O AMOR PLATÓNICO: Fragmento a Propósito de um Equívoco – por A. Sarmento Manso

Foto by Paulo Burnay

Platão é um grande exegeta do amor, tratando-o de forma única, deixando um lastro de desejo e luxúria que perdura até à atualidade em qualquer das suas manifestações: homossexual, heterossexual, bissexual, espiritual. No entanto dessa herança ressalta de boca em boca uma ambiguidade em torno daquilo que passou a designar-se de amor platónico expressão cunhada por Marsílio Ficino (1433-1499). Os estudiosos mais atentos vão enunciando o seu verdadeiro significado, mas raramente, nesse pormenor, saem do enredo em que a tradição o confinou. Platão nos diálogos O banquete e Fedro trata do amor físico e metafísico, abrangendo em simultâneo o corpo e a alma, a carne e o espírito, a sedução e a contemplação.

Em O banquete, 189d-ss Aristófanes narra o mito do andrógeno que não é exclusivo da Grécia, dando a conhecer os vários tipos de amor e a respetiva razão de ser de cada um, a que se segue o testemunho da sacerdotisa Diotima de Mantineia em torno do mito que a Grécia tinha dado a conhecer sobre a origem de Eros: Porus – inteligente e rico, filho de Métis, deusa da Prudência e irmão de Athena, a deusa da sabedoria e da guerra, aquando da festa comemorativa do nascimento de Afrodite, onde Penia, a penúria, aparece a mendigar as sobras do banquete, quis o acaso que, ou por causa do álcool ou de outra qualquer inebriação que tolhe os sentidos, ambos se unissem sexualmente, originando Eros, o amor, que grato à circunstância, seguiu Afrodite, tornando-se amante da beleza. Da sua mãe herda a indigência e a rudeza e do seu pai a bravura, audácia, beleza e graciosidade. Da necessidade de fundir as caraterísticas opostas que compõem o seu ser, origina-se o desejo da completude, seja através da carne, do conhecimento, da beleza, ou afins. A sacerdotisa esclarece o sábio Sócrates que desgastava a existência numa tradicional e assumida relação bissexual, como era comum na altura entre os cidadãos ilustres, que se era capaz de dissertar com propriedade sobre a imaterialidade do amor, para os mistérios do amor físico nas suas várias manifestações, apesar da experiência que usufruía, se mostrava incompetente. Essa ambivalência do amor que paira entre a sua natureza contraditória, é explicada por Platão no livro IV da República onde expõe que um desejo inadequado pode dominar a razão e levar o eu racional a irritar-se consigo mesmo, formulando a teoria tripartida dos hábitos mentais que replica na imagem do corcel, Fedro, 246a-ss: razão – cólera ou indignação – apetite ou desejo, antecipando a representação freudiana: superego – ego – id, com a diferença que Platão coloca a razão no topo e a consciência, representada pela indignação, no meio, dividindo a alma em três partes: Intelectual, desejo do conhecimento – Ativa, desejo de honra – Afetiva, satisfação material e gozo sensual.

