da Cunha”

EDITORIAL – No Tempo do Faz de Conta – por Júlia Moura Lopes

“Dans le monde réellement renversé, le vrai est un moment du faux” Guy Debord.

Estamos no Carnaval e o leitor de Athena perguntará onde fica e onde cabe a cultura, durante esta época?

Pois direi que é no reino e no tempo do faz de conta, que se cruzam todas as alegorias. Desde a sátira política e social, aos rituais que culminam na inversão dos papéis sociais, com origens na época em que o escravo se transformava em rei, e por sua vez, o rei se transformava em escravo, oferecendo esse sacrifício aos deuses.

Hoje, no Carnaval, os homens e as mulheres “trocam de sexo”, alguns por simples brincadeira, outros para cumprir algum secreto sonho. Na busca contínua da felicidade, nunca o lugar-comum mudou algo.

Continuar a ler “EDITORIAL – No Tempo do Faz de Conta – por Júlia Moura Lopes”

EDITORIAL – O Conhecimento Digital – por Angela Pieruccini

Vive-se um novo renascimento. A explosão da consciência, a mudança da cognição, que abre caminho para o fim da gestão piramidal. Tudo explode, e sai-se de um raciocínio linear, que parte de um ponto para chegar a outro, para a rede. Continuar a ler “EDITORIAL – O Conhecimento Digital – por Angela Pieruccini”

EDITORIAL – Como ficar bem athenado – por Danyel Guerra

0- Nos desfiles de samba brasileiros, ápice do Carnaval nos alegres trópicos, manda o figurino, dispõe o ritual, impõe a superstição, aconselha o bom senso, que a escola esquente os tamborins da bateria -e não só!- antes de adentrar na passarela com os dois pés direitos. Para começo de conversa, não encontramos alegoria mais assertiva e adequada a fim de festejar a edição do nº 0 da revista ‘Athena’.

Continuar a ler “EDITORIAL – Como ficar bem athenado – por Danyel Guerra”

EDITORIAL ZERO – por Júlia Moura Lopes

Diz o mito, que Zeus convenceu Métis a participar de uma brincadeira, onde Métis acabou por se transformar em mosca, que Zeus engoliu, acabando esta por se alojar na sua cabeça. Assim nasceu Athena, do cérebro de seu pai, poderosa, já adulta, guerreira munida de armadura, elmo e escudo – pronta para o combate. Foi o fim do medo, o início da coragem. O caminho.

Continuar a ler “EDITORIAL ZERO – por Júlia Moura Lopes”

%d bloggers like this: