EDITORIAL por Hilton Fortuna Daniel

Em 1918, terminada a I Guerra Mundial, iniciava-se a Gripe Espanhola.

Esse ciclo pandémico, tendo matado milhões de pessoas, terminava em 1920. Em cada fim de história, há sempre um início de história. Nesse ano, para a música e para a literatura, nasciam Amália Rodrigues e Clarice Lispector. A primeira solfejava poemas dentro de notas bem pautadas. A segunda, com a portentosa pena por que é hoje conhecida, empreendia A Descoberta do Mundo, título de uma das suas obras-primas.

Quis o destino que os actos dos homens se cruzassem numa cronografia que marcava parte da caminhada do século XX. Nessa caminhada, Pablo Picasso, pintor cubista, em linhas rectas, fiel à sua geome(s)tria, transformava a sua leitura ao caos, à violência e à perdição resultantes da Guerra Civil Espanhola em pintura. Pintava assim a sua obra-prima: Guernica. E toda esta imagética originou uma verdadeira Metamorfose (evocando Franz Kafka) que, com uma Cortina de Ferro e um Muro em Berlim (que mais não eram senão o simbolismo de uma Guerra que – já não sendo quente – era Fria), dividia o mundo também no Vietnam, na Península da Coreia, nos EUA, na África do Sul etc. Em 1957, na sede das Nações Unidas, eram inaugurados os painéis que retratavam o mundo em cores de Guerra e Paz, do pintor brasileiro Cândido Portinari, com influências de Guernica, de Picasso.

Tudo parecia encaminhado para A Guerra do Fim do Mundo (evocando Mario Vargas Lhosa), onde, pelo meio, também houve a tragédia de Jacqueline Kennedy e Graça Machel: tornavam-se as “Primeiras Damas” viúvas por circunstâncias igualmente estranhas. Luther King deixava de Ter Um Sonho.

São ecos da história. Neste ínterim, surgiram alguns dos trabalhos muito aclamados no cinema, destacando-se os de Jordan Peele, Francis Coppola, Spike Lee, Quentin Tarantino, Bong Joon-ho, Steve McQueen (o realizador), James Cameron, Ang Lee, Barry Jenkins, Steven Spielberg, Martin Scorsese e tantos outros com o toque de Midas.

Nos anais da história deste corredor, perduram os ecos de Aretha Franklin, Elis Regina, Frank Sinatra, Michael Jackson, Freddie Mercury, Prince, a musicalidade palatal de Miriam Makeba, os verdadeiros hinos de Bob Marley, Bob Dylan, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zeca Afonso, Tom Jobim, Djavan, Vinicius de Moraes, Leonard Cohen, os acordes memoráveis de Jimi Hendrix, Slash, Eric Clapton, B. B. King, Carlos Santana e vários artistas não menos importantes.

E a história foi sendo vivida à velocidade de 100 anos de alegrias e agonias por dia, onde Um, Ninguém e Cem Mil não seria apenas uma alegórica alusão à obra de Luigi Pirandello, mas reflexos da nossa própria vida ao espelho. Por falar em literatura, um dos escopos da Revista Athena, evoca-se, em apoteose, José Saramago, cujas obras nos revelam o mundo como uma Terra do Pecado, onde a luta entre Abel e Caim tem sempre palco.

Em 100 anos, 1920/2020, a literatura sempre esteve aqui, na primeira fila, a ocupar o centro da direita e da esquerda, no seu próprio movimento de equilíbrio, na sua própria órbita, sempre no eixo do teatro, da música, da televisão, da rádio, do jornal, da política, da ciência e de outras formas de comunicação, algumas das quais vinculadas, criteriosamente, aqui, na Revista Athena.

Chegados a 2020, o mundo propôs-se ao abrandamento, para que se avaliassem alguns dos desígnios que, por vezes, nos levam a Lugar Nenhum (evocação a Neil Gaiman).

Hoje, talvez precisássemos de um Ano Zero (evocação a Ian Buruma), para que – qual Fénix – renascessem outros 100 anos cheios de arte, histórias e memórias, inventos e eventos. No seu livro lançado agora, A Cruel Pedagogia do Vírus, Boaventura de Sousa Santos, um importante cientista social contemporâneo, coloca como capítulo último “O Futuro Pode Começar Hoje”.

E hoje está lançada mais uma Edição da Athena, a qual conta com colaboradores de vários países e ângulos, cada qual com o seu prospecto, fazendo da Nossa Revista um Aeroporto Internacional sofisticado, de cuja pista se levantam voos que sugerem como sempre viagens de desconfinamento.

Hilton Fortuna Daniel
Escritor e linguista.

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