As aclarações entre a natureza e o espírito quanto à essência do amor continuam a ser desenvolvidas em torno do jovem Fedro, cuja beleza inebriava os mais castos e fazia arder de desejo os mais prudentes. No diálogo que tem o seu nome, reproduz a Sócrates um discurso atribuído a Lísis sobre o amor referindo que os apaixonados se sentem “excitados a falar e, por vanglória, a mostrar a todos que não têm sofrido inutilmente. Os que não amam, pelo contrário, sendo capazes de se dominar, escolhem a melhor parte, em vez do renome na opinião pública”, Fedro, 231e-232a. A melhor parte é aqui entendida como o desejo da Ideia. Aqui se refere que o desejo do corpo antecede quase sempre o conhecimento do carater e restantes qualidades pessoais e consumada a união carnal, provavelmente nenhuma afeição sobrará, ao contrário do que acontece com os não-amantes que sendo apenas amigos mútuos, “não é provável que, após haverem gozado dos favores, a amizade diminua neles; pelo contrário, esses mesmos favores ficam como promessa do que virá a acontecer”, Fedro, 232e. O não-amante, em conjunto com a pessoa que deseja, materializa a união carnal saboreando o prazer que lhe excita os sentidos, sem mentiras ou promessas vãs de fidelidade futura. O encanto vai-se diluindo nas carnes que amolecem no tépido suor que escorre dos corpos que se enlaçam. Ao contrário, o amante promete o que não pode dar ao querer pelo presente controlar o futuro. É egoísta e, ao mínimo desentendimento, inviabiliza a relação carnal e com ela põe termo à amizade pessoal, afirmando-se aí que se chama “amor à paixão que, desprovida de razão, prevalece sobre a reflexão acerca do que é belo e se deixa transportar pelo prazer que deriva da beleza, prazer que se avoluma cada vez mais através de paixões afins na cobiça da beleza física”, Fedro, 238b-c. Também o amor filial ou consanguíneo é um sentimento inato à espécie e não se revela por qualquer paixão assolapada e passageira. É, como aqui se diz, uma sólida amizade que se fortifica na partilha de todos os momentos do quotidiano, ao contrário do amor sensual que arrasta os sentidos para campos esquivos da existência. O velho Sócrates na presença do seu amado e desejado Fedro, afeição que não era correspondida, defende que os prazeres dos sentidos são estimulados por um princípio inato que se opõe à razão que apoiada na reflexão “aspira ao que é melhor”, entrevendo que o amor físico coabita e integra o amor metafísico pois sem corpo não há órgãos dos sentidos e sem estes não há sensações nem perceções. A sublimidade do que nos espera, dá-se a conhecer na beleza, ainda que ofuscada, do que nos rodeia.

O amor platónico enquanto amor da Ideia, é de certa forma igual ao amor a Deus que o cristianismo popularizou como Ágape e define-se por ser incondicional, um ideal a atingir. Nada tem que ver com qualquer relação física ou de proximidade, nem afeição materialmente impossível, nem com o frustrar de expectativas de relações não correspondidas. Ninguém refere ter um amor platónico pelo quadro Mona Lisa, pela escultura David, pelo Taj Mahal, pelo Mosteiro dos Jerónimos e outros objetos afins. O amor platónico relaciona-se com o mundo das Ideias, onde tudo é perfeito e eterno, e nada daquilo que acontece no mundo sensível, sua cópia imperfeita, realidade efetiva e afetiva, pode ser designado de amor platónico. No mundo em que nos reconhecemos enquanto existentes nada é impossível acontecer. Tudo que se move no tempo, ocupa espaço e se encontra materializado, está de acordo com as múltiplas nuances do amor que Platão descreve, menos aquela que lhe é referida e que aqui mais importa, o amor à IDEIA. Se o amor platónico é mencionado como ligação afetiva imaterial, desprendida da sensualidade e da sexualidade, não pode ser aí referido e generalizado. Fixei de uma entrevista ao prof. Barnard que em 1967 fez o primeiro transplante de coração humano, que a referência repetida às dores de coração ligadas a causas amorosas são uma ilusão, pois esse órgão que tanto ocupa o imaginário amoroso, é apenas uma bomba, e por analogia ao amor platónico, as referidas dores amorosas não implicam diretamente com ele mas sim com o músculo que o envolve, o miocárdio. Não há amor platónico do José pela Maria, do David pelo João, da Ema pela Eva. Podemos questionar a possibilidade de um comum mortal entre os milhões que dizem sentir atração e desejo por um qualquer ícone mais ou menos conhecido, masculino ou feminino, do cinema, das artes, das letras, vir de facto a usufruir dessa possibilidade. Mas a dificuldade não torna essa relação impossível enquanto ambos existirem, à semelhança do jogo do euro milhões cuja possibilidade de acertar na sequência de números premiada é ínfima, mas em cada sorteio da infinidade de indivíduos que tentam a sorte, há sempre alguns que veem o seu palpite confirmado. No que concerne à relação que um existente estabelece com a IDEIA, como seja a liberdade, a justiça, a beleza, o bem, a possibilidade de a realizar está fora da natureza humana porque no entender de Platão, é impossível que a sua inteireza possa ser percetível no mundo que habitamos que é aquele em que realmente decorre a nossa existência.

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A. Sarmento Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Ao longo de mais de meio século de existência tem-se dedicado à aprendizagem de pequenas coisas, do lugar que nos pode caber no mundo e de como a beleza nos haverá de tranquilizar.

 
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