Quando visitava o meu avô, eram muitas as vezes em que ele me dizia que agora, que estava velho, a vida já não prestava para nada senão para se sentar à lareira “a cismar” ou a “matutar” nas coisas. Continuar a ler “O Muro – por Sónia Alves”
EDIÇÃO Nº 3 – DE FEVEREIRO 2018

Viagem a Andara oO livro invisível – de Vicente Franz Cecim
Viagem a Andara oO livro invisível
Fonte dos que dormem
POEMAS
se o Adormecido um dia vem à tona
Suspeita de ti
o Outro
que em Ti
ainda é Semente
Lagos serenos te prometem Assombros
Ouve
o Silêncio
♦

sob a Estrela de Silêncio
pois tendo Eles vindo,
com Suas Presenças de Ausência em Breve,
para a Fenda que não cicatriza entre Pedra e Musgo
para os Gestos humanos na Penumbra,
eu os chamei Pai e Mãe
Mai e Pãe pudesse ter Chamado,
pois seus Nomes nunca saberei,
na Fenda que não cicatriza,
nos Gestos, na Penumbra
Fontes se dando às sedes de Outras Fontes
Pois somos os que um dia vêm com dia marcado para voltar em nossas Frontes,
em bandos em bandos nos Musgos nos Musgos
Inclinados pelas Auroras
Indo
atender às Sombras nos Crepúsculos
E tu buscas a Semente, e o Dom de voltar para casa, e por onde passas, por toda parte perguntas
- Onde moram os Espelhos da Carne¿

Rubro sentimento lento
desamparado
fora do Mistério
na Catedral rompida
como se fosse um homem, e crendo Nisso
Cálice de Vestígios,
sede do Lábio dos Regressos
Das Auroras ao Crepúsculo do Imerso, na penumbra dos Dias
aguarda Margem que desperta,
oO que de Si adormece
♦
parecem homens
Cortaram árvores para ter onde sentar
E agora,
da areia olham as Águas até o horizonte
Querem ver o que há depois da última estrela
Sentem o roçar de mãos Antigas se desfazendo
parecem tristes
Estão aí
Calados Cada um ouvindo
em Si
sua Concha de Silêncio,
sua Areia dos Rumores
Sentem a Falta de alguma coisa,
já não lembram o que é

E eu te digo
Não se trata
de ir Além do humano
oO Caminho cintila no inverso
vir
Aquém do humano,
regressar ao umanoh
E, assim,
ao Um,
ao Umano
♦
se um Vento parte o Vaso da voz
adormecido agora
águas escuras
alguém alvura amizade das coisas
animal anjo Aquilo
areia árvore asas aves
beber
no Bosque das paixões Bosque sem paixões brancas brisas caminho a carne casinha de terra centeio negro o céu
Chamas cílios cinzas de Serdespanto
As coisas pelas coisas os dias Compaixão Corpo crianças
daquele despertar
Diz-se dorsos lisos
escreve Esfera espanto estranho mundo Fábula
Falar sem boca floresta Andara fontes frutos fundo gaiola grão homem de pó homem
sem ternura homens imensos
inclina inseto intuição
irmã irmã-ave de Serdespanto canta lábios lágrimas leve livro invisível lua sangrando
madeira mãe de Serdespanto
montanhas murmuram
nascido negro negra nela ninguém ninho nome
osso Pai ossos Ouçam
ouvindo palavras pântano pranto passando
perguntas pousar no leite real saber sangue das estrelas seiva semente serpente silêncio sombra sonho
tinta Invisível
tocam túmulo Vento e passagem vindo viram vivendo
voltassem

*Poemas selecionados pelo autor, do livro Fonte dos que dormem (Editora Córrego, 2015, São Paulo, Brasil) de Vicente Franz Cecim, escritor brasileiro. Cecim nasceu e vive na Amazônia, e o livro é o mais recente passo publicado de sua obra Viagem a Andara oO livro invisível.
♣♣♣
Vicente Franz Cecim é brasileiro, escritor e jornalista. Autor do ciclo literário Viagem a Andara oO livro invisível, no qual há mais de trinta anos transfigura a sua região natal, a Amazônia, em Andara, região verbal metáfora da vida, onde ambienta todos os seus livros. Dos livros visíveis de Andara, os que escreve, emerge o livro invisível, que não escreve, literatura fantasma, segundo o autor, o não-livro, que não é escrito: corpo de um corpo que se sonha. Pela Viagem a Andara recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Apca – Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1988. Já foram publicados também em Portugal os livros de Andara: Ó Serdespanto (Íman, 20012) e K O escuro da semente (Ver o Verso, 2005). Sobre o primeiro, Eduardo Prado Coelho escreveu no Público: Uma revelação extraordinária! (…) O pensamento liberta-se dos seus lastros terrestres e ganha um estatuto de ave, uma leveza de princípio do mundo, uma sageza do fim dos séculos, uma inocência dos extremos. O que faz de Ó Serdespanto um livro inclassificável é que ele é feito do círculo crepitante das histórias que se contam e recontam, do uso visionário das palavras refeitas letra a letra ou a da lenta respiração da terra. E sobretudo de uma demorada aprendizagem do espanto de ser e de não-ser.
Veja a Edição nº 2, de Novembro/2017

