EDITORIAL – VITOR VITÓRIA – por Danyel Guerra

            “Ele é o mestre completo”
       Maria Helena da Rocha Pereira

             VÍTOR VITÓRIA

Vitor Aguiar Silva

Decorria o ano de 1976, quando o escritor sueco Artur Lundkvist declarou que Jorge Luis Borges jamais ganharia o Prêmio Nobel de Literatura, “devido a razões políticas”.  Categórico, sem dar chance a dúvidas, este membro da Academia Sueca desvirtuava com este anátema o caráter literário da distinção.

No planeta Lusofonia, venturosamente, neste pandêmico ano de 2020, as eventuais cizânias do passado de Vítor Aguiar e Silva não levaram o júri do Prémio Camões a desvirtuar o caráter literário da distinção. Uma decisão que mais uma vez não o eximiu de críticas. Aliás, o viés da polêmica emerge, com frequência, mal as atas são divulgadas.

Logo que foi revelado o nome do laureado, os media tradicionais se afadigaram em destacar a excelência do seu curriculum profissional, que justificará plena e amplamente a premiação. Não demorou igualmente que nos murais/muros das inefáveis redes (antis)sociais pipocassem comentários e reações abonatórias e “desabonatórias” do juízo dos jurados.

Aspo o vocábulo “desabonatórias”, tendo em consideração que, em geral, o desapreço ao veredicto não visava questionar a fundamentação essencial da láurea. E nem ousava sequer beliscar o rigor intelectual e a elevação literária de uma notável obra ensaística, legada à língua e literatura portuguesas ao longo de um hemiséculo de constante trabalho e de reiterada investigação.

O escopo da contestação eram episódios controversos, protagonizados pelo escolhido enquanto deputado da nação estadonovista e professor assistente na Universidade de Coimbra. No que tange às funções docentes, ele viu-se recriminado como um paladino do magíster dixit, pedagogicamente severo e conservador com laivos machistas e misóginos na relação com as alunas.

II- Calçando os coturnos, gastos e cambados, de uma propalada superioridade moral antifascista, os detratores foram buscar aos arquivos mortos a, para eles, ficha suja, politicamente falando, deste infatigável humanista. E não desperdiçaram uma oportunidade soberana para tentarem “queimar o filme” do desafeto, num alarde que aposta em consumar um tardio ajuste de contas.

O pecado capital imputado ao então adepto da efêmera “primavera marcelista”  terá sido seu comportamento durante a crise acadêmica de 69. Conforme garantem alguns dos depoentes, o Prof. Aguiar e Silva agiu como um alcaguete/bufo, dedurando/delatando à PIDE alunos seus envolvidos no movimento contestatário.

Na opinião dessas fontes, se fossem do conhecimento do júri, as nódoas nos pergaminhos do eleito constituiriam motivo pertinente e suficiente para que o galardão lhe fosse negado. Segundo o julgamento das mesmas, a dignidade ética do distinguido está ferida de morte.

Vale lembrar que, de acordo com essa argumentação, se tais premissas tivessem sido perfilhadas pelos sucessivos júris seria muito problemático ver poetas, romancistas, ensaístas do gabarito de um Jorge Amado, de um José Saramago, de um Pepetela, de um Manuel Alegre, de uma Rachel de Queiroz, de um Ferreira Gullar, de um Chico Buarque serem justamente brindados como o prestigiado diploma. Afinal, nenhum dos citados tem, politicamente falando, suas fichas totalmente imaculadas.

Os diligentes guardiões do politicamente correto emudeceram as vozes do azedume e não saíram a terreiro verberando essas atribuições. Não é difícil adivinhar os motivos porque ficaram eles tão caladinhos.

Nem será imperioso conhecer o homônimo livro de Nietzsche para sabermos que a arte e suas obras estão para além do bem e do mal praticados pelos artistas. Ambas independem dos atos e desacatos perpetrados pelos seus autores enquanto cidadãos. E devem ser avaliadas isentas das distorções geradas por tais preconceitos.

III- Passados 46 anos sobre os eventos libertadores do 25 de Abril, seria lícito pensar que cobranças extemporâneas como a vertente não teriam o mínimo cabimento. Além do mais, eivadas de miasmas inquisitoriais. Quando julgávamos que a brigada do reumático da boa moral do politicamente correto estava reformada e, confinada, redigia suas épicas memórias, eis que uma força-tarefa vem a público, levantar vozearias, clamando por uma vendeta.

Se o cidadão Vitor Manuel Pires de Aguiar e Silva cometeu os deploráveis delitos que lhe são assacados, deveria ter sido, em tempo hábil, inquirido, processado, julgado e condenado. Em princípio, os crimes alegadamente cometidos estarão prescritos ou terão sido tacitamente amnistiados. Se não estiverem, se não foram, esperemos que sendo coerentes, os escandalizados façam a competente queixa-crime.

IV – Muitos dos patrulheiros nunca teriam ouvido falar do agraciado. Talvez assim se explique que, nos seus comentários, nenhum tenha cometido a desfaçatez de apoucar a qualidade e a riqueza da sua opera omnia.

Em boa verdade, só um néscio, atrevido e petulante, poderia atirar pedras perniciosas à herança do “mestre completo”. Não sendo do ramo, a maioria de nós deterá um conhecimento apenas epidérmico dos conteúdos da obra do insigne camonista. Na parte que me compete para avalizá-la será suficiente o testemunho dos confrades Maria Helena da Rocha Pereira e Manuel Alegre.

Num ardoroso depoimento, o Prémio Camões 2017 garante ser o “prémio mais justo” e soma uma informação um tanto pitoresca. “No Brasil, ‘A Teoria da Literatura’ (1967) é conhecido como «o Vítor Manuel».” Elementar, meus caros detratores.

Este robusto beirão, nascido em Real, Penalva do Castelo, está mais que autorizado a adicionar o sobrenome Vitória ao prenome Vítor. E a descontrair, vendo a homônima comédia musical de Blake Edwards, de mãos dadas com a  “Athena”.

Danyel Guerra