CONGRESSO DE FÁTIMA: UM CENTENÁRIO EM (RE)VISÃO – por Joaquim Fernandes
Um centenário em (re)visão: Crenças e práticas religiosas no contexto das “aparições” de Fátima
Consensualmente aceite a particular devoção do culto mariano na sociedade portuguesa, resultante da longa sedimentação de elementos civilizacionais remotos, de natureza matriarcal, foi-se arreigando a convicção de que os fenómenos e experiências para-religiosas, enxertados nessa tradição cultural popular, seriam totalmente alheios de qualquer tipo de interpelação científica, por parte das ciências humanas e sociais e muito menos de disciplinas mais físicas, como as Neurociências emergentes. Continuar a ler “CONGRESSO DE FÁTIMA: UM CENTENÁRIO EM (RE)VISÃO – por Joaquim Fernandes”
Entre Paris e o Loire por Luís Guerra e Paz
MESSIAS DE PLÁSTICO – por suzamna portto marrinwey

Oh, messias da nova província, para onde hás de partir quando sobre nós se abater o flagelo da intempérie? Caminharás sobre as águas revoltas? Avançarás por entre as chamas com o crente às costas? Ou encobrir-te-ás no casoto fendido sob o sedimento dos seus gritos? Oh, pastor eleito para poupar o seu rebanho, quando te olhas ao espelho vês o embuste ou o laureado p(at)enteado no ecrã impassível? Continuar a ler “MESSIAS DE PLÁSTICO – por suzamna portto marrinwey”
MULHERES NAS RUAS DO PORTO –II – César Santos Silva
Foto: Adelaide Estrada por Abel Salazar
ADELAIDE ESTRADA
A única médica consagrada na toponímia portuense.
Nasceu na cidade do Porto, em 29 de Setembro de 1900. Foi assistente da Faculdade de Medicina, bolseira e estagiária no Instituto de Alta Cultura, integrou, ainda, várias instituições científicas e manteve uma colaboração regular nas revistas da especialidade e sobre os temas que eram alvo das suas pesquisas, como histologia, análises clínicas, citologia, etc. Discípula e amiga íntima de Abel Salazar, participou activamente nas campanhas dos generais Norton de Matos e Humberto Delgado à Presidência da República. Faleceu a 18 de Outubro de 1979. A rua que a consagra fica na zona da Prelada. Continuar a ler “MULHERES NAS RUAS DO PORTO –II – César Santos Silva”
SOLICITAÇÃO DE AMIZADE DE LOURDES BALLET – por Fernando Corona
Olavo entrou em seu apartamento e parou no meio da pequena sala para respirar profundamente, já que tinha por hábito não usar o elevador. Estava ofegante por ter subido dois lances de escada e também respirava fundo porque ao entrar sentira que das janelas escancaradas vinham uns ares de outono já com cara de inverno e isto para ele era sempre um cerrar de olhos, um transportar-se para tantos e tantos portos de sua larga vida que agora completava setenta anos.
Continuar a ler “SOLICITAÇÃO DE AMIZADE DE LOURDES BALLET – por Fernando Corona”
ARQUÉTIPOS por Marilene Cahon

O termo “arquétipo” origina-se na Grécia antiga. As palavras raiz são archein que significa “original ou velho” e typos que significa “padrão, modelo ou tipo”. O significado combinado é “padrão original” do qual todas as outras pessoas, objetos ou conceitos são derivados, copiados, modelados, ou emulados.
PEDRA, CAL E SOL por “Mau Feitio”
Nasci…
Adoptou-me uma mãe com cabelos loiros de seara
e corpo tapete de carne verde
Tive beijos de resina
e raízes de sobreiro
Parti…
Tive infernos de betão
Banquetes de ilusões
Catedrais sem Deus
E clareiras de solidão
Voltei…
Sou daqui.
TRÊS POEMAS de Paulino Soma Adriano

Sabes?
Sabes?
Nunca pensei
Que um dia
Nem a mão me acenarias;
CARISMA E EMPATIA por Teresa Escoval

Carisma e empatia são, na minha opinião, duas palavras que se nutrem e expandem! Distintas, pois do termo simpatia, que apenas requer extroversão comunicação. Enquanto que ter empatia, é possuir a capacidade de saber nutrir bons laços sociais e transformar com amor tudo e todos ao seu redor!
Leia também a “Edição Zero”, de Maio de 2017!
….Vire a página, por favor!..

A PERVERSIDADE DO MARKETING DE CAUSAS – por Paula Costa
Entre tantos dias com efeméride e semanas temáticas, globalmente já se instituiu que Outubro é o mês do cancro da mama.
Sem querer desmerecer a causa – à qual por razões pessoais sou até bastante sensível -, como marketeer não posso deixar de reconhecer que a campanha Breast Cancer Awareness (BCA) é um excelente exemplo de bom marketing. Continuar a ler “A PERVERSIDADE DO MARKETING DE CAUSAS – por Paula Costa”
CIÊNCIA E POESIA – por Gabriela Rocha Martins
Haverá entre a Poesia e a Ciência diálogos possíveis?
Continuar a ler “CIÊNCIA E POESIA – por Gabriela Rocha Martins”
ALGUNS POEMAS de Sidney Rudá
Imagem @ Lourdes Ximenes
CAIS
Que silêncio dissonante ecoa ao som da noite,
Quando ao breu a luz flameja
E ao olhar a prata impera. Continuar a ler “ALGUNS POEMAS de Sidney Rudá”


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